Capitulo 3
Já haviam se passado duas horas de entrevista e ainda estávamos aguardando sermos chamadas. As chamadas não seguiam por ordem alfabética, e sim por ordem de chegada.
— Se aquele ônibus não tivesse feito tantas paradas! Mas a culpa foi nossa também. Deveríamos ter pego um Uber ou táxi!
— Calma, amiga! Chegamos no horário e vamos realizar a entrevista.
— Sim, mas eu não sei o que é pior: ser uma das primeiras ou das últimas. — Deu-me um sinal com a cabeça para observar a candidata que havia acabado de sair da entrevista, com os ombros baixos.
— Espera, vou tentar buscar alguma informação. — Rebeca se levantou e foi atrás da última candidata que saiu da sala... Tentei desviar minha atenção dela e das demais candidatas, uma forma de aliviar a tensão e a agonia de esperar.
— Maria Rebeca da Silva Cardoso!
Dei um pulo e olhei em direção à porta. Uma senhora de cabelos grisalhos e curtos, muito magra, de postura ereta e extremamente pálida chamava a próxima candidata. Minha amiga Rebeca veio até mim e pegou sua bolsinha.
— Boa sorte!
— Obrigada, miga. — Seguiu correndo para a entrevista.
Olhei para o meu relógio de pulso: 11h30 da manhã... Deus, que Rebeca consiga essa oportunidade.
Na sala de espera estavam apenas eu e as duas últimas meninas, que também aguardavam ansiosamente. Aparentemente, elas se conheciam, pois conversavam entre si.
Rebeca saiu da sala com um ar de animação e veio em minha direção.
— A próxima deve ser você! — disse ela, sentando-se ao meu lado.
— E aí? Como foi lá? — perguntei, um pouco ansiosa.
— Eu acho que...
— Ângela Cecília Gonçalves Pereira!
Fui finalmente chamada e me levantei no automático.
— Chegou minha vez.
— Boa sorte, mana!
— Obrigada.
Passei pela senhora que havia me chamado para a sala de entrevista. Impaciente, entrei na sala. O ambiente possuía a mesma tonalidade de cinza-claro do restante da área administrativa do hospital. Havia uma estante repleta de livros e arquivos organizados por nomes. Em um dos cantos havia uma pequena mesa com café e água. A mulher que iria me entrevistar caminhou até uma ampla mesa branca, que contrastava com as confortáveis cadeiras de couro.
Ela se sentou e me indicou a cadeira à sua frente para que eu me sentasse.
— Bom dia! — disse ela, olhando para mim com seus olhos negros e penetrantes por cima dos óculos. — Se importa? — perguntou, mostrando-me a xícara de café.
— Bom dia! De forma alguma, pode se servir.
— Quer tomar também?
— Obrigada, mas não.
— Tudo bem, vamos dar início à entrevista. — Disse ela, pegando uma ficha que provavelmente continha o meu currículo. Passou os olhos por alguns segundos e voltou a me olhar. — Então... Ângela Cecília Gonçalves Pereira, antes de continuarmos, gostaria de explicar como funciona nosso processo seletivo.
— Sim.
— O Hospital está ampliando sua equipe e, por isso, abrimos vagas para diferentes setores. Cada candidato é avaliado de acordo com seu perfil, experiência e desempenho na entrevista.
Assenti com a cabeça.
— Vejo aqui que está se candidatando às vagas de auxiliar de limpeza, recepcionista, copeira, garçonete e deixou como última opção a área em que é formada: Psicologia.
— Sim, senhora.
— Por ter concluído o curso recentemente, não se sente à vontade para atuar na área? — perguntou ela, com um olhar curioso.
— É meu grande sonho poder atuar na área da Psicologia. Ainda não tive essa oportunidade, porém preciso começar minha vida profissional e me estabilizar. Este hospital é uma grande referência, e acredito que aqui vou poder trabalhar e, ao mesmo tempo, aprender muitas coisas que contribuirão para o meu crescimento profissional. — Respondi com os olhos brilhando e cheia de esperança.
— Mesmo que não seja exatamente na sua área de formação? — tornou a questionar.
— Sim, senhora... Estou disposta a aceitar a oportunidade que me oferecerem.
— Interessante... — Ela olhou para o monitor do computador que estava sobre a mesa e fez uma rápida consulta. — No momento, na área da Psicologia, temos oportunidades para Psicóloga Clínica, com atendimento a pacientes internados e seus familiares; Psicóloga do Pronto-Socorro, realizando acolhimento em situações de crise; Psicóloga da Ala Pediátrica, para atendimento psicológico de crianças e acompanhamento às famílias; Psicóloga da Oncologia, oferecendo suporte a pacientes em tratamento e cuidados paliativos; Psicóloga da Saúde Mental, atendendo pacientes com transtornos psiquiátricos; Psicóloga da UTI, prestando apoio psicológico aos familiares e à equipe multiprofissional; e Psicóloga da Reabilitação, acompanhando pacientes em recuperação física e emocional.
Ela voltou a olhar para mim.
— Caso seja aprovada, a definição do setor dependerá da necessidade do hospital e da avaliação da comissão responsável.
Fiquei nervosa só de imaginar a possibilidade de ocupar qualquer uma daquelas vagas ou simplesmente passar por uma comissão de avaliação.
— Sim, eu entendo.
O silêncio tomou conta da sala novamente. Ela voltou a analisar meu currículo como se estudasse cuidadosamente cada informação.
— Trabalhar em um hospital exige preparo emocional. Você acredita que esteja preparada para lidar com casos que envolvam perdas, sofrimento e depressão?
Engoli em seco.
— Não acredito que esteja completamente preparada, porque cada paciente vive uma realidade diferente. Mas acredito que, na prática, vou aprender e me tornar cada vez mais preparada para lidar com as mais diversas situações que surgirem.
Pela primeira vez, surgiu em seus lábios a curvatura de um pequeno sorriso.
— Vejo que está fazendo especialização na área de Psicologia Clínica, porém na modalidade EAD.
— Sim. Infelizmente, são as oportunidades que estou conseguindo aproveitar neste momento.
Ela voltou a folhear meu currículo. Parou por um instante e me olhou novamente.
— Senhorita Cecília... antes de continuarmos, vou precisar fazer algumas perguntas delicadas.
Meu coração acelerou.
Eu já sabia exatamente o que ela iria perguntar.
Respirei fundo.
— Sim, tudo bem.
Ela permaneceu em silêncio, observando-me, estudando minhas reações e procurando as melhores palavras para abordar aquele assunto.
— Consta em sua ficha que a senhora é ex-presidiária e que concluiu o curso de Psicologia enquanto cumpria pena em regime semiaberto. Poderia me explicar melhor essa informação? É uma situação incomum.
Abaixei a cabeça.
Fiquei surpresa com o cuidado e a forma respeitosa como ela abordou aquele assunto. Em todas as outras tentativas de conseguir emprego, quando esse momento chegava, a entrevista era encerrada imediatamente. A justificativa era sempre a mesma: a empresa não contratava ex-presidiários por política da instituição.
Voltei a olhar em seus olhos.
— Sim, eu cumpri pena.
Ela continuou me olhando, sem me interromper.
— Fui presa por um crime que não cometi. Durante o tempo em que estive presa, uma das formas de me manter psicologicamente estável foi continuar estudando. Consegui ingressar na faculdade depois de muitos anos de dedicação e boas notas... Também sonhava com o dia em que sairia de lá, poderia reconstruir minha vida, trabalhar e ajudar minha família. Porém, a realidade aqui fora para uma ex-presidiária que deseja recomeçar é muito cruel.
Ela franziu levemente a testa e retirou os óculos.
— Então, durante esses quatro anos, enquanto estava presa, a senhora continuou estudando?
— Sim. Todos os dias eu me dedicava aos estudos. Era isso que me mantinha firme. Meu diploma foi a única coisa que ninguém conseguiu arrancar de mim.
Ela fez mais uma observação.
— A senhorita sabe que atuar em um hospital exige confiança?
— Sim, senhora.
Respirei fundo, fechei os olhos por um instante e voltei a encará-la.
— Desde que saí daquela prisão, é exatamente isso que venho implorando em todas as entrevistas. Não peço que esqueçam o meu passado, mas preciso que alguém me dê um voto de confiança para recomeçar minha vida. Só peço uma oportunidade... apenas uma.
Ela respirou fundo e deixou minha ficha sobre a mesa.
Permaneceu em silêncio, observando-me.
Não consegui decifrar sua expressão e senti uma angústia apertar meu peito.
— Senhorita Cecília, as demais informações do seu currículo são muito boas. Vou analisá-lo novamente com bastante atenção. Gostei da sua sinceridade. Porém, o resultado final da sua entrevista estará disponível daqui a três dias. Na segunda-feira, a senhora já terá um parecer.
Respirei fundo e me limitei a dizer:
— Obrigada.
— Está dispensada por hoje.
Levantei-me e estendi a mão para ela. Por um instante, pareceu surpresa, mas logo sorriu e apertou minha mão.
— Boa sorte.
— Novamente, obrigada. E, principalmente, obrigada por me permitir falar e chegar até o final da entrevista.
Ela apenas assentiu com a cabeça.
Saí dali com a certeza de que havia lutado por aquela oportunidade. Queria muito receber uma resposta positiva, mas já havia participado de várias entrevistas e, em muitas delas, eu era descartada assim que descobriam meu passado.
Em alguns momentos pensei em não colocar essa informação no currículo, mas a situação se tornava ainda pior quando a verdade era descoberta.
Agora, só me restava pedir a Deus, à Nossa Senhora e aos meus ancestrais que olhassem por mim e me concedessem a oportunidade de recomeçar minha vida.
Fim do capítulo
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