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Os quatro compassos do amor: O ritmo do recomeço por priskelly

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Palavras: 2945
Acessos: 100   |  Postado em: 06/08/2026

Capitulo 13

Por Narrador

Uma semana depois 

 

Se antes, Miu era querida pelo o Sr. Tawan, pai de Engfa. Com o passar dos dias, a presença de Miu na vida de Lena deixou de ser um acontecimento novo, e passava a cada dia se tornar parte essencial da harmonia cotidiana daquela família. Não se tratava apenas da competência técnica com que Miu conduzia a confeitaria — embora o Sr. Jett e a Sra. Malee observassem com orgulho o florescer dos negócios sob a gestão dela, sentindo-se plenamente tranquilos ao verem os registros financeiros em dia e o ambiente mais vibrante do que nunca. O verdadeiro milagre acontecia nos bastidores, onde um laço de cumplicidade genuína tecia uma rede de proteção em torno de Miu.

Lingling, Engfa e Lookmhee foram as primeiras a serem conquistadas, mas não pela habilidade de Miu com as massas ou doces que eram diariamente feitos para alegrar o dia dos clientes; foram conquistadas pela sua transparência. O que começou como visitas casuais à confeitaria transformou-se em uma rotina de tardes compartilhadas, regadas a cafés, gargalhadas e confidências que cruzavam a fronteira do trivial para o profundo.

O trio de primas passou a enxergar em Miu um porto seguro. Engfa, sempre perspicaz e protetora, viu na confeiteira um equilíbrio emocional que há tempos parecia faltar ali. Lookmhee, com seu espírito inquieto e brincalhão, encontrou em Miu uma confidente que, ironicamente, sabia ouvir com paciência as suas loucuras, sem jamais julgá-la. Por sua vez, Lingling, cujo vínculo de sangue com Lena lhe dava a dimensão exata da fragilidade da irmã, sentia uma gratidão imensa ao ver o cuidado sutil com que Miu tratava a escritora.

Elas não apenas aceitaram a confeiteira em seu círculo íntimo; elas a adotaram silenciosamente enquanto viviam um dia de cada vez. Convites para passeios de fim de tarde, caminhadas pelo mirante que existia nas terras do pai de Lookmhee, ou apenas uma noite de filmes na sala da casa Engfa, tornaram-se o novo padrão entre aquelas mulheres. Nessas conversas, as máscaras caíam. Miu, que sempre guardou seus medos com um sorriso reservado, descobriu que podia se sentir segura em ser vulnerável com aquelas mulheres. Em troca, ela oferecia a sua essência: uma honestidade inabalável e um coração cujo princípio básico era a bondade desinteressada.

Para Lingling, Engfa e Lookmhee, a conclusão era unânime: elas não estavam apenas ajudando a "consertar" o coração de Lena através de uma aproximação estratégica. Elas estavam ganhando uma irmã de escolha, alguém cuja presença trazia um frescor necessário à dinâmica da família, especialmente para a vida de Lena, que embora ainda estivesse timidamente relutante em aceitar o que estava acontecendo dentro de si mesma, sem ao menos perceber abria espaços significativos para Miu. Para as três primas estava claro que era questão de tempo para que Lena aceitasse sua nova realidade. Bastava Miu ter um pouco mais de paciência, e diga-se de passagem, a confeiteira estava sendo muito boa nisso.

Miu estava sendo sútil em suas investidas em tentar vencer os altos muros e inúmeros obstáculos que a escritora criou em torno do próprio coração. A confeiteira não ousava ultrapassar os limites que eram estabelecidos silenciosamente naquela convivência, mas pouco a pouco, parecia vencer novas etapas todos os dias. As implicância de Lena com Miu, por ela se tornar administradora dos negócios da família, deu lugar a confiança e credibilidade. Agora a escritora parecia não apenas convencida da ideia, mas certa de que Miu era capaz de cuidar daquilo que ela considerava ser um tesouro deixado por seu avô. As duas também estreitavam laços, onde a confiança e companheirismos parecia ser o nó daquela conexão. Miu e Lena conversavam sobre tudo, e sobre nada também. A confeiteira parecia ter o dom de compreender os momentos em que a escritora não estava bem e precisava de um tempo consigo mesma. No entanto, ainda que em silêncio, Miu parecia sempre estar ali para Lena. 

Assistindo a dinâmica da convivência entre a escritora e a confeiteira, não era difícil compreender que Lingling, Engfa e Lookmhee admiravam Miu pelo que ela representava — uma força resiliente e doce, capaz de enfrentar as tempestades da vida sem perder a doçura do caráter. Para as três, Miu tinha deixado de ser a "confeiteira da Lena" para se tornar, por mérito e afeto, uma das peças fundamentais do universo daquelas mulheres, um elo que, elas sabiam, tornaria o futuro de todos muito mais iluminado.

Naquela noite, Miu tinha aceitado o convite de Engfa para fazer parte de um jantar em sua casa ao lado das suas primas. Miu, que sempre foi filha única e não tinha nenhuma prima, achava muito bonita a relação entre as quatro mulheres com quem vinha convivendo. Ela já havia se acostumado com a dinâmica ali, e sabia que não precisava de um motivo ou data comemorativa para que elas se encontrassem e tornasse um pequeno momento em uma grande festa. A confeiteira inclusive já se sentia a vontade, especialmente porque embora dividindo o mesmo terreno com o pai, Engfa tinha sua própria casa, o que tornava o momento mais agradável sem que formalidades fossem realmente necessárias. 

A luz da sala de jantar da casa de Engfa projetava sombras alongadas sobre as paredes, enquanto uma conversa animada acontecia entre Engfa, Ling e Lookmhee. Contudo, Miu teve sua atenção voltada alguém que parecia alheia a tudo o que acontecia em sua volta. A confeiteira não pode deixar de perceber que naquela noite, Lena estava diferente… Ela estava distante, pensativa e visivelmente desanimada enquanto estava mergulhada no que parecia ser um mundo particular e inalcançável por qualquer pessoa que tentasse ultrapassar seus muros. Miu observou os traços delicados do seu rosto que era iluminado pelo brilho azulado da tela. Ela alternava entre digitar com vigor e apagar aquilo que pareciam ser parágrafos inteiros, com a testa franzida em um sinal claro de tormento criativo.

Miu, que não conseguia mais prestar atenção nas três mulheres com uma genética imbatível que as tornava donas de uma beleza inconfundível e belos cabelos longos escuros, observava sem descrição aquela cena da porta, com uma xícara de chá nas mãos. Ela sentia cada tensão que emanava da escritora; era como se a aura de paz que haviam construído nos últimos dias, estivesse sendo ameaçada por um espectro invisível.

Atrás de Miu, sem que ela se desse conta o ambiente tornou-se  estranhamente silencioso. Engfa e Lookmhee, que minutos antes discutiam animadamente sobre a decoração do próximo natal em família, haviam silenciado ao notar a atmosfera pesada. Lookmhee se aproximou, seus olhos curiosos e preocupados fixos na prima, enquanto Engfa, encostada ao batente da porta, trocava um olhar carregado de solidariedade com Lingling.

— Ling... — Miu começou, inclinando a cabeça na direção de Lena, a voz quase um fio de seda. — Ela não está bem, não é? Desde que sentou ali, ela parece carregar o peso do mundo nas costas. O brilho que ela tinha durante esses últimos dias, parece ter se apagado. O que está acontecendo?

Lookmhee suspirou, abandonando sua habitual postura brincalhona. Ela deu um passo à frente, cruzando os braços sobre o peito.

— É o Yen, não é? — Ela perguntou, sem precisar de resposta. — Aquele editor-chefe implacável da Lena. O telefone dela não parou de tocar desde que chegou. 

Em um primeiro momento, Ling respondeu os questionamentos apenas com um aceno. Mas em seguida, disse:

– Ele está pressionando para que ela apresente pelo menos um piloto do novo capítulo. Na verdade, ele não tem culpa. Ele está sendo obrigado pelos chefes a pressioná-la, e estão usando o contrato rígido como um chicote.

Lingling confirmou mantendo os olhos fixos na irmã. Ela não conseguia esconder a preocupação que sentia em vê-la passar por aquele momento conturbado.

– O que exatamente estão dizendo? – Engfa, questionou com uma postura mais tensa.

— Basicamente Estão ameaçando cancelar o lançamento do livro se ela não entregar algo concreto até o final desta semana. Eles não veem uma mulher tentando se curar, Engfa. Eles veem um produto atrasado e com alto índice de rejeição. Aquilo que é rejeitado, não vende.

Engfa soltou uma risada seca e amarga, saindo das sombras do batente.

— É a desumanidade típica dessa indústria que vocês escolheram fazer parte. Eles acham que podem apertar um botão e a criatividade brota, mesmo quando a escritora está tentando enxergar uma salvação para o final que ela própria condenou. 

A mais velha não escondia a indignação. Engfa era uma mulher imponderada demais para aceitar essas submissões as quais as primas eram expostas.

– Lena está presa entre a necessidade artística de ser honesta e a pressão brutal de um prazo que parece uma guilhotina. – Lookmhee pontuou com sabedoria. – Mas existe uma grande questão nisso tudo. Como ela vai tentar salvar algo que ela mesma não acredite ser possível? Não é que falta a ela habilidade ou vocação para a escrita. O que falta a ela, é beleza nos sentimentos. Acreditar que o amor é sim possível. 

Miu olhou para Lena, que nesse momento levou as mãos à cabeça, frustrada, antes de começar a digitar novamente com mais fúria do que antes.

— Ela está tentando escrever sobre o amor, Ling... — Miu murmurou, os olhos marejados de empatia. — Mas está difícil fazer isso quando a pressão lá fora tenta convencê-la de que o amor e a arte são apenas números em uma planilha.

Lookmhee tocou suavemente o braço de Miu, sua voz agora carregada de um carinho raro.

— Ela precisa de um momento de respiro, mas Yen não vai dar isso a ela.

— O problema… — Engfa acrescentou, observando Lena com uma proteção quase feroz — É que, desta vez, ela não está apenas escrevendo uma ficção. Ela está tentando reescrever o que ela mesma acha sobre a felicidade. E isso, Miu, é um trabalho impossível de ser feito sob o tique-taque de um relógio de editora enquanto o coração bate freneticamente em um ritmo desacelerado e sob cicatrizes que ainda sangram. 

– Eles só querem que ela produza para o mercado, enquanto ela só busca se reencontrar consigo mesma aqui no vilarejo. – Lingling completou.

De repente Miu se deu conta que era observada por três pares de olhares divergindo entre ansiedade e empolgação.

O ambiente parecia subitamente ter ficado pequeno demais para a carga emocional daquelas confissões. Miu sentiu o peso dos olhares das três mulheres sobre si — olhares que não buscavam respostas profissionais, mas sim o que havia de mais puro no coração daquela confeiteira que, aos poucos, tornara-se parte da engrenagem da família.

Lookmhee, quebrando o silêncio com sua habitual ousadia, deu um passo à frente e sentindo que tinha intimidade suficiente, segurou as mãos de Miu.

— Miu, não precisa ter medo da gente. Somo inofensivas! – Ela disse com um tom brincalhão.

– Não confie tanto nisso. Essa pequena criatura é propícia a proporcionar um caos com facilidade. – Lingling zombou da prima.

– Não ligue para ela. Ela claramente não sabe o que diz. – Mhee olhou feio para a prima, em seguida sustentou meu olhar. – Nós vemos como a Lena fica quando você está por perto. Ela, que sempre escreveu o mundo como se fosse um lugar frio e calculado, agora parece estar aprendendo a ver cor novamente. E nós acreditamos piamente que a pessoa capaz de fazer a Lena voltar a acreditar que o amor não é apenas uma palavra num livro, é você.

Engfa, com sua postura sempre altiva, mas desta vez despida de qualquer ironia, concordou com um aceno lento.

— É estranho falar isso, mas Lookmhee tem razão, embora eu prefira ser mais direta. – Lingling não segurou a risada ao ver a mais velha alfinetar a mais prima mais nova. – Miu, não estou te pedindo para intervir por causa do livro ou dos prazos da editora. Esqueça o Yen, esqueça o contrato. Estou te incentivando a demonstrar o que sente, porque eu vi a minha prima murchar durante muito tempo, e agora, em menos de um mês, eu a vejo florescer. Você não é um paliativo para ela; você é a causa da felicidade dela. Deixe de cautela. Mostre para ela que o que vocês têm é real.

Miu sentiu um nó na garganta, mas o olhar inquisidor de Lingling a trouxe de volta à terra. A irmã de Lena, com uma expressão carregada de uma honestidade, perguntou de uma maneira que a intimidava. Mentir para as três não era uma opção.

— Miu, antes de qualquer coisa, nos conte… Você realmente gosta dela? De verdade? Porque você precisa saber que o que a Lena viveu não foi um término comum. Ela carregou um trauma profundo. Ela sofreu, e ainda sofre, com o eco daquela traição. A Thai não foi apenas uma "ex".

Miu engoliu em seco, sentindo uma insegurança súbita invadir seu peito. Ela não imaginava que seria intimidade pelas três mulheres que pareciam venerar a existência de Lena Lalina. A escritora poderia até se sentir bagunçada, magoada, desacreditada na vida… Mas sozinha ela jamais estaria. 

— Eu... eu sinto tanto por ela ter vivido essa decepção. Eu não precisei de muito tempo de convivência para conseguir enxergar o quanto sua irmã é uma mulher incrível. Precisei de menos tempo para que sentimentos surgissem em meu coração. Quero dizer… é realmente fácil admirar Lena Lalina, Mas isso tudo me faz pensar... Ela sofre demais por essa mulher. Vocês não acham que é possível que, mesmo depois de tudo, Lena ainda possa ter algum sentimento escondido dentro dela? Já pararam para pensar que eu possa estar querendo ocupar um espaço que não é meu?

As três primas se entreolharam em um silêncio eloquente, carregado de uma melancolia compartilhada. Foi Engfa quem tomou a frente para responder, sua voz ganhando um tom sério e protetor.

— Miu, entenda uma coisa. A Thai foi a única mulher com quem a Lena cogitou um futuro. Ela não apenas namorava aquela mulher. Ela planejava uma vida com ela. Ela estava com o anel de noivado na gaveta, pronta para pedir a mão dela, quando descobriu a traição. Não era apenas amor; era confiança absoluta que ela era a pessoa certa, era a construção de um projeto de vida que desmoronou em um único dia.

Engfa fez uma pausa, olhando na direção de Lena, que ainda mantinha sua atenção furiosamente no notebook, como se não tivesse ninguém em sua volta.

— Uma decepção desse tamanho tem o poder de matar qualquer sentimento bom. Eu não posso te afirmar o que ela sente. Mas eu acredito que o que restou na Lena não foi amor pela Thai, mas sim o medo de que a próxima pudesse ser igual. 

– Então você também acha que de repente o que penso pode ter algum fundamento? – Perguntei em um tom desafiador.

As três voltaram a se entreolharem. Estava claro que eu começava plantar uma semente de incerteza nas três. Ou pior, talvez eu já estivesse colhendo o broto de algo que elas mesmo já haviam plantado antes.

Engfa passou a mãos pelos fios do seu cabelo escuro. Ela dava indícios de nervosismo, talvez porque não estivesse acostumada em ser desafiada. 

– Eu quero estar certa em dizer que ela não guarda amor por aquela mulher, ela guarda as cinzas do que ela acreditava ser a verdade. E é justamente por isso que, se você se aproximar agora, se você mostrar que existe uma verdade diferente, você não estará "ocupando um espaço". Você estará construindo uma casa nova nas ruínas de algo que a Lena já aprendeu, da maneira mais dolorosa, que precisava ser deixado para trás. Se ela ainda não tiver certeza, ao seu lado eu acredito mesmo que minha prima vai descobrir que não quer a Thai, Miu. Ela só tem medo de que, ao te amar, ela acabe descobrindo que o amor sempre termina em ruínas.

– Isso foi profundo e tocante. – Mhee levou as mãos ao peito em uma fingida cena dramática. – Mas Engfa tem razão! Nós não podemos afirmar para você sobre os sentimentos de Lena. Mas se você quer ultrapassar os muros criados por minha prima, e acredito que alguns já foram ultrapassados, eu preciso ser honesta com você; não espere de Lena uma decisão sem bases de fundamentos. Você vai precisar ser paciente. Ela é alguém que não costuma agir por impulso. O que eu quero dizer, é que se aquela mulher brotar na frente de Lena, saiba que você não pode esperar que ela seja mandada embora sem ser ouvida antes. Infelizmente, Lena é o tipo de pessoa que escuta o que os outros tem a dizer. 

– Desse jeito você não tá motivando. – Lingling deu um tapa no braço de Mhee. 

– O quê? Eu só estou tentando ajudar, porém sendo honesta. Nós três sabemos que Lena pode não amar Thai. Mas também nunca conseguiu lidar com o fato de não entender o que a fez trair ela daquela maneira. 

Foi a vez de Engfa olhar para a mais nova. Sua expressão deixava claro que ela estava mandando a prima calar a boca.

– Miu, isso não quer dizer que Lena tenha sentimentos por Thai. Ouvi-lá não faria as coisas mudar. – Engfa encorajou a confeiteira. 

 

Miu era grata pela a ajuda e conselho que três estavam dando a ela. Mas no fundo, embora quisesse vencer os obstáculos impostos por Lena, um pontada de receio estava aquecida em seu coração. E se ela estivesse confundindo as coisas? E se Lena não quisesse tentar algo com ela? E pior, se ela tivesse mesmo sentimentos pela ex?

Fim do capítulo


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