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  • Os quatro compassos do amor: O ritmo do recomeço
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Os quatro compassos do amor: O ritmo do recomeço por priskelly

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Palavras: 5501
Acessos: 99   |  Postado em: 04/08/2026

Capitulo 11

Por Lena

 

Uma semana depois

 

O dia do festival finalmente havia chegado, trazendo aquele frio na barriga juntamente com a animação que era proporcionada pelo o evento. Todos em volta estavam igualmente ansiosos para ver como seriam os acontecimentos naquele ano. 

Durante a última semana trabalhei incansavelmente ao lado de Miu, para que as coisas dessem certo e saíssem conforme o esperado. Durante o processo, algumas tentativas deram erradas, mas foi satisfatório comemorar ao lado dela quando finalmente conseguimos acertar últimas, e o bolo que queríamos apresentar saiu exatamente como gostaríamos. Um ponto de sabor perfeito que variava desde o ingrediente especial, até o segredo que era o elemento surpresa da receita.

Contudo, devo admitir que, o que mais me chamava atenção e me deixava genuinamente feliz era perceber que os últimos dias, ao focar nos preparativos para o festival, eu estava tranquila como a muito tempo não me sentia. Era como se estar ao lado de Miu, fazendo aquilo que eu gostava de fazer quando criança, e estar no lugar que me trazia a sensação de aconchego, segurança e calmaria, fez com que uma parte de mim que eu não sabia que ainda existia, estivesse de volta. Quero dizer, eu me sentia feliz, calma e realizada. Aquele peso de outra hora que estava sob meus ombros, não era mais importante, tão pouco parecia ser capaz de me atormentar tanto. Eu estava vivendo!

– Eu tinha certeza que ajudar vocês com essa coisa, não tinha sido minha melhor decisão. Olha só como estou… Acabada! – Lookmhee reclamou ao observar seu próprio corpo. 

– Eu te trouxe isso como forma de agradecimento.

Miu se aproximou da minha prima mais nova, oferecendo um o copo de Cha Manao, o que fez os olhos da mais nova brilharem quase que instantaneamente. 

– Eu realmente te amo, mulher!

Lookmhee não se fez de tímida, beijou o rosto de Miu após aceitar a bebida refrescante, e sentou para se ocupar em degustá-la calmamente. 

O olhar de Miu encontrou o meu, ela sorriu largo e com aquela delicadeza invejável, me direcionou um copo.

– E pra você, um Cha Yen. Eu sei que esse é o seu preferido. 

– Obrigada! – Respondi aceitando de bom agrado e sorri.

– De nada! – Ela sorriu de volta mantendo seu olhar fixo no meu. – Eu vou terminar de organizar a barraca. 

– Miu. – Chamei antes dela se afastar.

– Oi?

– E a produção? 

– Não se preocupe! Tudo está sob controle. Quando terminar aqui, vou na confeitaria preparar um último detalhe e quando voltar, já vou trazer os doces.

Novamente sorri! Aliás, estava se tornando bem comum me pegar sorrindo quando estava ao lado de Miu. 

Observei a confeiteira se afastar enquanto me perdia em pensamentos, e senti uma pedrinha pequena me atingindo. 

– Ai! Isso doeu. – Resmunguei para minha prima.

Lookmhee me observava com uma expressão que variava entre divertimento e sagacidade.

– Vem cá! Senta aqui comigo. 

Ergui a sobrancelha ao encarar a mais nova. Eram tão raras as vezes que aquela pestinha falava em um tom sério, que isso me deixava desconfiada das suas reais intenções.

– O que você está aprontando, Mhee? – Sentei ao seu lado.

– Ei, tenha um pouco mais de esperança em mim. Falando assim, até parece que sou uma sem jeito.

– Às vezes, eu me pergunto como você pode levar a sério as aulas que ministra. Sério, você deve ser mais bagunceira que seus alunos. 

– Pois saiba que eu sou um verdadeiro exemplo a ser seguido. No meu ambiente de trabalho, tenho uma postura digna. – Ela disse cheia de sí. – Eu só não costumo levar tudo a sério quando estou com vocês, que são minhas ursinhas.

Sem pedir licença, seu braço contornou meu pescoço em um abraço desajeito e apertado, enquanto passou a beijar meu rosto de um jeito meloso e muito exagerado.

– Ai! Para com isso. Você está me amassando, pequena criatura.

Eu reclamava, mas sabia que não havia o que ser feito em relação ao comportamento da outra. Talvez por ser a mais nova de nós quatro, aquele fosse o reflexo de todo cuidado, carinho e superproteção que por toda vida ofertamos a ela. A verdade, é que todas nós, cuidávamos umas das outras, especialmente de Lookmhee que junto com seu pai, foi abandonada pela mãe quando ainda era apenas uma criança de dois anos. Desde então, ninguém mais soube notícias daquela mulher. A única coisa que sabíamos era que ela teria ido para o exterior. Mhee, não tinha lembranças da mãe, mas tio Arthit dedicou toda sua vida para cuidar da filha de uma maneira que ela não sentisse tanto a ausência materna. 

– Chorona! – Ela resmungou ao se afastar. – Então, já que você sempre me cobra seriedade nas coisas, que tal falarmos sério agora?

A olhei de relance. Depois de observar um pouco sua expressão, conclui que preferia seu lado travesso. É que são tão raros os momentos em que ela está seria, que eu esqueci que quando esse milagre acontece, ela se torna quase uma segunda Engfa, com a diferença que sutileza não é seu forte, ou seja, ela não fecha os olhos para os detalhes, tão pouco os deixa escapar.

– Tá falando de quê?

– É sério que você vai querer jogar esse jogo comigo? – Embora o sorriso sapeca nos lábios, seu olhar era de puro desafio. – Ok! Que tal você começar me explicando quando vai desenvolver esse lance com Miu?

E lá estava aquela versão aterrorizante da mais nova. Direta e prática, capaz de me deixar sem palavras. 

– Tá doida? Você e Ling ainda não se deram conta que isso não existe?

– Que bobagem! Só não vai existir se você for tonta. – A olhei feio, mas não fazia parte da sua personalidade se incomodar com isso. – Me diga! Qual o lado ruim de acontecer? Você está solteira. Ela está solteira. O mundo é colorido, e vocês claramente estão sentindo algo uma pela outra. 

Silenciei! Me assustava a ideia de ter um pouco de verdade naquela afirmação de Lookmhee. Se eu estivesse mesmo sentindo algo por Miu, como minha irmã e minha prima insistiam em expor sempre que possível, certamente eu entraria em colapso. Até pouco tempo eu tinha convicção que essa coisa de sentimentos não era para mim, e que o amor pode se tornar ofensivo, então de repente ver minhas certezas absolutas mudarem, me levariam a um estágio de mais profundo estresse comigo mesma. 

A pergunta de Lookmhee pairou entre nós, pesada e inegável, como se ela tivesse acabado de abrir um arquivo no meu computador que eu preferia ter mantido criptografado. Eu queria retrucar, soltar uma daquelas tiradas sarcásticas de escritora famosa que sempre me salvavam em entrevistas, mas as palavras simplesmente morreram na minha garganta.

Olhei para o outro lado, onde Miu conversava alegremente agora com uma vizinha de barraca. Sempre prestativa, ela parecia ajudar a moça com algum equipamento que parecia estar dando problemas para a outra. A luz do entardecer contornava sua silhueta, conferindo-lhe uma aura de paz que parecia um insulto à minha bagunça interna.

– Você fala como se sentimentos fossem apenas uma questão de lógica, Mhee – Respondi, minha voz saindo um pouco mais rouca do que eu pretendia. Tentei manter a postura, mas meus dedos tamborilaram nervosamente no meu joelho. – Você não entende. Eu construí muros altos demais. Depois do que passei... Eu não sei, mas a ideia de derrubá-los, de permitir que alguém entre me parece meio insana. Imagina como seria algum entrar, ver a bagunça que sobrou em meu coração e decida que não vale o esforço? É exaustivo só de pensar.

Lookmhee soltou um suspiro, o tipo de som que eu costumava ouvir das minhas personagens quando elas precisavam de um choque de realidade. Ela não me abraçou dessa vez. Apenas me observou com aquela perspicácia que, embora irritante, eu sabia que vinha de um lugar de amor genuíno.

– Sabe, Lena... – Ela começou, desta vez sem o tom de brincadeira. – Você é a pessoa que mais entende de finais felizes no mundo. Mas, ironicamente, você é a única que não se permite viver um. E agora tá dando para não permitir que nem suas personagens vivam isso. Que caos!

A olhei feio. Diferente de Ling e Yen que buscavam apontar isso de maneira sútil, Mhee era como uma explosão de verdades. – Você pode esquecer meu trabalho? Eu estou tentando fazer isso por hora. – Resmunguei irritada e ela apenas deu de ombros.

– O que eu estou querendo dizer, é que isso que você chama de muro, eu chamo de prisão. Você está tão ocupada protegendo o seu coração de uma dor que já passou, que nem percebe que está trancando a porta para a única pessoa que em um tempo considerável, que sem perceber você permitiu que se aproximasse de você. E quer saber? Miu me parece ser o tipo que lutaria para ficar, não para ir. Mesmo que você decida ser um desastre total.

Ela deu uma pausa, e senti seu olhar se tornar mais suave em meio a crítica lasciva.

– A Miu não é como aquelas pessoas que você conheceu na cidade, ou como aquela sua ex serpente, que te fez acreditar que o amor é uma trans*ção comercial. Ela é gente como a gente. Ela é simples, ela é transparente. Se você continuar olhando para ela através das lentes do medo, vai acabar perdendo a coisa mais real que aconteceu na sua vida nos últimos tempos.

Fiquei em silêncio. As palavras dela não eram um ataque, eram um espelho. E o reflexo doía.

– Eu não sei como fazer isso. – Sussurrei, mais para mim mesma do que para ela. – Eu não sei ser "só a Lena". Eu sempre sou a escritora, a que tem o controle, a que dita o fim.

– Na verdade, você chegou aqui como essa escritora. Mas faz algum tempo que você voltou a ser nossa Lena Lalina. Você não percebe, mas seus olhos voltaram a brilhar, seu sorriso voltou a florecer, e até seu mau-humor deu lugar aquela velha e divertida Lena que pulava pelada no rio quando criança. 

– Mhee… – A repreendi sentindo minhas bochechas corarem.

Minha prima gargalhou ao meu lado. Claro que ela se divertiria as minhas custas. 

Lookmhee deu um tapinha desajeitado no meu ombro, voltando ao seu tom habitual, embora com um brilho de cumplicidade nos olhos.

– Quer uma dica? Deixe que as coisas aconteçam naturalmente. Não fique procurando enredos, mas se eles vierem até você, comece dividindo o roteiro com ela. Às vezes, talvez o melhor final seja aquele que a gente nem sabia que estava escrevendo.

Ela se levantou, deixando-me sozinha com meus pensamentos. Olhei novamente para Miu. Ela que seguia conversando com a tal vizinha de barraca. Por que aquele exagero de gentileza começava me incomodar? 

Como se sentisse o peso do meu olhar, a confeiteira virou-se. Nossos olhares se cruzaram através das pessoas que começavam deixar a praça central movimentada. Ela sorriu, um sorriso pequeno, genuíno, e sem máscaras. E, pela primeira vez, eu não senti vontade de fugir. Eu senti, pela primeira vez em anos, vontade de caminhar em direção a alguém.

 

…

 

A noite já tinha caído, e como esperado, a praça já estava tomada por pessoas de todas idades. Assim como Lookmhee que após nos ajudar com os preparativos para deixar a barraca enfeitada, foi em casa apenas para trocar de roupa com a promessa que logo estaria de volta, Engfa e Ling também haviam chegado. Até mesmo meus pais já circulavam animadamente pelo o ambiente. 

O movimento do festival ao nosso redor parecia um borrão colorido, um ruído distante que mal alcançava o meu foco. Meus olhos, no entanto, estavam fixos em Miu. Ela se movia pelo espaço com uma leveza natural, ajeitando cada detalhe para que tudo estivesse impecável, e ainda presenteava cada cliente que visitava nossa barraca, com um sorriso gentil e doce. O sorriso de Miu, era desses que parecia iluminar até mesmo os cantos mais escuros. Observá-la era como ler a página de um livro que o final proporcionava prazer em escrever.

Eu estava tão concentrada em observar minha parceira de trabalho, quase hipnotizada pela maneira como Miu oferecia um pedaço de torta a uma criança, que nem percebi a aproximação furtiva.

– Terra chamando Lena Lalina! – Uma voz aguda e divertida ecoou bem ao lado do meu ouvido, seguida por um cutucão nada sutil nas costelas.

Dei um pulo, quase derrubando o porta-guardanapos sobre a mesa. Virei-me bruscamente e dei de cara com Engfa e Lingling. Engfa estava com os olhos brilhando de um jeito suspeito e um sorriso largo demais no rosto, enquanto Ling, ao seu lado, tentava manter uma postura um pouco mais contida, embora escondesse o riso atrás da mão.

– Vocês duas querem me matar do coração? – Resmunguei, tentando recuperar a compostura enquanto ajeitava o avental.

– Imagina, escritora! A gente só veio conferir se o sucesso não subiu à cabeça de alguém. – Engfa respondeu, soltando uma risadinha que denunciou imediatamente sua condição. Ela deu um passo vacilante e cheirou o ar, soltando um suspiro satisfeito. – Falando em sucesso... minha nossa, você viu a fila? O pessoal está enlouquecido por aquele doce novo da Miu! E aquele bolo cristalizado de frutas cítricas que vovô criou a receita e vocês executaram com perfeição? É um crime de tão bom. Acho que já comi três pedaços e estou pronta para o quarto.

Ling balançou a cabeça, rindo da empolgação da prima.

– É verdade, Lena. O povo não para de elogiar. Papai e mamãe estão com um sorriso que mal cabe no rosto. Miu realmente brilhou desta vez. O pessoal do vilarejo está encantado com o toque dela.

– Ela tem um dom. – Concordei, sentindo um orgulho que não soube disfarçar. – Eu não sabia que teríamos uma segunda opção de especialidade para essa noite. Ela disse que queria me fazer uma surpresa. 

– E pelo o visto, ela conseguiu. – Engfa disse e me olhou.

Foi aí que o sorriso de Engfa se transformou em uma expressão de "tudóloga" provocadora. Ela se inclinou sobre a mesa, ignorando o bom senso que quase nunca abandonava, e me cutucou de novo com o cotovelo.

– O pessoal está encantado com o doce, sim. Mas tem alguém com cara de quem esqueceu como se fecha a boca, que parece bem mais encantada pela doceira do que pela receita. Né, dona Lena?

Senti meu rosto arder imediatamente. Lançando um olhar fulminante para Engfa, notei que ela exalava aquele aroma característico de Yadong,  a bebida alcoólica de ervas tradicional da Tailândia que, pelo visto, ela tinha decidido degustar sem moderação naquela noite. 

Olhei para minha irmã que sorriu largo. 

– Engfa, você está claramente sob o efeito daquele destilado potente que o sr. Somchai serviu. – Rebati, tentando desviar o assunto. — Sua noção de realidade está, no mínimo, distorcida pela dose extra de ervas que contém na bebida. – Encarei Ling. – Por que ela fica assim quando bebe? Não sei lidar com essa personalidade estranha dela.

– Relaxa! Ela também sabe como aproveitar a vida.

– Oh, minha querida. – Engfa soltou uma gargalhada alta, ignorando completamente minha tentativa de defesa e balançando exageradamente as mãos no ar. – O álcool pode até deixar minha visão um pouco embaçada, mas o coração? O coração vê tudo em alta definição! E eu estou vendo perfeitamente que essa escritora famosa virou uma adolescente apaixonada em apenas algumas  semanas.

Dessa vez, Lingling riu alto, dando um tapinha nas costas de Engfa, mas o estrago já estava feito, depois de sei lá quantas doses, nossa prima já estava naturalmente desajeitada. A mais velha, sempre tão contida, também tinha suas fases de loucuras. 

– Deixa ela, Lena. – Para completar o meu desespero, Lookmhee chegou com aquele seu jeito desajeitado. – Pelo menos a Engfa está sendo honesta. Mas, sendo sincera, até os bois do vilarejo já notaram como vocês duas ficam quando estão juntas. Só você que insiste em negar.

– Vocês formam um bom time. – Ling completou com um tom doce. – E, sendo bem direta, faz tempo que eu não via você com esse brilho nos olhos.

– Vocês resolveram se juntarem para me enlouquecer, foi?

Cruzei os braços, tentando parecer ofendida, mas o riso de Ling e a embriaguez carismática de Engfa que combinava perfeitamente com o jeito desajeitado de Mhee, tornavam impossível manter a pose. Quando juntas, nós quatro éramos como uma só.

O festival continuava seu curso, o som da música local se misturando à alegria do povo. Ali, entre o cheiro de cítricos e o som das provocações das minhas primas, eu apenas sorri.

 

Mais tarde

 

A praça do vilarejo já estava quase vazia. O burburinho deu lugar ao som dos grilos e ao vento leve da noite. A maioria das barracas já tinha fechado sob a glória de um evento que foi um sucesso, onde resplandeceu alegria por toda parte. No fim, vovô tinha razão… Era a diversão que ficava na memória! 

Em nosso balcão limpo, havia restado apenas duas lâmpadas de filamento penduradas, iluminando o cansaço dos nossos rostos.

Miu se apoiou no balcão de madeira, soltando um suspiro longo enquanto massageava os próprios ombros. Ela olhou para o tabuleiro completamente vazio onde antes ficavam nossos doces.

– Eu sinto como se um caminhão tivesse passado por cima de mim. – Miu disse, mas havia um sorriso imenso em seu rosto. – Mas um caminhão cheio de açúcar e aprovação. Nós vendemos tudo, Lena. Tudo!

Eu, que estava guardando o pano de prato na caixa organizadora, parei o que estava fazendo. Olhei para Miu. A luz amarelada da lâmpada da barraca bate de lado no rosto da outra, destacando seus olhos, que mesmo cansados, pareciam brilhar ainda mais naquela noite.

– É... nós vendemos. – Respondi, a voz mais mansa do que o normal, despida daquela armadura defensiva dos primeiros dias. 

Caminhei até o balcão e me sentei em um dos bancos altos, de frente para Miu. 

– Para ser sincera, eu achei que a sua ideia de misturar o leite de coco com a calda cítrica na finalização, ia dar errado. O paladar do vilarejo costuma ser bem tradicional.

Miu solta uma risada leve, inclinando-se um pouco mais para a frente no balcão, diminuindo a distância entre nós duas.

– Você precisa ter mais fé na sua sócia, escritora. A gastronomia é como a literatura: se você der às pessoas exatamente o que elas esperam, elas ficam satisfeitas, mas se você der algo que elas não sabiam que queriam, você cria uma memória.

Naquele instante não pude deixar de sorrir. A explicação de Miu, me remetia a filosofia sempre presente nas conversas que eu tinha com meu avô.

– Lena... – Minha irmã chamou minha atenção. – Você e Miu deveriam ir embora. Nós terminamos de organizar tudo para vocês. – Lingling ofereceu ajuda. 

Olhei para a mesa onde Engfa estava sentada completamente embriagada. Ao seu lado, Lookmhee, embora mais sóbria, ainda assim não me passava nenhuma credibilidade. 

– Vocês terminam? – A olhei em desafio.

– Lookmhee está fingindo que está bebada só para não ajudar. – Ling revirou os olhos. 

– Que absurdo! Vocês não me respeitam mesmo. – A mais nova franziu a testa e em seguida me olhou. – Anda logo! Leve Miu em casa, e depois vá descansar. Eu fico para ajudar. 

– Tem certeza? – Questionei com insegurança.

– Não pergunte de novo, se não eu mudo de ideia. – Mhee respondeu. 

– E o que vocês vão fazer com ela? – Miu disse se referindo a Engfa que sorria para o nada. 

– Elas vão dormir lá em casa essa noite. – Ling avisou.

– Ok! Acho que vou aceitar a ajuda. Estamos mesmo cansadas! 

Me livrei do avental, e indiquei que Miu fizesse o mesmo. E assim, não demorou muito para que estivéssemos no carro seguindo para sua casa. 

Quando chegamos, ela insistiu para que eu descesse um pouco. Sentamos no batente da casa observando a noite que estava bonita. Um contraste perfeito com o silêncio da rua.

– Quando eu era criança, gostava de olhar as estrelas. – Mencionei em meio ao sentimento de nostalgia.

– Só quando era criança?

– Eu ainda gosto. Mas lá na cidade elas parecem mais difíceis de surgirem. 

– Elas sempre estão no céu. Não seria você que não tem mais tempo para as coisas mais simples da vida? 

Desviei o olhar do céu por um segundo, sentindo uma pontada no peito. A capacidade de Miu de expor algumas verdades, sempre me pegava desprevenida.

– Desculpe! Eu não quero que você fique irritada por algo que eu disser. 

Sorri!

– Eu não estou. Na verdade, você tem um pouco de razão. Fazia muito tempo que eu não parava para prestar atenção em algumas coisas da vida. – Voltei a olhar para o céu estrelado. Era um cenário perfeito! – Sabe, meu avô dizia algo parecido com aquilo que você disse antes. 

– O que eu disse antes? – Miu parecia se esforçar para lembrar.

– A coisa sobre criar memórias. – Murmurei, voltando a olhar para ela. – Ele dizia que o festival era o único dia do ano, em que as pessoas vinham dispostas a engolir os próprios sentimentos disfarçados de açúcar. Hoje... quando a sr. Suda chorou comendo o doce que você criou, e disse que lembrou da juventude dela, eu entendi o que ele queria dizer. E entendi o que você quis dizer naquela noite que tudo estava dando errado.

Miu suavizou o olhar. A energia brincalhona deu lugar a uma seriedade acolhedora que eu ainda estava aprendendo a decifrar.– Sabe o que eu vi quando olhei para você enquanto a fila estava enorme? – Miu perguntou, com a voz baixa.

– O que foi? Que eu estava prestes a derrubar a bandeja de trufas? – Tentei brincar, sentindo as orelhas esquentarem.

– Não! Eu vi alguém que finalmente parecia estar no lugar certo. Você passou o dia inteiro concentrada e empenhada em fazer a coisas darem certo. Seus olhos brilhavam o tempo todo, sem aquela névoa de preocupação que você carrega desde que chegou. Hoje você não parecia uma escritora famosa fugindo do mundo, Lena. Você parecia apenas a Lena. E foi muito bonito de ver. Foi muito bom conhecer quem você é de verdade.

Meu coração deu um salto descompassado contra as costelas. Engoli em seco, a timidez travando em minha língua por alguns instantes. Ninguém me lia daquele jeito há muito tempo. Ninguém olhava além da fachada de "Lena Lalina".

– Minha vida estava muito barulhenta antes de eu voltar para cá, Miu. – Confessei, a voz quase como um sussurro, os dedos batucando nervosamente uns nos outros. – Eu esqueci como era a sensação de... apenas existir, sabe? Sem cobranças. Sem prazos. Sem pessoas esperando que eu seja extraordinária o tempo todo.

– Eu acho que sei! Também não sou tão diferente que você. 

Vi seu olhar vagar pelo o céu estralado, me despertando uma súbita curiosidade. Aliás, aquilo era algo que a algum tempo eu tinha vontade de perguntar, mas por não me me sentir próxima a Miu, acabava adiando. Mas naquele instante, eu me sentia a vontade ao seu lado.

– Sabe… Você conhece toda minha história. Mas eu sei pouco sobre você. Deveríamos mudar isso essa noite.

Um sorriso doce surgiu nos lábios da mulher sentada ao meu lado.

– O que você quer saber? – Ela sustentou meu olhar. 

– Tudo! – Respondi sem ao menos pensar muito sobre o que aquilo poderia significar.

Miu sorriu, e em seguida voltou a encarar o céu escuro, suspirou fundo, e o movimento de seus ombros pareceu carregar, por um breve segundo, o peso de uma vida inteira de silêncios.

– "Tudo" é uma palavra grande, Lena — Ela começou, a voz mantendo aquela doçura característica, mas agora com uma camada de melancolia que me fez querer segurar sua mão. — Mas, para entender quem eu sou hoje, você precisa saber que o açúcar que uso nas minhas receitas é o meu jeito de adoçar uma vida que nem sempre foi doce.

Ela voltou os olhos para mim, mas sua mente parecia estar longe, em um passado que ela tentou por muito tempo esquecer.

— Eu perdi minha mãe muito cedo. Não me lembro direito do rosto dela, apenas do cheiro de jasmim que dizem que ela usava. Meu pai tentou fazer o papel dos dois, ele era o meu mundo, meu porto seguro. Mas, quando ele se casou novamente, a casa que deveria ser um lar, virou um campo de batalha.

Senti um aperto no peito ao ver a forma como ela evitava encarar minhas mãos, focando em um ponto qualquer.

— Minha madrasta nunca me aceitou. Quando meu pai estava por perto, ela era a personificação da perfeição, a esposa devota. Mas, assim que ele virava as costas ou saía para trabalhar, a máscara caía. Eram castigos, palavras cruéis, o isolamento... ela fazia questão de que eu me sentisse um estorvo na vida dela. Durante anos, aprendi a me esconder dentro da minha própria casa.

Ela fez uma pausa, e o silêncio entre nós ficou denso, carregado de uma empatia que eu nunca soube que poderia sentir por alguém tão rapidamente.

— E então, há pouco tempo, a pior parte aconteceu. Perdi meu pai. — Sua voz falhou por um instante, mas ela se recuperou, erguendo o queixo. — Foi devastador. Mas, logo após o funeral, percebi que ela não estava ali apenas pelo luto. Em uma questão de dias, com burocracias que eu nem sabia que existiam, ela conseguiu tomar posse de tudo. A empresa que meu pai construiu, a casa que meu pai suou para manter... ela me tirou o chão, Lena. Ela me disse que eu não merecia nada. Mal sabe ela que tudo o que eu queria, já não estava mais ali.

Olhei para ela, chocada. A imagem da Miu doce, sorridente e cheia de vida que eu via todos os dias, agora parecia ainda mais heróica. Ela não era apenas uma confeiteira; ela era uma sobrevivente.

— Eu estava sozinha. Sem dinheiro, sem teto e sem esperança — Miu continuou, desta vez encontrando meu olhar e me oferecendo um sorriso triste. — Lembrei-me das conversas que meu pai tinha com um amigo de longa data, o seu Tio Arthit. Ele era o único homem em quem meu pai confiava de verdade, aquele que sempre dizia que, se algo acontecesse, eu poderia procurá-lo. Foi minha última cartada. Arrisquei tudo, fui até ele, contei a verdade e pedi uma chance para que ele me ajudasse recomeçar minha vida.

Ela respirou fundo, o ar da noite balançando uma mecha de seu cabelo.

— Ele não apenas me acolheu; ele me deu um novo começo. Me trouxe para cá, para esse vilarejo onde as pessoas olham para você não pelo que você possui, mas pelo que você tem no coração. Aqui, eu finalmente pude ser a Miu que sempre sonhei em ser, longe das sombras daquela mulher. A parte da confeitaria da sua família que estou tentando comprar, é com um dinheiro que papai guardava para mim no banco. É essa minha maneira de dizer ao mundo, e a ela, que eu construí algo que ninguém pode tirar de mim.

Fiquei sem fôlego. A história dela era um livro que eu jamais teria a criatividade de escrever, e, ao mesmo tempo, era a narrativa mais honesta que eu já tinha ouvido. Percebi que minha dor, o vazamento de um livro e o ego ferido por uma traição, pareciam tão pequenos, quase triviais, diante da resiliência que Miu demonstrava.

Sem pensar, e movida por um impulso que nem as minhas certezas sobre o amor poderiam conter, estendi a mão e cobri a dela.

— Miu... — Minha voz saiu embargada. — Você é muito mais forte do que imagina. E, se depender de mim, ninguém nunca mais vai te fazer sentir como se você não pertencesse a lugar nenhum. Especialmente agora que você encontrou o seu lugar aqui.

Ela sorriu verdadeiramente.

– Eu sou feliz aqui. Fui acolhida por todos, e sinto que aqui somos todos uma família. A família que nunca tive. 

O olhar de Miu caiu sob nossas mãos que permaneciam enlaçadas. 

Uma atmosfera diferente nos envolveu. Meu coração aqueceu, bateu mais forte, e meus olhos estavam presos aos dela como um magnetismo diferente. 

– Ah! Eu já ia esquecendo. 

Miu esticou a mão levando até o próprio bolso, me despertando curiosidade. De repente, Miu empurrou em minha direção um pequeno embrulho.  

– O que é isso?

– Guardei para você o último pedaço do doce que criei. Obrigada por me deixar dividir a cozinha da sua família com você. Mesmo eu sendo um "búfalo empacado" de vez em quando.

Não consegui conter o sorriso. O calor que se espalha pelo meu peito afasta qualquer resquício de ansiedade.

— Você é inacreditável. — Eu disse balançando a cabeça, mas aceitando de bom agrado o pedaço de doce, e ofereci a metade para Miu. — E você não é o búfalo raivoso, lembra? Esse papel você deu para mim.

— Ah, é verdade. — Miu pisca o olho, pegando a sua metade com os dedos e levando à boca, sorrindo com o canto dos lábios. — Mas eu tenho que confessar... você é uma búfala bem adorável quando quer.

Senti o rosto corar de verdade dessa vez, e desvie o olhar para a rua vazia, mas o sorriso permaneceu ali.

O calor da mão de Miu sob a minha parecia irradiar uma energia que percorria todo o meu braço, silenciando finalmente aquele turbilhão de inseguranças que costumava habitar minha mente.

Eu a observei enquanto ela absorvia minhas palavras. Seus olhos, que antes refletiam a melancolia de um passado de sombras, agora brilhavam com um reflexo diferente: uma mistura de vulnerabilidade e uma esperança crescente. Ela não afastou a mão. Pelo contrário, entrelaçou seus dedos aos meus, um gesto simples que soou como a confissão mais profunda que eu já tinha recebido.

— Você disse que queria saber tudo. — Ela sussurrou, o hálito doce com um leve toque de baunilha alcançando meu rosto. — Mas eu acho que não quero apenas que você saiba a minha história, Lena. Eu acho que quero que você faça parte dela.

O ar pareceu ficar mais denso. O céu estrelado acima de nós, vasto e indiferente aos dramas da terra, parecia conspirar a nosso favor, como se as constelações tivessem se alinhado apenas para testemunhar aquele momento. O silêncio que se seguiu não era mais o vazio que eu temia; era um convite.

Seu corpo ousou em encurtar um pouco mais da distância entre nós, e eu, movida por uma gravidade que eu não podia mais ignorar, fiz o mesmo. O tempo de ser a escritora que controla o roteiro parecia que havia acabado. Ali, não havia necessidade de metáforas, nem de rascunhos, nem de esconderijos. Eu queria apenas sentir a verdade daquele toque.

Quando me inclinei levemente, notei que a respiração de Miu se tornou um pouco mais curta. Ela não recuou, pelo contrário. Seus olhos se fecharam lentamente, e a confiança absoluta naquele gesto foi o estopim que derrubou os últimos muros que eu ainda insistia em manter erguidos.

Toquei seu rosto que se aproximava do meu sem encontrar qualquer resistência, e com a ponta dos dedos, sentindo a suavidade de sua pele, fiz um carinho tímido, e quando nossos lábios finalmente se encontraram, foi como se uma página em branco tivesse sido, finalmente, preenchida de uma maneira que eu não sabia ser possível.

O beijo começou cauteloso, como uma descoberta, uma pergunta silenciosa que encontrou a resposta perfeita. Era doce, profundo e carregado de tudo o que não tínhamos dito em palavras. Senti o coração de Miu bater contra o meu, ou talvez fosse o meu que batia contra o dela. Era um ritmo tão sincronizado que eu já não sabia onde ela terminava e eu começava. O mundo lá fora, com suas críticas, seus livros vazados e suas pressões, dissolveu-se por completo.

Abaixo do manto de estrelas, o beijo se aprofundou, carregando a promessa de um novo capítulo que eu nem sabia que estava sendo escrito. Era como se o destino me confundisse, dizendo que eu não precisava mais de um final perfeito planejado no papel. O que eu sentia ali, com Miu entre meus braços sob o brilho do cosmos, era muito mais real do que qualquer ficção que eu já tivesse criado.

Pela primeira vez em um tempo considerável da minha vida, eu não estava apenas existindo. Eu estava vivendo.


Fim do capítulo


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