Capitulo 9
Por Lena
Como o movimento estava fraco naquele dia, concordei com a ideia de Miu, e acabamos fechando a confeitaria mais cedo. A confeiteira me convenceu que queria organizar o estoque para não ter imprevistos nos próximos dias, já que queria focar sua concentração nos preparativos para o festival.
Confesso que embora tenha ficado animada com a ideia de participar da festividade cultural, ainda assim Miu não encontrou tanta resistência por minha parte, considerando que meus pensamentos estava, desordenados e um tanto quanto longe dali.
Enquanto Miu contava com ajuda de Lingling para deixar as coisas no estoque organizadas, fui para o escritório do papai. Eu queria relaxar minha mente, buscar reencontrar minha paz de espírito e tentar esquecer aquilo que me perturbada. No entanto, acabei cedendo a tentação e pela primeira vez em dias, entrei nas redes sociais.
Às vezes simplesmente não dar para explicar o que nos move. Mas o fato é que seja um sentimento, uma lembrança, ou um desejo, quando nos movemos na vida como peça de um tabuleiro, sempre vai restar uma consequência, e ali naquele instante em que eu me pegava olhando a foto de Thai ao lado da nova namorada, minha consequência foi ser lavada de volta ao dia que descobri sua traição. Ela estava sorridente ao lado da mulher elegante, e eu me pegava pensando se em algum momento o que tivemos significou algo para ela.
O brilho da tela do celular parecia zombar de mim. Com um toque, bloqueei o aparelho, mas a imagem de Thai, já estava gravada na minha retina como uma queimadura que insistia em arder. Joguei o telefone sobre a mesa de madeira polida do papai, e afundei o rosto nas mãos, sentindo o peso do silêncio ao meu redor.
Era irônico. Por muito tempo, lutei bravamente contra o ímpeto de checar qualquer coisa sobre ela, convencendo-me de que o vazio que eu sentia era apenas o alívio de ter me livrado de uma mentira que projetei em forma de amor. Mas, naquele momento, a realidade se impôs com uma crueldade silenciosa: a raiva que eu sentia não era o oposto do amor, como dizem por aí. Na verdade, me dei conta que ela era apenas o amor, distorcido e sem lugar para onde ir.
Levantei-me e caminhei até a janela, observando o movimento lento da rua através das persianas. Eu me perguntava se aquele sorriso de Thai na foto era real ou apenas uma máscara bem ensaiada, a mesma que ela usou comigo durante nosso relacionamento. Eu não sabia mais no que acreditar em relação a mulher com quem um dia compartilhei minha vida e doei meu coração.
"Por que ainda dói?", sussurrei para o vidro frio.
A confusão era o que mais me frustrava. Eu queria odiá-la, queria que a imagem dela me causasse apenas desprezo, mas por baixo da mágoa, eu começava ter receio de ainda haver uma nostalgia intrusa e indevida. Eu tinha a sensação de que estava errando comigo mesma, mas a verdade é que ainda me lembrava do nosso começo, o jeito que ela costumava entrelaçar seus dedos nos meus, da maneira como ela me olhava quando eu falava sobre banalidades… Era como se eu fosse a única coisa real em um mundo de incertezas. Era esse o meu tormento: eu sabia que ela me traiu, sabia que não merecia a minha lealdade, mas eu começava perceber que talvez o meu coração, teimoso e desprovido de lógica, parecia não ter recebido o memorando do término.
Eu odiava Thai por ter destruído nossa história, mas odiava ainda mais a parte de mim que, no fundo, desejava que tudo aquilo tivesse sido apenas um pesadelo e que eu pudesse acordar com ela na cama ao meu lado, fingindo que nunca houve uma "outra". Será que eu estava viciada na dor? Ou será que o amor que sentíamos era apenas uma peça que eu ainda não sabia como retirar do tabuleiro?
Ouvi passos abafados vindo do corredor. Era Miu ou Lingling, provavelmente terminando o trabalho. Rapidamente, limpei uma lágrima traiçoeira que insistia em cair e tentei ajustar a postura, fingindo que o meu único problema ali era a organização dos pedidos de amanhã. Eu precisava ser forte, para que, um dia, a imagem de Thai não fosse nada além de um borrão cinzento no meu passado, sem o poder de parar o meu mundo por nem mais um segundo.
A porta do escritório rangeu suavemente e eu pude sentir o calor tomar conta do meu corpo quando me senti observada em silêncio.
Eu não precisava me virar para saber quem estava ali. Mesmo sem pedir licença, o cheiro inconfundível de Miu já havia sido memorizado por meu cérebro. Isso não era algo comum, tão pouco algo que eu pudesse explicar.
– Eu posso sentir seus olhos em mim, Miu. – Eu disse sem virar em direção a porta.
– Desculpe! Eu não queria incomodar você.
Só então me virei para a recém chegada. Como o habitual, o Tom de Miu era calmo, assim como seu olhar era sereno. Algo capaz de aquecer até mesmo os mais gélidos dos corações.
– Você realmente não perde essa mania estranha de se desculpar por tudo e nada. – Ri sem qualquer humor.
Ela também deixou um breve sorriso escapar, e então me direcionou uma xícara.
– Sua irmã disse que você estava aqui. Eu trouxe isso para você. Ela disse que você gosta.
Ela se aproximou, depositando a caneca fumegante sobre a mesa, exatamente ao lado do celular bloqueado que eu havia jogado de qualquer jeito. Senti uma pontada de culpa, como se ela pudesse ler o histórico do meu navegador e ver exatamente o que eu tinha acabado de fazer, o que não fazia qualquer sentido, afinal de contas, nós não tínhamos absolutamente nenhum tipo de ligação que não estivesse relacionada com a confeitaria. Então por que aquilo me incomodou?
– Tome! – Ela insistiu, empurrando a cerâmica quente para mais perto das minhas mãos trêmulas. – É uma receita especial que desenvolvi uma vez durante a faculdade. Veja se gosta e se descobre o ingrediente surpresa.
Dei um sorriso fraco, sentindo o calor da caneca aquecer minhas palmas, mas não o suficiente para dissipar o gelo que ainda sentia no peito.
Tomei um gole da bebida permitindo que meus extintos vencesse o desafio lançado por Miu, mas eu tinha que admitir que ela era boa naquilo que fazia. A bebida estava realmente saborosa, e embora eu já tivesse experimentado muitos chocolates quente mundo a fora, aquela existia algo em especial que agradou meu paladar de uma maneira que facilmente se tornava a minha preferida.
– Você me pegou dessa vez. – Disse a olhando fixamente. – Vai me contar qual é o ingrediente?
Miu sorriu com uma timidez contida e respondeu em seguida:
– Um toque extra de canela. Dizem que cura desde resfriados até tristezas de coração. E, considerando o seu estado, acho que você precisa de uma dose dobrada.
Desde quando ela havia ficado tão boa em me ler daquele jeito?
– Estou tão óbvia assim? – Perguntei, evitando olhar nos olhos dela.
Miu puxou uma cadeira e sentou-se à minha frente, sem pressa.
– Lena, não nos conhecemos a muito tempo. Mas acho que eu já consigo saber quando a sua mente decide viajar para longe. Na verdade, desde que você chegou mais cedo hoje, percebi que algo não está bem. Quer falar sobre isso? Olha, eu juro sou boa ouvinte, e melhor ainda em guardar segredo.
O silêncio que se seguiu foi a minha resposta. Miu suspirou, um som carregado de compreensão, não de julgamento. Seguimos assim por algum tempo até que resolvi dizer:
– Por que você se importa tanto com meus problemas? São chatos e desconexos.
– Nada sobre você é chato. Você deveria ter mais fé em si mesma. – Ela respondeu e no mesmo instante senti meu peito palpitar de uma maneira desconhecida. – Vamos! Me diga o que está te atormento e eu vejo se consigo opinar como algo produtivo.
Incerta se estava prestes a fazer o certo, mas encorajada por Miu, fui sincera.
– Eu tenho uma ex.
– Hum! Que azar o dela. – Ela murmurou me fazendo a olhar para si. – Desculpe! Pode prosseguir.
Suspirei pesado sentindo o peso do meu coração começar se tornar incomodo. Tocar naquele assunto sempre me fazia sentir péssima.
– Ela me traiu. Eu peguei ela com outra mulher na cama.
Minhas palavras saíram quase sussurradas, mas ainda assim tenho certeza que Miu tinha ouvido perfeitamente. Por vergonha, não consegui olhar em seus olhos. Senti lágrimas começarem se formarem e rolarem por meu rosto sem pedir licença.
– Agora a pouco entrei no perfil dela, e vi uma foto dela ao lado da mulher com quem a peguei na cama. – Confessei, a voz saindo mais embargada do que eu pretendia. – Ela parecia tão feliz, tão leve. E eu só me perguntei por que, mesmo depois de tudo, depois de toda a mentira e da forma como ela me descartou, meu coração ainda insiste em procurar por respostas em cada lembrança. Ainda insiste em doer. Eu não quero viver minha vida sentindo falta dela.
Miu estendeu a mão e tocou a minha, interrompendo o movimento circular que eu fazia na borda da caneca.
– Você não sente falta dela, Lena. Não faz parte da sua personalidade amar alguém que não te merece. Você sente falta de quem você era quando estava com ela. Você sente falta daquela versão de você que ainda acreditava que o amor era uma linha reta, sem desvios. Você sente falta do que planejou e não aconteceu. Você é assim, metódica. Alguém que não consegue lidar bem ou compreender o acaso. E o que você está sentindo agora não é amor residual. É luto.
– Luto? – Repeti, franzindo a testa.
– Sim. Você está de luto por uma pessoa que não existe mais. A Thai da sua memória não é a Thai, que está naquela foto. Porque a Thai por quem você se apaixonou provavelmente foi uma manipulação, alguém que você acredita que teria te respeitado, teria sido honesta. Mas essa mulher que você viu na tela... ela é a verdadeira Thai, e o presente dela não inclui você.
Suas palavras cortaram fundo, mas, estranhamente, foram como um bálsamo.
– Às vezes me sinto patética. – Desabafei, finalmente permitindo que uma lágrima escorressem livremente. – Como se eu estivesse presa em um loop, condenada a voltar ao dia da traição sempre que alguém menciona o nome dela ou que eu vejo algo que me lembra nós duas.
– Não é patético, é humano. – Miu disse, levantando-se e contornando a mesa para colocar a mão em meu ombro. – Mas escute bem: Você é forte, é resiliente. Você provavelmente é a pessoa mais determinada que eu já conheci na minha vida. Você vai se reencontrar consigo mesma e vai se abrir para a vida novamente. O festival está chegando, o estoque da confeitaria está organizado e nós vamos organizar o cronograma de amanhã e, passo a passo, vamos substituir as memórias dolorosas por novas experiências. Você não precisa esquecer quem foi, Lena. Você só precisa parar de permitir que a memória de quem ela foi dite o que você merece ser amanhã.
Olhei para a caneca, o vapor subindo como uma névoa, e, pela primeira vez em horas daquele dia, o peso no meu peito parecia um pouquinho menor. Talvez Miu tivesse razão. Talvez eu só precisasse parar de olhar para trás para finalmente conseguir enxergar o que o futuro tinha guardado para mim.
A olhei e sorri com sinceridade.
– Obrigada, Miu.
– Estarei sempre aqui. – Ela também sorriu com um brilho lindo nos olhos.
Por Miu
No dia seguinte
O sol da manhã já entrava pelas frestas da persiana, desenhando linhas douradas no chão da cozinha, mas eu estava estagnada, observando o café coar sem realmente vê-lo. Minha mente, teimosa, insistia em repassar cada expressão de Lena na noite anterior. Aquela sombra em seus olhos, a maneira como ela segurava a caneca como se fosse a única coisa sólida em um mundo particular que desmoronava... aquilo me causava uma inquietação que eu não sabia nomear. Mas definitivamente não era pena. Pena é um sentimento que mantém distância; o que eu sentia por ela, era uma força magnética, uma vontade invasiva de ser o escudo contra qualquer coisa que a fizesse sentir-se pequena ou insuficiente.
A verdade, é que foi difícil pegar no sono na noite anterior. A conversa que tive com Lena tinha ficado povoando minha cabeça, e eu começava entender o que estava acontecendo com a escritora. O dilema em sua vida estava bem claro na verdade: A decepção amorosa recém vivida por Lena, estava afetando não apenas seu trabalho, mas também sua essência. Lena não estava projetando a própria história nos seus personagens como estava sendo acusada, mas alguém tão delicada como ela, ao viver tamanha decepção, simplesmente desacreditou no poder do amor, e como suas histórias tinham sua essência, ela simplesmente não conseguia mais escrever sobre aquilo que desacreditava. Talvez para Lena, soaria falso.
Poucas horas depois, eu já estava na confeitaria quando as duas irmãs chegaram. Tínhamos combinado que a partir daquele dia, teríamos atividades paralelas as produções da confeitaria. Sempre após o expediente, iríamos nos concentrar no festival.
Me peguei observando Lena. Aliás, estava sendo bem comum observá-la. Embora tivéssemos começado nossa convivência de uma maneira conflituosa, Lena não sabia, mas eu a admirava. Era uma admiração que ultrapassava as linhas das páginas que ela escrevia. Agora que eu a conhecia de uma maneira bem além daquilo que ela se mostrava ser por meio da mídia, eu admirava por quem ela era de verdade. Eu também me pegava pensando nela com uma frequência que ultrapassava os limites das paredes da confeitaria. Quando ela entrava ali, meu pulso mudava o ritmo, quase como se o ambiente ganhasse uma nova frequência. Era um desconforto doce, uma agitação que me fazia checar o avental duas vezes, preocupada se estava apresentável o suficiente para o seu olhar. Eu não gostava da ideia de decepciona-la de alguma maneira.
Por que isso agora? Eu me perguntava, enquanto servia um copo de água para mim mesma. Talvez fosse o jeito como ela se perdia em seus próprios pensamentos, uma distração que eu achava tragicamente fascinante. Ou talvez fosse a forma como a sensibilidade dela, mesmo ferida, ainda conseguia emanar uma beleza rara em seu olhar. Eu a via tentando esconder a dor, tentando fingir que a essência de suas histórias não estava se esvaindo junto com sua fé no amor, e eu me sentia uma cúmplice silenciosa, querendo segurar a mão dela e dizer que, se ela não conseguia mais acreditar no amor agora, eu poderia manter essa chama acesa até que ela se sentisse pronta para vê-la novamente. Porque eu sim sou sonhadora quando se trata de sentimentos.
Mas o que era esse "eu"? Por que meu coração parecia tão acelerado só de imaginar o sorriso dela voltando, genuíno, sem aquela melancolia impregnada?
Eu não sabia definir. Eu só sabia que, quando Lena estava por perto, o restante do mundo – As produções de doce, minha nova moradia, o festival, as encomendas, o estoque – Tudo isso parecia ganhar um brilho diferente, uma importância secundária. Era como se a minha vida, até então pautada por minha nova rotina morando no vilarejo e administrando a confeitaria, tivesse acabado de ganhar um elemento novo, um ingrediente que eu não reconhecia na receita, mas que eu não queria de jeito nenhum remover da mistura.
Alheia aos meus pensamentos, Lena encostou na bancada mantendo a concentração no antigo livro de receita do avô, e eu só consegui observar que seus cabelos estavam um pouco presos de qualquer jeito deixando-a com um ar doce e delicado, e meu coração deu aquele solavanco familiar. Ela não me viu de imediato, e naquele breve segundo de observação, eu senti algo que me assustou: uma necessidade absoluta de vê-la inteira. Não pela sua literatura, não pelos seus leitores, mas por ela. Por mim.
Eu estava começando a entender que o que eu sentia por Lena não era algo que eu poderia organizar em uma prateleira de estoque, e essa percepção, embora assustadora, era a única coisa verdadeira que eu sentia em muito tempo.
O tilintar de uma colher de metal batendo contra a borda de uma forma interrompeu meus pensamentos. Dei um sobressalto, quase derrubando o copo que segurava. Ao me virar, dei de cara com Lingling, que me observava com os braços cruzados e um meio sorriso que, naquele momento, me pareceu perigosamente perspicaz.
– Você está encarando a Lena há tempo demais, Miu – Lingling disse, sem rodeios, enquanto caminhava até a bancada ao lado da minha. – Se continuar assim, vai acabar queimando a produção de bolos ou, pior, revelando o que está escrito na sua testa.
Senti meu rosto arder imediatamente. Tentei disfarçar, voltando a atenção para a forma de bolo que ela havia entregado como se fosse o objeto mais interessante do mundo.
– Eu não estou encarando ninguém, Ling. Só estava... pensando.
Lingling soltou uma risada baixa e negou com a cabeça, pegando um pano de prato para secar algumas formas.
– "Amiga atenciosa". Sei! Desde quando "amigas atenciosas" esquecem de colocar açúcar na massa de bolo porque estão ocupadas demais admirando a maneira como a outra pessoa franze a testa quando está lendo?
O silêncio que se instalou foi pesado, mas não opressor. Eu já sabia que, com Lingling, não adiantava sustentar máscaras. Ela era muito atrevidamente perspicaz.
– Você pode ficar quieta sobre isso, Ling? Pelo menos por enquanto. – Sussurrei, finalmente cedendo, enquanto observava Lena caminhar até o balcão principal, ainda alheia à nossa conversa.
– Hum! Eu não sei. – Ela respondeu em tom de deboche. – Defina o que exatamente seria isso, e então posso pensar no seu caso.
Estreitei os olhos. Eu me sentia claramente desafiada.
– Por que você é tão encrenqueira quanto sua prima? Isso deve ser coisa da genética. – Murmurei contrariada e ela sorriu com divertimento.
– Pode acreditar que minha prima vai adorar saber da fofoca.
Ela ameaçou me fazendo estremecer com a possibilidade de Lookmhee saber daquela conversa.
– Ei, não seja cruel. Sua prima sabe como me constranger.
Ling sorriu claramente se divertindo do meu desespero.
– Vamos lá! Me diga o que é isso que estou vendo no seu olhar enquanto fica encarando minha irmã.
Sem opções, tive que ceder a mais nova.
– É confuso! Na verdade, é estranho. Nos conhecemos a pouco tempo, mas sinto que preciso protegê-la, que quero tirar aquele peso dos ombros dela... mas, às vezes, sinto uma vontade egoísta de ser o motivo pelo qual ela volta a sorrir. Isso é normal? Eu só posso estar ficando louca.
Lingling parou o que estava fazendo e me encarou com uma seriedade que me pegou de surpresa, afinal de contas, a irmã mais nova já havia demonstrado que falar sério não era sua principal característica. Ela se aproximou, baixando o tom de voz.
– Miu, você parece ser o tipo de pessoa que organiza a vida de todo mundo. Você cuida do estoque, dos pedidos, da confeitaria. Mas o que você está sentindo pela Lena, não é uma tarefa administrativa. É sentimento. E sentimentos não seguem o manual de instruções da confeitaria. Você vai ter que entender a si mesma, e depois vai ter que lutar pelo o que quer.
– E se for um erro? – Perguntei, sentindo um nó na garganta. – Ela está passando por um luto, com o coração partido... ela não precisa de mais complicações.
– E quem disse que você é uma complicação? – Lingling deu um tapinha leve no meu ombro. – Talvez você seja exatamente o que ela precisa. Não como uma salvação, mas como um refúgio. Só tome cuidado com uma coisa: não se perca no processo de tentar salvá-la. Deixe que ela te conheça também. Não seja apenas a confeiteira que cuida dela, seja a Miu. E, honestamente? Se você continuar escondendo isso, vai acabar sofrendo mais do que ela. O amor não é um estoque que a gente organiza, Miu. É algo que a gente deixa acontecer. Faça minha irmã deixar acontecer.
Ela me deu uma piscadela e se afastou, voltando a organizar os ingredientes que separamos para criar a receita que seria produzida para o festival.
Fiquei ali, imóvel, sentindo as palavras de Lingling ecoarem na mente. Olhei para Lena novamente. Ela havia parado olhando para as flores na bancada, e, por um segundo, seus olhos encontraram os meus. Eu não desviei o olhar. E, pela primeira vez, não senti a necessidade de me esconder atrás de uma tarefa.
– Menina, vou precisar deixar essa tarefa com vocês. – Lingling de repente anunciou.
– Assim, do nada? O que aconteceu? É alguma coisa com o papai? – Lena apressou-se em entender.
– Não! Eu só… preciso ver uma coisa.
– Essa coisa não tem explicação, Ling? – A mais velha seguiu insistindo.
– A Lookmhee me ligou pedindo ajuda. Preciso ir, agora. É urgente!
Antes mesmo que seguisse sendo questionada, Lingling sumiu nos deixando a sós.
– Hum! Ela está aprontando alguma coisa. Era exatamente assim quando éramos crianças, sabia?
Eu também havia estranhado a repetida mudança de Lingling. Mas não queria alimentar ainda mais a desconfiança da irmã mais velha.
– Não quero imaginar como era ela e sua prima quando criança. – Murmurei e Lena sorriu.
– Se eu te contar, você fica com medo da minha família. É melhor não saber mesmo. – Ela se aproximou. – Eu estava olhando as receitas do vovô. Mas confesso que eu não sei o que criar para o festival. – Lena parecia frustrada. – Não sei se esse bolo cristalizado de frutas cítricas é o bastante para o que precisamos.
– Bem, não vamos saber se não tentarmos, né? Vamos começar?
– Vamos!
Nós duas sorrimos! Estávamos convictas na confiança depositada no trabalho uma da outra. Contudo, embora empenhada na tarefa, eu senti que Lena não estava cem por cento ali.
…
– Inferno!
O barulho de uma espátula sendo jogada sobre a bancada, ecoou. De repente a cozinha mergulhou em um silêncio denso, pontuado apenas pelo zumbido baixo da geladeira e o som rítmico das nossas respirações. O relógio na parede marcava quase duas da manhã. O aroma cítrico, que deveria ser refrescante, agora parecia pairar pesado no ar, impregnado pelo cheiro de açúcar queimado que emanava do forno.
Lena abriu a porta do forno, e a fumaça escapou, revelando mais uma tentativa frustrada: o bolo, que deveria ter uma textura delicada e cristalizada, estava novamente colapsado no centro, com as bordas queimadas em um tom escuro nada promissor.
Ela soltou um suspiro profundo, um som que carregava todo o peso daquela noite. Seus ombros caíram, e ela fechou a porta do forno com um baque seco, apoiando a testa na madeira fria da bancada.
– De novo! Erramos de novo! – Ela esbravejou com a voz trêmula de exaustão, e um cintilante de pura raiva. – O vovô fazia isso parecer tão simples. Eu sou uma fraude, Miu. Acho que papai tem razão quando diz que não poderia contar comigo. Como posso honrar o legado da família se não consigo nem acertar a temperatura de um simples bolo cítrico?
Vi as mãos dela se fecharem em punhos sobre a bancada. A frustração era um campo elétrico entre nós. Levantei-me, deixando de lado a espátula, e me aproximei. O espaço entre nós, que antes era preenchido por uma distância profissional, agora parecia menor, mais íntimo.
– Ei! – Chamei-a suavemente, colocando uma das mãos sobre o ombro dela. O toque parecia eletrizante, e ela se encolheu levemente sob meu contato, mas não se afastou. – Respira, Lena. A cozinha não é um tribunal. Tenho certeza que seu avô não queria que você fosse uma máquina de replicar receitas. Ele ficaria feliz em apenas vê-la ter a coragem de tentar. Errar faz parte da alquimia. Além disso, você não deveria se culpar tanto. Você não errou sozinha. Erramos juntas!
Com gestos lentos, fui até o fogão e acendi a chaleira. Preparei um chá de camomila com um toque de mel e gotas de limão fresco. Era uma infusão que aprendi a preparar para acalmar os ânimos em momentos de crise. Quando a xícara fumegante esteve pronta, deslizei-a para as mãos de Lena.
Ela aceitou a xícara, suas mãos encontrando o calor da cerâmica. Seus olhos, antes focados na falha técnica do bolo, encontraram os meus. Eles brilhavam sob a luz suave da cozinha, cheios de uma vulnerabilidade que ela raramente permitia que fosse vista por mim. Lena estava crua naquele momento, e eu poderia considerar aquilo como uma pontada de confiança estabelecida entre nós.
– Obrigada! – Ela disse, baixo, enquanto bebia um gole. A tensão em seus ombros começou a se dissipar, milímetro a milímetro. – Eu sinto muito por ter te arrastado até aqui, a essas horas. Você não precisava…
– Mas eu queria estar aqui. – Interrompi, a voz saindo mais firme do que eu esperava.
Fui até a travessa do primeiro bolo que havia dado errado. Aquele primeiro não tinha queimado, mas também não conseguimos acertar o ponto para cristalizar como era esperado.
Parti um pedaço do bolo e mastiguei sob o olhar atento e curioso de Lena.
– Hum… Bom! Muito bom.
– Muito bom? – Um sorriso frustrado escapou dos seus lábios. – Ele deu errado, Miu. Como pode estar bom?
– Nem tudo precisa de perfeição, Lena. Estamos frustradas, é verdade. Mas podemos nos apegar aos acertos. Não cristalizou, mas o sabor tá bom. Experimenta!
Dei para ela o pedaço que eu tinha nas mãos. Mesmo incerta, Lena o pegou e levou até a boca. Fiquei ali observando suas expressões que variaram entre frustração e boa aceitação.
– Hum! Até que está comestível.
Ri! Lena sabia mesmo como ser agradavelmente teimosa.
Sentei na bancada da cozinha. Eu gostava daquela sensação de podermos conversar sobre qualquer coisa.
– Eu ainda sinto que estamos errando na escolha. Esse parece ser um bolo simples. O que tornaria ele agradável aos olhos do clientes?
– Às vezes o simples é de fato o que encanta. – Respondi sem tirar os olhos de Lena.
Dava para perceber que Lena era uma mulher intensa, talvez por isso estava tão frustrada com a tentativa que havia dado errada. Ela gostava da perfeição, mas gostava especialmente de agradar as pessoas, e não a si mesma. Ela se importa mais com o que pensavam ou dizia, do que com aquilo que fazia bem a si.
– Papai disse que para o festival, o vilarejo não quer um menu comum. A diversão está justamente nas surpresas proporcionadas pela noite. Nas possibilidades, entende?
– Hum! Sabe o que eu entendo?
Desci da bancada e me aproximei um pouco mais, o suficiente para sentir o perfume suave do seu xampu misturado ao aroma de limão. O silêncio que se instalou não era mais opressor; era carregado de uma eletricidade diferente, uma promessa desconhecida que pairava no ar. Lena largou a xícara sobre a mesa e, por um instante, o tempo pareceu suspender sua marcha.
– Você tá sobrecarregada. Dessa vez você não está se divertindo com o processo, mas está usando o festival como um escape para fugir dos seus problemas. E para piorar, fica se auto-criticando, para justificar o porque tem vivido uma fase ruim. Você precisa relevar, Lena. É apenas ser você mesma. Para de pensar tanto nas coisas e apenas viva um dia de cada vez.
Seus olhos desceram para a minha boca e depois voltaram para os meus, com uma intensidade que me fez perder o fôlego. O cansaço de Lena parecia ter sido substituído por um enigma incompreendido.
– Você tem um jeito… – Ela começou, a voz falhando enquanto ela dava um passo em minha direção, reduzindo a pouca distância que nos restava. – Um jeito de fazer tudo parecer menos difícil. Até mesmo as minhas falhas.
– Eu acredito que você é capaz de conseguir tudo o que você quiser conquistar. Mas e você, acredita em si mesma?
Estendi a mão, afastando uma mecha de cabelo que caía sobre seu rosto, meus dedos roçando suavemente em sua bochecha. A pele dela estava quente, e vi quando Lena fechou os olhos, inclinando levemente o rosto contra a minha mão, um gesto de confiança absoluta que fez meu coração acelerar. Naquela cozinha silenciosa, entre receitas fracassadas e o cansaço da madrugada, o bolo cristalizado já não importava mais; o que importava era o magnetismo que nos aproximava.
– Vamos fazer mais uma tentativa. – Lena disse, dessa vez com mais segurança.
– É assim que gosto de ver. – Sorri com animação. – Mas tenho uma proposta.
– Qual?
– Você lembra quando me disse que seu avô costumava comparar cada doce, com um sentimento? Pois bem! Não vamos criar qualquer doce. Vamos criar o “doce do sentimento”. Vamos deixar que o que estamos sentindo essa noite nos guie e seja o principal ingrediente, assim como seu avô dizia.
– Mas como você mesma disse, e se o que estou sentindo for exatamente o que está nos atrapalhando?
– Então me deixe estar ao seu lado. – Segurei delicadamente em sua mão e a olhei fixamente. – Esqueça o mundo lá fora, e me deixe despertar novos sentimentos em você.
Lena sequer piscava os olhos. De repente senti seu polegar tocar suavemente o canto da minha boca.
– Estava sujo aqui. – Suas bochechas coraram. – Ok, senhorita confeiteira. Essa noite estou por sua conta.
Por narrador
Lena e Miu não haviam se dado conta que fazia algum tempo que estavam sendo observadas por Lingling, que mantinha um singelo sorriso nos lábios. A irmã mais nova parecia satisfeita por enxergar algo que sua irmã, por estar tão saturada e machucada, sequer conseguia perceber. Embora seu coração ainda doesse, quando estava ao lado de Miu, pouco a pouco surgia relâmpagos da Lena feliz que todos conheciam.
Ali, escorada na porta, Ling observou como de repente o clima da cozinha tornou-se leve. Miu e Lena pareciam duas crianças arteiras quando iniciaram uma guerra de farinha. O sorriso estampado no rosto de Lena, estava longe de deixá-la parecida com a mulher fria que vinha habitando a essência do ser de Lena.
Lingling resolveu se afastar antes de ser vista. Preocupado, seu pai havia mandado ela ir até a confeitaria ver o porque Lena havia decidido passar a noite inteira no local. Mesmo sabendo que aquele comportamento era algo muito semelhante ao o comportamento do avô de Lena, que no passado já havia passado várias noites na cozinha da confeitaria. Mas ela se certificaria de garantir ao Sr. Jett que Lena jamais esteve tão bem como naquela noite.
A mais nova caminhou silenciosamente pelo corredor, os passos amortecidos pelo piso de madeira, enquanto os sons abafados de risadas e o farfalhar frenético de sacos de farinha ecoavam atrás dela. Ao chegar à saída, parou por um instante, olhando para trás uma última vez. A cena que guardara na memória – Lena, com o rosto sujo de pó branco, os olhos brilhando com uma vivacidade que ela temia ter desaparecido para sempre – Era o antídoto perfeito para a angústia que pesava em seu coração.
Ao atravessar a porta da frente, o ar noturno de julho, levemente fresco, bateu contra o seu rosto, trazendo um pouco mais de clareza aos seus pensamentos. O caminho de volta para casa parecia mais curto do que a ida. O peso da preocupação que carregava nos ombros dera lugar a uma estranha tranquilidade.
Quando chegou à residência dos pais, encontrou o pai na varanda, andando de um lado para o outro. O Sr. Jett parou assim que avistou a filha, sua expressão oscilando entre a exaustão e o medo.
– E então? – Perguntou ele, a voz baixa, quase um sussurro rouco. – Ela está doente? Está escondendo algo? Você sabe como o avô de vocês ficava quando perdia o sono… Não quero que ela se perca da mesma forma.
Lingling sentiu um aperto no peito, mas, desta vez, não era por tristeza. Ela caminhou até o pai e segurou gentilmente seus braços, forçando-o a parar de andar. O sorriso de Lingling era genuíno, transmitindo uma paz que parecia apagar, instantaneamente, as linhas de tensão na testa do homem.
– Pode descansar, papai. – Disse ela, com a voz firme e reconfortante. – A Lena não está fugindo de nada. Pela primeira vez em meses, ela está apenas… vivendo.
O Sr. Jett franziu a testa, confuso.
– Sozinha? A essa hora? Isso é contraditório.
– Não está sozinha. – Lingling respondeu, sentindo uma pontada de alegria ao imaginar a cena que deixara para trás. – Miu também está lá. E se você visse a forma como a Lena sorri quando está com ela, entenderia que, às vezes, o melhor lugar para encontrar a cura não é no silêncio do repouso, mas na bagunça de alguém que nos faz sentir inteiras novamente.
O pai a observou por alguns segundos, processando as palavras. O alívio começou a tomar conta de sua postura, os ombros caindo enquanto um suspiro longo escapava de seus pulmões, mas ainda não conseguia compreender o que Miu poderia ter haver com aquilo.
– Se você diz… – Ele murmurou, olhando em uma direção da vaga. – Então, acho que posso finalmente dormir um pouco.
Lingling assentiu, vendo o pai entrar em casa. Ela permaneceu ali mais alguns instantes, olhando para as estrelas. Sabia que o caminho de Lena ainda seria longo, que cicatrizes não desapareciam da noite para o dia, mas a semente de algo novo havia sido plantada naquela cozinha caótica. Enquanto entrava em casa, Lingling apenas desejava que, ao amanhecer, o sol não trouxesse apenas um novo dia, mas a confirmação de que aquela versão luminosa de sua irmã tinha vindo para ficar.
Fim do capítulo
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