Capitulo 2
Por Lena
Tocava uma música no rádio do carro de Engfa, e devo confessar que aquela toada fazia um par perfeito com o cheiro forte de terra molhada trazido pelo o vento. Embora eu tivesse relutado a ideia daquelas férias forçada, eu começava me convencer internamente que talvez não tivesse sido de todo ruim aceitá-la.
– Vocês precisavam ver! Quando soube da vinda de vocês, Lookmhee ficou feliz igual pinto em beira de rio. – Engfa me fez rir.
Não era difícil de imaginar a empolgação da nossa prima mais nova. Lookmhee era o tipo de pessoa exagerada, mas também muito cativante. Lembro bem que quando ainda éramos crianças, nosso avô costumava dizer que cada uma de nós tínhamos particularidades em nossas características que eram tão iguais, porém extremamente diferentes.
Naquela época eu não entendia o que aquilo significava, mas agora eu compreendo. Somos mesmo muitos parecidas em diversos aspectos e a união que existe entre nós torna isso ainda mais evidente. No entanto, também temos muitas diferenças em nossas personalidades. Havia ficando por conta de Lookmhee, o lado mimado e igualmente extravagante, por isso vovô sempre dizia que ela seria a neta que mais daria trabalho a ele quando decidisse se abrir para as artimanhas do amor. Segundo ele, ser como Lookmhee era, poderia torná-la a mais propícia em não lidar bem com os próprios sentimentos, ao contrário de Engfa, que sempre foi a mais perspicaz, organizada, e também muito destemida entre todas nós. A mais velha de nós quatro, era sem dúvidas aquele tipo de pessoa que sabe exatamente o que quer, e também o que fazer para conseguir alcançar seus objetivos.
– E onde está aquela ingrata? Ficou tão feliz, mas não veio me buscar.
– A coitada está mais desgastada que todas nós juntas. Ao que parece, ser uma professora não é mais simples do que outras profissões. Mas a noite com certeza ela vai ir na casa do tio Jett para te ver. E Lingling, desistiu de vir?
– Não! Ela vem daqui a uns dias. As gravações da série tinham terminado, mas surgiu a necessidade de regravar algumas cenas.
– Hum! Entendo. Quer dizer, eu me esforço para entender o rumo que vocês seguiram. Na verdade, não sei como vocês suportam essa coisa toda. Eu não saberia lidar com a pressão causada pela mídia.
Ri ao ver minha prima fazer uma careta em desagrado. Embora sempre tenha apoiado nossas escolhas, o lado protetor de Engfa não a deixava compreender as preferências que Lingling e eu tivemos em relação a nossas profissões. Na verdade, Engfa odiava nos ter tão longe dali boa parte do ano. Ela sempre gostou da ideia de ter todas nós por perto. Mas a única que conseguiu realmente prendê-la ao seu lado, foi Lookmhee, que não deixou o lugar onde crescemos.
Desde quando éramos crianças, nós quatro sempre fomos muito próximas. Tanto Engfa quanto Lookmhee, eram filhas únicas e por isso nos enxergavam como suas irmãs. Por isso, elas sempre souberam dos sonhos que eu e minha irmã tínhamos. Sempre souberam que diferente delas, que ao crescer permaneceriam morando ali, quando a fase adulta chegasse iríamos nos distanciar, e embora entristecidas, ainda assim nos apoiaram. Contudo, nem mesmo a distância do agora era suficiente para nos deixar realmente distante umas das outras. Seguíamos unidas, do tipo que nos conhecemos bem, e contamos tudo umas para as outras durante horas de ligação em vídeo chamadas. Tanto eu quanto minha irmã, sabíamos que elas estavam sempre a uma ligação para nos ajudar no que fosse necessário.
– Então… Você vai me contar agora o que te trouxe aqui antes do fim do ano? Geralmente você é tão obcecada pelo o seu trabalho quanto eu, então é no mínimo incomum te ter aqui durante esse período.
– Até parece que Lingling não te contou. Aquela lá mal aguenta a língua dentro da boca, de tão fofoqueira que é.
Revirei os olhos, mas por fim nós duas sorrimos. Sabíamos que eu não havia dito nenhuma mentira.
– Não foi preciso ela me contar. Eu posso odiar redes sociais, mas ainda assim sempre tiro um tempo para acompanhar a vida paralela de vocês duas.
Dessa vez meu sorriso era de agradecimento. Era reconfortante saber que existiam pessoas que me queriam bem independente de quem eu sou, do que eu tenho ou das escolhas que faço.
– Como você está lidando com tudo isso? Quero dizer, eu me preocupei com você. Eu não entendo muito como funciona tudo isso, mas me parece que a coisa tomou uma proporção gigante. No fim das contas, acho que não estou tão errada, não é mesmo? Afinal, você está aqui.
Suspirei me permitindo deixar aquele peso dos meus ombros serem expostos sem qualquer culpa.
– É complicado! Na verdade, eu não sei exatamente se foi isso que me trouxe para casa. Confesso que no início eu não queria estar aqui. Mas depois meu coração parecia estar certo que nesse momento era exatamente aqui que eu deveria estar.
Embora estivesse prestando atenção na estrada, senti que ela me observava pelo canto do olho.
– Quer falar sobre isso? – Engfa tentou não ser invasiva. Mas deixava claro que estava ali para mim.
– Quer dizer, a coisa toda do meu trabalho também estava no pacote quando tomei a decisão. Mas a verdade mesmo, é que tenho sentindo que me perdi de mim mesma desde que… Bem, você sabe.
– Hum! Você ainda tem sentimentos por aquela mulher?
– Não! Quer dizer, eu não sei. – Dessa vez ela me olhou sem esconder a repreensão. – Calma! Não é isso que você está pensando. Pelo menos, eu acho que não seja.
– Você acha? Lena, você sempre foi tão ajuizada. Não me faça perder a fé em você.
– O que quero dizer, é que quando lembro da Thai, os sentimentos que dominam meu coração não são bons. Sinto tristeza, mágoa, decepção.
– O fato é que depois de tudo o que ela te fez, você não deveria nem mesmo lembrar dela. – A vi revirar os olhos com impaciência. – Mas eu entendo! Não vou te julgar, porque sei que ninguém manda nessas coisas do coração. Então é isso, você veio para tentar esquecê-la?
– Não é bem isso. Eu só queria me reencontrar. Você lembra do que vovô dizia?
Um sorriso largo surgiu nos lábios da minha prima enquanto seus olhos ganharam um brilho iluminado.
– E quando as coisas parecerem difíceis, esse lugar sempre será o abrigo mais seguro. O lugar para onde vocês podem correr e encontrar o verdadeiro eu de vocês. – Ela repetiu as palavras que desde criança costumávamos ouvir nosso avô dizer. – Ele amava esse lugar. As terras, a confeitaria… Todo o vilarejo do qual ele foi pioneiro junto com vovó e muitos amigos que fizeram aqui.
– Aqui ele construiu nossa família. E dizia que todas nós também iríamos construir nossas próprias famílias por aqui. – Eu disse me sentindo saudosa.
Hoje já não tínhamos nenhum dos dois. Vovó e vovô haviam nos deixado, mas suas lembranças e ensinamentos sempre estariam guardados em nossos corações. Como podia ser diferente? Eles sempre foram nossos maiores exemplo em todos os aspectos da vida.
– Acho que nisso, ele errou totalmente. Olha só para nós… Somos péssimas nessas coisas. Seguimos sem qualquer relacionamento que vale a pena. – Ela fez uma careta engraçada, e então nós duas gargalhamos.
– Para ser bem honesta, depois do chifre que levei, não penso em ter um relacionamento tão cedo. Acho que levaria muito tempo para alguém conseguir conquistar minha confiança, e isso seria um grande problema no relacionamento.
– Bobagem! O que aconteceu com você, por mais triste que seja, tem uma explicação.
– Jura? Que explicação poderia ter se não a falta de caráter da pessoa?
– Bem, isso também é um ponto importante. Mas ela não era a pessoa certa. Quando for a pessoa certa, ela fará de tudo para te proteger até de você mesma. Ela vai cuidar de você, e vai tratar seu coração como à jóia mais preciosa do mundo. Ela jamais vai ser o motivo da sua tristeza, mas vai fazer até o impossível para te ver sorrir. Você só não pode estar com o coração fechado, porque se estiver talvez veja a pessoa certa passar diante dos seus olhos e ainda assim não vai reconhecer.
Ergui a sobrancelha ao observá-la. Engfa sempre foi muito séria, então vê-la falando assim sobre sentimentos, era no mínimo curioso.
– O que tá acontecendo com você? Por acaso andas apaixonada e esqueceu de nos contar? Se for isso, prepare-se, porque Lingling vai ficar irritantemente chateada.
Minha prima arregalou os olhos. Definitivamente culpada! Mas é lógico que ela negaria.
– Claro que não! O assunto aqui é sobre você.
– Hum! Sei!
– Escuta… Mudando de assunto, eu vou te levar direto para casa. Tio Jett disse que deixaria a confeitaria mais cedo hoje apenas para te esperar. Ele está louco de saudades! Mas vamos marcar de fazer algo ainda essa semana?
– Com certeza! Quero passar o máximo de tempo com vocês. – Apertei sua bochecha apenas para provocá-la. Assim como eu, Engfa não era muito fã de contato físico.
– Ah, se comporte! Você nunca foi tão melosa assim.
…
Assim que chegamos em frente de casa, me despedi da minha prima que se negou a entrar com a desculpa que tinha algo urgente no trabalho para resolver, o que não era tão estranho, considerando que aquela era tempo de preparar as plantações para a época de colheita, e ela costumava ter ainda mais trabalho que o normal, já que se algo ocorresse errado, todo o trabalho do ano poderia ser comprometido.
Vi seu carro se distanciando e então olhei em volta. O clima era perfeito! Nossa casa era afastada do centro do vilarejo, rodeada por morros, uma vegetação verdinha indicando que por ali o clima chuvoso permanecia intenso, gado solto pastando sem qualquer preocupação, e um céu acizentado dando um ar melancólico ao lugar, mas que em nada interferia em sua beleza. O único barulho que era possível ouvir, era o som dos pássaros cantando livremente. Na verdade, a paisagem era um cenário lindo tomado por um silêncio reconfortante, do tipo que trás calma e paz de espírito. Tudo ali em volta estava longe de ser aquela mesma vida acelerada com a qual eu estava acostumada na cidade grande. É, acho que começava a perceber que sentia saudades daquilo tudo.
De repente recordações da minha infância e juventude me invadiram em cheio. Era uma época em que eu me sentia feliz com a simplicidade da vida enquanto sonhava com os mais belos cenários do que ainda poderia ser. Uma época em que a felicidade se resumia em manter os pés descalço na terra molhada enquanto ao lado das minhas primas e minha irmã, dançávamos em meio chuva que banhava minha alma. Ou quando andava de bicicleta pelo o vilarejo com todas as outras crianças cantando músicas infantis. Naquela época, e especialmente naquele lugar, quando não queríamos brincar não era um problema. Geralmente ficamos todas sentadas na varanda de casa admirando as estrelas e conversando bobagens.
Me dei conta então que logo uma sensação nostálgica entrou em conflito com tantas outras emoções que estar naquele lugar me despertavam. Sem dúvidas, era sempre bom estar de volta!
– Filha, finalmente você chegou. – Papai quase me pegou no colo como fazia no passado, mas logo sentiu sua costas doer.
– Cuidado! – Me antecipei em ampara-lo.
– Não se preocupe, querida. Isso é coisa da idade. – Ele me olhou de cima a baixo como se mal pudesse acreditar que eu estava mesmo ali. – Eu estou tão feliz que esteja aqui.
– Eu também estava com saudades, papai. – Me aconcheguei naquele abraço.
– Venha! Vamos entrar. Sua mãe está que não se aguenta de felicidade. Ela já fez todo tipo de comida que você gosta.
Segui para dentro de casa me deixando ser abraçada por ele. Assim que entrei em casa o cheirinho de café passado invadiu os meus sentidos, denunciando que certamente uma mesa farta estava minha espera, o que rapidamente fez meu estômago roncar.
Assim como papai, mamãe também correu em minha direção para me receber com um abraço apertado. Sua emoção logo foi denunciada pelas lágrimas.
– Meu amor, você finalmente estar em casa. Nós já estávamos preocupados com a demora. Achávamos que algo tinha acontecido no meu caminho. – Meu corpo foi envolvido pelo o abraço acolhedor de mamãe. – Como é bom te ter aqui, filha. Você e sua irmã ainda vão nos matar de saudades qualquer dia desses. – Ela disse chorosa.
– Não diga isso, mamãe. Vocês sabem que nós amamos vocês. Não aparecemos com mais frequência, porque o trabalho demanda muito de nós.
– Nós sabemos, meu amor. Mas sentimos falta de vocês. Somos dois velhos vivendo a falta que vocês nos fazem. – Papai disse provocando uma ardência sinistra em meu estômago.
Independente do dinheiro que tinham, assim como meus avós, meus pais também sempre viveram de uma maneira simples e pacata, e jamais gostaram de frequentar a cidade grande. Na verdade, durante esses anos que Lingling e eu estávamos fora, foram poucas às vezes que eles nos visitaram, e nós compreendíamos suas preferências, por essa razão juntas decidimos que aquela vida exposta e agitada que tínhamos escolhido viver, não os pertencia. Na verdade, nem a eles, e nem aos nossos familiares, por isso geralmente nem mesmo quando éramos questionadas em entrevistas ou por fãs, não abordávamos detalhes que tirassem a paz da nossa família. Tanto meus pais, quanto minhas primas e tios, tinham suas identidades preservadas, assim como também a maneira como viviam ou o que faziam, das próprias vidas.
Mamãe segurou firme em meus ombros e logo varreu o olhar por todo meu corpo. Quando seus olhos finalmente voltaram encontrar os meus, existia uma desaprovação paupável ali, o que logo me fez encolher os ombros. Eu sabia que iria ouvir um sermão por dias.
– Você está ainda mais magra do que a última vez que te vi. Lena Lalina, por acaso a senhorita não tem se alimentado bem?
Meu estômago embrulhou ao ouvi-la mencionar meu nome completo.
Antes que eu pudesse dizer algo, ela mesmo respondeu aquilo que havia perguntado:
– Ora, mas que pergunta essa minha. É claro que não está. – Seu polegar então forçou para que ela pudesse enxergar minha alma através do meus olhos, do tanto que ela os abriu. – Você está anêmica. Olha esses olhos amarelados. Que absurdo! Se você que é mais ajuizada está assim, não quero imaginar como está sua irmã. Aposto que Lingling está ainda pior.
Ri com nervosismo do tom de desaprovação de mamãe. Quando ela visse que Lingling havia pintado o cabelo de vermelho para poder interpretar o papel que havia ganhado recentemente, certamente cairia para trás de espanto. Mamãe e papai não fazia a linha de família tradicional. Longe disso, na verdade. Contudo, eles tinham os próprios limites, e não conseguiam acompanhar aquilo que chamam de geração estranha com gente esquisita.
– Não seja exagerada, mamãe. Continuo pesando a mesma coisa de sempre.
– Coisa nenhuma! Venha, meu amor. Vamos resolver isso. – Sob o olhar risonho de papai, ela então saiu me puxando pela mão em direção a cozinha. Como eu já suspeitava, a mesa estava farta.
– Mamãe, não precisava de tudo isso. Tem comida para um batalhão!
– Seu pai sempre comeu por nós todos. Além disso, você pode pegar um pouquinho de cada coisa que gosta. – Ela deu de ombros.
– Que isso, mulher? Eu não sou esfomeado assim não.
Logo os dois iniciaram uma discussão boba que me fez rir. Os dois viviam entre tapas e beijos, mas não existia casal no mundo que se amasse mais que eles.
Antes de sentar, surpreendi os dois com beijos carinhosos no rosto.
– Obrigada pela recepção. Eu amo vocês!
– Olha só para nós. Parecemos dois velhos babões chorando por causa de um beijo. – Papai resmungou enxugando uma lágrima solitária que teimou em rolar por seu rosto. – Venha, vamos sentar e comer.
Assim como papai, tomei posse de um lugar vazio a mesa. O cheiro estava realmente maravilhoso, e tudo o que tinha posto ali estava com uma aparência divina, capaz de despertar o apetite de qualquer um.
– Eu fiz tudo o que você gosta. Tem bolos, pães recheados, salada de frutas… Coma tudo. – Mamãe disse com empolgação.
Não pude deixar de sorrir e sentir o coração aquecer. Só percebi que eu precisava estar em casa, até que finalmente estava de volta.
…
Desde que eu havia chegado no início daquela manhã, eu não tinha tido muito tempo para estar sozinha comigo mesma. Meus pais haviam se encarregado de me entreterem com conversas paralelas, mimos e risadas, o que acabou servindo para aquecer meu coração.
Contudo, após tomar um bom banho relaxante e finalmente sentir meu corpo descansar, então a realidade me invadiu. Percebi que em algum lugarzinho do meu coração ainda estava guardada a inquietação. Eu sabia que por mais que fosse bom estar em casa, aquilo não resolveria totalmente meus problemas. Na verdade, eu continuava tendo um problemão de trabalho nas mãos. Lá fora, para alguns antes dizia me amar e admirar meu trabalho, agora eu era a autora má, impiedosa, fria, sem sentimentos… Eram tantos adjetivos que usavam para me descreverem nas redes sociais como se fosse uma verdade absoluta, que eu sequer conseguia pensar sobre o que tudo aquilo realmente significava em minha vida.
Tomada pelo o impulso, resolvi fazer a única coisa que Lingling e Yen haviam ordenado não fazer… Sentei naquela antiga cadeira onde por incontáveis noites da minha adolescência passei sentada escrevendo em infinitos diários que mais tarde serviriam de inspiração e mudaria minha vida. Alonguei o corpo cansado, estralei os dedos, a liguei a notebook.
A luz azul do monitor era a única coisa que denunciava a passagem das horas. A página do último capítulo estava aberta e brilhando diante dos meus olhos, mas era o canto da tela que atraia meu olhar, as notificações não paravam; eram como pequenas pedras atingindo uma vidraça que já estava trincada.
Apoiei o rosto nas mãos, sentindo o peso do silêncio da casa em contraste com o barulho dos grilos lá fora. O capítulo final… aquele que eu levei meses para maturar, agora era tratado como uma traição perturbadora. Para as leitoras, o amor deveria ser um porto seguro, uma linha reta em direção ao pôr do sol. Mal sabiam elas que para me, o amor sempre foi uma questão de tempo. – e o tempo, às vezes, simplesmente acaba antes do esperado. Seria eu a egoista, ou elas por não aceitarem um ponto de vista diferente sobre o assunto? O Peso das palavras ditas, o quanto isso podem nos afetar?
Abriu uma das mensagens, apenas para fechar os olhos logo em seguida.
"Como você pôde fazer isso com elas?" "Você destruiu a única coisa que nos fazia acreditar no felizes para sempre.""Isso não é arte, é crueldade."
E então aquilo que Lingling temia, aconteceu:
“Meninas, está muito claro o que ela está fazendo. Ela está projetando a própria vida nas personagens. Ela ainda não superou a ex, que agora está feliz em um novo relacionamento.”
Aquele último comentário me atingiu bem mais do que eu pudesse imaginar ser possível. Embora minha história com Thai tenha sido de fato o que me fez desacreditar na verdade dos sentimentos, não era assim que eu queria que as coisas fossem. Quero dizer, não queria meu trabalho fosse reflexo da minha vida. Tão pouco queria compartilhar minhas vivências.
Comecei a reler cada linha de um capítulo que continha vinte páginas. Engoli seco quando me dei conta que cada palavra do adeus daquelas personagens haviam sido arrancada de minha própria pele.
Inquieta, me levantei e caminhei até a janela do meu antigo quarto. A noite estava fria, e lá fora tudo estava um deserto banhado por uma luz pálida que lembrava a textura de uma fotografia antiga. Cruzei os braços e pensei: Havia uma ironia amarga em minha profissão: Eu passava meses criando conexões para, no fim, ser punida por ser honesta demais com a realidade. Eu até compreendo que o mercado pede o conforto da ilusão, mas minhas mãos agora pareciam só saber escrever a verdade das lacunas, das xícaras de café que esfriam e das cadeiras que permanecem vazias.
Flashback on
“ Naquela manhã fazia um dia bonito ensolarado lá fora. Pela janela pude ver pessoas caminhando apressadas de um lado para o outro enquanto a rotina do dia a dia as esperavam.
– O que está pensando? – Lingling me despertou dos meus pensamentos. – Trouxe isso para você. Sua cara está péssima. Você não dormiu bem a noite?
Aceitei o café que minha irmã ofereceu.
– Não é isso… Quer dizer, é isso também.
Lingling estreitou os olhos e então jogou as palavras sem rodeios ou qualquer cuidado.
– É a Thai, não é? Tá mais do que claro que vocês não estão bem a meses. Quer falar sobre isso?
Apenas acenei negando. O que eu tinha para falar se nem mesmo eu compreendia o que estava acontecendo? Thai e eu estávamos namorando a algum tempo. Foi ela quem levou meses se esforçando para me conquistar, mas era eu que estava planejando pedi-la em casamento em breve.
O problema é que a rotina, nossa instabilidade e os conflitos chegaram em nosso relacionamento antes mesmo do que geralmente era esperado.
…
Me sentindo culpada por algo que eu sequer sabia explicar, naquele dia resolvi sair mais cedo da redação e fazer uma surpresa para Thai. Provavelmente ela chegaria cansada do trabalho, mas se sentiria especial quando chegasse em casa e encontrasse uma mesa posta para nós duas.
Fazia algum tempo que não tirávamos um tempo para curtir uma a outra em um momento só nosso. Minha carreira estava começando a decolar de verdade, e embora eu não desse a mínima para a fama que eu ganhava com meus livros, ainda assim eu estava compromissada com o processo de criação deles, e dava atenção e carinho as fãs.
A rotina do trabalho estava cada vez mais intensa. Quando eu não estava na redação, estava focada na criação do primeiro livro que esperava que mudasse minha vida. Thai começou a fazer cobranças, questionamentos, queria mais atenção, e esse estava sendo um dos principais motivos das nossas brigas diárias. Outra questão forte para a existem dos conflitos, era o fato dela não entender o porquê eu gostava de manter nossa vida privada, mesmo quando tinha tudo favorável para tornar nossa vida pública. Já eu não entendia o porquê sua ambição midiática. Ser famoso trazia mais malefícios que benefícios. Mas desde que ela começou trabalhar como influencer, a cada passo que dávamos juntas, Thai queria fazer uma mídia e publicar em suas redes. Segundo ela, aquilo renderia frutos para nós duas. Se íamos em um restaurante, só podíamos comer após tirar várias fotos do prato. Se estávamos a sós em casa, tínhamos que tirar fotos juntas, e até mesmo quando não estávamos em clima de romance, ela fazia parecer que estamos, mesmo que por segundos. Algo criado, fictício, mentiroso, apenas para render comentários e curtidas. Mas eu não era aquela pessoa, eu não gostava daquela maneira de viver, e sentia falta da mulher atenciosa e cuidadosa por quem me apaixonei.
Contudo, embora nossas divergências atuais, naquela noite eu estava disposta a dar o primeiro passo para organizar as coisas entre nós, afinal de contas, eu a amava, e ela não merecia menos que o meu melhor, não é mesmo?
Antes de seguir para o apartamento de Thai, resolvi passar no mercado. Comprei os ingredientes para fazer seu prato preferido. Só então segui para o apartamento.
Como eu queria fazer uma surpresa para Thai, não avisei para ela que invadiria seu lar. Por sorte ou azar, eu tinha uma chave reserva do local, e começava ficar empolgada com o que tinha idealizado para aquele momento.
Contudo, toda empolgação foi dando lugar a um mix de sentimentos confusos… A medida que fui encontrando peças de roupas espalhadas pelos cômodos em trilhando um caminho que me levava ao quarto da minha namorada, meu coração apertou. Era uma dor jamais sentida antes. Era sufocante, humilhante.
Lágrimas começaram a escorrer por meu rosto quando os barulhos que soavam do outro lado me fizeram compreender o que estava acontecendo ali antes mesmo de abrir a porta. Mas teimosos, meus olhos insistiram em ver para crer.
Claro que assim que me viu parada na porta do quarto assistindo aquela cena suja, Thai assustou-se, e como todo ser traidor tentou se explicar, justificar… Mas que explicação aquilo poderia ter?
Com lágrimas nos olhos e uma ferida enorme no coração, dei dos passos para trás quando ela tentou se aproximar. Em seguida corri… Corri para longe daquele lugar, mas foi em vão, pois a cena permaneceu… Bem, permanece viva até hoje em minha memória.
Flashback off
Bem, pensando agora em meu trabalho, talvez o erro não tenha sido o final que dei aos personagens principais, pensei comigo mesma, encostando a testa no vidro frio. O erro foi minha insistência em acreditar que era capaz de dar sequência sem parar para que meu coração sobrevivesse a própria dor.
Eu sempre achei curioso como escrever um romance era ao mesmo tempo, um ato de criação e de perda. A verdade, é que não se pode negar que existe todo um processo por trás de cada linha escrita. É quase como um ritual: Eu sento diante da página em branco como quem encara um espelho que por vezes não reflete meu próprio rosto, mas sim tudo aquilo que poderia ter sido, tudo aquilo que não passa de sonhos. As palavras surgem devagar, como se cada uma precisasse ser arrancada de um lugar profundo – um lugar onde memórias e sentimentos se misturam sem forma definida. E, ainda assim, quando finalmente acontecem, não pertencem mais a mim e sim a quem ler.
Será que elas ficariam chocadas se soubessem que talvez agora isso também está me doendo? Perceber que tudo aquilo interferiu tanto em minha vida, a ponto de alcançar meu trabalho? Minha mente estava bloqueada, então meu coração foi quem deu sequência.
Eu sempre soube que cada personagem que nascia carregava um fragmento meu: um medo antigo, um assunto mal resolvido, uma saudade que nunca encontrou destino, um amor não vivido. Uma dor que não cura. E, no entanto, ao colocá-los no papel, eu os vejo ganhar autonomia, como se escapassem das minhas mãos e seguissem o próprio caminho caminho, seu próprio ciclo. Os personagens amam, sofrem, partem… sem pedir permissão. E eu, que os crio, torno-me apenas uma testemunha daquilo que em outra hora esteve em minhas mãos como decisão, e hoje o preço da decisão está sendo cobrado, não apenas por elas, mas por mim que não consigo sequer imaginar outro desfecho para aquela história de amor.
Lembro que quando comecei a escrever o primeiro livro daquela trilogia, haviam noites em que o silêncio do quarto parecia mais pesado do que qualquer ausência. O som das teclas era irregular, hesitante, como um coração cansado. Quando eu terminava um capítulo, eu não sentia alívio. Sentia uma espécie de despedida. Como se tivesse vivido algo intenso demais para caber dentro de mim, e por isso precisava deixar ir. Mas cada adeus deixava um eco, e esse eco se acumulava, página após página, até que meu próprio silêncio já não fosse mais o mesmo. Ainda assim, eu continuei. Porque havia uma beleza triste nesse processo — uma beleza que só existe naquilo que não pode ser totalmente resolvido. Escrever era uma maneira de existir em pedaços, espalhada entre linhas, escondida entre vírgulas, dissolvida em finais que nunca eram realmente finais, mas que causavam ansiedade.
Agora, eu me perguntava se escrevia para preencher um vazio ou para torná-lo mais evidente. Até hoje ainda não tive uma resposta. Porque, no fundo, escrever um romance era isso: transformar o indizível em algo legível – e agora sei que também é descobrir que, mesmo assim, ninguém jamais compreenderia por completo. Nem mesmo eu.
E talvez fosse por isso que eu escrevia: não para contar uma história, mas para sobreviver a ela.
Fim do capítulo
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