Capitulo 2
Hospital São José Gregório Hernández
Iraci - Enfermeira no Hospital São José Gregório Hernández
Dona Iraci encontrava-se ajoelhada, com um terço nas mãos, rezando na capela localizada dentro do hospital. À sua frente estava a imagem de São José Gregório Hernández, santo que inspirou o nome da instituição onde ela trabalhava havia quarenta anos.
O hospital recebeu esse nome em homenagem a São José Gregório Hernández, médico, cientista e professor que dedicou sua vida ao cuidado dos enfermos, especialmente dos mais necessitados. Sua trajetória foi marcada pela excelência profissional, pela ética, pela compaixão e por uma profunda fé, tornando-se uma inspiração para gerações de profissionais da saúde.
Por esse motivo, os fundadores daquele grande hospital, referência em diversas especialidades de alta complexidade na cidade do Rio de Janeiro, decidiram erguer uma capela em seu interior. O espaço foi concebido para acolher pacientes, familiares e profissionais em momentos de dor, angústia e esperança, independentemente de suas crenças religiosas. Era um lugar de silêncio, oração, conforto e gratidão.
Além da imagem de São José Gregório Hernández, a capela abrigava imagens de Nossa Senhora Aparecida, São Camilo de Lellis, padroeiro dos enfermos e dos profissionais da saúde, São Lucas Evangelista, considerado o patrono dos médicos, dos Santos Cosme e Damião, conhecidos pela dedicação aos doentes, e uma imponente estátua do Sagrado Coração de Jesus Cristo, que transmitia paz e serenidade a todos que ali entravam.
Dona Iraci estava com o coração bondoso tomado pela ansiedade. Acompanhava de perto o sofrimento da neta e de sua amiga de cela, que, com o passar do tempo, havia se tornado uma verdadeira irmã de vida. Achava linda a forma como aquela amizade lhes dava forças para enfrentar a dura realidade de uma sociedade tão carrasca e preconceituosa.
As duas estavam havia três meses em busca de uma oportunidade de emprego. Cecília fazia alguns bicos como doméstica para conseguir sobreviver, mas Dona Iraci acompanhava de perto a persistência das duas e via o quanto realmente se esforçavam. Todas as noites e nos finais de semana estudavam juntas, determinadas a reconstruir a própria história.
Foi por esse motivo que Dona Iraci implorou para que elas a deixassem conversar com algumas pessoas do hospital, uma instituição de grande referência. Sua intenção era conseguir uma oportunidade para que ambas pudessem incluir aquela experiência no currículo e, de alguma forma, diminuir o peso do histórico de ex-presidiária, que naquele momento fechava inúmeras portas, inclusive em áreas nas quais jamais haviam trabalhado. O preconceito da sociedade insistia em negar a muitas pessoas a chance de recomeçar.
Foi somente depois de muita insistência e de inúmeras portas fechadas que elas aceitaram que Dona Iraci conversasse com alguns de seus contatos no hospital. Ainda assim, havia uma condição: elas participariam normalmente do processo seletivo. Se não fossem aprovadas nas entrevistas ou no período de experiência, não seriam contratadas, independentemente da indicação de Dona Iraci.
Por esse motivo, Dona Iraci permanecia ajoelhada na capela, rezando e pedindo a Deus e aos santos ali presentes que iluminassem suas meninas. No fundo do coração, ela só desejava que aquelas jovens recebessem uma nova oportunidade para recomeçar a vida com dignidade.
Recepção do Hospital Central São José Gregório Hernández
— Precisam de ajuda? — perguntou o segurança, aproximando-se de nós assim que passamos pela porta de vidro.
Fiquei um pouco sem jeito com a abordagem dele, mas logo procurei entender que ele apenas estava fazendo o seu trabalho.
— Sim. Estamos aqui para uma entrevista de emprego. Fomos informadas de que ela terá início às 9h15 da manhã. — respondi.
— Ah, sim... Mais candidatas. Sigam até a recepção e se apresentem às recepcionistas. Elas vão encaminhar vocês para a sala de espera do R.H. — Ele nos olhou e abriu um sorriso mais acolhedor. — Boa sorte, meninas!
— Obrigada. — respondemos juntas, sorrindo com um misto de nervosismo e esperança, enquanto seguíamos na direção indicada pelo segurança.
— Amiga, este hospital é uma grande referência. Se a gente conseguir trabalhar aqui, mesmo que não seja exatamente em nossas áreas de formação, já será um grande destaque para o nosso currículo.
— Sua avó está sendo um anjo em nossas vidas, não é? — disse enquanto caminhava ao lado de minha amiga, que observava tudo ao redor.
Na recepção, fomos muito bem atendidas. Emitiram para cada uma de nós um adesivo de identificação de candidata à entrevista, que foi impresso na hora pela recepcionista, chamada Nágila.
— É só seguir por esse corredor e virar à esquerda. Logo vocês vão avistar uma sala de espera com mais candidatas sentadas em sofás de couro preto e uma placa escrita R.H.... Quem irá realizar a entrevista com vocês hoje é... a doutora Angelina! — disse, surpresa, enquanto olhava para a outra recepcionista que estava ao seu lado de boca meio aberta.
— É ela mesmo... O Sr. Valter teve uma emergência e não vai conseguir chegar a tempo para realizar as entrevistas. Para que elas não fossem remarcadas de última hora, a Dra. Angelina se prontificou a assumir o processo seletivo.
— Nossa!
— Isso é bom ou muito ruim? — perguntou Rebeca. Assim como eu, ouvir aquela conversa entre as duas recepcionistas estava nos deixando ainda mais nervosas.
— Vai dar tudo certo. Só que ela faz parte da diretoria do hospital e é muito mais exigente do que o Sr. Valter, que já não é uma pessoa muito fácil de lidar. — disse a recepcionista Nágila, abrindo um sorriso acolhedor. — Fiquem tranquilas. Agora sigam até a sala de espera e aguardem serem chamadas.
Agradecemos as informações e seguimos pelo longo corredor. As paredes em tons de cinza-claro transmitiam sofisticação e elegância, enquanto as cadeiras pretas e confortáveis deixavam o ambiente ainda mais agradável.
— Esse setor da administração é bem organizado. Será que os demais setores também são assim?
— Eu quero muito acreditar que sim. — respondi, sorrindo.
O hospital era enorme em sua estrutura física e reconhecido como um dos maiores centros de saúde do país. Referência em neurologia, neurocirurgia, cardiologia, oncologia, transplantes, traumatologia, medicina intensiva e pesquisas científicas, recebia diariamente pacientes vindos de todas as regiões em busca de tratamentos de alta complexidade. Além da assistência médica, destacava-se pela formação de especialistas e pelo investimento contínuo em tecnologia de última geração e nas constantes inovações da medicina.
Enquanto caminhávamos pelos amplos corredores, era impossível não admirar a grandiosidade daquele lugar. A cada passo, aumentava a esperança de que ali pudesse surgir a oportunidade que mudaria nossas vidas para sempre.
Chegamos à área de espera, onde uma placa indicava a sala do R.H.
— Ótimo... Tem mais de vinte candidatas. É muita gente para apenas sete vagas, Ciça! — disse minha amiga, baixinho, ao meu lado, olhando para mim com uma expressão de preocupação.
— Vamos rezar e mostrar a nossa força de vontade e o nosso interesse pelas vagas que estiverem disponíveis.
— É... Mas nem minha avó conseguiu me responder quantas vagas realmente estão disponíveis.
— Eu topo qualquer oportunidade. Posso ir para a limpeza, para a cozinha, para a recepção... Qualquer coisa.
— É... Vem, vamos sentar aqui. — disse ela, acomodando-se em um dos sofás.
Assim que nos sentamos, mais duas candidatas chegaram. Troquei um olhar com Rebeca.
Naquele momento, percebi que ainda não tinha dimensão do tamanho do desafio que enfrentaríamos para conseguir, ao menos, uma oportunidade no mercado de trabalho. Ao observar todas aquelas candidatas, senti meu coração apertar. Era como se em minha testa estivesse escrito: "Ex-presidiária."
Meu Deus... Como eu e minha amiga conseguiríamos voltar a viver se nem uma oportunidade de trabalho estávamos conseguindo? Eu até fazia alguns bicos como doméstica, mas, quando descobriam que eu era ex-detenta, acabavam me mandando embora.
Só precisávamos de uma chance para recomeçar.
Olhei em direção à sala que poderia definir o nosso futuro. Aquela entrevista tinha o poder de mudar as nossas vidas, e eu tinha fé em Deus de que aquele poderia ser o início de dias melhores.
Fim do capítulo
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