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Os quatro compassos do amor: O ritmo do recomeço por priskelly

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Palavras: 2499
Acessos: 129   |  Postado em: 27/07/2026

Capitulo 5

Por Lena

 

– Não seja boba! Por que você está tão em choque assim? Não é como se você fosse alguém anônima em qualquer lugar do mundo. – Minha irmã resmungou do outro lado da linha como se fosse o óbvio.

– Mas isso foi diferente. 

– Diferente pra quem? 

– Ela não parece realmente se importar com quem eu sou, Ling. 

– Explique melhor. Meus neurônios estão lentos hoje.

– É só que… Bem, ela sabia quem eu era desde quando nos esbarramos, mas sequer pareceu demonstrar surpresa ao me ver, ou coisa do tipo.

– Espera, deixa ver se eu entendi. Afinal de contas, sua irritação é porque ela está administrando a confeitaria da nossa família, ou porque aparentemente ela não te bajulou como suas fãs fazem?

– Idiota! Eu não ligo para essas coisas. Só foi incomum, então me surpreendeu. – Dei de ombros. 

– Surpreendeu no sentido bom? 

– De certa maneira sim. Acho que gostei de alguém me tratar normal mesmo sabendo quem sou.

– Então agora você está dizendo que gosta dela?

– Ling, por que você está me fazendo essas perguntas confusas?

– Ora, confusa estou eu. Uma hora você parece detestar a mulher. Agora parece gostar.

– Eu não gosto dela. Só gostei de alguém me reconhecer pelo o meu trabalho, mas ainda assim conseguir agir naturalmente ao meu lado. Escuta, eu vou desligar. Preciso ir para a confeitaria.

– O quê? Mas são sete horas da manhã. Aliás, por que você me acordou às sete da manhã? Isso deveria ser crime capital. 

– Eu ainda sei olhar o relógio, Ling. – Resmunguei revirando os olhos. – Eu combinei de encontrar a Miu. Vou levá-la a feira semanal do vilarejo. Quero ensiná-la escolher os melhores produtos como vovô nos ensinou. 

– O quê? Eu pensei que você queria fazer com que ela desistisse da ideia de comprar uma parte do que é nosso.

Ling não soava indignada. Na verdade, ela parecia mesmo era surpresa. Embora fosse tão apegada as memórias do vovô como eu e nossas primas, Ling pareceu compreender melhor que eu, os motivos de papai para tomar aquela decisão.

– De que jeito? Se você quer saber, ela não me parece o tipo de pessoa que desiste fácil de algo. Então conclui uma coisa… Se não pode contra seus inimigos, una-se a eles.

– Você é uma estranha! Definitivamente, eu não sei quase das suas fases são as piores.

 

…

 

– Você está atrasada. – Eu disse olhando o relógio.

– São apenas dois minutos. – Ela me respondeu incrédula.

– Dois minutos também é atraso. 

– E onde fica a tolerância? Até mesmo as empresas mais renomadas tem tolerância para atraso.

– Mas eu não sou todo mundo. Vamos logo! A feira já vai começar. 

Entramos no carro e seguimos para o local onde uma comercialização a céu aberto acontecia uma vez na semana. Ali todo mundo se conhecia, sabíamos da importância do pequeno comércio para o lugar, e também tínhamos confiança nos produtos que todos vendiam. 

– Você sabe alguma coisa? 

– Sobre o quê, exatamente? 

– Chocolates! 

– Qual sua fixação com chocolate? 

– É quase a base de tudo, considerando é usado para muitas sobremesas. Além de ser um produto, comum ao gosto de todos. 

– Bem! Você ficaria brava se eu te respondesse que sei que vêm das amêndoas do cacau? 

A olhei de relance.

– Os primeiros registros do consumo de cacau foram feitos na América Latina pelo povo Olmeca, no atual México. Povos como os maias e astecas preparavam uma bebida espumosa que deram nome de "xocolatl", era uma bebida amarga e sagrada feita com amêndoas de cacau, água e especiarias. O explorador Hernán Cortés levou o cacau para a Espanha no século XVI, onde a receita foi adaptada com a adição de açúcar e servida quente à nobreza. No século XIX, métodos para extrair a manteiga de cacau permitiram a criação do chocolate em barra. Em 1875, na Suíça, a adição de leite condensado deu origem ao chocolate ao leite. Ao longo do tempo a produção do chocolate passou por diversas mudanças, mas uma coisa nunca mudou sobre ele. 

– Ok! E o que seria? – Miu perguntou parecendo curiosa.

– Desde sempre o chocolate foi consumido por basicamente uma razão. Ele desperta a sensação de prazer ao consumi-lo. E é exatamente por isso que a primeira receita que vamos trabalhar juntas vai ser a trunfa de chocolate. 

– Ah entendi! Você acha prazeroso trabalhar comigo. – Ela soou divertida. A olhei e vi seu sorriso debochado ir aos poucos se apagando. – Mas espera, isso é bem visto por aqui? 

– Você sabe que chocolate não está exatamente que existe algumas particularidades no consumo de chocolate em nosso país, já que o mesmo não faz parte da culinária tradicional. No geral, ele é usado como cobertura em lanches populares, como o roti, por exemplo. Mas é aí que está a magia de quem é confeiteiro. Você pode proporcionar as pessoas experimentar coisas novas sem correr grandes riscos de não gostarem. 

– Eu acho realmente intrigante a maneira como você tenta a própria sorte. – Venha! Vamos logo fazer as compras. Vou te ensinar como você vai repor o estoque semanalmente. Depois daqui vamos lá fazenda da minha prima.

– Por quê? Aqui não tem tudo que precisamos? 

– Tem! Algumas coisas tem qualidade superior. Você precisa ter em mente que precisamos oferecer aos clientes não apenas produto, mas qualidade.

 

…

 

– Desde quando te agrada a ideia de vir a fazenda? – Engfa estava intrigada.

– Bem, eu… Eu não disse que gosto. Mas às vezes é necessário. – Seu olhar correu de mim para a mulher que estava ao meu lado parecendo maravilhada com a vista em volta. – Ah, essa é a Miu. Miu, essa é a Engfa, minha prima mais velha. 

– Bom dia, senhorita Engfa. 

– Bom dia, Miu. O que já falamos sobre as formalidades? 

Miu sorriu para Engfa, e a cumprimentou com educação. Mas nenhuma das duas pareciam verdadeiramente estarem surpresas na presença u ma da outra. Na verdade, Miu parecia bem familiarizada com Engfa. 

– Vocês já se conheciam? 

– Claro! Foi papai que ajudou Miu alugar uma casa no vilarejo. A propósito, está gostando da moradia?

– Eu não podia ter escolhido lugar melhor para morar. – A mulher ao meu lado respondeu parecendo sincera. 

– Fico feliz! Depois de tudo o que aconteceu, você merece sossego para o coração.

Ouvir Engfa dizer aquilo, me despertou curiosidade. O que teria acontecido com Miu? E por que ela precisava de sossego para o coração? Guardei a curiosidade apenas para mim mesma, mas certa que tentaria arrancar de Engfa alguma coisa depois.

– Espera! Se vocês já se conhecem, então quer dizer que desde que você foi me buscar você já sabia. – Disse me referindo a negociação em torno da confeitaria.

Minha prima inquietou-se, mas respondeu com calma.

– Seu pai conversou com papai e tio Arthit. Todos entenderam as razões do tio Jett. Eu não te contei porque isso era algo que o tio precisava conversar com você antes. 

– Traidorazinha! – Acusei, mas não estava verdadeiramente brava com ela. 

– De qualquer maneira, isso não parece ter sido um problema. – Minha prima voltou a intercalar o olhar entre nós duas. – Vocês parecem estar se dando bem. Isso é ótimo!

– Bem, é um termo muito forte. – Miu interferiu atraindo atenção de Engfa. – Digamos que ainda estamos em processo. Nossos primeiros momentos foram como enfrentar um búfalo raivoso. 

– Você está me comparando a um búfalo? – Olhei incrédula para Miu, mal conseguindo acreditar em sua ousadia.

– Não fisicamente falando. Mas o comportamento… Céus! Você é difícil de lidar. 

– Ora sua… Sua… – Eu sentia minhas orelhas esquentando, tamanha era a raiva que eu sentia de Miu naquele momento. 

A honestidade da mulher ao meu lado de alguma maneira pareceu agradar e divertir Engfa, que embora tenha se esforçado, não conseguiu conter o pequeno sorriso que se formou em seus lábios.

– Tá vendo? Ela é difícil. Acho que isso não é genética, considerando que você e Lookmhee são pessoas adoráveis. 

– Eu não preciso te agradar, querida. O máximo que preciso fazer, é te aturar. Além disso, você deveria era me agradecer já que estou aqui para te ajudar.

– Oh, não precisa ficar tão brava assim. Eu estou apenas brincando. Você tem toda minha gratidão, docinho. E também te acho adorável. – Ela disse apertando minhas bochechas, o que tenho certeza que me fez corar.

A espontaneidade de Miu já tinha sido um problema o dia inteiro, porque me deixava confusa e sem saber como reagir. Na verdade, eu nem sabia quando ela estava brincando ou falando sério. E agora que estávamos na frente de Engfa, só piorava ainda mais as coisas, pois eu sequer conseguia olhar para minha prima, mas sabia que estava sendo observada pela mais velha de uma maneira que me causaria timidez. 

Eu não sei se Miu tinha noção do que estava fazendo, mas o fato é que ninguém jamais ousou antes em me tratar daquela maneira. Quero dizer, faziam apenas três dias que havíamos nos conhecido, e nem podíamos dizer que nossa convivência era das melhores, e mesmo assim e  sabendo quem eu era, ou seja, uma escritora famosa, ainda assim Miu não tinha receio em falar para mim o que viesse em sua cabeça. Tão pouco, parecia ter formalidade comigo, o que era contraditório considerando que com minhas primas era parecia se comportar de uma maneira mais recatada e disciplinada. 

– Ah! Pare com isso. – Dei um tapa em sua mão, o que a fez sorrir mo divertimento. – Você está me deixando com vergonha na frente dela. – Sussurrei as últimas palavras, mas tenho certeza que Engfa as ouviu.

– O que foi? Ela não pode saber que a prima rabugenta tem um lado doce? – Miu murmurou de volta. 

– Tá bom, tá bom… Do que as duas realmente precisam? – Engfa interferiu contendo os risos. 

– Ovos, trigo, e tudo o que você tiver de melhor. – Respondi olhando a lista porque seria incapaz de olhar para minha prima. 

– Por que você sempre acha que somos uma fazenda que tem de tudo? 

– Por que realmente vocês sempre tem. – Dei de ombros. – Vamos lá, prima. Me ajude! Já tá sendo um trabalhão ensinar para essa aqui, algumas coisas que o vovô nos ensinou. Imagina fazer isso com produtos de péssima qualidade. 

Engfa sorriu de lado, sabendo que meus argumentos eram no mínimo validos, afinal de contas, vovô sempre nos disse que a qualidade dos produtos eram importantes para o processo. 

– Venham comigo! Eu vou ajudar vocês escolherem o que precisam. 

 

…

 

Depois de deixarmos a fazenda de Engfa, com a promessa que no fim de semana iríamos nos encontrar para jantarmos juntas, após organizar o estoque com as compras que havíamos feito e explicar detalhadamente para Miu, como ela organizaria tudo, agora estávamos na cozinha trabalhando na produção especial que ganharia as vitrines naquele dia. A confeitaria só iriai abrir a tarde, então eu estava confiante de daria tempo de produzirmos uma boa quantidade de trunfas.

– Você sabia que a trufa de chocolate foi descoberta por acidente? O assistente de um chef francês acidentalmente derramou creme quente em uma tigela de chocolate picado. Ele ficou furioso, mas ao misturar tornou-se uma calda e quando esfriou endureceu. Então a mágica aconteceu assim. – Peguei um pouco da massa. – Ele pegou a massa de chocolate com as mãos, bem assim… – Comecei ilustrar para ela que olhava atentamente para o que eu fazia. – E então ele começou ajustar até formar uma bolinha do tamanho de uma noses. Em seguida ele enrolou em pó de cacau, e então temos essa maravilha. Experimenta! Nessa eu coloquei um recheio especial de castanha. 

A vi morder e percebi que estava ansiosa para saber o que ela iria achar. Será que era esse tipo de ansiedade que vovô sentia quando experimentava criar uma nova receita? 

– Nossa! Isso aqui é mesmo muito bom. – Miu disse de boca cheia. 

Sorri! Eu realmente tinha ficado satisfeita em saber que tinha agradado l seu paladar. 

– Agora é sua vez! Me mostra o que você sabe fazer. 

– Como assim? 

– Ora, pensa que é só você que sabe fazer um dever de casa? Você sabia que sou escritora, e eu sei que embora tenha se feito de boba esse tempo todo, você conhece mais sobre culinária do que eu. Papai me disse que você é formada em gastronomia. 

– Hum! Bem, eu sou formada sim, mas me falta experiência. Não faz tanto tempo assim que concluí a faculdade. Além disso, passei por algumas coisas que me afastou do meu emprego anterior. Só agora estou recomeçando. 

– Entendo! – Novamente me segurei para não demonstrar curiosidade sobre sua história. – Bem, mas me apresente algo novo. Faremos assim, hoje para nossa vitrine, teremos duas novas receitas. As minhas trufas, e a surpresa que você vai me fazer. 

– Você está me fazendo um desafio?

– Você acha que está pronta para isso?

– ok! Foi você quem começou. 

 

Horas mais tarde

Quem poderia imaginar que naquele dia toda produção feita por Miu e eu, acabaria dentro de poucas horas de expediente? As trunfas de castanha feitas por mim, e Khao Niew Mamuang feito por ela, esgotaram sem encontrar qualquer resistência dos nossos clientes. 

– Você deve tá se perguntando porque algo tão comum como o Khao Niew Mamuang fez tanto sucesso hoje. 

A olhei surpresa quando ela chegou de repente ao meu lado. Nós duas ficamos ali observando o movimentando da confeitaria.

– Na verdade não me surpreende tanto. É algo que s for bem feito, agrada a todos. E o seu foi bem feito. Eu gostei muito do sabor! 

– Obrigada! – Seu sorriso era sincero como a muito tempo não via alguém sorrir assim para mim. – Talvez tenha tido um ingrediente especial.

– Mesmo? Quer compartilhar o segredo? 

Por um momento seu olhar sustentou o meu. Existia algo nele que não pude decifrar. Talvez algo semelhante a admiração.

– O sentimento que o dia de hoje me proporcionou. Hoje foi a primeira vez em dias, que não chorei. Obrigada, por fazer parte disso. – Miu respondeu e então saiu me deixando a sós,

Tenho certeza que eu podia estar esperando por qualquer resposta, menos aquela. Mas de alguma maneira meu coração foi impactado, não de um jeito ruim, mas algo que aquecia. Então percebi que Miu também não sabia, mas em dias, aquele era o primeiro que eu não tinha uma crise de ansiedade por não me reconhecer ou duvidar da minha essência. Eu estava ali, e era como se eu nunca tivesse ido embora.

Fim do capítulo


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