Capitulo 7
Por Lena
No fim de semana
– Você vai me apresentar a ela, não vai? Por favor, Lena. Lookmhee disse que minha futura cunhada é linda, muito inteligente, e muito esforçada também.
Olhei de relance para Ling que estava sentada no banco ao meu lado enquanto eu dirigia para o endereço que Miu havia me passado depois de muita relutância. Por alguma razão, definitivamente ela estava assustada com a possibilidade de estar diante das minhas primas e minha irmã. Como eu sabia disso? Bastava mencionar o nome de qualquer uma delas, para Miu se atrapalhar em qualquer coisa que estivesse fazendo ou deixar cair algo das suas mãos. E como eu era uma pessoa muito observadora, eu logo percebi que o “problema” eram as três. Mas como eu poderia julgá-la? Se eu estivesse no lugar dela, também ficaria assustada com aquela família de loucas. Se Miu soubesse que após aquele encontro confuso na cozinha da confeitaria Lookmhee havia ligado para Ling enchendo a cabeça da outra louca de insanidades, provavelmente ela teria uma crise de pânico.
– Eu já te disse para esquecer as loucuras que Lookmhee te falou. Ela interpretou tudo errado. A coisa nem aconteceu assim com esse requinte de exagero. – Repreendi a mais nova. – Isso não tem fundamentos, Ling.
– Por que não?
– Eu poderia listar muitos motivos, mas vou resumir pra ver se você para de encher minha paciência. Eu não quero me relacionar com ninguém. Simples assim! E se quer saber, nós nem nos damos bem. Eu nunca pensei nessa mulher dessa maneira. Então, esqueça! Isso não tem a menor possibilidade de acontecer.
Por que diabos Lookmhee tinha tido aquela ideia ridícula que entre Miu e eu, estava acontecendo algo? Como se não bastasse os problemas que eu já tinha, agora ainda teria que lidar com ela e Ling elaborando teorias no mínimo ridículas. Mas eu sabia que isso iria acontecer. Eu vi o exato momento que o olhar de Lookmhee cintilou naquele dia, e vi também sua expressão mudar para algo meio travesso. Ela certamente entendeu errado a aproximação entre Miu e eu, o que só de lembrar me fazia desejar estapear a testa de Miu. Onde já se viu se aproximar daquele jeito sem qualquer aviso prévio?
– Mas você não pode negar que de alguma maneira, vocês tem se aproximado.
– Lógico! Papai me deu a missão de ensiná-la durante esses dias que ele tirou para melhorar das fortes dores nas costas.
– Há, claro.
– Tá duvidando? – A olhei feio.
– Eu? Imagina! É coisa da minha cabeça achar que você ficou extremamente encantada por ela ter reparado na mudança do corte e cor do seu cabelo.
– Eu não fiquei cantada. – Rapidamente quis me defender. – Eu só fiquei surpresa, afinal de contas, ela foi a única pessoa que notou. Nem mesmo você que é minha irmã havia notado antes.
– Oh, que bonitinho. Será que ela sabe que você é o tipo de pessoa romântica que se impressiona e se apaixona por detalhes?
De relance, vi um sorriso surgir nos lábios de Lingling. Eu sabia exatamente o que aquilo significava… Ela não estava me levando a sério.
– Ling, é sério. Não faça disse um problema. Eu já estou tendo que me esforçar para não odiá-la por estar levando aquilo que vovô nos deixou.
– Hum! Tudo bem, pode ficar tranquila. Eu não vou dizer nada, ok? Sobre essa coisa da confeitaria, pelo menos você está vendo possibilidades positivas?
Pensei um pouco a respeito. Não dava para negar que Miu havia sim me surpreendido positivamente nos últimos dias, não apenas nas suas técnicas de receitas, mas também em seu comprometimento em aprender administrar a confeitaria conforme nossos costumes. Eu até tinha observado nos últimos dias, que o movimento dos clientes estava até que bem, ou seja, estavam sendo receptivos as mudanças.
– Digamos que embora ela seja um pouco atrapalhada, e seja péssima com as contas, ainda assim ela tem lá suas habilidades.
– Nossa! Esse rodeio todo apenas para não dar o braço a torcer e reconhecer que ela tem talento? Papai disse que ela é ótima na cozinha.
– Papai é um aventureiro. Além disso, ela ainda não fez nenhum grande feito para ganhar minha admiração dessa maneira.
Eu podia sentir o olhar da minha irmã pesando em mim.
– Lena, você está se tornando uma velha rabugenta. Você não é assim. O que tá acontecendo com você?
Que tipo de pergunta era aquela? Ela não sabia o que estava acontecendo comigo? Era simplesmente meu mundo inteiro virando do avesso. Tudo o que até então eu tinha como certo, estava mudando de um dia para o outro. De repente, eu estava assistindo minha vida inteira se transformar e nada estava acontecendo conforme planejado. Acho que isso era o que estava me levando a um nível de estresse quase que absoluto.
– Chegamos! – Disse para ela, evitando prosseguir com aquele assunto. – Por favor, Ling. comporte-se!
– Ei, não fale como se eu fosse uma desequilibrada.
Desci do carro fechando a porta atrás de mim, e não demorou muito para que minha irmã estivesse sorridente ao meu lado. Quem a olhasse e não conhecesse, certamente pensaria que ela era alguma criança prestes a ganhar um doce.
Olhei em volta buscando reconhecer o pode estávamos. Não era uma rua central, mas assim como esperado, as casas em volta pareciam ser projetadas com conforto. Assim como as demais casas de todo o vilarejo, a casa de Miu também trazia aquele aspecto rústico, porém aconchegante que eu tanto gostava. Estava longe de ser como os prédios luxuosos da cidade grande, e talvez fosse exatamente esse o encanto daquele lugar.
– Boa noite! – Miu disse após abrir a porta.
Estava claro que ela estava envergonhada diante da minha irmã.
– Boa noite! – Lingling e eu respondemos juntas. – Você está pronta? – Perguntei sem mostrar grande animação.
– Eu vou só buscar o casaco. Vocês querem entrar para esperar? – Ofereceu com educação.
– Sim!
– Não!
Lingling e eu, respondemos simultaneamente.
Visivelmente confusa, Miu piscou os olhos algumas vezes, enquanto Ling me deu uma cotovelada.
– Ai! O que foi? – Perguntei alisando o lugar dolorido.
– Não vai me apresentar? – Ling sussurrou, mas claro que Miu também a ouvia.
Revirei os olhos com impaciência. Por que minha irmã tinha mesmo que ter herdado certas características de Lookmhee?
– Miu, essa é minha irmã mais nova, Lingling. – Contrariada, me rendi as insistências de Ling. – Irmã, essa é Miu. A nova sócia do papai.
– É um prazer conhecê-lá, senhorita Lingling. – Disse Miu após juntar as mãos e cumprimentar minha irmã com formalidade.
Ling presenteou Miu com o seu sorriso mais cativante. Eu não conseguia entender aquela animação toda, mas não era como se eu já não fosse acostumada com as loucuras da mais nova.
– Eu que fico feliz em te conhecer, Miu. E por favor, nada de formalidades comigo. – Sem qualquer constrangimento, Ling puxou a outra para um abraço.
Espantada com aquela espontaneidade, Miu me olhou com os olhos arregalados por cima do ombro da minha irmã.
– Solta ela, Ling. Que falta de educação, é essa? Você nem sabe se ela gosta de abraços. – Sussurrei as últimas palavras.
– Não se preocupe! Tá tudo bem. – Miu nos tranquilizou. – Por favor, entrem. Prometo que não vou demorar.
Seguimos a dona da casa, e quando pensei que o comportamento da minha irmã não podia piorar, ela mostrou que tudo é uma questão de perspectiva.
– Eu estava realmente ansiosa para te conhecer, sabia? Lena vive falando de você.
Tenho certeza que corei violentamente. Olhei alarmada para Ling, que sorriu descaradamente para mim, com aquele jeito travesso que só ela era capaz de ter.
– Ling! – A repreendi.
– O quê?
– O que ela vai pensar desse jeito?
Minha irmã deu de ombros como se aquilo fosse uma bobagem. Por sua vez, Miu parecia ter esquecido a timidez por um instante quando manteve seu olhar desafiador em mim.
– Espero que tenha falado coisas boas. Acho que sua irmã não é minha maior fã. – Ela disse em um tom claro de zombaria.
– Ah, imagina! Essa casca grossa, é apenas uma autodefesa ridícula. Mas acredite, ela é adorável. Ficou mesmo foi encantada por você ter prestado atenção na mudança do cabelo dela.
Linguaruda! Eu queria esganar Lingling. Mas estava mais preocupada em disfarçar a vermelhidão que tomou conta do meu rosto, especialmente quando vi um sorriso ser desenhado pelos lábios rosados de Miu.
Aquela aproximação de Miu com minha família, sem dúvidas me colocaria em situações constrangedoras.
Mais tarde
– Uau! Isso parece mesmo incrível. – Miu disse observando tudo em nossa volta.
– Você nunca foi em uma festa assim? – Minha irmã questionou com curiosidade.
– Na verdade, não. Minha família era muito tradicional. As festas que costumávamos frequentar eram aquele tipo de festa chata onde gente rica se encontram para serem esnobes. Os convidados claramente só se fazem presentes por interesses próprios.
– Quer dizer que sua família é dona de posses e vivem no mundo dos grandes negócios?
Confesso que a curiosidade de Ling era a mesma que a minha. Me dei conta que até então eu não sabia nada da vida de Miu. Por outro lado, era visível que falar sobre sua família não era seu assunto preferido, no entanto, ainda assim ela respondeu com educação.
– Digamos que é tipo isso. Mas nesse quesito, não é como se vocês fossem tão diferentes, né? Quer dizer, papai conheceu e tornou-se amigo do seu tio Tawan, justamente através dos negócios.
– Bem, para ser honesta no geral nossa família tem algumas posses. Tudo herança que vovô deixou para os três filhos. Eles souberam aprimorar bem essa questão. – Ling respondeu com naturalidade. – Isso quer dizer que somos chatos?
Minha irmã observou Miu com um misto de desafio e divertimento. E embora estivesse um pouco mais a vontade com a presença de Ling, ainda assim ela corou.
– Não me entenda mal, por favor. Na verdade, vocês não fazem nenhum pouco o estilo de empresários que costumavam frequentar aquela casa. Acho que foi por isso que busquei ajuda com seu tio. Senti que ele era diferente. Eu acho que gosto do estilo de vida que vocês têm.
– Fico feliz! Não é o que temos que nos define. Com um tempo você vai perceber que para nós o que vale mesmo a pena, é a união que nos envolve. E acredite, quem está ao nosso lado, se for uma boa pessoa, também se torna parte da nossa família sem enfrentar nenhum obstáculo.
Encarei Ling erguendo a sobrancelha. Eu conhecia minha irmã o suficiente para saber o que ela quis dizer com aquilo.
De repente não foi os sons dos instrumentos ou das pessoas dançando animadamente, que despertou nossa atenção. Mas sim, o grito exagerado seguido por risadas altas e inconfundíveis que me fez congelar.
– Lenaaaa, querida. Linda do meu coração…
– Ah, não! Ling, por favor me salva.
Eu nem tive tempo para suplicar um pouco mais. De repente tive meu corpo envolvido pelos braços de Lookmhee que chegou escandalosamente gritando por meu nome enquanto me forçava aceitar seus beijos molhados em meu rosto.
– Senti tanto sua falta, prima adorada. – A mais nova disse fazendo drama. – Aposto que você está muito feliz em ver a prima que você mais ama.
– Pare com isso, Lookmhee. Por que você precisa ser assim tão grudenta? Vá, beijar a Lingling.
– Não! Eu não! Estou bem assim.
Ling rapidamente se escondeu atrás de Engfa, que embora permanecesse com sua postura sempre elegante, tinha no olhar um brilho denunciando que mesmo sendo a mais séria, ainda assim existia um lado malicioso que sabia exatamente como conduzir qualquer situação a seu favor. Isso ficou ainda mais claro quando ela mostrou estar carregando duas garrafas de vinho.
– Nós vamos garantir que esse encontro não seja um tédio absoluto – Engfa declarou, ignorando completamente minha expressão de desespero. – Ela lançou um olhar avaliador em direção a Miu, antes de sorrir de forma cúmplice para Ling. – Então, já conheceu a Miu, prima? Ela não é adorável?
– Realmente aprovada. – Ling bateu palmas com animação.
– Vocês três poderiam ser menos esquisitas? Nós temos visita! O que Miu vai pensar de nós se toda vez que nos ver você causa um caos.
Consegui atrair a atenção da minha prima mais nova. Mas confesso que já não sabia o que era pior. Talvez seus abraços fossem menos perigosos do que a expressão que vi surgir em seu rosto quando seu olhar encontrou o de Miu.
– Oh, então você trouxe mesmo a nam… – Antes que Lookmhee terminasse, a olhei de maneira assassina, o que a fez encolher e provocar os risos de Ling. – A Miu, eu ia dizer. – Ela voltou a encarar a convidada. – Fico feliz e te ter aqui, Miu.
– É verdade! Nós ficamos. – Engfa concordou sustentando o olhar de Miu com carinho. – Vou te levar para ver o papai. Ele ficou feliz quando soube que te convidei.
Miu sorriu em resposta.
– Obrigada, Engfa. Seu pai é adorável. – Miu buscou meu olhar realmente na inocência da sua educação. – Você pode esperar um minuto para que eu possa acompanhar sua prima?
A princípio fiquei sem saber o que responder. Embora tivéssemos ido juntas, ela não tinha necessariamente que me dar satisfações. Contudo, confesso que a atenção que Miu me dava, de alguma maneira aquecia meu coração. Quer dizer, era muito respeitoso da sua parte agir daquela maneira, e aquilo era mais do que eu já tinha experimentado de alguém antes. As pessoas que costumam me rodear, estão sempre muito aceleradas, além de não se preocuparem muito uns com os outros. No mundo da fama, a grande maioria costumam estarem mais preocupadas consigo mesmo.
– C-Claro! Fique a vontade.
A atmosfera que antes era para ser um território neutro, agora era um campo minado de olhares sugestivos trocados por minhas primas e minha irmã. Engfa era a única que devido seu lado sensato, parecia se esforçar para ser mais contida. Já as outras duas… Por que diabos elas estavam quase se derretendo uma do lado da outra?
Alheia ao que acontecia entre nós quatro, Miu aguardava calmamente para ser levada por Engfa, para cumprimentar meu tio.
– Vão se acomodando por aí. Logo nós voltamos e nos juntamos a vocês. – Engfa disse com animação.
Após observarmos as duas se afastarem, Ling e eu fomos arrastadas para longe dos demais convidados do tio Tawan. Lookmhee não perdeu tempo, e com uma energia que parecia inesgotável, nos puxou pelo braço até um canto mais reservado do jardim, onde a música da festa chegava abafada e a iluminação era suave, quase íntima.
– Certo, agora que aquela criatura adorável está longe e sob a supervisão da Engfa, podemos falar a verdade. – Lookmhee soltou, soltando nossos braços e cruzando os seus com um sorriso travesso que me fez revirar os olhos.
Ling soltou uma risada baixa, encostando-se em um pilar decorativo com aquela elegância natural que parecia incomodar qualquer pessoa minimamente insegura.
– Você é um desastre, Lookmhee. Quer parar com essas insinuações ridículas? – Soltei irritada com a mais nova.
– Eu te amo! Você quase soltou um "Namorada" ali. Minha ídola! – Ling provocou com um brilho divertido em seus olhos.
– Vocês duas parem com isso, gente. Nós não somos nada disso.
– Ainda! – As duas disse juntas, com divertimento.
– Qual o seu problema, afinal? Por que fica tão irritada assim? – Ling me jogou contra parede se ocupando em abrir uma das garrafas de vinho deixada por Engfa.
– Por que isso não tem o menor sentido. Nunca aconteceu nada.
– Mais eu sei o que vi. – Lookmhee disse e olhou para Ling. – O olhar era intenso. Existia uma áurea e tesão espalhado pelo o ambiente. Se o gás tivesse ligado, acho que a cozinha tinha pego fogo.
Tenho certeza que corei violentamente.
– Isso não tem nada a ver. Você ver coisa demais onde não existe.
– Eu ia achar legal se você tivesse uma namoradinha. A última que você teve era mais sem graça que os vegetais que Engfa me obriga comer.
Senti meu rosto esquentar instantaneamente. A audácia daquela garota não tinha limites, e o pior era que, no fundo, eu não tinha argumentos contra sua astúcia.
– Olha, é sério. – Tentei manter a voz firme, embora existisse em meu coração uma sensação que eu não sabia explicar. – Miu é uma pessoa gentil e legal. Ela tem uma essência diferente de tudo que já vi nesse meio em que vivo, e embora eu seja contra a venda de parte da confeitaria, só estou tentando fazer a coisa funcionar. – Olhei para as duas e acusei. – Vocês mesmo me falaram para ser legal com ela. Só estou... estou sendo uma boa mentora.
Ling trocou um olhar significativo com Lookmhee. Aquela conexão silenciosa entre elas, que geralmente terminava em alguma brincadeira ou plano mirabolante, me deixou em alerta máximo.
– "Uma boa mentora" – Lookmhee repetiu, imitando minha voz de um jeito caricato. – Tudo bem, Lena querida. Vamos ficar quietas, ok? Mas eu realmente não estou brincando quando digo que acho a Miu uma mulher especial. E se quer saber, eu vejo forma como ela te olha quando você está distraída, e acho que isso diz muito mais do que mil palavras. Você é uma boba se não deixar as coisas fluírem.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela música distante e pelo som do vento nas folhas das árvores. Eu olhei para a direção onde Miu tinha desaparecido com Engfa, e por um momento me peguei pensando… A pressão do mundo da fama, os flashes, os contratos, as leitoras, a traição de Thai, tudo aquilo que geralmente era meu mundo pareceram distante. Desde que cheguei ao vilarejo e reencontrei minha família, e até mesmo Miu, tudo parecia ter uma cor diferente, uma leveza que eu não sabia que estava buscando.
Bem mais tarde
O ambiente no imenso jardim mudou de tom assim que o grupo se reuniu novamente. Engfa retornou com Miu, que parecia estar realmente feliz por rever Tio Tawan. O pai de Engfa parecia encantado com a mais nova, e após conversarem, Miu carregava um brilho de confiança que eu raramente via.
Lookmhee, com um brilho malicioso no olhar, surgiu carregando uma caixa de madeira antiga.
– Chega de conversas sérias por hoje. – Anunciou a mais nova, colocando o objeto sobre a mesa central. – Se vamos passar a noite juntas, precisamos do "Jogo das Verdades Ocultas". Cada uma tira um papel e, se não quiser responder a pergunta, tem que cumprir o castigo ou beber um shot do vinho da Engfa.
Miu, curiosa e um pouco hesitante, acabou aceitando o desafio para o deleite da minha prima.
O jogo começou leve, mas logo a dinâmica das primas tornou-se um espetáculo à parte.
A primeira a cair em uma armadilha foi Lookmhee. O papel perguntava sobre seu maior mico profissional.
– Confesso! – ela começou, rindo alto. – Uma vez, durante uma aula particular, eu não percebi que a cliente estava estava ali próximo, e passei alguns minutos reclamando daquele cheiro esquisito de fumaça espalhado pela a casa dela sem perceber que era incenso. A mulher era muito religiosa, e vovô provavelmente me colocaria de joelhos durante horas seguidas se estivesse nos ouvindo agora. Mas sério, quando eu percebi que ela tinha ouvido tudo, eu juro que queria sair correndo para nunca mais voltar.
Miu soltou uma gargalhada genuína, vendo a faceta humana por trás da energia caótica da caçula.
Logo depois, foi a vez de Ling. A pergunta exigia saber algo que ela nunca revelou sobre sua imagem pública.
– Eu tenho uma coleção secreta de pelúcias que guardo no fundo do armário – Ling admitiu, corando levemente enquanto nos olhava, como se buscasse aprovação. – E às vezes, quando estou estressada, eu durmo abraçada com um urso chamado "Sr. Bigodes".
Miu não conseguiu conter o sorriso, encantada com a vulnerabilidade da mulher que diante das câmaras sempre parecia tão inalcançável. Mas a tensão subiu quando Engfa foi sorteada. Até mesmo eu queria saber o que viria pela frente, afinal de contas, minha prima mais velha gostava de parecer ser a mais ajuizada, mas o fato é que toda moeda possui dois lados, e Engfa não era imune a essa realidade. A pergunta era direta: "Qual a coisa mais rebelde que você já fez para conseguir se dar bem em uma conquista?"
Engfa deu um sorriso enigmático, servindo-se mais uma vez de vinho.
– Vocês lembram daquele contrato que quase perdemos ano passado? – Ling, Lookmhee e eu, acenamos em concordância. Como era possível esquecer? Engfa havia ficado fascinada pela contratante. – Pois bem, sem papai saber, eu alterei uma cláusula propositalmente, determinando ser necessário um mês de pesquisa dos grãos in loco. Assim pude viajar com a contratante e finalmente conseguir o que queria. Tive que trabalhar o dobro depois, mas valeu cada segundo daquela viagem.
Nós três nos entreolhamos chocadas, enquanto Miu observava o poder de articulação de Engfa com admiração.
– Que pervertida! Eu sempre soube que essa cara de boa moça, é uma jogada para ninguém desconfiar das suas malícias. – Lingling acusou a mais velha, que sorriu de canto.
Geralmente aquele sorriso de Engfa era o que fazia com que qualquer mulher caísse em suas artimanhas.
Então, chegou a vez minha vez e vi Miu se remexer endireitando a postura para prestar mais atenção. O papel dizia: "Dessa roda, quem é a pessoa que você mais evita olhar nos olhos e por quê?"
O silêncio reinou. Senti o olhar de todas cair sobre mim, mas foi o de Miu que me fez travar por um momento. Percebeu que naquele jogo, não havia como esconder minha vulnerabilidade.
– Eu... eu evito olhar para a Miu. – Confessei com a voz baixa e me sentindo completamente insegura. – Porque vocês três, eu já conheço e sei o que posso esperar de vocês. Mas ela… Bem, quando olho para ela, sinto que ela me enxerga de um jeito que ninguém mais consegue, e isso me desestabiliza completamente. Não sei como reagir a isso.
O ar pareceu ficar rarefeito. Miu, que até então apenas observava, sorriu como se aquilo fosse algum tipo de elogio. Mas não era bem assim, ou era? Ela estendeu a mão e, sob o olhar atento e conspirador das três primas, tocou suavemente minha mão que estava sobre sobre a mesa.
– Você não precisa ter medo, senhora minha mentora. Seja como for, não penso nada de ruim em relação a você. Mas, para ser sincera, acho que prefiro a Lena que se desestabiliza quando me olha, do que qualquer imagem de celebridade que tentam manter sobre você. Por que aquela exposta pela mídia, acho que não é totalmente verdadeira com ninguém, nem mesmo consigo mesma.
Meu coração bateu em um ritmo desconhecido. O que ela queria dizer com aquilo?
– Acho que esse jogo revelou mais do que esperávamos, não é? – Lookmhee disse, com um sorriso divertido e soltou um assobio longo, enquanto Ling e Engfa trocavam um olhar seio de segredos ocultos.
Ficou por conta de Engfa não deixar o clima pesar.
– Ei, é sua vez Miu. Também queremos saber algo sobre você.
– Isso mesmo! Nos conte algo. – Ling disse com animação.
Sem alternativa, seus dedos roçaram no papel dobrado, e ela o puxou, sentindo os olhares curiosos de todas nós sobre si. Ela desdobrou o papel com calma, e conforme lia as palavras escritas, uma expressão de surpresa, seguida por um sorriso sereno, surgiu em seu rosto. Percebi que gostava de vê-la sorrir, mas não tinha porquê admitir é isso.
– "Qual o desejo mais simples que você mantém, mesmo sabendo que não combina com a sua rotina atual?" – Miu leu em voz alta.
Ela respirou fundo, olhando para o centro da mesa, onde as garrafas de vinho quase vazias e os restos da comida serviam como testemunhas daquela noite inusitada.
– Sabe – começou ela, a voz um pouco rouca, mas ganhando firmeza – No mundo onde eu cresci, tradição significa manter as aparências. Mas, na verdade, meu maior desejo, aquele que eu escondia até de mim mesma, eu já estou conquistando. Eu queria ter algo para chamar de meu, e cuidar como se fosse um tesouro. Eu queria fugir do que me cercava, e viver com o simples, sabe? Onde eu pudesse acordar antes do sol nascer, sentir o cheiro de fermento, da farinha, do açúcar queimando, e ver as pessoas chegando para comprar aquilo que eu produzisse, sem que ninguém se importasse com quem meu pai era ou quanto dinheiro ele tinha em um banco qualquer. Na verdade, dinheiro nunca me trouxe felicidade. Então, acho que hoje tô realizada.
Ela fez uma pausa, e olhou especificamente para mim.
– Eu sei que aquela confeitaria é importante para você. Para todas vocês, na verdade, porque era algo de alguém importante. Mas acredite, vou cuidar bem do seu tesouro porque hoje ele também é o meu.
Aquilo não era uma declaração de amor. Mas era tão significativa quanto, porque a sinceridade de Miu, mostrava que ela havia entendido o que eu quis passar para ela desde o começo, e principalmente, que ela se importava com aquilo que era importante para mim e minha família. Então, se antes eu queria ajudá-la aprender tudo o que conseguisse, agora eu faria isso com ainda mais empenho.
– Obrigada! Obrigada por entender. – Disse a ela com sinceridade.
O sorriso largo da mulher a minha frente me encheu de energia. Quando olhei em volta percebi que estávamos só nós duas.
– Para onde elas foram. – Perguntei sem entender o que estava conhecendo.
– Eu não sei. – Miu disse olhando em volta. – Devem ter ido pegar mais vinho.
Inocente! Eu conhecia bem minhas primas e minha irmã. Elas estavam mesmo era lançando armadilhas. No entanto, aquilo não me pegaria. Meu coração havia sido fechado pela dor da traição.
Fim do capítulo
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