Capitulo 37
Por Marcela
Eu estava com Bárbara e alguns policias em volta daquele galpão de uma fábrica velha abandonada no meio do nada. Podíamos ouvir toda a conversa que Hanna estava tendo com aquele monstro. A cada minuto que se passava as coisas pareciam piorar e tudo o que eu mais queria era entrar naquele lugar e defender as mulheres da minha vida, mas todos permaneciam com olhos grudados em mim como se estivessem prontos para evitar que eu agisse pela emoção.
Os minutos passavam lentamente, e cada palavra que eu ouvia sair da boca de Hanna era como uma facada sendo apunhalada no meu coração. Embora a segurança de Hanna e Gabriela fossem nossa prioridade naquele momento, ainda assim era impossível controlar minhas próprias emoções. De alguma maneira as coisas ditas por Hanna, involuntariamente me levava de volta ao passado, causando uma sensação de desconforte e insegurança. Na verdade, aquela situação toda estava me deixando desesperada e sem saber como reagir.
Meus olhos estavam perdidos contemplando o nada quando ouvi a voz de Bárbara próxima a mim.
– Marcela, mantenha a calma. Não leve a sério nada do que ela está falando. Hanna está tentando fazer o jogo dele… ela está agindo sem qualquer emoção. É a razão falando por ela. Ela sabe que falando assim as chances dele liberar a criança são enormes. Nós precisamos disso… Precisamos ter a criança em segurança para poder invadir sem colocar em risco à vida da refém.
Continuei em silêncio permanecendo com o olhar fixo em algum ponto qualquer. Bárbara então desesperou-se.
– Marcela, olha para mim! – Ela segurou meu rosto entre as mãos me fazendo fitar seus olhos. – Estamos aqui pela Gabriela. Amiga, lembre-se disso por favor. É a sua filha que está lá dentro nas mãos dele, e eu preciso confiar que você não vai fazer nenhuma besteira.
Apesar de nada responder, tentei me agarrar a razão e seguir os conselhos de Bárbara. Eu não podia absorver as palavras ditas por Hanna, mesmo que elas soassem seguras e me atingissem como uma lança envenenada.
Os segundos passavam acelerados e quando pensei que não poderia piorar... Bem, piorou!
Ouvir aquele desgraçado afirmando que mataria Gabriela fez com que meu coração estremecesse diante da possibilidade. Sem pensar duas vezes aproveitei a distração de Bárbara e do policial que estava me vigiando, e tomei a arma dele o atingindo sem que ele pudesse se defender. Logo em seguida correndo em direção à porta pela qual vi Hanna entrar. Meu Deus! eu sabia que aquilo tudo era uma loucura. Eu tinha acabado de agredir uma autoridade, mas foda-se! Nada mais importava naquele momento que não fosse fazer algo para salvar a vida da minha filha. Eu mataria aquele desgraçado antes mesmo dele pensar em tentar contra Gabriela.
Pela primeira vez fiquei frente a frente com aquele que por algum tempo eu vinha nutrindo ódio no meu coração. Para mim, ele não passava de um verme, e o que eu queria era poder matá-lo por tudo que ele fez com Hanna no passado, e estava fazendo agora no presente com ela e minha filha. No entanto, se um dia eu pensei que conhecia a dor, agora eu via que estava completamente enganada. Ouvir aquela mesma voz fria de Hanna que eu tanto conheci há anos, era como experimentar a mesma sensação do dia em que nos perdemos uma da outra. Por mais que eu soubesse que a situação estava exigindo aquela postura, vê-la se oferecer para me deixar e seguir com ele era como uma lâmina afiada atingir memórias que ainda doíam. Mas a pior das frases veio por último, me causando a maior dor da minha vida. Uma dor que sequer imaginei que era possível sentir… Ouvir Hanna dizer que Gabriela não tinha nada que fizesse lembrar de mim porque ela não era minha filha, me destruiu por dentro e quase me fez cair de joelhos no chão. Busquei seu olhar, mas ela me evitava. Tentei conter as lágrimas que formaram-se em meu rosto, mas a vozinha na Gabriela me trouxe de volta à realidade do momento.
– MAMÃE CELA, PEGA EU DAQUI. ELE É MAU!
– TEM PERMISSÃO PARA INVADIR AGORA!
– EU NÃO SOU MAU! EU SOU SEU PAI, E NUNCA MAIS CHAME ESSA VADIA DE MÃE. – ELE SOLTOU GABRIELA E PEGOU NOVAMENTE A ARMA ME OLHANDO COM FÚRIA. – VOCÊ NÃO VAI TIRAR MINHA FILHA DE MIM, SUA DESGRAÇADA. EU VOU ACABAR COM SUA VIDA.
– ENTÃO NOS ENCONTRAREMOS NO INFERNO! – Respondi.
Foi a última coisa que consegui ouvir com clareza antes de tudo acontecer…
Foi tudo muito rápido e sem deixar tempo para que nada pudesse ser feito para evitar a tragédia que estava a caminho. Vi Gabriela se soltar do homem que ainda estava abaixado me olhando com fúria. A menina correu em direção onde Hanna estava no exato momento em que os policias derrubaram a porta lateral perto de onde Jefferson estava. No susto, o bandido segurou a arma com habilidade e apontou para direção de Hanna sem ao menos se importar que Gabriela se aproximava da mãe.
1, 2, 3... Essa foi a quantidade de disparos em sequência.
O primeiro disparo atingiu Hanna que caiu antes mesmo de segurar Gabriela em seu colo. Seu olhar finalmente sustentou o meu e eu vi o exato momento que uma lágrima caiu solitária antes de seus lindos olhos verde fecharem.
O segundo soou antes antes que eu pudesse ter qualquer ação… No mesmo instante senti meu corpo sendo jogado para a lateral me fazendo cair de encontro ao chão. O peso de Bárbara, estava sob meu corpo dolorido. Ela impediu que o tiro direcionado à mim me acertasse.
Já no chão vi que o terceiro tiro fez Jefferson cair nos pés da agente Susana que agora apontava a arma em sua direção. A policial mesmo com toda sua experiência parecia atordoada diante da cena de terror. O homem que ela pretendia entregar a justiça tinha acabado de se suicidar ali na frente de todos nós dando um fim trágico a sua própria vida após acreditar que tinha conseguido conquistar a vingança que havia arquitetado por todo esse tempo.
Por Narrador
– NÃOOOOOOOO! AMOOOOR, ACORDA. POR FAVOR! Hanna não morre não me deixa!
Marcela gritava em desespero sobre o corpo de Hanna enquanto Bárbara tentava com dificuldade puxá-la para fora do local. Do outro lado, Gabriela que estava nos braços de a Susana, em sua inocência e exaustão psicológica, chorava e gritava pela mãe.
Por mais que Marcela suplicasse para que Hanna falasse com ela o silêncio era a única coisa que ela tinha da outra que estava desacordada e coberta de sangue. O coração de Marcela parecia que ia falhar naquele momento enquanto as lágrimas banhavam o seu rosto e o desespero tomava conta de si.
– Marcela, por favor, venha comigo. Não podemos mexer no corpo dela até o resgate chegar. – Bárbara chamava a amiga que se debatia sobre o corpo imóvel de Hanna.
– Ela não pode morrer, Bárbara. Ela não pode me deixar!
– Ela não está morta. Ela ainda tem pulso e o resgate já foi chamado. Marcela, me escuta… a Gabriela precisa de você agora. Só tem você aqui em quem ela consegue confiar e sentir segurança, e ela precisa se acalmar.
Quando Bárbara mencionou o nome de Gabriela, Marcela olhou em direção onde a garotinha se debatia no corpo de Susana tentando alcançar a mãe caída no chão. Marcela sabia que apesar de toda a dor e medo que estava sentindo, ela precisava acalmar a criança que estava agitada. Era isso que Hanna faria se estivesse ali. Era isso que Hanna iria querer dela naquele momento.
Marcela levantou-se do chão com dificuldade e caminhou em direção à pequena que estava em desespero.
– Gabi. – Marcela chamou pela criança com calma atraindo sua atenção.
– Mãe, por favor me pega. – A menina suplicou com os olhinhos inchados de tanto chorar.
Ver Gabriela naquele estado cortou ainda mais o coração de Marcela, que já estava em pedaços.
– Vem comigo, meu amor. Eu estou aqui com você.
Marcela pegou Gabriela em seus braços, e a abraçou com força. A garota aos poucos parecia começar se tranquilizar ao encontrar segurança e conforto naquele abraço.
– A mamãe não vai mais acordar?
Gabriela perguntou com a voz abafada quando deitou a cabeça no ombro de Marcela, passando os braços em volta do seu pescoço. Marcela não sabia como agir, era muita dor no coração e confusão na cabeça, mas ela sabia que precisava parecer forte para não abalar ainda mais a pequena que estava em seus braços.
– Claro que a mamãe vai acordar, meu amor. Ela só está ferida agora, mas já já os médicos vão chegar e curar o seu dodói, e então tudo vai ficar bem como era antes.
– Tá bom, mãe Marcela. Eu confio na senhora. – A garotinha falou com tristeza na voz que até outra hora costumava ser alegre.
Algum tempo depois
Estavam todos no hospital esperando por notícias de Hanna, que estava na sala de cirurgia há mais de três horas. A comoção tomava conta de todos desde o momento que chegaram ali. Daniela e Renata tentavam ignorar a própria dor para buscar acalmar a todos ao mesmo tempo, mas era quase uma tarefa inútil considerando que elas também estavam abaladas demais para conseguir passar a confiança de que tudo ficaria bem. Gabriela tinha sido levada por uma pediatra e logo em seguida passaria por uma psicóloga, já que a criança tinha ficado sob o domínio de Jefferson por mais de 24hrs, além de ter visto a mãe ser baleada diante dos seus pés.
Por sua vez, Marcela se mantinha afastada de todos… Ela não chorava como a princípio, mas também não falava nada. Era como se estivesse em profundo estado de choque. A verdade é que dentro da cabeça de Marcela uma mistura de pensamentos e sentimentos estavam tomando conta de si. Por um lado ela tinha medo de receber a pior notícia da sua vida, por outro, a voz de Hanna ainda ecoava na sua cabeça repetindo inúmeras vezes que ela não era mãe da Gabriela, e que a criança não tinha nada que as ligasse. Marcela se sentia egoísta por ter aqueles pensamentos mesmo quando seu coração gritava em desespero para que Deus salvasse a vida de Hanna. Mas a empresária olhava ao ao seu redor e por um instante não conseguia se sentir parte da família Prado, e por isso resolveu se afastar e aguardar por notícia sozinha e em silêncio enquanto tentava absorver tudo o que havia acontecido.
Desde que chegaram ao hospital ninguém sabia exatamente todos os detalhes do que se passou naquele lugar. Todos estavam com sua atenção e preocupação voltadas para Hanna, mas Bárbara observava Marcela de longe e sabia exatamente o que estava se passando com sua amiga. Daniela, Micaela e Renata também observavam a amiga de longe, e não deixaram de se preocupar, por isso foram até Bárbara para tentar colher mais informações de como foi a operação que resultou em Hanna baleada.
– Babi, como você se sente? – Daniela perguntou sentando ao lado da detetive. Ela não se preocupou quando entrelaçou suas mãos junto as da portuguesa.
– Estou bem! Não o tem porque se preocupar. – A voz de Bárbara soou baixa e cansada.
– Será que você poderia nos contar tudo que aconteceu lá?
Bárbara respirou profundamente e mesmo cansada contou para as três mulheres o que tinha se passado no local desde o momento em que chegaram. Depois de todo o relato da portuguesa as três se olharam como se pudessem ler o pensamento umas das outras.
– Isso explica o porquê da Marcela estar tão quieta. – Renata falou olhando penalizada para a amiga que sequer se mexia.
– Mica, sei que estamos todas nervosas com tudo isso, mas acho que é você que precisa conversar com ela. Ela não ouviria outra pessoa nesse momento.
Micaela olhou para a cunhada tentando recompor as emoções. Ela sabia que não seria uma conversa fácil, afinal, ela conseguia sentir a dor que mais uma vez sua irmã causou em Marcela, mesmo que sem intenção.
Por Micaela
Eu me sentia destruída com todo aquele pesadelo que estávamos vivendo. De um lado existia minha sobrinha, que mesmo sendo tão nova já tinha um trauma com o qual iria precisar aprender lidar. Do outro lado, tinha minha irmã passando por uma cirurgia lutando pela vida. E agora eu olhava para minha amiga e cunhada, vendo uma mulher destruída e vivendo sozinha com seus próprios conflitos no meio daquele caos.
Eu conhecia perfeitamente minha irmã para saber que todas as palavras que ela havia falado eram sem importância no seu coração. Eu tinha certeza que ela falou tudo aquilo pela situação que estava passando no momento e na tentativa desesperada de salvar a vida da filha, e eu não conseguia imaginar a dor que Hanna sentiu em pronunciar cada uma daquelas palavras. No presente, se tinha uma coisa que eu não tinha dúvidas era do amor que minha irmã sentia por Marcela. No entanto, eu também conhecia Marcela o suficiente para saber o que estava se passando dentro dela naquele momento, e eu não conseguia julgá-la por isso… eu conseguia compreender como deve ter sido difícil para ela ter ouvido tudo aquilo. Logo ela, que amava Gabriela como se fosse sangue do seu sangue.
Fui em direção à Marcela observando-a perdida em seus pensamentos. Eu sabia como ela sempre foi difícil em saber lidar com suas emoções, e isso me preocupava. Marcela sempre foi uma mulher muito forte e decidida, mas quando o assunto era sentimentos, a coisa mudava completamente de figura. Ela era do tipo que preferia silenciar sua dor, fugir dos obstáculos quando esses envolviam sentimentos, e naquele momento eu estava com medo do que ela faria agora. Dessa vez, ela ficaria?
– Será que posso sentar aqui com você? – Marcela e olhou, mas nada respondeu. Eu sabia que seu silêncio era uma permissão.
Sentei ao seu lado compartilhando o silêncio que era doloroso. Eu tentava procurar o jeito certo de começar aquela conversa. Certo era a palavra ideal, já que fácil seria impossível.
– Você já foi ver a Gabi na sala da pediatra? – Perguntei tentando analisar sua reação.
– Não! Eu pensei que talvez fosse melhor você ou o Robson fazerem isso. – Sua voz soou calma, mas era difícil de compreender o sentimento que existia por atrás. – Eu não saberia muito bem o que dizer a ela. Ainda estou tentando entender tudo isso, e não quero confundir a cabecinha dela ainda mais.
– Entendo! Mas eu acho que nesse momento talvez ela queira ter uma das mães dela por perto. Você seria essa pessoa, já que a outra não pode estar com ela no momento.
Eu sabia que estava forçando a barra ao ser direta, mas eu precisava saber até que ponto o emocional de Marcela estava atingido, para poder tentar visualizar quais seriam suas próximas reações.
Eu esperei silêncio, gritos, nervosismo, indiferença, enfim… Esperei qualquer reaça provável quando se trata de Marcela, mas fui totalmente pega de surpresa quando ela simplesmente me abraçou e caiu em um pranto que durante todos nossos anos de amizade, eu jamais havia presenciado ela se render. Abracei forte minha amiga, e busquei os olhos de Renata e Daniela que estavam afastadas com Bárbara observando aquela cena. Assim como eu, as três também pareciam surpresa com aquela reação, e pareciam sentir a dor de Marcela, já que choravam com a mesma intensidade que ela. Mas me incentivaram com um gesto a permanecer ao seu lado. Era isso que Marcela estava precisando naquele momento… Ela precisava que alguém estivesse ali para ela, demonstrando que compreendia sua dor.
Ficamos sem dizer uma só palavra durante todo o tempo em que Marcela chorava copiosamente, e eu só alisava seus cabelos. Sua cabeça repousava em meus ombros que a essa altura estava muito molhado por suas lágrimas.
– Desculpa, Mica. Eu não queria perder o controle assim. Eu sei que você está preocupada com a sua irmã, e eu não quero piorar a situação.
– Estou preocupada com você também. Não quer me contar o que se passa dentro dessa cabeça?
Ela respirou profundamente e afastou-se do meu corpo buscando por meu olhar.
– São tantas coisas que não sei como formular frases para explicar.
– Por que não tenta começando me dizer como se sente, então? Você não está sozinha, Marcela. Eu estou aqui com você.
Ela pareceu pensar por um momento, mas fiquei feliz quando percebi que ela parecia decidida a conversar. Isso era um bom sinal, já que sempre ela silenciava e sofria sozinha.
– Eu acho que estou com medo e não sei como lidar com isso.
– Medo do que exatamente?
– Medo de perdê-la para sempre dessa vez. Medo dela viver e não me amar como eu queria que amasse. Pode parecer egoísmo da minha parte, mas eu não consigo deixar de ouvir a voz dela na minha mente repetindo várias vezes “Ela não é filha da Marcela. Ela não tem nada da Marcela”. Isso dói tanto, e eu não sei lidar com essa dor. De todas as dores que já passei na vida, essa é a mais intensa que eu já vivi. – Seus olhos lagrimejaram novamente e ela começou a brincar com os próprios dedos. – Eu sei que ela estava em uma situação que pedia algumas atitudes drásticas por parte dela. Era a vida da Gabi em jogo. Mas ainda assim, eu não pude deixar de me sentir afetada com tudo que ouvi. Aquele maluco chamando a Gabi de filha foi… Eu não sabia que a amava tanto. Você precisava ouvir a emoção com que ele disse “Nossa filha”. Doeu e está doendo, Micaela.
Ela finalizou respirando fundo como se tivesse tirado um peso das costas, e percebi que embora não estivesse sendo nada fácil para ela, ainda assim ela estava tentando falar sobre suas emoções e pela primeira vez, pensar antes de agir.
– Marcela, eu realmente queria poder apagar todo esse pesadelo das nossas vidas, mas infelizmente não posso. Mas posso abrir seus olhos para evitar que outro pesadelo comece. Eu poderia dizer que estou conversando com você como amiga, mas não… eu estou conversando como sua cunhada, como família... Eu conheço minha irmã e sei que você também conhece, você sabe que aquela garotinha mimada e inconsequente do passado já não existe. Não tenho dúvidas da sua dor, posso imaginar o quanto é difícil tudo que ouviu, viu e passou hoje, mas posso te afirmar que a dor não é só sua. Eu tenho certeza que Hanna ficou com o coração em pedaços por cada palavra que falou naquele lugar. Ela agiu como mãe para salvar a filha de vocês. – Marcela me olhava atentamente e ouvia tudo em silêncio, o que me encorajou a prosseguir. – Eu sei que vocês estão apenas namorando, e que essa relação é a menos de um ano, mas a Gabi te escolheu para ser mãe dela, e eu nunca vi minha irmã tão feliz como nos últimos meses. O que eu quero dizer, é que independente do que Hanna precisou falar, ela não falou de coração e não mudou o fato de que a Gabriela te ama tanto quanto você a ama.
– Você acha que a Gabriela vai lembrar as palavras que ela falou? – Ela perguntou aparentemente mais calma, porém ainda chorosa.
– Sinceramente? Eu não sei! Você sabe como são crianças. A cabecinha dela deve estar uma bagunça, mas se ela lembrar, você e Hanna vão ter a chance de explicar para ela sobre isso. Gabriela não deve estar com o psicológico nada bem, e vocês duas juntas vão precisar ter calma para saber conduzir isso. Marcela, as duas precisam de você, agora mais que nunca, então eu preciso saber se diante de tudo que aconteceu você tem a intenção de abandoná-las.
Marcela me olhou com uma expressão triste e por um momento tive medo da sua resposta, pois eu sabia que Hanna jamais se perdoaria se perdesse Marcela pelo o que ela falou.
– Nem por um momento isso passou pela minha cabeça. Na verdade, eu que morro de medo de ser abandonada por elas.
Sorri ao ouvir aquelas palavras da minha cunhada, pois aquilo me mostrou o quanto Marcela também tinha mudado, e agora colocava seu amor por minha irmã e sobrinha sempre em primeiro lugar. Em outros tempos provavelmente Marcela jamais daria a chance de Hanna se explicar, mas agora ela estava ali, mesmo que destruída por dentro, sentindo medo e dúvidas, ainda assim ela estava disposta a esperar por minha irmã para conduzirem juntas o que tivesse que ser enfrentado.
– Então acabe com esse medo e confie em mim, isso jamais vai acontecer. O amor de vocês é um dos mais lindos que já pude presenciar.
Abracei Marcela e nesse momento ouvimos uma voz masculina soar local.
– Família de Hanna Prado!
Olhei para o lado e vi o médico responsável pela cirurgia de Hanna. Eu e Marcela trocamos olhares apreensivos.
– Somos nós, Dr. – Meu pai falou correndo em direção ao médico. – Como está minha filha?
– A bala atingiu o peito dela, o que acabou tornando o caso ainda mais complicado, mas a cirurgia foi um sucesso e agora paciente passa bem. Contudo, precisamos esperar ela acordar para analisarmos melhor o quadro clinico e a existência de possíveis sequelas.
Todos se abraçavam e choravam compartilhando o alivio que aquela notícia trazia. Eu e Marcela nos abraçamos e ficamos ali grudadas como se fosse possível transmitir com um único abraço todos nossos sentimentos que compartilhávamos naquele momento.
– O Sr. acha possível que ela tenha alguma complicação após acordar? – Marcela perguntou apreensiva.
– Até o momento que a paciente acorde para que possamos analisar seu quadro não podemos descartar nenhuma possibilidade, tudo é possível. No entanto, Hanna é uma jovem forte e que lutou muito pela vida enquanto esteve na mesa de cirurgia. Eu estou com fé que tudo vai ocorrer bem.
– Dr. quando vamos poder ver nossa filha? – Minha mãe perguntou.
– Como eu disse, foi uma cirurgia complicada. Ela perdeu muito sangue e no momento está dormindo, mas assim que ela acordar vou liberar as visitas. Isso só deve acontecer amanhã. Bom, eu preciso ir, mas qualquer coisa podem me procurar ou falar com uma das enfermeiras.
Na mesma hora que o médico saiu do nosso campo de visão a psicóloga apareceu trazendo Gabriela pelas mãozinhas. Olhei para Marcela e seus olhos brilhavam em direção a minha sobrinha. Ela olhou para mim e apenas incentivei com o olhar para que ela fosse ao encontro da menina.
Gabriela se soltou da mão da médica e correu em direção à Marcela, que abaixou-se de braços abertos para recebê-la.
– Mãe, que saudade de você. Eu pensei que tinha me deixado aqui sozinha. – Gabi falou enlaçando o pescoço de Marcela em um gesto de carinho e segurança.
– Eu nunca te deixaria, minha princesa. Eu nunca vou te deixar, ouviu bem? Uma mãe jamais abandona uma filha, e eu te amo demais Gabi, nunca esqueça que eu te amo demais.
Marcela falou abraçada a minha sobrinha e quando observei todos ali estavam chorando diante daquela cena, até mesmo Bárbara, que estranhamente estava abraçada ao corpo de Daniela.
– Eu também te amo, mãe. – Gabi respondeu com convicção.
Minha sobrinha não imaginava o quanto suas palavras eram capaz de curar o coração da mulher que ela escolheu para dividir com Hanna aquele título tão precioso.
Fim do capítulo
Boa noite!
Para quem quiser ficar sempre informada sobre as postagens dos capítulos e novos livros que vão ser lançados em breve, sigo atualizando as leitoras pelo o perfil do Instagram @priskellyautora
bjs!
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: