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EM BUSCA DE JUSTIÇA por Luhpereira

Ver comentários: 1

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Palavras: 1539
Acessos: 193   |  Postado em: 13/07/2026

Capitulo 1

 

 

Ângela Cecília - (Rio de Janeiro)

Olhando para as ondas que se agitam no mar, percebo que, mesmo depois de tanto tempo, elas ainda despertam lembranças de um passado nada comum. Às vezes, me pego imaginando se aquela história não poderia ter tido um desfecho diferente. Um quase conto de fadas que, por algumas horas, parecia destinado a um final feliz.

Sempre me relacionei com homens e, para ser sincera, ainda sinto atração por eles. Porém, há quase quatro anos, conheci uma mulher que me fez sentir completamente perdida no instante em que nossos olhares se cruzaram.

Ela não fez absolutamente nada de extraordinário. Apenas se sentou ao meu lado durante uma viagem de ônibus que deveria durar seis horas e quarenta minutos. No entanto, o destino tinha outros planos. O ônibus foi interceptado por uma gangue de traficantes e acabamos sendo mantidos como reféns, durante dois longos dias, em uma caverna, ao lado de outros sessenta e sete passageiros.

Eu estava viajando para São Paulo para visitar uma prima que estava prestes a se casar. Comigo também estavam outras duas primas, mas, por eronia brincadeira do destino, sentei sozinha. Foi justamente por isso que ela ocupou o assento ao meu lado.

Seu nome era Alexsandra Musovic.

A mulher que abalou completamente todas as minhas estruturas.

Ela viajava com um grupo de amigos e com uma ficante. O que parecia ser apenas mais uma viagem acabou se transformando em um pesadelo que mudaria completamente o rumo da minha vida.

Por causa de um colar que tinha um grande significado para Alexsandra, acabei sendo acusada de colaborar com os traficantes e de participar da interceptação do ônibus. O objeto foi encontrado no bolso do meu casaco e, por mais que eu insistisse na minha inocência, ninguém acreditou em mim.

Passei quase quatro anos presa.

Naquele momento, não consegui provar que alguém havia armado toda aquela situação. Ainda hoje, carrego uma forte suspeita sobre quem foi o verdadeiro responsável por destruir a minha vida, privar-me da liberdade e manchar o meu nome por muito tempo.

Somente meses depois surgiram questões que tornaram insuficientes as acusações que me vinculavam aos criminosos. Por ser ré primária, consegui responder ao processo em liberdade. Durante quatro longos anos, porém, permaneci sob o regime semiaberto. Ainda assim, não posso sair do país e devo informar imediatamente à Justiça qualquer mudança de endereço. Finalmente, pude recuperar minha liberdade, mas havia coisas que nenhuma sentença seria capaz de devolver.

Ouvi o som de passos e senti alguém se sentando ao meu lado na praia. Olhei de relance e vi que era minha amiga Rebeca. Nossa amizade surgiu na prisão. Ao contrário de mim, ela realmente havia sido presa por assaltar um posto de conveniência com o namorado, que ainda permanecia preso. Como era ré primária, conseguiu deixar a prisão em pouco tempo.

Se não fosse por ela, eu teria sofrido muito mais no presídio. Rebeca me defendia. Nossa amizade começou depois que ela me ouviu chorando compulsivamente no beliche de cima, após algumas detentas defecarem na minha comida e me perseguirem.

Ela permaneceu me observando por alguns instantes antes de cruzar as pernas uma sobre a outra, como se tentasse entender o que estava acontecendo.

Tentei não olhar em seus olhos, porque ela facilmente perceberia que estavam vermelhos e marejados. Eu havia chorado.

Respirei fundo e abracei as pernas junto ao corpo, apoiando o queixo sobre os joelhos. Sentia as ondas se chocarem contra os meus dedos dos pés, a única parte do meu corpo que permanecia em contato com o mar.

— Que cara é essa, preta? Ainda se lamentando pelo tempo que perdeu de viver aqui fora?

Sorri de canto e respirei fundo, sem nem saber exatamente o que eu esperava encontrar fora da prisão.

— Sabe o que é mais dolorido? — falei, virando-me para encará-la nos olhos. — O julgamento das pessoas, principalmente os comentários maldosos e a humilhação que minha mãe teve que enfrentar.

— Mas ela sempre esteve ao seu lado. Você é que se afastou e não aceitava nem receber as visitas dela e da sua avó.

— Como eu poderia permitir que elas passassem por todo aquele processo de revista toda vez que fossem me visitar? — respondi, enquanto uma lágrima escorria pelo meu rosto.

Minha amiga tocou meu ombro e, lentamente, levou a mão até o meu rosto, enxugando as lágrimas que escorriam livremente. Em vão, ela tentava conter o meu choro.

— Você tem um bom coração. Não deveria estar passando por isso. Mas eu te digo: Ele... — apontou o indicador para o céu. — Ele é justo e misericordioso. Tudo tem um propósito e um tempo certo para acontecer. Hoje, talvez a gente não entenda e nem aceite, mas um dia vamos compreender exatamente por que ele permitiu que vivêssemos toda essa tormenta em nossas vidas.

Não aguentei. Joguei-me em seus braços, abraçando-a com força e chorando em seu ombro.

— Obrigada por estar comigo. - Ela me abraçou e sorriu.

— Agora chega de choradeira, senão eu também vou chorar!

Limpei meus olhos marejados com as costas das mãos. Rebeca se pôs de pé antes de mim.

— Agora vamos! Temos a entrevista no hospital onde minha avó trabalha. Ela acha que vão nos aceitar. Primeiro, porque nos conhecem há anos... e, depois, porque, antes de tudo acontecer, éramos ótimas profissionais.

— Porém, somos ex-presidiárias!

— Vamos pensar positivamente! Somos, sim, ex-presidiárias, porém tivemos ótimo comportamento.

— Tirando as vezes em que nos envolveram em brigas e recebemos anotações.

— Mas éramos inocentes.

Levantei-me ao lado da minha amiga e passei as mãos pelas roupas. Vestia uma calça jeans clara, uma camiseta cinza-clara de meia manga, e meus cabelos cacheados estavam presos em um coque bem firme.

Saímos correndo da beira da praia, que naquele momento ainda não estava tão cheia. Pegamos um ônibus coletivo que nos levaria até o Hospital Central, onde dona Iraci trabalhava havia mais de quarenta anos. Ela começou como auxiliar e, depois, concluiu uma segunda graduação em Enfermagem. Tinha uma ótima relação com todos, desempenhava um excelente trabalho e era uma grande referência como profissional, chamando a atenção pela sua alma pura e pela fé inabalável.

Desde que nos conhecemos e ela me fez a proposta de recomeçar a minha vida ao lado dela e de sua neta, aqui no Rio de Janeiro, dona Iraci tem sido meu anjo da guarda.

Dentro do ônibus, viajávamos em pé pelas ruas do Rio de Janeiro. Optei por sair da minha cidade, um pequeno município do Paraná, porque jamais conseguiria recomeçar em meio aos julgamentos. Cidade pequena é assim: tudo ganha uma repercussão enorme, e a situação já não estava sendo fácil para a minha família.

Mas meu sonho é voltar um dia e construir uma linda casa para minha mãe e minhas irmãs. Também quero, de alguma forma, limpar meu nome de maneira definitiva. Para isso, pretendo descobrir quem realmente participou do assalto, reunir provas que mostrem a verdade e colaborar para que a Justiça alcance os verdadeiros responsáveis. Pelas informações que consegui, eles moram atualmente no Complexo da Maré. Sei que não será fácil, mas não vou descansar enquanto meu nome não for completamente limpo. Dona Iraci mora no Morro do Alemão, e é com ela e minha amiga Rebeca que estou morando.

Ao longo desses quatro anos cumprindo pena no regime semiaberto, busquei concluir meu curso de Psicologia, no qual consegui ingressar graças à minha pontuação no ENEM. Meu sonho de infância sempre foi cursar Medicina, porém, devido ao alto custo para me manter no curso, Psicologia foi o caminho mais próximo que consegui seguir da profissão que sempre sonhei exercer.

Observei Rebeca. Quando foi presa, havia acabado de concluir o curso de auxiliar de enfermagem. Era o sonho de sua avó vê-la seguir a mesma profissão, mas esse sonho foi interrompido de forma injusta.

— Rebeca, está ansiosa para a entrevista? — perguntei, tentando manter o equilíbrio. Com as curvas da estrada, permanecer em pé dentro do ônibus era uma missão nada fácil.

Ela soltou um suspiro antes de responder.

— Eu deveria estar mais animada, mas sinto tanta falta do Gustavo que não consigo me empolgar com a ideia de começar em um novo emprego.

Toquei de leve em seu braço.

— Não fique assim, amiga. Agora você vai conseguir, pelo menos, visitá-lo no presídio.

Um pequeno sorriso apareceu em seu rosto.

— Sim... é isso que tem me dado forças todos os dias. Estou louca para finalmente poder abraçá-lo outra vez. — Ela respirou fundo antes de continuar. — E, se conseguirmos o trabalho hoje, vamos sair para comemorar!

Sorri de canto.

— Mas...

Ela me interrompeu imediatamente.

— Sem "mas" e sem "menos". A gente já perdeu quatro anos das nossas vidas. Está na hora de voltar a viver.

— Você tem razão. Está na hora de retomarmos as rédeas de nossas vidas e reescrevermos a nossa história.

Apertando a medalha de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, que ganhei de minha avó Adelina, senti meu coração se encher de esperança por dias melhores. Com o trabalho, eu recuperaria minha dignidade e poderia ajudar minha família. Era a esperança de um recomeço, de dias melhores para mim e para aqueles que eu amava.

 

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Será a minha primeira história publicada... Então, peguem leve comigo, kkkkk! Estou aprendendo.

 

 


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Comentários para 1 - Capitulo 1:
Kamallabsts@yahoo.com
Kamallabsts@yahoo.com

Em: 02/09/2026

Tá demais 

Só não pare de escrever!

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