Capitulo 14
Por Miu
Por mais que tentasse me conter e ser cautelosa em relação ao que eu sabia que estava sentindo por Lena, eu não conseguia realmente ignorar as sensações que sua presença me causava. Na verdade, alheia as minhas inseguranças, a escritora que agora tinha a guarda completamente baixa em nossa convivência, estava a cada dia mais próxima. Se ela tinha consciência do que vinha despertando em mim, eu não sei, mas eu estava convicta que seria difícil não me entregar, pior, não sofrer se no fim das contas tudo não passasse de uma confusão da minha parte.
– Eu trouxe isso para você. – Deixei ao lado de Lena, um copo de suco de limão e mel.
Era mais um dos dias que Lena não se envolvia nas atividades da confeitaria. Contudo, ela apareceu ali mais uma vez, como se só em estar por perto já fosse o suficiente para não ter sua energia consumida pela tela do notebook.
– Obrigada, Miu. – Lena sorriu com tímidez.
Olhei rapidamente para o notebook e entendi sua frustração. A tela permanecia em branco. Em seguida busquei seu olhar o sustentei.
– Você parece cansada. Não seria melhor fechar isso e tentar descansar a mente?
– Você sabe que não posso. Eu tenho um prazo! – Ela disse sem apresentar muitos detalhas do seu dilema.
– Hum! Eu posso me sentar junto com você?
Lena pareceu surpresa com o pedido, mas acenou permitindo aquela aproximação.
Puxei então uma cadeira que estava vazia e sentei ao seu lado.
– Você me ajudou muito compreender o funcionamento da confeitaria. Eu posso te ajudar com isso?
– Você vai escrever por mim?
Lena brincou, mesmo sabendo que escrever por ela seria algo impossível. Mesmo que eu tivesse habilidade com a escrita de romances, ainda assim eu não poderia fazer aquilo por ela. Seus personagens eram criações suas, e somente ela poderia dar sequência aquela história. Contudo, nada impedia que ela ouvisse minha perspectiva sobre o assunto.
– Eu estive pensando sobre isso. Obviamente eu não posso determinar o final que está em suas mãos. Mas pensei que talvez fosse bom você ouvir um pouco sobre a perspectiva de alguém sobre o assunto. Eu sei que conversamos outras vezes sobre isso, mas eu queria que fosse algo mais profundo essa conversa. Eu reli os dois primeiros livros novamente. Sabe… eu queria sentir tudo de novo.
– Você leu meus livros novamente? – A surpresa brilhou no olhar de Lena.
– Aham! Os dois! Desde o primeiro até o último capítulo de cada um deles.
– Quando você fez isso exatamente?
– Lembra daquele dia que visitamos o jardim da sua mãe? Comecei naquela noite. Vamos lá! Não se espante desse jeito. Não é realmente uma dificuldade ler seus livros. – Sorri docemente para ela.
– Bem, e o que você tem a dizer a respeito.
– Além de que você é uma excelente escritora? – Sorri novamente ao ver suas bochechas ganharem uma tonalidade rosada.
– Não me provoque dessa maneira, Miu Natsha.
Meu coração só faltar pular para fora quando a vi esconder o rosto entre suas mãos. Definitivamente aquela mulher era a coisa mais fofa do universo.
– Ok! Prometo que vou me conter. – Brinquei. – Bem, eu os li. Não é muito complexo entender a história de amor delas.
Sentei-me um pouco mais perto, a proximidade fazendo com que eu sentisse o perfume suave e doce que sempre acompanhava Lena. Respirei fundo, tentando organizar as palavras que vinham borbulhando na minha mente desde que fechei a última página do segundo volume.
— Lena, você tem uma forma de descrever a dor que é quase palpável. — Comecei, escolhendo as palavras com cuidado. — Mas, lendo tudo novamente, percebi algo que talvez você tenha tentado esconder até de si mesma enquanto escrevia. O que faz a história delas ser tão arrebatadora não são os grandes conflitos, não é a tragédia que as uniu. É a constância.
Lena me observava com uma atenção rara, as mãos finalmente saindo do rosto, repousando sobre a mesa, mas sem voltar para o teclado. Ela parecia determinada em ouvir o que eu tinha a dizer, e não parecia se importar se seria uma crítica ou um acalento.
— Uma das protagonistas, ela vive em um estado de vigília constante, enquanto a outra é o abrigo absoluto. — Continuei, gesticulando suavemente. — Uma ama como quem respira. A outra ama como quem vive. Cada pequeno detalhe que você descreve… O jeito como as personagens olha para o horizonte perdido no olhar uma da outra, o modo como elas compartilham o silêncio sem que ele se torne pesado, e ainda assim entende tudo o que fica por ser dito… Tudo isso grita que o amor, para elas, é um ato de coragem diário. Você as colocou em situações limite, situações de quase morte, de separação física... mas, mesmo quando elas estavam em continentes diferentes, a conexão parecia mais sólida do que a maioria dos casamentos que vemos por aí. E no fim, sempre existia um caminho de volta. No fim, elas sempre escolheram ficar. Sempre foi sobre encontros e escolhas.
Vi Lena morder o lábio inferior, um gesto que eu já conhecia bem: o sinal de que ela estava sendo atingida em cheio pelo que eu dizia.
— Elas não se amaram desde o princípio porque a vida é fácil. Não se amaram de um jeito fantasioso propício a um final feliz já aguardado por quem ler. — Insisti, inclinando-me um pouco mais na direção dela. — Elas se amaram apesar de tudo. Se amaram mesmo quando tinha tudo para dar errado, mesmo quando o universo podia desconfiar do sentimento que as unia. Você escreveu uma história onde o amor não é um destino onde se chega, mas que é a própria estrada. E o que me emocionou foi ver que, mesmo na página mais sombria, quando você as faz duvidar de tudo, existe um fio invisível entre elas que nunca se rompe. Você as pintou como duas mulheres que encontraram um lar nos olhos da outra, antes mesmo de terem uma casa.
Fiz uma pausa, sentindo meu próprio coração bater mais forte.
— E honestamente? Acho que é por isso que suas leitoras ficaram tão furiosas com o capítulo que vazou gravando o final de um ciclo apaixonante, viciante, e a cima de tudo, um ciclo esperançoso. Elas sentiram, assim como eu, que separar aquelas duas é como tentar separar a luz da manhã. Elas pertencem ao mesmo ciclo. Você nos fez acreditar que o amor se revela não nos bons momentos, mas naqueles mais difíceis e desesperançosos. O seu erro, Lena... se é que posso dizer assim... foi tentar escrever um final cínico para uma história que, desde o primeiro capítulo, provou que o amor é a única força que desafia a lógica. Mas sabe o que é mais triste? Você tirou essa desesperança que o amor é possível, não de nós leitoras, mas de si mesma.
Lena mantinha os olhos fixos nos meus, e o brilho que vi ali não era apenas de tristeza, mas também de um reconhecimento profundo, quase assustador.
— Você não apenas escreveu sobre paixão, você escreveu sobre a entrega. — Concluí, baixando o tom de voz para algo mais íntimo. Algo nosso. — A entrega de se deixar ser conhecida por alguém, inteira, com todas as feridas. E, para mim, ler isso foi como olhar no espelho e ver que o que eu sinto não é uma maluquice ou uma confusão passageira. É uma escolha. E, se elas podem fazer essa escolha sob o peso de tudo que você as fez passar, por que você, a autora que as criou, teria menos coragem do que elas?
O silêncio que se instalou entre nós duas, não era mais vazio; era denso, carregado de significados. A tela do computador ainda brilhava, mas, pela primeira vez desde que ela sentara ali, o notebook parecia um mero detalhe diante do que estávamos vivendo.
Como em câmara lenta, minha mão foi timidamente buscando contato com a sua. O toque foi suave, mas também ansioso. Meus dedos acariciaram sua mão enquanto meus olhos buscaram se perder nos seus, como se eu pudesse navegar pelas profundezas que, por trás de tanta resistência, era pura poesia.
Lena ficou estática, mas não recuou. O seu polegar fez um movimento involuntário, quase imperceptível, afagando o dorso da minha mão. Era uma resposta silenciosa, um "continue" que meu coração ansiava por ouvir.
— Sabe, Lena. — Sussurrei, mantendo nossa conexão visual tão estreita que senti o ar entre nós tornar-se denso. — Enquanto eu lia os seus livros, mais especificamente naquelas partes onde elas pareciam estar se despedaçando, eu não via personagens distantes. Eu me via. Eu via a mim mesma, esperando, guardando um lugar seguro para alguém que ainda não tinha chegado. E, de certa forma, sinto que escolhi fazer parte da sua história não porque eu tenha conserto para oferecer, mas porque, pela primeira vez, vi beleza em alguém que, assim como eu, também foi quebrada pelo mundo.
Vi Lena abrir a boca para protestar, talvez para citar novamente suas muralhas, mas eu não a deixei. Continuei, guiada por uma coragem que eu nem sabia possuir.
— Você não precisa me prometer nada em troca. Estou te pedindo isso. Só não tente negar, nem para mim e nem para você mesma. Se você realmente tivesse desistido do amor, se o seu coração fosse apenas um terreno baldio de mágoas, você não teria me deixado entrar. Você não teria compartilhado as histórias do seu avô, o cheiro das rosas da sua mãe, ou a sua própria vulnerabilidade. Você não teria me permitido ver a Lena que não é "Lalina", a autora famosa, mas a Lena que se assusta com a própria sombra.
Aproximei-me um pouco mais, sentindo o calor que emanava de nós duas.
— Você pode dizer que está apavorada, e que não sabe o que fazer com esse sentimento que está roteando o seu coração. Mas olhe para os seus olhos, Lena. Eles não estão mentindo. Eles brilham toda vez que nossas mãos se tocam dessa maneira, mesmo quando você tenta forçar um sorriso contido. Você permite minha aproximação porque, lá no fundo, naquela parte que você insiste em esconder atrás de muralhas, você ainda acredita. Você ainda tem esperança.
Senti a mão dela estremecer sob a minha, e o seu olhar, antes tempestuoso e confuso, tornou-se suave, quase límpido. Ela tentou desviar a atenção, mas eu segurei seu rosto com carinho, obrigando-a a confrontar a única verdade que importava ali, naquele momento, entre o aroma de biscoitos e o cantar dos pássaros.
— Você não está querendo escrever um final trágico, Lena. Você está apenas vivendo um capítulo difícil. — Completei, com um sorriso doce e determinado. — E eu estou aqui, inteira e sem medo, porque aprendi a amar cada uma dessas suas feridas. Elas não fazem de você alguém quebrada demais para ser amada; elas fazem de você alguém real o suficiente para ser a minha escolha.
Lena soltou um suspiro longo, um som que pareceu carregar toda a tensão das últimas semanas. A resistência nos seus ombros cedeu. Ela não precisou dizer nada; a maneira como ela inclinou o rosto na palma da minha mão, fechando os olhos enquanto buscava meu toque, foi a resposta mais linda e absoluta que eu poderia receber. A escritora finalmente estava deixando de lado o rascunho pessimista para, enfim, quem sabe, começar a viver uma nova história.
– Eu preciso te responder algo agora?
Não era resistência que existia em sua voz. Era medo.
– No seu tempo! – Respondi colando minha testa na sua.
O silêncio que se seguiu não era mais tenso; era uma suspensão, um momento em que o mundo lá fora parecia ter deixado de girar. Lena abriu os olhos lentamente, e neles encontrei uma mistura de terror e uma rendição tão profunda que me deixou sem fôlego.
Ela não afastou a mão. Pelo contrário, entrelaçou seus dedos aos meus com uma força que me surpreendeu, como se estivesse se ancorando em mim para não ser levada por aquele turbilhão de emoções que ela tentou, por tanto tempo, conter.
— Você é perigosa, Miu. — Ela murmurou, a voz rouca, quase num fio de voz. Um sorriso triste, mas genuíno, surgiu em seus lábios. — Você fala como se lesse cada página do meu diário pessoal, aquelas que eu nunca mostrei para ninguém.
— Eu não preciso ler diários, Lena. — Respondi, sentindo nossa respiração se misturarem. — Eu só preciso olhar para você. Eu vejo a autora que criou mundos inteiros, mas que tem medo de habitar o seu próprio.
Lena soltou uma risada curta, que terminou em um suspiro trêmulo.
— Eu passei tanto tempo convencida de que o meu "final feliz" era uma ilusão, que quando você chega aqui com essa sua doçura, com esse seu jeito de quem não tem medo de nada... Eu me sinto nua. É como se você estivesse lendo a minha alma sem esforço algum.
— E você acha que isso é ruim? — Indaguei, desafiando-a com suavidade.
Ela não respondeu imediatamente. Em vez disso, seus olhos desceram para os meus lábios por uma fração de segundo antes de voltarem a encontrar o meu olhar. A hesitação ainda estava lá, mas o desejo era tão óbvio quanto a luz da manhã. Ela não estava mais fugindo. Pelo menos não naquele momento.
— Não! — Ela confessou, num sussurro que foi como uma carícia. — É aterrorizante. Mas... também é a primeira vez em um tempo considerável que o meu coração não dói ao pensar no amanhã.
Sem pensar, tomei a liberdade que tanto ansiava. Deslizei minha mão da sua bochecha para a nuca dela, trazendo-a para perto. O toque foi a centelha que precisávamos. Lena fechou os olhos e, com um movimento de rendição, inclinou-se para frente, selando a pequena distância que ainda nos separava.
O beijo não foi nada parecido com o da noite do festival. Aquele tinha sido uma descoberta, um susto. Este era uma confirmação. Tinha gosto de paciência, de cura e de todas as palavras que ela não conseguia digitar naquele notebook. Enquanto nossos lábios se moviam, senti mais uma das muralhas que ela havia erguido desmoronar, tijolo por tijolo.
Quando nos afastamos, centímetros de distância ainda nos mantinham no mesmo campo gravitacional. Ela abriu os olhos, e a confusão tinha dado lugar a uma clareza que me fez sorrir.
— O seu editor pode esperar. — Eu disse, num tom provocativo e doce.
Lena olhou para o notebook, depois para mim, e pela primeira vez, a tensão em seus ombros desapareceu por completo. Ela fechou a tampa do aparelho com um movimento definitivo, um som seco que soou como a liberdade.
— Que se dane o Yen. — Ela respondeu, com uma firmeza que me fez vibrar. — Eu acho que acabei de descobrir o que vai acontecer no próximo capítulo.
Fim do capítulo
Uma semana abençoada para todas!
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: