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Os quatro compassos do amor: O ritmo do recomeço por priskelly

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Palavras: 2221
Acessos: 133   |  Postado em: 22/07/2026

Capitulo 3

Por Lena

Os primeiros raios de sol invadiram meu quarto sem pedir licença, me fazendo despertar do que tenho certeza ter sido um sono tranquilo após tantas horas perdida em meus próprios pensamentos. 

Após tomar um banho gelado, do jeito que estranhamente eu gosto, fiz minha higiene matinal, escolhi uma roupa confortável e resolvi descer para tomar café com meus pais. 

Enquanto eu passeava pelo corredor e observa as fotos penduradas nas paredes, voltei a ter aquela sensação de que estava reencontrando uma versão antiga de mim mesma. Uma que não sabia se ainda existia. Era como se aquelas paredes pudesse reconhecer que ausência agora estava sendo suprida pelo meu novo eu. Era como se um silêncio acumulado ao longo dos anos, agora estivesse sendo reagido.

Sorri ao perceber que a casa onde cresci estava exatamente como eu lembrava. Ou talvez fosse pior: estava intacta demais para que as memórias confrontassem o presente. A pintura das paredes, levemente descascada perto da janela, denunciava o tempo que passará sem grandes mudanças. Era como se o mundo ali tivesse desacelerado, aguardando meu retorno sem pressa, sem cobrança. 

Eu respirei fundo antes de chegar à porta da cozinha. Agora eu sabia… Eu sentia falta daquilo tudo e nem percebia. 

O cheiro da casa me envolvia como uma lembrança física: café recém-passado, madeira antiga, um toque leve de sabão. Era o cheiro da infância, da adolescência, das manhãs apressadas e das tardes silenciosas. Era o cheiro de tudo que eu havia deixado para trás.

– Filha, que bom que acordou. O café já está pronto. – Disse mamãe com tranquilidade. 

– Bom dia, mamãe. Parece delicioso. Onde está o papai? – Perguntei sentindo a ausência.

– Aquele velho teimoso foi para a doceria. Ainda tinha muito o que ser feito por lá. – Comentou mamãe, servindo o café. 

– Com assim, ainda? 

Inquieta, ela respondeu:

– Falamos sobre isso depois. Você precisa se alimentar, Lena. Céus, você está realmente mais magra. 

Ri do exagero da mais velha. 

– Ou só mais cansada. Os últimos dias tem sido difíceis.

Ela ergueu os olhos, como se quisesse perguntar mais, mas decidiu não fazê-lo. Em vez disso, empurrou o prato de bolo em minha direção.

–  Come um pedaço desse bolo.

Peguei o garfo, mas demorei a levar o primeiro pedaço à boca. Quando finalmente o fiz, o sabor trouxe algo inesperado: uma lembrança tão nítida que quase me fez fechar os olhos. Era como voltar no tempo sem sair da cadeira.

– Uau, está igual o da vovó. – Disse, mais para mim mesma do que para mamãe.

– Algumas coisas não precisam mudar. – Respondeu, com um meio sorriso. – Já outras podem ser superadas. 

O silêncio que se seguiu não era desconfortável, mas carregado. Havia perguntas não feitas, histórias não contadas.

Mexi o café, observando o movimento lento do líquido escuro. 

Diante do meu silêncio, ela disse:

– Sua irmã me contou que tem sido um momento difícil no trabalho. Você não quer falar sobre isso?

– Eu acho que consigo lidar com isso. Não se preocupe, mamãe. Mas obrigada! – Sorri para ela sem quer preocupá-la.

Após me observar em silêncio por alguns segundos, cuidadosamente, apoiou as mãos na mesa, me olhando com uma calma que parecia ter sido construída ao longo dos anos.

– Voltar nunca é fácil. A gente nunca encontra exatamente o que deixou. Mas talvez aqui você consiga encontrar o que está precisando para superar essa fase. E nós estamos aqui para você, meu amor. Sempre estivemos. 

Não me restou muito o que fazer além de assentir, sentindo um nó apertar a garganta. Eu sabia que por mais que me apoiassem e compreendessem que motivo da minha ausência era porque eu vivia em busca de realizar meus próprios sonhos, ainda assim meus pais sentiam falta de me ver por ali com frequência. Talvez eu tenha pecado nisso também. 

– Sabe, filha. Não deve ser fácil conviver com a dor da decepção. Mas você não precisa carregar isso para sempre. Você é tão jovem, tão bonita… É uma pena que tenha aprendido a desacreditar em um dos sentimentos mais lindos que existem. Logo você, que entre as quatros meninas da família, era a que sonhava com um casamento de princesa. 

Aquilo me atingiu com suavidade e força ao mesmo tempo.

– Só descobri que contos de fadas não existem.

Abaixei o olhar, tentando conter algo que ameaçava escapar. Não queria chorar ali, não ainda. Em vez disso, tomei um gole de café – quente demais – como se o gesto pudesse me ancorar no presente.

– Vamos deixar esse assunto para depois. – Ela fez um afago em minhas mãos. – Você deveria ir até a doceria. Seu pai disse que ia fazer aquele suspiro que você adorava. 

Sorri verdadeiramente contente com as memórias que aquele doce me trazia. 

– Com certeza eu vou! A velha caminhonete ainda está aí?

– E você acha que aquele velho teimoso se desfaz daquela lata-velha? Está na garagem. 

 

…

 

Após compartilhar o café da manhã na companhia de mamãe, resolvi passear pela cidade. Dirigir a antiga caminhonete do papai não foi difícil como esperei, considerando que o veículo estava despedaçando aos poucos. 

Assim que cheguei no vilarejo olhei em volta e não pude deixar de sorrir. Tudo estava exatamente igual ao que eu me recordava. Na rua central ficava o comércio… Lojas espalhadas de um lado e outro da rua, pequenas lanchonetes, e lá estava o meu porto seguro naquele pequeno e doce pedacinho do céu… A confeitaria que pertencia a nossa família desde que o meu avô havia inaugurado. 

Meu avô, que era de uma família tradicional tailandesa, viveu sua vida alimentando as crenças e culturas do nosso povo, e assim criou todos os seus filhos, e também a nós, suas netas, sob os mesmos costumes. Tudo aquilo que era do conhecimento, foi passado para nós com carinho e disciplina, e foi com essa sabedoria que ainda quando vivo, ele repartiu a herança que pretendia deixar para cada um dos três filhos, pois dizia que nada do que ele havia construído em vida, deveria servir para causar desunião entre a família. Assim, a partilha ocorreu conforme a preferência que cada um dos filhos demonstraram ao longo da vida enquanto ajudava vovô em suas atividades econômicas. Papai havia herdado a confeitaria da qual sempre cuidou, assim como tio Tawan, pai de Engfa, ficou com empresa de cultivo de grãos, afinal de contas, ele era o único a ter conhecimento na área, e agora era mesma era gerenciada com a ajuda da sua filha. Já o cultivo de peixes em viveiros, ficou com tio Arthit, pai de Lookmhee. 

Eu sempre achei que aquele era como um pedacinho do céu para todas as crianças do vilarejo. Os doces que servíamos ali, eram receitas exclusivas da nossa família. O fato é que existiam doces para todas as ocasiões, fosse para curar a tristeza, ou para cultivar a alegria. Meu avô costumava dizer que tudo passa, menos as sensações despertadas pela degustação de um bom doce.

Contudo, não eram somente os doces que servíamos durante anos aos nossos clientes, que me despertava boas memórias. Sem dúvidas as melhores delas eram aquelas que construímos durante o preparo. Lembro que quando eu ainda era criança por tantas vezes meu avô me ensinava a magia do preparo de cada doce que ele produzia. Me fazia pôr a mão na massa,  explicava carinhosamente sobre as melhores combinações das suas receitas, e dizia que um dia tudo aquilo seria meu para que eu pudesse lembrar dele, portanto eu deveria aprender tudo e cuidar com carinho de cada detalhe do que era produzido.

“Isso… Desliza o recheio cuidadosamente sob a massa. É assim mesmo! Isso é uma lição que você deve usar para tudo em sua vida: Se você não tiver cuidado com o processo, tudo desanda, ok? Cozinhar é como colher o fruto do amor. Requer tempo, Lena. É preciso paciência, cuidado, emoção… Não pode ser de qualquer jeito. Também não é qualquer um que compreende a complexidade. Um dia você vai entender e reconhecer a semelhança entre cozinhar e amar, minha pequena Lena.”

Vovô dizia, e também completava explicando que cozinhar era uma arte apreciada por poucos. Hoje eu consigo compreender o encanto que existia em seus olhos enquanto me explicava aquelas coisas. Era o mesmo encanto que existe em meus olhos enquanto escrevo, talvez foi por saber disso que ele aceitou a escolha que fiz antes da sua partida. Ele morreu sabendo que a cozinha era meu segundo lugar favorito da vida, porque o primeiro estava nas páginas em branco. 

No entanto, mesmo que eu não tivesse decidido cuidar da doceria como vovô esperava, aquele lugar tinha meu coração. Desde pequena quando eu queria pensar, ou me curar de algum aborrecimento, era para lá que eu corria. O cheiro do açúcar era como um antídoto para qualquer dor. 

Estacionei próximo a confeitaria da minha família, e sentindo uma alegria que a muito tempo não sentia, segui até a entrada.

Assim que passei pela porta aquele cheirinho doce dominou meus sentidos. A sensação era de estar voltando a infância. Era uma sensação de pertencimento preenchendo meu coração.

Olhei em volta e percebi que o lugar ainda não estava tão movimentado como costumava ficar depois das 17hrs. 

– Papai! – Chamei com animação.

Contudo a animação durou pouco. Alguém desastrada esbarrou em meu corpo, e o pior aconteceu… Não era apenas o chão que estava coberto por farinha de trigo. Eu tenho certeza que todo meu corpo, incluindo o meu lindo cabelo, como qual eu tinha tanto zelo, também estavam. 

Buscando me acalmar, levou alguns segundo até que eu abrisse os olhos. E quando o fiz, não sei exatamente dizer o que senti quando aquela tonalidade do seu olhar intenso encontrou o meu.

As mãos daquela mulher seguravam firme minha cintura, enquanto ela parecia se certificar de garantir que eu não caísse após o esbarrão, enquanto seus olhos permaneciam conectados aos meus. Era como se um magnetismo poderoso estivesse naquele momento trabalhando em algo maior que meu desejo de expressar minha indignação pelo banho de farinha que ela me deu. 

– Mas o que é que está acontecendo aqui? – Papai olhava incrédulo para mim, e aquela pequena criatura desajeitada. 

– Sr. Jett, me perdoe. Eu ia levar o saco de farinha para o estoque quando esbarrei com a moça.

A desconhecida parecia ter urgência em se explicar, e eu tive ainda mais urgência de me desvencilhar das posses das suas mãos em meu corpo, especialmente quando o olhar de papai alcançou aquele contato físico.

Papai passou as mãos pelo o rosto. Ele não costumava se aborrecer fácil, mas era nítido que estava frustrado com algo. 

– Quem é você? – Eu não quis parecer mal educada, mas a curiosidade falou mais alto.

A mulher rapidamente se apressou em limpar as mãos no avental, mas tenho certeza que foi uma péssima ideia, considerando que o mesmo estava completamente sujo de farinha.

– Perdão! Meu nome é Miu Natasha. Mas pode me chamar apenas de Miu. Sou a nova… 

– Por favor, Miu. Me dê um segundo para falar com minha filha a sós. – Papai interviu antes que a mesma pudesse seguir com a apresentação. – Venha, Lena. Vamos para o escritório.

 

…

 

Eu não podia acreditar naquilo que papai dizia. Aquilo só podia ser uma piada de mal gosto ou coisa assim.

– Você não pode fazer isso. Vender a confeitaria? Papai, essa foi a herança de família que vovô nos deixou. – Não pude esconder o quanto estava indignada.

– Não pense que gosto da ideia, Lena. Mas eu estou ficando velho, filha. Sinto que não consigo mais dar conta como antes. Mal consigo ficar em pé na cozinha porque as dores tomam conta da minha coluna. Além disso, não estou vendendo totalmente. Ela vai ser uma sócia. É jovem, dedicada, se mostra interessada em aprender… Bem, é um pouco estabanada, mas ela leva jeito. Com o tempo tenho certeza que vai dar certo. 

– Ela não é da família. Vovô vai se revirar no túmulo.

– Não diga uma coisa dessa, menina. – Ele me repreendeu de imediato. 

– Mas é verdade! Vovô queria que tudo permanecesse entre nosso família. Principalmente as receitas que deram vida a esse lugar.

– Acontece que se fosse dessa maneira, cedo ou tarde a confeitaria fecharia as portas de qualquer jeito, afinal de contas, você e sua irmã seguiram caminhos diferentes daquilo que esperávamos. – Aquela foi a primeira vez que papai jogou aquela verdade em minha cara. – Não me entenda mal, filha. Eu não a julgo por escolher seguir outra profissão e ter sua própria vida. Só estou dizendo que eu não iria te pedir para voltar e tomar conta da loja, sabendo que seu sonho era outro. 

– Mas… E-eu também gosto daqui. A confeitaria me lembra do vovô. – Me esforcei para não deixar lágrimas caírem.

– Eu sei meu amor, mas para isso aqui se manter vivo é necessário bem mais que gostar. É preciso viver isso aqui, Lena. 

Por mais que eu soubesse que papai tinha razão, eu não conseguia aceitar que agora aquilo que vovô construiu estaria nas mãos de uma desconhecida atrapalhada.

Fim do capítulo


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