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Os quatro compassos do amor: O ritmo do recomeço por priskelly

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Palavras: 3102
Acessos: 162   |  Postado em: 23/07/2026

Capitulo 4

Por Miu

 

No dia seguinte 

 

– Vamos lá, Lena. Você não é tão rabugenta assim. Fale com a moça com educação. Desse jeito nem parece que te eduquei como uma lady. 

Lookmhee claramente zombou da situação na clara tentativa de deixar a prima constrangida, mas pelo o visto ter o temperamento engenhoso era algo genético. 

– E quem disse que é necessário? – Lena respondeu com mau humor. 

– Seu pai! Ou você esqueceu que ele te mandou ajudar a moça se familiarizar com o ambiente nos próximos dias. 

Eu acredito que a intenção daquela conversa era de ser algo privado, mas não era exatamente isso que estava acontecendo. Embora as duas estivessem cochichando, ainda assim eu conseguia ouvir as duas primas perfeitamente bem, afinal de contas, eu estava por trás do balcão tentando concentrar na conta que devia fazer. 

Eu já conhecia Lookmhee, a sobrinha mais nova do Sr. Jett. Ela sempre passava na doceria antes de seguir sua pequena viagem para o seu trabalho que ficava na cidade a poucos km do vilarejo. 

– Você não precisa me lembrar disso a cada dez minutos. – Lena resmungou contrariada com a prima. 

– Hum! Você está realmente brava, não é mesmo? Quero dizer, a ideia de ter alguém novo administrando a confeitaria parece ter te abalado. Mas vamos lá, a moça não tem culpa. Ela não merece seu pior lado, só porque você não concorda com tio Jett.

Me parecia feio ficar ouvindo a conversa alheia, mas aquele assunto realmente chamou minha atenção, porque querendo ou não, também me envolvia. E considerando a frieza com a qual a filha mais velha do Sr. Jett me tratava desde o dia anterior, começava a ficar claro o motivo existente por trás.

– Eu só queria ter sido consultada. Eu acho! 

– Conversa com o tio Jett. Seja clara e diga como se sente com a ideia. Pelo o que papai contou, o negócio ainda não está completamente fechado. Tudo vai depender de como ela vai se sair nos próximos três meses. Parece que os dois decidiram fazer um tempo de experiência para ver como as coisas vão acontecer.

Não me surpreendia que Lookmhee soubesse dos detalhes envolvendo minha negociação com seu tio. Desde que eu tinha chegado ao vilarejo, assim como sempre ouvi todo mundo falar bem e com respeito em relação aquela família, também ouvi sobre o quanto eram todos unidos. Ao que parecia, a união entre todos sempre foi o pilar sustentado pelo o patriarca que já havia falecido. 

– E do que adiantaria? Como ele mesmo me disse ontem, Ling e eu não estamos aqui para ajudar nos negócios. Sinto que não posso fazer uma cobrança nessas condições. 

– E não pode mesmo! Mas quem sabe das coisas do destino? Tudo na vida pode mudar, Lena. o destino segue o rumo soprado pelo o vento. Já imaginou se algo extraordinário acontece na sua vida, e o vento sopra para trazê-la de volta para cá? 

Aquela foi a primeira vez que vi um sorriso quase surgir no rosto de Lena. Mas de qualquer maneira, o sorriso não alcançou seu olhar que era triste.

– Minha vida tá um caos! Quando as coisas ficaram tão complicadas? 

Lookmhee reagiu com uma careta engraçada. 

– Eu odeio dizer isso, porque tenho a sensação que estou ficando velha, mas acho que a resposta é óbvia. Acho que isso se chama ser adulta. – Ela apontou para os próprios braços. – Oh! Veja isso. Basta falar em algo que traga responsabilidades e já começo me coçar. Acho que isso é algum tipo de alergia. Miu, por favor venha aqui. 

– Sim senhorita, Lookmhee? – Disse me aproximando das duas.

– Por Deus, eu já disse para não me chamar assim tão formalmente. Eu odeio qualquer coisa me traga a sensação da velhice me abraçando. – Ela fez um drama exagerado. – Me chame apenas pelo meu nome, ok? Agora lindinha, por favor, me traga um pedaço daquele bolo de limão que eu adoro. Eu preciso sentir meu sangue doce para afastar essa alergia que as responsabilidades me trazem.

Sorri! Diferente da prima Engfa, Lookmhee era mais extrovertida, e também muito gentil. Não que a mais velha também não fosse gentil, pelo contrário, além de ser também uma mulher muito educada. Ela só aparentava ser um pouco mais séria, e levar as coisas com mais doses de responsabilidades. Uma característica que pelo o visto também era compartilhada por Lena, que desde que chegou não a vi sorrir. 

– Desculpa! É a força do hábito em sinal de respeito. – Expliquei. 

– Hum! Isso é curioso. – Lena apoiou as mãos no queixo e me olhou avaliativa. – Você pede desculpas demais. Quem é assim hoje em dia? Isso é exagerado, ou no mínimo estranho.

Olhei para ela e observei que ela parecia desconfiada demais. Eu sabia que ela tinha recebido com bom agrado a notícia que eu estava prestes a virar sócia do seu pai, e embora ainda não conseguisse compreender o motivo, eu respeitava isso. 

– Eu poderia dizer que também é força do hábito, mas nesse caso é só educação mesmo. – Ao ouvir a resposta, Lookmhee quase cuspiu fora o chocolate quente que tomava. – Eu vou pegar o bolo para você, Lookmhee. Com licença! 

– Mais que grosseria! – Ouvi Lena resmungar irritada.

– Pois eu achei bem feito. Você foi grossa primeiro, sua idiota. Ela não tem culpa das suas frustrações, e você deveria ser legal com ela. – A prima respondeu com divertimento. – Eu já te disse que ela é uma boa pessoa. Você não vai descobrir isso se continuar agindo como um búfalo empacado.

– Como você pode ter certeza disso? Até parece que conhece ela desde sempre.

– Ela chegou a pouco tempo, é verdade. Mas ainda assim, já demonstrou ser uma boa pessoa. Além disso, foi o tio Tawan que a trouxe para cá. Engfa contou que ele era amigo pessoal do pai dela. Tenho certeza que nosso tio não conviveria com eles, se não fosse  pessoas do bem. 

Sorri de canto! O diálogo entre as duas primas estava sendo algo interessante. Era notório que a mais nova, embora fosse visivelmente destemperada das ideias, ainda assim conseguia de alguma maneira o respeito de Lena. 

 

…

 

Naquele dia Sr. Jett não iria trabalhar, mas havia sido claro nas responsabilidades que tinha me passado. Eu compreendia o que ele tentava fazer. Na verdade, ele estava mesmo era me fazendo aprender como administrar a confeitaria, já que como sua nova sócia, tinha ficado acordado que a partir daquele período eu passaria ajudá-lo em tudo. 

Quando resolvi deixar toda minha vida para trás e recomeçar a vida naquele pequeno vilarejo, não tinha ao certo uma ideia do que faria. A morte do meu pai ainda machucava, assim como também ter sido renegada por minha madrasta que sequer esperou a ferida cicatrizar para me expulsar da casa que um dia foi do meu pai. Eu sabia que tinha meus direitos, e que se fosse brigar por eles, certamente seriam reconhecidos. Mas optei por evitar qualquer confronto. As lembranças de papai estariam em meu coração, assim como as de mamãe sempre estiveram desde que ela partiu quando eu ainda era uma criança.

Bem, fosse como fosse, a única certeza que eu tinha era que não queria investir as economias que juntei ao longo do tempo, em banalidades. Eu estava certa que gostaria de começar um negócio, e quando ouvi Sr. Jett mencionar com seu irmão o interesse e vender a confeitaria, vi a oportunidade com agrado. No entanto, ao perceber a tristeza no olhar do mais velho enquanto negociávamos, meu coração amoleceu. Estava claro que ele não estava feliz com a ideia de se desfazer de algo da família. Estaria fazendo mesmo por falta de saúde para seguir administrando o lugar. Foi assim que joguei aquela contraproposta para ele, afinal de contas, eu também reconhecia que se ele precisava da minha vitalidade, eu precisava da experiência. Talvez juntos pudéssemos então ajudar um ao outro. 

O único problema é que a expectativa de que tudo caminhasse bem naquele acordo, talvez estivesse ruindo antes mesmo de acontecer. A verdade, é que embora eu seja apaixonada pela a arte culinária, eu pareço ser um completo desastre na administração como um todo. Sou tão desajeitada e atrapalhada, que sinto que mal posso passar confiança para o homem que esperava mais de mim.

– Você obviamente não faz ideia do que está fazendo, não é mesmo?

A voz que soou em minhas costas, me fez assustar. Àquela altura, desequilibrei e quase caí. Isso teria acontecido se não fosse pelos braços de Lena me segurarem com firmeza. 

– Será que você não pode passar algumas horas se atentar contra si mesma?

– A culpa foi sua que me assustou. – Rapidamente me sai dos seus braços. – O que faz aqui, afinal?

– Vim ver como você está organizando o estoque. Mas como eu disse, você não faz ideia do que está fazendo.

– Você por acaso nasceu sabendo falar? – A vi estreitar os olhos em claro desaprovação com minha resposta. – Pois então, eu estou aprendendo ainda lidar com tudo isso. 

– Ei, não seja grossa. – Ela fechou a porta do estoque e então deu alguns passos em minha direção. 

– Desculpe! Não foi minha intenção. – Menti. 

– Hum! Então, você sabe pelo menos fazer um chocolate? 

Lena não parecia se esforçar para ser desagradável. Isso era algo que surgia naturalmente. Mas eu também não acreditava que aquela era sua única versão. Na verdade, eu sabia que ela só estava agindo daquela maneira por estar magoada com seu pai, e chateada com a situação. Não era a razão falando aquelas coisas, mas o coração de alguém ferido. 

– Talvez eu não saiba fazer com a mesma perfeição que seu pai. Mas acho que posso me virar bem na cozinha. 

– Hum! – Ela caminhou pelo o lugar olhando as coisas em volta.

– E você, sabe fazer algo na cozinha? Saiba que sou uma aprendiz bem disposta. Se tiver algo que eu possa aprender com você, certamente vou ficar satisfeita. 

Aquela não foi uma pergunta com a intenção de manter aquele confronto desnecessário. Na verdade, foi apenas uma curiosidade que despertou em meu coração. E eu não estava mentindo quando disse estar disposta em aprender algo que ela pudesse me ensinar. 

Lena não respondeu de imediato. Ela continuava empenhada em analisar o estoque como uma predadora em busca de algo errado para reclamar.

– Você sabe o que é preciso para se tornar uma boa confeiteira? – Ela perguntou ao me olhar,

– Hum! Açúcar? – Brinquei sem sem fazer ideia de onde ela queria chegar.

Quando o olhar de Lena caiu sob mim, pude ver claramente que seu senso de humor talvez não estivesse aflorado naquele dia.

– Também! Mas não é a quantidade de açúcar que vai definir a qualidade do doce que você vai ofertar ao cliente. Vai ser seu comprometimento que vai definir. 

Ela falava ruim seriedade, me fazendo pensar que talvez naquele instante ela estivesse mesmo tentando me ensinar algo.

– São dias longos onde o compromisso deve ser a base do negócio. Não só quando a confeitaria está aberta. Quero dizer, você deve chegar cedo, e sair tarde para garantir que tudo esteja organizado para o dia seguinte. Você acha que vai dar conta? 

Lena não estava me fazendo um desafio, mas me levando a refletir sobre aquilo que eu já tinha pensado anteriormente. Eu sabia que administrar um negócio não seria fácil, e que talvez tivesse momentos que eu quisesse desistir. Mas eu me sentia pronta para conseguir alcançar uma nova versão de mim mesma.

– Bem, eu estou tentando. No último mês, não tenho feito outra coisa que seja me dedicar a esse negócio. – Respondi com sinceridade. 

O olhar analisador de Lena, sustentou o meu. Ela parecia estar determinada em encontrar respingos de negligência em minha afirmação, mas talvez ao não encontrar tenha desistido, considerando que voltou a caminhar no lugar. 

Sua mão então pousou em um livro empoeirado de capa de couro e aparência velha. Pude perceber naquele instante que um brilho diferente alcançou o olhar de Lena. 

– Aqui está a mina de ouro dessa confeitaria. Papai obviamente não precisa dele na cozinha, mas você certamente vai precisar. – Cuidadosamente Lena  segurou o livro, passou um pano na capa e então o abriu. As folhas eram amareladas, e estavam escritas a mão. – Todas essas receitas foram criadas por meus avós. – Seu olhar voltou a encontrar o meu. – Você tem interesse em conhecer a história por trás?

– Eu realmente adoraria.

Confesso que o rumo da conversa estava me despertando curiosidade. Muitas coisas sobre a confeitaria, Sr. Jett já tinha conversado comigo. No entanto, aquela conversa com Lena estava sendo diferente. Parecia existir mais do que uma história a ser contata. Parecia existir sentimentos.

– Vovô costumava comparar cada doce, com um sentimento. Ele explicava para mim, minha irmã e minhas primas, que quando colocamos as mãos na massa para fazer um alimento, na verdade, o principal ingrediente é o sentimento que estamos sentindo naquele momento, e o que queremos fazer com ele.

– Acho que não entendi bem. – Fui sincera me esforçando para compreender a teoria.

– Quando eu era criança também demorei para entender, então ele explicou de uma maneira mais prática. Você tá triste? Um chocolate amargo vai surgir na receita. O coração está amargurado? Talvez o limão seja uma opção. Está feliz? Um merengue de morango aparece como o clássico mais romântico. Conseguiu entender? Você sente a emoção no coração, e decide em que arte culinária vai transformar seu sentimento. Acho que essa teoria existe na vida para tudo, e pode ser usada de maneiras diferentes. 

– Então, eu poderia dizer que esse é mais que um livro de receitas criadas por seu avô. Ele representa na verdade os sentimentos dele. 

Pela primeira vez um sorriso verdadeiro surgiu nos lábios de Lena.

– Viu? Não foi tão difícil entender. Vovô nos contava que a ideia de abrir a doceria surgiu durante o casamento com vovó. Para ele, quando as coisas ficavam difíceis, ele refletia sobre a situação enquanto criava uma nova receita. Se brigavam, ele criava uma nova receita. Se conquistavam algo novo e benéfico para a vida a dois, também fazia o mesmo. Ele nos dizia que quando tivéssemos nossos próprios casamentos, entenderíamos que as vezes é necessário criarmos mecânicos inteligentes para aprender a lidar com a convivência a dois, considerando que é algo complicado. A dele, foi com a criação das receitas de doces.

– Mas pelo o que já ouvi no vilarejo, seu avô sempre teve posses por meio de diversas atividades. 

– Justamente! Na outras ele encontrava o sustento para cuidar da família. Na confeitaria, ele fazia a própria terapia para lidar com os sentimentos que o dia a dia causava. Acho que era como uma filosofia de vida. 

– Extraordinário! – Expressei ao pensar melhor sobre tudo o que ouvi. – Seu avô era um homem sábio. Na verdade, mais que isso. Seu avô também era um  homem sensível. Acho que agora entendi!

– Entendeu o quê, exatamente? – Lena pareceu curiosa.

– O porquê de você ter ficado tão chateada com minha presença. A princípio pensei que você me via como uma intrusa. O que não deixa de estar certo em seu ponto de vista, é claro. Mas na verdade agora eu entendo porque não me quer aqui. O que mais te incomodou foi a insegurança de não ter certeza se esse legado estava sendo confiado nas mãos de alguém tão sensível quanto seu avô. 

– E eu ainda não sei. – Ela garantiu sem negar que eu estava certa. 

– Eu também não sei se posso te garantir que sou tão sensível quanto ele. A mesma sabedoria, eu sei que não tenho, mas sou determinada em aprender, enato acho que isso conta. Mas sensível… Bem, acho que você vai ter que descobrir com tempo. 

– Está me convidando a desvendar seus próprio sentimentos? Isso é imprudente. 

– Não! Estou te convidando a me conhecer antes de julgar como tem feito desde ontem. 

Houve um silêncio brutal como uma parede invisível entre nós duas. Eu não queria ser grosseira, mas também não podia deixá-la pensar que não tinha ficado chateada com a maneira como fui pré julgada por ela. Lena não precisava gostar de mim, mas também não podia se sentir no direito de me tratar como se eu fosse um peso desprovida de inteligência. Tudo bem que recentemente minha vida tinha passado por mudanças impactantes, mas eu sempre tive os pés no chão. Desde o início que decidi investir naquele projeto, eu sabia onde estava me metendo, e onde esperava chegar. 

– E então? Posso contar com você para aprender manter esse lugar no padrão de excelência onde sempre esteve? Não por mim, mas em respeito a memória do seu avô.

– O que você espera aprender, comigo? Eu não sou uma confeiteira, senhorita Miu. 

– Verdade! Mas você me ensinou muito, mesmo sem pôr as mãos na massa. A propósito, acho que seu avô tinha razão em uma coisa. 

– E quê? – Ela ergueu a sobrancelha em desafio.

– Sentimos a emoção no coração, e decidimos em que vamos transformar nossos sentimentos. Acho que essa teoria realmente encaixa para tudo como você disse. Alguns criam receitas, outros dão vida a personagens.  

– O que você quer dizer com isso? 

A vi ficar nervosa, como se aquilo que eu disse a tivesse pego desprevenida. 

Eu não queria invadir seu espaço pessoal, por isso mordi meus lábios sem saber se seria interessante mencionar a verdade que estava em meu coração. Mas por fim decidi ser sincera com Lena. Era assim que eu era em minha vida… Sincera!

– Que talvez você seja tão sensível quanto seu avô foi. Eu já sabia disso antes de te conhecer pessoalmente. Mas agora tenho certeza que sempre estive certa quando conclui que todas suas personagens tinham um pouco da sua essência. 

A vi ficar surpresa, quase como se tivesse sido pega em fragrante ou coisa assim, o que acabou me fazendo rir. 

– Qual, é? Você não está realmente surpresa, está?

– Como você sabe disso?

Estreitei o olhar!

– Você não está realmente me fazendo essa pergunta, está? No universo LGBTQI+ quem não conhece Lena Lalina, hoje em dia? Bem, eu tenho que ir para a cozinha agora.

Fim do capítulo


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