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Os quatro compassos do amor: O ritmo do recomeço por priskelly

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Palavras: 4094
Acessos: 302   |  Postado em: 20/07/2026

Capitulo 1

Por Lena

 

– Agora chegou o momento mais esperado do nosso programa. Temos a alegria de receber em nosso palco uma das escritoras mais amada do nosso país. Lena Lalina! 

 

Ouvi os gritos e aplausos e logo meu corpo reagiu. Por mais que eu já estivesse familiarizada com ambientes como aquele, era impossível não me sentir nervosa e envergonhada toda vez que precisava estar em um palco e diante de um público considerável. Por isso, enquanto caminhava para o palco onde aguardavam minha entrada, eu me esforçava para não tropeçar em meus próprios pés. 

 

Quando entrei no ambiente iluminado, meus olhos foram invadidos por todas aquelas luzes e câmaras que se voltaram em minha direção enquanto um público eufórico e cheio de energia gritavam. Com carinho, sorri e acenei com empolgação para a plateia. Todos que conheciam e seguiam meu trabalho eram sempre tão atenciosos e carinhosos comigo, que a sensação que eu tinha era que o mínimo que eu poderia fazer era retribuir era oferecer gentileza e atenção sempre que os via. 

 

Em seguida me dirigi à simpática apresentadora que mantinha um sorriso acolhedor no rosto enquanto aguardava o alvoroço diminuir. 

 

– Obrigada por me receber hoje. – Murmurei em seu ouvido quando a abracei.

 

– É um prazer, querida. 

 

Quando escrevi meu primeiro livro, jamais imaginei que as coisas tomariam aquela proporção e que me levaria a uma fama tão repentina quanto consideravelmente assustadora. Hoje meus livros tinham fama não apenas nacionalmente, mas haviam ganhado reconhecimento internacional também, atraindo públicos, em geral feminino, de muitos países, incluindo América Latina. Confesso que não era exatamente isso que eu almejava quando expus meu trabalho. Claro que sempre achei que seria justo ganhar pelo o que fazia, afinal de contas, aquilo era meu trabalho. Mas a fama foi algo que não almejei. Para mim, o real sentido de escrever sempre esteve na paixão que eu tinha em meu coração pela a magia que a escrita proporciona. Criar histórias sempre significou proporcionar para minhas leitoras a possibilidade delas devagar por diversos mudos, origens, culturas, vidas… Contos reais ou fictícios, seja eles quais fossem, o fato é que seria a imaginação que determinaria o que iria proporcionar para as amantes de leitura. Leveza, paixão, entrega, descobertas… Ou seja, o que eu sempre quis de verdade, era sentir o prazer de empilhar significados em mudos solitários, confusos, e perdidos em emoções muitas vezes incompreendidas ou não sentidas. Talvez conquistar um sorriso quando a alma chorava em silêncio. Ou quem sabe, testemunhar um milagre, um renascimento de alguém que já morreu enquanto vive. A verdade, é que sempre pensei que a leitura pode transformar vidas, e se possível eu queria exatamente isso.

 

Comecei escrever ainda criança. Naquela época, assim como toda menina da minha idade, o hábito da escrita começou em um diário que até hoje carrego comigo como meu maior tesouro. Nele sempre esteve dos mais variados pensamentos, emoções, sentimentos. É cômico pensar que até receitas de doces tem escritos em meu diário. 

 

Com o passar do tempo, a mente adolescente começou borbulhar juntos com os hormônios, as mudanças, os novos e incompreendidos sentimentos, e foi assim que comecei contatando histórias de mulheres que amam outras mulheres. As dores que são submetidas a sentir ainda quando não compreendem o que realmente sentem, quando não conhecem quem realmente são. Comecei escrever sobre renúncias, medos, inexperiência, paixões, amores, e também decepções. Até que minhas palavras ganharam prateleiras, conquistaram espaços em estantes e também corações de muitas mulheres que se indentificam de alguma maneira com aquilo que lêem. 

 

O carinho e acolhimento dos fãs que seguem meu trabalho representa muito para mim, e entre tantas reapresentações, significa especialmente que eu estou a contribuir significativamente com algo que faz sentido. Quero dizer, ainda vivemos em um mundo regado por preconceitos e maldade, então contar histórias com às quais outras mulheres possam se identificar, é a minha maneira de ajudá-las se sentir representadas, ouvidas e vistas. 

 

No entanto, ainda que essa não tenha sido minha primeira intenção, com o passar dos anos, a coisa toda tomou uma proporção inesperada, porém gratificante. Eu era grata por todo carinho que recebia das minhas leitoras. Aquilo que era para ser somente um livro, tornou-se muito maior e hoje eu estava prestes a concluir um projeto que levou quatro anos. Uma sequência de uma narração envolvente, tão romântica quanto dramática. As duas primeiras edições permaneciam na lista dos livros mais vendidos do país. E agora o terceiro e último livro estava prestes para ser lançado, o que vinha aguçando a ansiedade de todas que acompanharam a longa jornada de personagens que ganharam muitos corações.

 

No entanto, embora fosse emocionante encontrar o mix de alegria e ansiedade nos rosto das leitoras, das fãs, das amigas… Eu não estava vivendo minha melhor fase. Minha vida nos dois últimos anos, tinha virado uma bagunça. Muitas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Coisas que mesmo que eu tentasse explicar em palavras, nenhuma delas pareciam suficientes para que eu conseguisse dizer como me sentia. Na verdade, talvez nem mesmo eu sabia como me sentia. O fato é que existem algumas coisas na vida que não se podem explicar. Nós apenas seguimos um fluxo sem saber exatamente quem está no controle. 

 

Ninguém sabia, bom, pelo menos as fãs não sabiam que nos dois últimos anos, de repente me vi assim, sendo telespectadora da minha vida sem sem ao menos saber quem estava na condução. As coisas aconteciam simplesmente porque tinham que acontecer. Era como se eu estivesse programada em um automático, sem sentir, sem viver, sem seguir. Poucas pessoas podem compreender, mas acho que todo mundo pelo menos uma vez na vida vai passar por algo semelhante. Quero dizer, uma dor tão grande, uma decepção tão dilacerante capaz de tirar do trilho. Você perde o controle do que sente, do que vive, do que quer viver… Você perde a essência. 

 

Durante essa fase ruim, é isso que tem acontecido. O trabalho que antes era feito com o coração, tornou-se mecânico, mas precisava ser feito, não é mesmo? Existia um contrato a ser seguido, e eu precisava entregar o que conseguisse de melhor. E era sempre pensando nisso que eu sentava diante do notebook para escrever aquilo que não vivia, que não enxergava.

 

Após um tempo de conversa animada com a entrevistadora, tive um momento exclusivo para responder algumas perguntas feitas por fãs, onde mencionei alguns detalhes de como foi viver a magia dessa história contada nos últimos anos, e também como estava me sentindo com o final que estava prestes a chegar. Mal sabiam todas elas que parte do meu coração se sentia culpado por nem tudo ser uma verdade absoluta. Eu não queria que soubessem que o bloqueio da minha mente interferia diretamente em meu trabalho.

 

Determinado momento fui surpreendida por uma pergunta que obviamente não podia ser respondida com honestidade.

 

– Você sabe que com sua inscrita, tens o poder de desenvolver ansiedade em todas nós. Ainda precisamos esperar três meses até o lançamento do livro. Será que você pode nos dar pelo menos um acalento, e nos oferecer um pequeno spoiler sobre como será o final do nossa casal literário preferido?

 

Sorri!

 

– Oh, querida. Lamento não poder ajudar com isso. Não posso dizer nada a respeito. – Respondi descontraída.

 

– Mas nenhum pouquinho mesmo? 

 

Neguei mantendo um sorriso tímido.

 

– Nadinha!

 

– É minhas amigas. Ninguém pode dizer que eu não tentei. – Ela afirmou descontraindo o público. – Teremos mesmo que esperar. Mas não é como se isso seja um grande sacrifício, não é mesmo? Tenho certeza que a espera vai valer a pena. 

 

E assim, em um clima de descontração e ansiedade, a entrevista foi finalizada e mais uma agenda estabelecida pela minha editora tinha sido concluída com o que eles diziam ser um sucesso absoluto. 

 

 

 

Dois dias depois

 

 

 

Naquela manhã eu não tinha nenhum compromisso agendado na editora. No entanto, era apenas sete horas da manhã quando meu telefone tocou uma, duas, três vezes. Eu estava sonolenta, mas tive a impressão que quem quer que fosse no outro lado da chamada, parecia agir como se o mundo estivesse prestares acabar. Essa hipótese só se concretizou quando atendi na última chamada e uma voz desesperada soou do outro lado.

 

– Srta. Lena. O chefe pediu para que em quinze minutos você estivesse aqui na redação.

 

Após garantir que não tinha ordens para adiantar o assunto, mas que era algo urgente, a secretária do meu editor chefe, desligou a ligação. 

 

Fui obrigada rastejar para fora da cama. Normalmente eu não funcionava bem antes das 10hrs da manhã, então posso apostar que levaria bem mais que os quinze minutos estabelecidos.

 

 

 

 Uma hora depois 

 

 

 

– Mas o que é que está acontecendo? – Perguntei para mim mesma quando vi o que parecia ser um caos instalado na porta da editora. 

 

Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo. Mas percebi que lá fora os ânimos estavam aflorados. Mulheres, entre elas a maioria jovens, estavam eufóricas gritando coisas que eu mal conseguia compreender. Aquilo parecia algo além de um protesto. Era uma verdadeira rebelião.

 

Resolvi entrar na editora pelo o estacionamento privado. Ali o público não tinha nenhum acesso e independente do estivesse acontecendo, eu garantiria que não enfrentaria a multidão de rebeldes.

 

Assim que meus pés pisaram no andar onde estavam me esperando, atrai alguns olhares que de imediato me causaram incômodo.

 

– Em minha sala, Lena. Agora!

 

Estranhei a urgência e seriedade no tom de voz do homem que passava por mim com pressa. Ele estava longe de estar com seu bom humor habitual e sua gentileza invejável. Geralmente Yen e eu, desde o princípio costumávamos nos dar muito bem. Ele tornou-se mais que meu chefe, tornou-se na verdade um grande amigo particular por quem eu tinha um carinho enorme. Nossa relação sempre foi agradável, exceto pelos os últimos meses que vínhamos enfrentando conflitos ideológicos, digamos assim.

 

– Você já viu as redes sociais hoje?

 

O encarei como se estivesse diante de um alienígena. 

 

– Como se você tivesse me dado muito tempo para isso. Eu sequer tomei café da manhã. – Respondi com impaciência. – O que é isso que está acontecendo lá fora?

 

Estava nítido que o homem mais velho estava transbordando em aflição.

 

Eu não era boba! E já tinha percebido que algo sério estava acontecendo. 

 

– Isso é o que está acontecendo. 

 

Me sentei e comecei a ler o que estava na tela do notebook que havia sido virado em minha direção. 

 

Arregalei os olhos! Como isso era possível?

 

O encarei sem qualquer reação. Eu estava chocada demais para conseguir reagir.

 

– Como é possível? – Foi a única coisa que consegui murmurar ainda em choque.

 

– Não fazemos a menor ideia. Mas já estou instalando uma investigação em todos os departamentos. Se isso vazou, sem dúvidas foi daqui de dentro. – Yen respondeu com rancor. – Pior! Isso vazou da minha sala, o que torna tudo ainda mais inadmissível porque configura roubo. Até onde eu saiba, somente nós dois tivemos acesso a esse resumo. Estou errado?

 

Acenei em negação. Eu havia passado somente para ele aquela cópia. Enquanto eu estava perplexa, ele se esforçava para conter a irritação.

 

– Mas não é só isso. – Ele continuou. – Tem algo ainda pior. Algo que está nos preocupando. Quero dizer, é um prejuízo não penas para a editora, mas também para sua carreira.

 

O olhei incrédula! O que podia ser pior? 

 

– O que pode ser pior que isso? – Resmunguei começando sentir o gosto amargo da situação me atingir em cheio.

 

Se antes eu estava apenas perplexa por descobrir que o possível final do meu livro tinha sido vazado, e aparentemente estava publicado em todos os sites literários e redes sociais, agora eu começava me irritar com o ocorrido. É claro, não pude deixar de me preocupar quando o vi vacilar o olhar.

 

– Fale logo de uma vez, homem! Você sabe que odeio rodeios.

 

– Suas fãs estão indignadas, Lena. Aconteceu exatamente o que eu venho te dizendo que aconteceria. Elas rejeitaram o final. Não estão aceitando como você decidiu terminar as coisas. – Ele explicou em um tom sôfrego. – Por isso o caos lá fora. É um protesto contra você, Lena. Contra o final daquilo que você fez elas amarem por todos esses anos.

 

Aquele era exatamente o motivo pelo qual Yen e eu vínhamos brigando tanto. Ele era totalmente contra a ideia de no final da trilogia as protagonista terminarem separadas e seguindo caminhos distintos.  

 

– O quê? – Me esforcei para compreender o que aquilo queria dizer e como podia ser associado ao caos que estava na entrada na editora. – O que isso quer dizer exatamente? Elas acham que protestando vão ganhar um novo final,  por acaso? 

 

– É exatamente isso que elas querem. Um novo final! – Yen deu de ombros parecendo exausto do assunto. – E para ser honesto, eu também. Mas isso você já sabe, é claro.

 

– E você já sabe a minha resposta. 

 

Ele respirou fundo, e então sentou na mesa do seu escritório.

 

– Lena, você tem que dar ao povo o que querem. E o protesto lá fora diz exatamente isso. Aliás, o que está acontecendo lá fora não é um terço do protesto que está sendo feito na internet. As leitoras simplesmente não aceitam e isso vai refletir no número se exemplares vendidos, mídias vendidas. A editora vai cair em cima de mim se isso acontecer. Você é nossa escritora mais promissora, Lena. E agora você está sendo cancelada, perdendo seguidores, e a promessa é que seu livro seja boicotado logo no lançamento.

 

– Então é isso? Você só se preocupa com números, vendas e seu emprego. – Acusei com raiva.

 

– Claro que não! Eu também me preocupo com você. Já imaginou qual vai ser o destino da sua carreira no mercado? Você sabe como é a indústria. Vendem aquilo que é bem alimentado. 

 

Meu corpo automaticamente foi cedendo ao impacto da notícia. Quando me dei conta já estava sentada sem ao menos sentir minhas pernas. Eram muitas informações que meu cérebro precisava digerir.

 

– Elas querem outro final, Lena. Para ser mais sincero, elas exigem outro final para o casal principal, e o dono da editora exigiu que você atenda ao pedido para acabar com isso de uma vez. 

 

– No meu contrato não existe uma cláusula que especifica de que devo ser capacho de empresário, Yen.

 

– Olha, vamos fazer assim. Você tira um mês de férias. Sai, relaxa, conhece pessoas, e o mais importante, desbloqueia sua mente. Assim você pensa melhor no assunto. 

 

 

 

…

 

 

 

– Você está proibida de acessar redes sociais, Lena. – Lingling tirou o celular da minha mão e se jogou no sofá sem preocupação. 

 

– O Yen já te ligou, não foi? 

 

– Claro! Estou encarregada de ficar de olho na minha irmãzinha querida. 

 

– Eu não preciso de uma babá. – Revirei os olhos com impaciência.

 

– Credo! Você anda tão rabugenta ultimamente. – Lingling deixou de lado o pacote de amendoim que tinha acabado de abrir e me olhou. – Lena, ficar vendo os comentários nas redes sociais, não vai ser bom para você nesse momento. Confia em mim! Eu melhor do que qualquer um posso te afirmar isso. A fama não é tão boa quanto se pensa. Existe um preço alto a ser pago, e temos que saber lidar com isso de uma maneira que no final estejamos bem.

 

Nisso a maluca da minha irmã tinha razão. Diferente de mim, Lingling sempre almejou trabalhar com artes cênicas. Agora que ela era uma atriz com carreira consolidada, começava descobrir que a fama não era somente exatamente aquilo que ela pensava. Justamente ela que adorava cultivar a própria liberdade, se via agora aprisionada como jamais esteve antes. 

 

– Nós duas deveríamos ter feito como nossas primas. Escolher uma profissão que nos desse menos dor de cabeça. Aposto que Engfa e Lookmhee, vivem bem melhor que nós. – Afirmei com pesar. 

 

Bastou mencionar os nomes das nossas primas, para aquele brilho que me acusava medo surgir nos olhos de Lingling. Geralmente nos dávamos muito bem com nossas primas, especialmente Lingling que quando se juntava com Lookmhee costumava se comportar como se ainda estivessem no colegial. Enquanto as duas mais novas sempre tiveram um espírito propício para atrair confusão, Engfa e eu éramos o completo oposto. Na verdade, desde crianças éramos sempre nós duas que costumávamos arrumar as bagunças que elas aprontavam. 

 

– Eu tive uma ideia. –  Lingling anunciou.

 

– Eu descarto! Não gosto das suas ideias. – Me antecipei.

 

– Mas que coisa boba. Como você pode não gostar de algo que nem sabe o que é.

 

– Não importa! Suas ideias sempre nos coloca em roubadas. 

 

A idiota fez aquela cara de ofendida. Ela sempre fazia isso quando queria me convencer de algo, mesmo sabendo que no fim eu estaria certa. 

 

– Yen disse que recomendou você viajar. Tirar um tempo para descansar a mente, então é isso que você precisa fazer.

 

– Ele me recomendou muitas coisas, e eu não concordei com nenhuma delas. – Dei de ombros. – O que a editora quer é que eu concorde em escrever um novo capítulo, não uma mente descansada. Eles não estão se preocupado exatamente com meu bem-estar.

 

Claro que eu não tinha levado a sério nenhuma das recomendações feitas por Yen. 

 

– Pois eu acho que ele tá certo. Nós deveríamos aproveitar que estamos no meio do ano, e ir fazer uma visita a nossa família. Nossas primas vão adorar nos ver. Sem contar que papai e mamãe vão ficar felizes. Geralmente só vamos lá no Natal. 

 

– Você não trabalha? – A olhei intrigada. 

 

– As filmagens da primeira temporada da série terminaram. 

 

– E desde quando você gosta de lá? 

 

– Eu nunca disse que não gostava de lá. Que absurdo! Isso soou tão ruim. Aquele lugar é minha casa. Meu encontro de paz. É um ótimo lugar para quem busca tranquilidade, liberdade, conhecer novas cultura… O problema é que a calmaria do lugar não me trazia oportunidades, e somente por isso me mudei. Eu queria conquistar o sonho de ser atriz, e lá eu não conseguiria. Para as meninas sempre foi diferente. Uma é professora universitária, e a outra acabou herdando a responsabilidade de administrar a empresa de plantação de grãos do pai. 

 

– Eu não vou, Ling. Não tem que faça eu aceitar um absurdo desse. Yen está agindo como se eu devesse me comportar como uma fugitiva. Mas gosto de encarar meus problemas de frente. 

 

– Ele só quer o melhor para você. Irmã, você vem enfrentando problemas desde que tudo aquilo aconteceu. Você focou no trabalho mesmo quando seu coração precisava de uma pausa, e isso trouxe um bloqueio criativo horroroso. Quem já viu, querer matar a pobre Rose. – Ela disse se referindo a uma das minhas protagonistas.

 

– Eu não a matei. Aquela foi apenas uma ideia que eu não deveria ter te contado.

 

– Ainda bem você desistiu dessa atrocidade. – Dramaticamente, Lingling levou as mãos até o peito. – Eu morreria junto! Lena Lalina, você como escritora sáfica deveria saber que precisamos de mais representatividade no mercado. Quando uma leitora ler um livro seu, é justamente porque se identifica com aquela realidade. Afinal de contas, por que todos produtores e escritores acham que os relacionamentos lésbicos só podem terminar em tragédia? Ou pior, só querem nos sexualizar? Nós também temos coração, caramba! Vivemos alguns amorzinho vez ou outra. E quando o relacionamento entre mulheres acaba, não significa que o mundo acabou também. Eu tenho a teoria que quando coisas terminam, é porque outras melhores estão por vir. 

 

Todo aquele drama de Lingling me assustou. Fiz careta ao olhar para ela e ver que ela se esforçava para que uma lágrima solitária rolasse por seu rosto. Era como se ela estivesse convencida que atuando, me faria mudar de ideia.

 

– Por que você anda tão dramática ultimamente? O que está acontecendo com você? Quando não é um drama, é uma filosofia que mal consigo compreender. 

 

Eu conhecia minha irmã o suficiente para poder apostar que algo estava errado com ela. Não era de hoje que Lingling vinha me rodeando igual cachorro atrás de ração. 

 

– Não é nada! Eu só acho que ficar longe de redes sociais é realmente a melhor coisa para você por enquanto. Devíamos mesmo era voltar pra casa por um tempo.

 

Estudei todas as expressões de Lingling. Para mim estava mais que óbvio que ela estava me escondendo algo.

 

– O que tem nas redes sociais que você não quer que eu veja? – Estreitei os olhos. 

 

– Não me olha assim. – Ela recuou amedrontada.

 

– Lingling… Você sabe que eu vou descobrir sozinha, não sabe?

 

A vi engolir seco! Diferente da prima encrenqueira Lookmhee, minha irmã sempre foi a que não conseguia segurar uma mentira por muito tempo. A verdade, é que Lingling não sabia mentir. Ela era óbvia demais para conseguir tal proeza com maestria. 

 

– Thai, finalmente assumiu o relacionamento com aquela mulher, nesta manhã. Está nas redes sociais. E bem, ela é sua ex. Thai só começou trabalhar com redes sociais depois do relacionamento de vocês. Ninguém vai tirar da minha cabeça que foi sua visibilidade que deu fama a ela. Eu acho que não demora muito para que a mídia descubra o que aconteceu entre vocês, e você sabe como as coisas funcionam nesse meio. Eu tenho receio que eles associem isso ao fim trágico que você escolheu dar para o seu livro. Isso só servirá para duas coisas: Proporcionar ainda mais visibilidade aquela cobra. Ou no segundo caso, te afundar ainda mais na sua carreira. Temo que te acusem se dar um final trágico para seu livro, porque a vida imita a arte.

 

Desde que descobri a traição de Thai a mais de um ano, eu não tinha voltado a vê-la. Confesso que no início eu me pegava buscando por notícias suas na internet. Sua falta era sentida de uma maneira avassaladora, algo incontrolável e doloroso. Levou algum tempo para que eu percebesse que aquilo estava me fazendo mal. Eu realmente era muito apaixonada por ela, a ponto de chegar idealizar dar um passo a mais e transformar nosso relacionamento em algo ainda mais sério. Acho que foi justamente por isso que ao vê-lá na cama com outra mulher, me dilacerou a tal ponto que desacreditei totalmente no amor. O único problema é que não mandamos no coração. Lembrar da minha ex namorada ainda doía muito.

 

Eu achava que as coisas estavam resolvidas dentro de mim, mas agora que Lingling havia me feito aquela revelação, eu começava sentir meu coração vacilar novamente. Eu não queria sentir por Thai o mesmo do passado. Eu não queria amá-la. Mas a mágoa e a dor da decepção pareciam que ainda estavam bem vivas a ponto de machucarem e influenciarem em meus dias, em minha vida, e naquilo que eu acreditava ou não. Hoje eu não conseguia confiar nas pessoas, não conseguia ver alegria nos detalhes, tão pouco enxergar beleza nas cores. Era como se minha vida desde aquela traição, seguisse em rumo preto e branco. 

 

Por outro lado, eu me peguei pensando no que minha irmã havia dito. Talvez ela não estivesse tão errada. Talvez o que já estava ruim, ainda piorasse mais. O anúncio do novo relacionamento de Thai poderia sim respingar em meu trabalho.

 

– Lena… – Ouvi minha irmã chamar minha atenção.

 

– Hã? 

 

– No que você está pensando? 

 

– Quando vamos para o vilarejo? 

 

Momentaneamente surpresa, porém satisfeita, Lingling pegou o celular e rapidamente buscou por um contato em sua agenda.

 

– Engfa, meu pedaço do céu. Prepara tudo para nos buscar que estamos chegando.

Fim do capítulo

Notas finais:

Obs: Mais detalhes sobre a sequência dos livros aos quatro compassos do amor, está disponível no Instagram, assim como também por lá informo quando tem capítulo novo disponível nas plataformas. Sigam o perfil @priskellyautora e fiquem por dentro de tudo. 


Bjus! 


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