Capitulo 12
Por Lena
O sol da manhã estava curiosamente mais iluminado do que o costume. Era como se de alguma maneira a natureza tivesse amanhecido sorrindo, e sem timidez, estivesse esbanjando beleza.
Os raios solares nos dava bom dia, iluminando a mesa farta preparada por mamãe, que sempre se empolgava quando recebia visitas em casa. No caso, as visitas eram Lookmhee e Engfa, e como a linguagem de amor da minha mãe era demonstrada através da arte culinária, claro que ela se empolgaria e se certificaria se preparar para as sobrinhas, tudo o que elas mais gostavam de comer.
No entanto, embora tudo estivesse visivelmente atrativo, eu mal conseguia me concentrar no aroma do café fresco ou no pão quentinho. Minha mente estava presa em algum lugar entre as estrelas da noite anterior e a sensação dos lábios de Miu junto aos meus.
Engfa, por outro lado, estava sofrendo. Ela estava sentada com a cabeça apoiada nas mãos, os olhos semicerrados e uma expressão de quem estava sendo torturada pelo brilho excessivo do sol.
— Acredite em mim, Engfa, se você tomar esse suco de limão, sua alma vai voltar para o corpo. — Lookmhee provocou, balançando uma colher de metal perto demais do ouvido da prima, provocando um barulho metálico que fez Engfa estremecer.
— Se você não parar com esse barulho, Mhee, eu juro que vou te transformar em um ingrediente para o próximo bolo da Miu. De preferência, um que seja triturado. — Engfa resmungou, com a voz falhando.
Lingling, sentada ao lado dela, deu um tapinha carinhoso, mas impiedoso, nas costas da prima.
— Quem mandou abusar do Yadong, né? O preço da diversão sempre chega na manhã seguinte, prima. Pelo menos você foi o entretenimento da noite toda.
Eu soltei um risinho contido, ganhando um olhar mortal de Engfa. Ela forçou os olhos a se abrirem e me encarou, parecendo ser a primeira em notar pela primeira vez que eu estava em um mundo paralelo.
— Ei, Lena... — Engfa murmurou, ainda zonza. — Você está muito quieta e isso é estranho. Nem mesmo começou a reclamar da nossa barulheira. O que está acontecendo, afinal? A noite foi tão boa ontem que você esqueceu de como se usa a língua?
Lookmhee e Ling pararam de rir imediatamente, trocando um olhar astuto que me causou um frio na Espinha.
— Ela está com aquela cara de quem terminou de escrever o best-seller da vida. — Ling observou, arqueando a sobrancelha. — Anda, desembucha. O que rolou depois que a gente te deixou ir sozinha com a doceira sob as estrelas?
Senti o calor subir pelo meu pescoço, tingindo minhas bochechas. Respirei fundo, olhando para a minha xícara de café como se as respostas estivessem escritas no fundo dela.
Embora eu seja dona de uma personalidade mais contida, nunca fui exatamente o tipo de pessoa que costuma fugir na realidade, mesmo não sabendo lidar com ela. Também nunca fui de mentir para minhas primas, tão pouco para minha irmã.
Sendo assim, mesmo sabendo da imensa probabilidade de me arrepender logo no segundo seguinte, resolvi ser verdadeira.
— Nós nos beijamos. — soltei, a confissão saindo de uma vez, num tom que mal passava de um sussurro.
O silêncio que caiu sobre a mesa foi instantâneo e absoluto. Engfa até esqueceu momentaneamente a dor de cabeça, seus olhos arregalados de surpresa.
— Eu sabia! — Lookmhee quase deu um pulo da cadeira, mas Ling a puxou de volta.
— Não seja escandalosa. Não queremos atrair a curiosidade do papai e da mamãe ainda. – Ling disse, e em seguida me calhou completando com um um sorriso de satisfação. – Finalmente!
Tenho certeza que os três pares de olhares que pesavam sob mim, estavam me fazendo corar violentamente.
— Mas... — Continuei, sentindo meu estômago dar um nó. — É por isso que estou assim. Eu não sei o que fazer agora.
– Como não? Não era para os beijinho resolverem as coisas? O primeiro passo você já deu, que foi permitir que acontecesse. Agora é seguir o fluxo. – Engfa disse como se fosse óbvio demais, causando os risos das outras duas.
– Eu gosto de você, quando você adota uma postura mais séria, sabia? – Revirei os olhos. – Entendam! Parte de mim está como se tivesse finalmente tirado um peso enorme dos ombros. Mas a outra parte está em pânico total. Eu passei tanto tempo com medo de entregar o controle da minha vida para alguém, e agora... agora eu não sou mais solitária. Eu sinto que não tenho mais o meu próprio roteiro nas mãos. Isso é assustador, entendem? Eu me sinto confusa sobre quem eu sou quando não estou me protegendo.
– Hum! E sobre ela, o que você sente? – Lookmhee questionou como se avaliasse uma prova difícil.
– E-eu ainda não sei como dizer em palavras. – Ela é... – comecei, baixando a guarda e permitindo que a honestidade vencesse o orgulho. – Ela é a única pessoa que me faz sentir que não preciso atuar. Com ela, eu posso apenas ser a Lena Lalina. E isso é mais assustador e maravilhoso do que qualquer coisa que já vivi.
Ling tocou meu ombro, seu olhar agora carregado de uma doçura genuína que ela raramente expunha.
– Então, talvez esteja na hora de parar de tentar controlar o que é inevitável. – Minha irmã disse suavemente. – Deixe acontecer. Nós estamos aqui se precisar chorar. E também estaremos para compartilhar sua felicidade.
Lookmhee, sempre perdendo a oportunidade de ser sentimental por muito tempo, deu um tapinha rápido nas minhas costas e forçou um sorriso animado.
– Exato! Mas, por favor, Lena... se você não fizer nada sobre isso, eu mesma vou trancar vocês duas em um quarto e jogar a chave fora.
Eu ri, balançando a cabeça. Definitivamente estar de volta na companhia das três, era o Porto Seguro que eu tanto precisei nos últimos tempos. Estar cercada por elas, me trazia a sensação que pela primeira vez em muito tempo, senti que tudo finalmente estava exatamente onde deveria estar.
Engfa, apesar da ressaca, inclinou-se para frente, sua expressão agora mais séria, embora ainda houvesse um traço de diversão em seus olhos.
— Lena, você é uma escritora. Você sabe que os melhores momentos da trama não são aqueles planejados no rascunho, mas sim aqueles que surpreendem a própria autora quando simplesmente acontecem. Você está com medo porque, pela primeira vez nos últimos tempos, você não está escrevendo uma ficção. Você está vivendo algo real. E o real, minha cara, não precisa de roteiro. Ele só precisa que você tenha coragem de ver o que acontece no próximo capítulo.
– Falou a voz da experiência. – Mhee bateu palmas como se venerasse a prima mais velha. – Quero ver quando for o seu momento, como você vai se sair, prima.
Engfa reagiu a prima com uma careta estranha. Ela não era do tipo que tinha aversão aos sentimentos, pelo contrário, acho que de nós quatro, Engfa era a que mais acreditava no amor verdadeiro, e por isso, costumava dizer que só se renderia quando sentisse que ela a pessoa certa.
Em seguida ela acrescentou:
— E se a sua confusão for por medo de se machucar de novo... bom, bem-vinda ao clube, medo faz parte de todas nós, ainda que por motivos adversos. Mas, pelo brilho que ainda tem no seu olhar mesmo estando apavorada, eu diria que esse "erro" de roteiro é a melhor coisa que já aconteceu com a sua rotina ranzinza nos últimos anos.
…
Naquele dia, papai havia me dito que eu poderia ficar em casa para descansar, mas a verdade é que por mais que eu tentasse, sabia que não conseguiria. Por mais que eu tivesse confusa e não soubesse realmente como agir depois de beijar Miu, ainda assim eu não queria parecer que estava fugindo dos fatos ou coisa assim. Além disso, existia uma pontada de ansiedade em mim que não era possível ser ignorada.
– Eu realmente pensei que você não iria vir hoje. – Existia certa ansiedade no tom de Miu, com uma pintada de timidez.
A confeiteira acabava de atender um cliente enquanto eu mantinha minha atenção no livro das finanças dos últimos meses. Certamente Ling seria mais útil que eu naquele assunto, mas não era como se eu estivesse certa de como agir, por isso estava tentando me manter ocupada.
O movimento naquela tarde não era dos mais intensos, acredito que era o resultado da noite anterior, que certamente havia deixado todos cansados e dispostos a passar o dia em casa.
A olhei e então questionei:
— E por que eu faria isso?
Miu baixou os olhos por um instante, parecendo desejar fugir do meu contato visual. No entanto, assim como eu, ela também parecia ser verdadeira demais, e por isso voltou a me encarar em segundos. Ela também não fugiria! E devo admitir… Ela também sabia ser objetiva.
— Não foi um erro me beijar?
O silêncio que se seguiu à pergunta dela pareceu esticar o ar da tarde. O som abafado dos pássaros lá fora era a única coisa que preenchia o espaço, além da minha própria respiração acelerada. Talvez eu não esperasse por aquilo. Quero dizer, pelo menos que não fosse abordado de uma maneira tão direta. Contudo, ainda assim, eu não queria deixar as coisas parecerem mal explicadas nos arrastando para um poço de confusão.
Fechei o livro de finanças com mais força do que o necessário, como se pudesse encerrar ali a dúvida que ela acabara de lançar. Me levantei, contornando a pequena bancada de madeira, e parei a poucos centímetros de Miu. Ela mantinha as mãos unidas à frente do corpo, num gesto de nervosismo que eu, por incrível que pareça, reconheci perfeitamente por já tê-lo feito várias vezes.
— Um erro? — Repeti, minha voz saindo num tom mais suave do que eu pretendia. Eu me aproximei um pouco mais, invadindo seu espaço pessoal, mas de um jeito que pedia permissão, não que impunha algo. — Miu, se você visse o rascunho da minha vida antes de eu chegar a este vilarejo, você entenderia que eu não cometo erros por impulso. Eu sempre prevejo os desfechos, mesmo quando não estou pronta para enfrentá-los, ou quando não sei como fazer isso.
Ela sustentou meu olhar, embora suas bochechas estivessem tingidas de um rosa suave, quase como o tom dos doces que ela preparava com tanto carinho.
— Então... — Ela começou, a voz falhando minimamente — Isso quer dizer que aquele beijo já era algo esperado por você?
Soltei uma risada curta, sentindo a timidez desarmar minha postura de mulher séria.
— Talvez eu não tenha planejado, mas... Eu acho que era desesperadamente desejado por algo que vem surgindo durante esse tempo sem pedir licença, e sem que eu saiba lidar com isso. — Vi os olhos dela brilharem e o sorriso tímido que surgiu em seus lábios foi a coisa mais linda que já vi em todo o meu tempo por aqui. — Definitivamente não foi um erro, Miu. Foi a coisa mais real que aconteceu comigo em anos. Mas eu sinto que preciso ser sincera com você.
– Eu gosto de sinceridade. – Ela disse com timidez.
– Eu também! Por isso, eu preciso te dizer. Embora tenha acontecido, e eu de fato tenha desejado, eu só... – Pensei um pouco em como explicar aquilo que nem eu mesma sabia definir. – Eu estou assustada.
– Assustada com o que exatamente? – Ela quis saber, demonstrando que meus sentimentos eram respeitados por ela.
– Talvez eu não saiba como ser "Lena e Miu". Faz um tempo considerável que eu só sei ser Lena Lalina. Entende? Estar aqui com você me faz querer ser a protagonista de uma história que eu não preciso controlar, é verdade. Mas também me leva para um lugar onde não me reconheço mais.
Miu deu um passo à frente, diminuindo ainda mais distância que restava entre nós. Ela estendeu a mão, hesitante, e tocou suavemente na minha, deixando os dedos ali, num carinho que fez meu coração errar a batida.
— Você não precisa ter todas as respostas, Lena. — Ela disse, com uma doçura que me desarmou completamente. — Eu também estou com medo. Medo de que isso seja um sonho e eu acorde, ou de que você perceba que eu sou só uma confeiteira que se aproximou de você sem qualquer aviso ou pedido de licença. Eu não sei quando isso começou, e nem mesmo se sou suficiente para alguém como você. Mas... — Ela suspirou, ganhando uma determinação adorável — Se for para ter medo, eu prefiro ter medo com você ao meu lado.
Ela inclinou a cabeça levemente para o lado, um hábito que eu já tinha aprendido achar fofo.
— Aquele momento com você, foi lindo, Lena. Foi a melhor parte do festival. E se isso for o começo de algo confuso, então que seja. Eu gosto de como as coisas parecem fazer sentido quando você está perto, mas também quero que você fique confortável com isso.
– O que você quer dizer com isso? – Olhei fixamente em seus olhos que transmitiam verdade.
Miu deixou surgir um sorriso de canto. Era fofo vê-la envergonhada daquela forma.
– Que por mais que eu queira ver onde isso vai dar. Que seja no seu tempo e do seu jeito. Eu posso esperar, entende? Acho que só não saberia lidar com a situação de você me afastar.
Senti um calor reconfortante invadir meu peito. Eu, que sempre busquei palavras complexas para descrever sentimentos, percebi que ali, com Miu, a simplicidade era muito mais poderosa. E ainda mais poderoso era a sensação de ser compreendida.
— Então acho que temos um problema. — Brinquei, sentindo-me leve.
— Qual? — ela perguntou, com os olhos atentos e brilhantes.
— Que agora eu não vou conseguir me concentrar nas finanças de jeito nenhum. — Confessei, vendo-a rir, um som cristalino que parecia música para os meus ouvidos. – Vou ficar horas pensando no que você me disse.
Com timidez, levei minha mão ao seu rosto, acariciando sua bochecha rosada. O toque era elétrico, uma promessa silenciosa de que, independentemente do medo, nós iríamos descobrir o próximo capítulo juntas, frase por frase.
Pouco depois
— Eu posso ir te acompanhar em casa, hoje? — O pedido de Miu surgiu tímido.
Estávamos finalizando mais um dia de trabalho na confeitaria, dessa vez mais cedo, já que o movimento estava contido.
— Por que você faria isso? Nossos caminhos são completamente opostos.
A confeiteira sorriu com aquele ar doce que constantemente exalava de si.
— Percebi que você não veio de carro hoje.
— Hum! Bem, isso é porque Ling precisou do carro do papai. Mas combinamos que ela viria me buscar assim que eu pedisse.
– Entendo! — Ela murmurou juntando as próprias mãos uma na outra e frente ao seu corpo. — Mas você não precisa se incomodar em chamá-la se me permitir te levar em casa.
A olhei levando algum tempo para conseguir formular uma resposta. Não é que sua companhia fosse de todo ruim, eu só não estava acostumada com aquele excesso do beirava a cuidado. Por outro lado, não era como se fizesse mal permitir sua gentileza. E também não era como se eu fosse uma pessoa que sabia dizer não com facilidade. Pelo menos não se tratando dela.
– Hum! Tudo bem. Você pode me acompanhar. – Sorri com timidez.
…
O trajeto até a casa dos meus pais foi feito em uma cadência lenta e igualmente prazerosa. O carro de Miu, assim como ela, exalava uma aura de tranquilidade que me fazia esquecer completamente o ritmo frenético da minha vida. Quando entramos na estrada de terra que levava à parte mais alta do vilarejo, Miu diminuiu a velocidade, seus olhos percorrendo a paisagem em volta com uma curiosidade genuína.
— Sabe, Lena. — Ela comentou, a voz quase um sussurro em meio ao silêncio da tarde. — Eu nunca tinha vindo para este lado do vilarejo. Mas aqui é ainda mais bonito do que imaginei.
Olhei pela janela, observando o verde intenso das árvores e o céu pintado de tons alaranjados.
— É um mundo à parte, não é? — Respondi, suspirando. — Eu cresci aqui, mas, depois de tanto tempo na cidade, quase esqueci o valor disso. Lá, tudo é barulho, concreto, pressa. O fluxo urbano te consome antes mesmo de você notar. Aqui... é como se o tempo decidisse descansar também.
Miu concordou com um aceno suave.
— É a paz que este lugar transmite. Respirar esse ar puro, ver essa vegetação... é como se meus pulmões finalmente tivessem espaço para expandir. É o que me mantém sã, Lena. Esse contato com a natureza que parece esquecer a existência de prazos.
Quando ela parou o carro em frente à casa, meus pais já estavam na varanda, aproveitando o final da tarde. Ao verem quem estava no volante, um brilho de satisfação surgiu nos olhos de ambos. Antes que eu pudesse sequer abrir a porta, eles já caminhavam em nossa direção.
— Miu! Que surpresa maravilhosa! — Minha mãe exclamou, com um sorriso acolhedor.
Miu saudou meus pais em um cumprimento respeitoso e com um sorriso nos lábios.
— Sra. Malee, Sr. Jett. É muito bom vocês. Espero que não seja um problema ter acompanhado Lena até aqui.
– De maneira alguma! Nossa casa é sua casa. – Papai respondeu com animação. – Venham! Vamos entrar.
Seguimos os dois para dentro de casa.
— Você já comeu? – Mamãe, sempre acolhedora, logo questionou Miu. – Você precisa ficar para comer conosco durante o jantar, não aceito um não como resposta.
Miu, visivelmente sem graça e com as bochechas coradas, uniu as mãos em um gesto respeitoso.
— Oh, eu agradeço muito, Sr. Malee, mas não quero incomodar. Eu só vim mesmo para trazer a Lena em segurança para casa.
— Incomodar? De jeito nenhum! Ainda mais depois de fazer uma gentileza com minha filha. — Meu pai interveio, rindo. — Fique, garota. Aliás, enquanto esperamos o jantar, a Lena precisa te mostrar o jardim da nossa casa. A mãe dela tem cuidado daquelas flores como se fossem joias, e você tem um olhar delicado, então tenho certeza que vai adorar conhecer.
Nesse momento, Ling apareceu com um sorriso que eu conhecia bem. Era o típico sorriso de quem sabia exatamente como me envergonhar. Ela cruzou os braços e me lançou um olhar travesso, arqueando uma sobrancelha.
— Ué, Lena? — Ela provocou, sem tirar o olho de Miu, que parecia cada vez mais tímida. — Achei que tínhamos combinado de eu te buscar na confeitaria hoje. O que houve? Esqueceu o celular na gaveta ou só encontrou uma companhia melhor para a estrada?
Senti meu rosto esquentar na mesma hora. Papai e mamãe talvez não entendessem a jogada da minha irmã, mas certamente Miu entenderia.
— Ling, pare com isso. — Murmurei, tentando manter a compostura.
Miu, entretanto, apenas abaixou a cabeça, o sorriso tímido entregando que ela entendia perfeitamente a provocação da minha irmã.
A insistência dos meus pais para que Miu ficasse para o jantar, misturada ao olhar cúmplice e divertido de Ling, criava uma atmosfera de um aconchego tão real que, pela primeira vez, a ideia de "Lena Lalina" — a escritora famosa, a mulher de sucesso — parecia algo completamente desnecessário. Eu só queria ser a filha que recebia a visita especial em casa, sob o olhar aprovador da minha família e a presença serena da mulher que tinha ousado atravessar barreiras altas, apenas para fazer meu coração começar bater em um ritmo novo.
— Está bem! — Cedi, olhando para Miu com um sorriso encorajador. — Se eles insistem tanto, acho que você não tem escolha a não ser jantar conosco. E depois... eu adoraria te mostrar o jardim. Acho que papai tá certo quando diz que você vai gostar.
…
O jardim da minha mãe era um refúgio de cores e aromas. Caminhávamos lado a lado entre os canteiros de rosas, cujas pétalas aveludadas pareciam brilhar com o orvalho que começava a surgir.
– Então… – Miu começou observando tudo em nossa volta. – Qual a história desse lugar?
A olhei intrigada.
– Como assim “qual a história “?
Ela sorriu docemente.
– Você sempre tem uma história. Tenho certeza que tem algo para contar sobre esse lugar.
Miu parecia ser verdadeira quando demonstrava interesse em ouvir as histórias que eu tinha para contar, fosse sobre a doceira, ou sobre qualquer outro assunto. Era como se ela estivesse sempre verdadeiramente ligada a mim, e que se importasse com o mínimo dos detalhes.
— Bem… Não há muito o que contar. Mamãe começou dar vida a esse lugar logo depois que se casou com papai. Ela sempre gostou de ter esse ambiente como seu refúgio. É como se aqui fosse o seu local para encontrar a paz. — Comentei, passando a ponta dos dedos delicadamente por uma rosa de tom carmim. — Quando eu era pequena, minha mãe costumava dizer que cada rosa precisava de uma história para florescer. Eu passava horas aqui, sentada entre esses canteiros, criando narrativas absurdas para as flores. Hoje eu chego a conclusão que eu era a escritora da família muito antes de imaginar que isso seria minha profissão. Uma vez, tentei "escrever" uma história nelas usando suco de frutas para tingir as pétalas... minha mãe quase teve um infarto quando viu o estrago que fiz nas mudas favoritas dela.
Miu soltou uma risada cristalina, um som que parecia combinar perfeitamente com o balançar suave das flores ao vento.
— Coitadas! Mas, vendo como elas estão cuidadas hoje, acho que seu esforço "literário" não as prejudicou tanto assim.
Nós caminhamos um pouco mais, e o tom de nossa conversa, antes puramente nostálgico para mim, tornou-se mais profundo. Miu parou junto a um canteiro e, após um breve silêncio, perguntou com uma delicadeza que só ela tinha:
— Lena... como está a produção do seu livro? Você tem pensado em reescrever o final?
Senti um aperto familiar no peito. Dei de ombros, desviando o olhar para o horizonte.
— Está parado, Miu. Completamente estagnado. Eu simplesmente não sei o que fazer. O vazamento destruiu a confiança que eu tinha no rumo daquela história, e agora, tudo o que penso sobre escrever me parece falso.
Miu virou-se para mim, seus olhos encontrando os meus com uma determinação serena.
— Eu estive pensando muito nisso. — Ela disse, mantendo um tom encorajador. — Talvez você estivesse travada porque precisava viver algo real que a tocasse em um lugar que ninguém mais pode. Mas agora que você teve esses dias de calmaria aqui, longe das pressões que vinha sofrendo... Bem, você não acha que chegou a hora de tentar rever algumas páginas? Eu não quero te pressionar, nem nada. Mas a maneira como você conta histórias… Eu não sei! Eu acho que escrever é tão importante para você, como as lembranças que você cultiva em relação a doceria. Além disso, as pessoas esperam muito por esse desfecho, Lena. E, talvez, a escritora que chegou aqui há algumas semanas, não seja mais a mesma.
Fiquei em silêncio, processando suas palavras. Aquilo fazia tanto sentido que me assustou. Por outro lado, também me causava medo. E se de fato o que eu tivesse para contar sobre o amor, não agradasse a ninguém? E se eu tivesse me tornado uma fraude do meu próprio enredo?
— E você? — Perguntei, curiosa, inclinando a cabeça. — Se fosse você a autora, como imaginaria o final delas? Depois de tudo o que enfrentaram nos outros livros... Que desfecho você daria para minhas personagens?
Miu sorriu, e houve um brilho especial em seu olhar enquanto ela parecia visualizar a própria cena.
— Para mim, a resposta é simples. Elas passaram por tempestades, separações e desafios que pareciam impossíveis de superar. Mas, no fundo, elas sempre foram a casa uma da outra. Eu sempre imaginei que, independentemente do caos do mundo lá fora, elas terminariam juntas. Não um final grandioso ou trágico, mas algo real. Um final feliz, onde elas finalmente pudessem apenas ficar. Sabe… Estou falando sobre escolhas! Penso que o amor verdadeiro não é algo como um conto de fadas desses contados aos montes. Pelo comentário, o amor verdadeiro é sobre dificuldades, mas também sobre superações. É sobre renúncias que são feitas todos os dias como uma prova silenciosa. O amor é sobre estar presente mesmo na ausência. É sobre detalhes, sobre cuidado mesmo quando se está magoada. O amor é sobre constância. E isso você descreveu muito bem ao longo dos dois primeiros livros. Mas em todos eles, elas sempre escolheram ficar lado a lado, para que juntas superassem a próxima página. Então é isso… Eu imagino elas escolhendo ficar todos os dias.
Suas palavras atingiram o centro do meu peito, aquecendo cada fibra da minha alma. Era um pensamento tão simples, tão puro e tão esperançoso que, pela primeira vez desde que cheguei ao vilarejo, eu não vi o final da minha história como um problema, mas como uma possibilidade. A possibilidade de ser e estar.
Olhei para Miu sob a luz da lua que começava a surgir, e senti uma paz profunda me envolver.
O entusiasmo de Miu ao falar do meu trabalho transformou a atmosfera entre nós. Ela começou a gesticular com as mãos, os olhos brilhando de uma forma que eu ainda não tinha visto. Pela primeira vez eu me pegava admirando alguém me admirar.
— Você não faz ideia do que seus livros significaram para mim, Lena. — Ela confessou, a voz subindo um tom, mais animada do que nunca. — Naquela época, eu estava tentando entender tantas coisas sobre mim mesma... Era tudo tão confuso. Eu olhava para algumas mulheres e sentia um frio na barriga, uma vontade de estar perto que eu não sabia nomear. Quando li suas obras, foi como se alguém tivesse traduzido o caos dentro de mim para o papel. Suas personagens me deram coragem, não apenas para aceitar que o que eu sentia era real, mas também que era possível. Sim, o amor surge entre duas mulheres também. É possível sim, amar outra mulher. Você me ajudou a me entender sem que eu precisasse dizer uma palavra sequer.
Senti um calor suave percorrer meu peito ao perceber o impacto que meu trabalho causava nas pessoas. No entanto, a curiosidade logo tomou conta de mim, misturada a uma pontada de ansiedade que eu não soube identificar na hora.
— Então... — Comecei, tentando soar casual enquanto voltamos caminhar entre as rosas. – Isso significa que você já namorou alguma mulher antes? Já viveu esse tipo de história na vida real?
Miu parou por um segundo perto de uma roseira, observando uma pétala, e seu semblante suavizou, ganhando um tom agridoce.
— Sim, eu namorei. Foi durante a minha juventude, antes de tudo desmoronar em casa. — Ela admitiu, olhando para longe. — Foi um romance lindo, intenso, mas também imaturo. Coisa de adolescente. Foi um romance que teve prazo de validade imposto pelo mundo ao nosso redor. A família dela era extremamente tradicional e, quando descobriram nossos encontros, não houve espaço para negociação. No fim, ela preferiu seguir as orientações dos pais e acabou se casando com um homem. Um casamento arranjado e negociado pelo pai dela. Eu tive que aceitar que o dever dela para com a família era maior do que o que sentíamos uma pela outra. E hoje eu estou bem quanto a isso.
Enquanto ela falava, um silêncio pesado instalou-se no jardim. Senti uma fisgada estranha, um incômodo gelado que se espalhou pelo meu estômago. Ciúmes? A palavra ecoou na minha mente, mas eu a repeli imediatamente, forçando um sorriso que não alcançou meus olhos.
Eu não disse nada. O nome daquela ex-namorada, a memória daquele beijo passado, a imagem de Miu entregando seu coração a alguém que a abandonou por conveniência... Tudo aquilo me causou um desconforto profundo, quase físico. Eu logo reconheci que não queria pensar em Miu com outra pessoa.
— Entendo! — Foi tudo o que consegui articular, minha voz soando um pouco mais seca do que eu gostaria.
Olhei para o jardim, fingindo interesse nas rosas, enquanto tentava esconder o turbilhão que aquelas poucas palavras de Miu haviam despertado dentro de mim. O ambiente, antes tão leve e inspirador, agora parecia ter ganhado uma camada de complexidade que eu não estava pronta para enfrentar.
Como se percebesse a mudança na minha postura, Miu voltou a me olhar, seu semblante preocupado e suave, parecendo querer ler o que eu tentava tão desesperadamente esconder.
O silêncio constrangedor que se instalara devido à minha reação inesperada foi quebrado por um movimento súbito de Miu. Ela parou diante de uma das roseiras mais vistosas do canteiro, seus olhos brilhando com uma hesitação doce.
— Lena... — Ela começou, a voz voltando a ser aquela melodia suave. — Eu sei que você disse que sua mãe cuida delas como joias, mas... Eu poderia tirar uma rosa? Só uma?
Pisquei, saindo do meu transe de ciúmes e tentando processar o pedido inusitado.
— Uma rosa? Claro, pode sim. Mas... você sabe como podar corretamente? Se não cortar no ângulo certo, pode machucar o caule.
Miu soltou uma risadinha, fazendo um biquinho de confissão.
— Na verdade, eu não faço a menor ideia. Minha única habilidade com flores é colocá-las em um vaso e esperar que não murchem rápido demais.
Nós duas rimos, a tensão acumulada segundos antes se dissolvendo na leveza daquela admissão sincera.
— Bem, então acho que teremos que trabalhar juntas mais uma vez. — Eu disse, sentindo-me subitamente mais relaxada ao estar novamente na posição de quem compartilha conhecimento.
Aproximei-me dela sem desviar o olhar do seu.
– Eu posso? – Pedi me referindo a aproximação junto ao seu corpo.
Miu parecia relaxada, mas também me observava com intensidade no olhar.
– Sim, você pode. — Ela respondeu em um sussurro confortável.
Encurtei a distância entre nós, ficando quase colada ao seu lado para guiar suas mãos. Calmamente, demonstrando para ela que aquela atividade não requer pressa, peguei um pequeno podador que estava guardado no cinto de ferramentas ali perto e coloquei-o nas mãos de Miu. Minhas mãos cobriram as dela, ajustando a posição e o ângulo do corte. O contato era inevitável, e senti o calor da pele dela contra a minha enquanto nos concentrávamos na haste escolhida.
— Agora, bem aqui. — Murmurei perto do seu ouvido, sentindo o perfume suave de baunilha e jasmim que ela emanava.
Com um movimento cuidadoso e sincronizado, pressionamos o metal. A rosa cedeu, vindo parar nas mãos de Miu com uma elegância perfeita. Ela a levantou, maravilhada com o resultado, e eu senti um orgulho estranho, como se tivéssemos acabado de criar algo muito maior do que apenas uma flor cortada.
Caminhamos de volta em direção à varanda da casa dos meus pais. O sol já tinha se escondido, deixando o céu em um tom de azul profundo. Miu levou a flor ao rosto, fechando os olhos enquanto inalava o aroma intenso e adocicado da pétala. Ela caminhava com uma leveza que contrastava com a seriedade da conversa que tivemos minutos atrás.
Quando estávamos a poucos metros da luz que emanava da porta da cozinha, ela parou e se virou para mim. Seus olhos tinham uma luminosidade especial, um misto de gratidão e uma timidez que fazia meu coração vacilar.
— Toma! — Ela disse, estendendo a rosa em minha direção. — É para você.
Fiquei surpresa, segurando a haste com cuidado.
— Para mim? Por quê?
Miu sorriu, um sorriso que parecia conter todas as palavras que ela não disse.
— Por tudo. Pela paciência, por me ensinar, por ter me ouvido... e por esses últimos dias. Você não faz ideia do quanto essa "calmaria" tem sido importante para mim, Lena. Obrigada por me deixar fazer parte disso.
Fiquei tocada, sentindo um nó na garganta que nada tinha a ver com a tristeza, mas sim com uma gratidão imensa por ela ter aparecido na minha vida. O ciúme que eu sentira antes pareceu algo distante, quase ridículo diante da honestidade daquele gesto.
— Miu... — Agradeci, sentindo um calor subir pelo pescoço. — Obrigada! Esse é, sem dúvida, o melhor presente que eu poderia receber.
Eu a observei por um momento sob a luz fraca, a rosa em minha mão servindo como uma ponte entre nós. Ali, naquele jardim que viu minha infância, eu sentia que estava, finalmente, plantando as sementes de algo que duraria muito mais do que apenas uma temporada.
Fim do capítulo
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