Capitulo 36
Por Hanna
– Fica calma, Hanna. Você não está sozinha, e temos toda situação sob controle. Você está no nosso campo de visão e a escuta está perfeita. É só você fazer como combinamos e tudo vai ocorrer bem.
A agente Susana falava no meu ouvido através de um ponto. Confesso que eu estava morrendo de medo de Jefferson perceber que aquilo seria uma emboscada e as coisas fugirem do controle colocando a vida de Gabriela ainda mais risco. Eu não imagina que era aquilo que Bárbara queria dizer quando mencionava “precisamos trazer ele até nós “. Mas não era como se eu tivesse muita escolha a não ser confiar na polícia e na amiga de Marcela, que estava empenhada em resolver aquela situação.
Eu estava exatamente no local que Jefferson tinha ordenado em seu último contado. O lugar parecia ser uma fábrica abandonada que ficava próximo a uma BR de Fortaleza. Olhei em volta e não foi difícil identificar a insalubridade do lugar… Era sujo, tomado por restos de equipamentos e algumas máquinas enferrujadas. Havia muito lixo espalhado por toda volta, e a única iluminação que quebrava a penumbra era a pouca luz solar que adentrava pelas janelas quebradas.
Ao redor da fábrica não tinha nada, o que certamente era o lugar ideal não apenas para que Jefferson usasse como esconderijo, mas também para tornar alguém refém, considerando que jamais alguém poderia ouvir gritos que viessem dali. A única coisa que ainda me fazia ter esperança era saber que o local já estava cercado por policias, e que o próprio telhado quebradiço também havia sido ocupado para que pudessem ter visão da movimentação que ocorresse lá dentro. Tudo tinha que ser realizado com muita cautela, afinal a vida da minha filha estava nas mãos daquele psicopata.
Enquanto meus passos encurtava a distância entre nós dois, observei um pouco mais o lugar onde estava entrando e percebi que se tratava de um lugar imenso. Não tinha como fazer a menor ideia de onde ele estava escondendo Gabriela, e então o medo começou tomar conta de mim. Tudo o que eu mais queria era ter minha menina de volta em meus braços, mas no fundo eu sentia que não seria tão fácil. Eu caminhava lentamente pelo o espaço, e quanto mais eu caminhava, mais meu coração acelerava. Eu estava a poucos minutos de mais uma vez ficar cara a cara com homem que acabou com minha vida há anos atrás, e que por ironia do destino estava acabando com o psicológico da própria filha nesse momento.
– Pode ficar parada aí mesmo onde você está. Só faça o que eu mandar ou eu atiro.
Ouvi a voz rude do homem e obedeci imediatamente. Até o momento eu não tinha visto seu rosto, mas somente sua voz gélida foi o bastante para me fazer sentir todo o pavor que senti naquela noite chuvosa do meu passado.
Eu sabia que estava sendo observada e por mais que eu quisesse buscar os olhos de algum dos policiais em busca de me sentir segura, eu preferi não arriscar. Um erro poderia custar a vida da pessoa que eu mais amava.
– Fica tranquila, Hanna. Nós estamos com você. – Ouvi uma voz masculina e desconhecida soar em meu ouvido, e imaginei ser algum dos parceiros de Susana.
Foquei no nada enquanto buscava forças para enfrentar meu algoz.
– Eu estou com o que pediu, mas só entrego quando vir minha filha. – Eu disse tentando não falhar a voz.
– Cala a boca! Você não está em condições de fazer exigências aqui.
A figura do homem finalmente se fez presente saindo de uma das portas daquele lugar abandonado. Quando nosso olhar cruzou, conclui rapidamente que o tempo na prisão trouxe resultados irreversíveis para Jefferson. Sua aparência agora era totalmente diferente do jovem atlético e bonito de anos atrás. Agora ele era um homem magro, com rugas pelo rosto e algumas cicatrizes que certamente ganhou na prisão. Mas não era isso que me preocupava, mas sim sua expressão que era dura enquanto seu olhar transbordava em uma crueldade ainda mais intensa do aquela que vi em seus florecer em olhos naquela noite chuvosa.
Jefferson deu poucos passos em minha direção e eu quase desfaleci quando vi Gabriela sendo arrastada sem o menor cuidado pela mãozinha. Minha filha estava com os olhinhos inchados e vermelhos dando sinal do tanto que havia chorado. Sua boca estava amordaçada com uma fita, o que a impedia de falar comigo, mas eu compreendi as súplicas que ela me fazia com seus pequenos olhinhos verdes. Eu quis correr em sua direção, mas ele impediu quando apontou a arma para a cabeça de Gabriela.
– Não dê nenhum passo ou eu atiro!
– Por favor, eu já estou aqui. Tira isso da boca dela. Deixe-a falar comigo. – Pedi quase em um sussurro com lágrimas caindo descontroladamente pelos meus olhos.
– De jeito nenhum! Essa garota é insuportável. Eu precisei colocar essa fita para finalmente conseguir calar essa boca maldita. Agora vamos ao que importa… Abra a bolsa! Eu quero ver o dinheiro.
Sentindo cada parte do meu corpo tremendo de desespero por ver Gabriela naquela situação, rapidamente obedeci a ordem que me foi dada. Abri a bolsa para que ele pudesse ver o dinheiro que estava ali dentro.
Na escuta eu pude ouvir a agente Susana me pedindo para manter a calma, pois qualquer movimento meu poderia assustá-lo e fazer com que ele atirasse em Gabriela, que estava sob sua mira.
Fiquei me perguntando o que estava impedindo os policiais de agirem logo para acabar com aquela situação, e como se pudesse ler meus pensamentos, Susana logo explicou que o ângulo onde Jefferson se encontrava com minha filha, não era favorável para a polícia garantir um ataque bem sucedido.
– Muito bem! Você continua muito obediente, Hanna. Exatamente como no passado. – Ele sorriu largo parecendo ser atingido por ondas de um prazer doentio. Ondas de pânico subiram pelo meu corpo quando ele fez aquela citação, por em uma fração de segundos consegui reconhecer algo que durante todo esse tempo desejei jamais voltar a experimentar. – Agora feche a bolsa e traga até aqui. Mas preste atenção… Eu quero que você fique com a outra mão pra cima enquanto caminha. Se você tentar alguma gracinha, já sabe… Ela morre!
Quando me aproximei da porta onde ele se encontrava parado, meu coração batia ainda mais forte que antes. Busquei os olhos da Gabriela e reconheci o quanto eles esboçavam pavor. Eu podia ver como minha pequena estava desesperada para correr em minha direção, mas não conseguia se desvencilhar da mão firme que agarrava seu braço a ponto de deixá-lo marcado como eu jamais a deixei. Aquilo me fez estremecer entre raiva e tristeza… A minha filha… A menina dos meus olhos, que eu costumava zelar e proteger, agora estava ali a mercê de um louco.
– Hanna, preciso que tente convencer ele a soltar a criança. Qualquer atitude ou barulho que ela fizer em meio ao desespero pode fazer ele perder o controle e atirar. Não podemos correr esse risco. – Ouvi novamente a voz de Susana em meu ouvido e tentei me acalmar para seguir suas ordens.
– Você já tem o que quer, agora solta ela. Você me prometeu!
Uma gargalhada monstruosa soou por todo o ambiente, e meu coração gelou.
– Acontece que eu não costumo cumprir muito com o que prometo, minha querida. Você acha mesmo que esqueci que você tem uma dívida comigo? Eu não fugi da prisão atoa. Eu fugi para cobrar o que você me deve.
O desespero já tomava conta de mim e o medo de perder minha filha era fazia morada em meu coração.
– Jefferson, seu problema é comigo. Sempre foi comigo. Ela é só uma criança que não tem culpa de nada. Não faça nada que você possa se arrepender.
– Me arrepender? – Ele sorriu silenciosamente sem demonstrar emoção. – A única coisa que me arrependo, é de não ter te matado na noite em que te comi gostoso. Você me tirou a minha liberdade por longos anos. Você tem ideia do que passei naquele lugar? – Seu olhar faiscou de puro ódio. – Aqueles presos imundos me obrigaram a fazer coisas nojentas que nunca vou esquecer. E a culpa de tudo isso é sua. Você sempre foi uma vadiazinha que não sabe cumprir seu papel de mulher. Deveria ter me pedido mais uma foda, e não me denunciar como estuprador. Eu não sou isso… Eu só fui um cara generoso que te mostrou que macho e fêmea foram feitos para um para o outro.
Era perceptível que o ódio na voz de Jefferson, aumentava a medida que cada palavra saia da sua boca suja. Uma veia do pescoço dele chegava a pulsar enquanto ele seguia apertando o braço de Gabriela com ainda mais força enquando sua outra mão apertava com força a arma que ainda estava apontada para a cabeça da minha filha.
– Eu não tenho culpa do que aconteceu. Se você não tivesse cometido aquele erro, você jamais teria vivido tudo isso. – Eu tentava me controlar para não irritá-lo ainda mais.
– CALA A BOCA! – Ele engatilhou a arma em uma ameaça palpável. – O que eu fiz foi pelo o bem da sociedade. Você é errada aqui. Você deveria ter deixado aquela vida maldita de se esfregar com aquelas vagabundas sujas na faculdade. Eu te ofereci o mundo, e você sempre rejeitou porque preferia aquelas vadias iguais a você.
– Nada do que você pudesse me dar tinha valor para mim. Você me estuprou, seu desgraçado! Eu nunca quis saber o que era ser de um homem, ainda mais alguém desprezível como você. Você acabou com a minha vida desde aquela noite.
Meu peito subia e descia em um ritmo acelerado.
– Hanna, pelo amor de Deus. Não enfureça ele. Isso é perigoso demais! Só faça com que ele solte a criança. Nós precisamos ter Gabriela livre de qualquer perigo. – Ouvi o alerta de Bárbara em meu ouvidos e tentei me controlar.
– EU TE AMEI, HANNA PRADO! Desde o dia que você entrou naquela sala, eu te amei como ninguém jamais amou. Eu fazia de tudo para chamar sua atenção. Te convidava para os mais caros restaurantes dessa cidade. Estava disposto a te tratar como uma princesa, coisa que jamais havia feito com qualquer outra mulher, mas você sempre me esnobava, me tratava como um lixo e me humilhava na frente dos meus parceiros. Até o dia que você ficou com a Camila naquela festa na frente de todo mundo e o inferno na minha vida começou, ou você nunca viu como todos zombavam de mim por perder para outra mulher a mina que eu amava?
– Você só pode estar louco! Você nunca me amou, Jefferson. Você sempre teve obsessão em mim justamente por eu ter te dado o primeiro não da sua vida. Você não soube lidar com isso, e achou que era amor. Você estava acostumado a ter todas as garotas aos seus pés e se sentiu desafiado quando eu o recusei. Isso não é amor, nunca foi amor… Sempre foi uma doença e você precisa se tratar. Quem ama não faz o que você fez comigo.
Olhei para Gabi que chorando copiosamente se debatia nos braços grandes do homem que estava apertando cada vez mais o seu braço.
– Como ousa duvidar do meu amor por você, sua desgraçada?
A fúria de Jefferson fez com que ele desse um tiro para o alto assustando não apenas a mim, mas a minha pequena também que pareceu ficar em choque.
– Você está machucando ela seu animal. Solta ela!
Desesperada, tentei avançar em direção à Gabriela, mas parei bruscamente no meio do caminho quando Bárbara me mandou não fazer aquilo ou o pior poderia acontecer.
– Mais um passo e eu estouro os miolos dessa garota insuportável.
– Hanna, já disse para não provocá-lo. Tenta convencê-lo a soltar a criança agora pelo amor de Deus! Ele já está ficando descontrolado e nós sequer temos um bom ângulo para atirar nele. Veja como ele usa a Gabriela como escudo.
Observei que aquilo dito por Bárbara era verdade. Jefferson tinha Gabriela na frente do seu corpo.
– Inicialmente eu tinha o plano de te matar lentamente, sabia? Seria tão lentamente como quando sentia aqueles imundos me estuprando na cadeia, assim você sentiria cada dor que eu senti e isso iria me deixar muito feliz. Mas desde que voltei a te ver, ainda mais linda que antes, eu fiz diversos planos para nós dois. Eu estava até disposto a te perdoar pelo o que você me fez passar. Eu sumiria com essa pirralha, e te levaria comigo para longe dessa cidade para vivermos nosso amor. Eu sei que se você me der uma chance vai perceber que também me ama. Eu senti que você gostou daquela nossa noite. No início você até relutou, mas depois você ficou quietinha me deixando te comer.
A cada palavra dita por ele, eu sentia meu estômago embrulhar enquanto sem pedir licença minha mente me levava de volta ao encontro do meu maior fantasma.
– Mas ai comecei a te observar de longe todos os dias, e vi que você continua sendo uma aberração. Vi você diversas vezes com aquela outra vadiazinha e essa criança nojenta chamando as duas de mãe. Eu tenho nojo de tudo isso, sabia? Vocês… Essa… essa raça que vocês são, é o mal da humanidade. Era para cada viado e sapatão ser queimado vivo dentro de uma fogueira assim resolveríamos esse problema no mundo.
Percebi que apesar dos delírios de Jefferson, talvez existisse uma chance dele soltar Gabriela. Bastava que eu jogasse o jogo dele, e talvez, com sorte eu conseguisse virar as coisas em meu favor. A ideia era muito arriscada, mas eu faria qualquer coisa para minha filha sair dali viva. Eu sabia também que não apenas os polícias podiam me ouvir, mas Marcela também, essa foi uma exigência dela que acabou sendo atendida na tentativa de tranquiliza-la, então… Bem, iria ser doloroso para nós duas, mas Marcela me entenderia. Ela precisava entender.
– Jefferson, por favor, vamos conversar com calma. Olha em meus olhos… Eu estou bem aqui na sua frente. – Não sei como, mas consegui soar doce. Ele precisava acreditar que aquelas eram palavras verdadeiras. – Por que você não solta ela, e ficamos só nós dois? Podemos seguir com o seu plano inicial. Você não diz que é capaz de me curar dessa doença? Pois bem, eu aceito. Eu quero! – Olhei fixo em seus olhos. – Nós esquecemos todo o nosso passado e recomeçamos do zero, como sempre deveria ter sido. – Vi os olhos do homem brilharem com um misto de confusão, luxúria, desejo e loucura.
– Você está mentindo! Você pensa que eu não vi que você tem aquela mulher maldita?
– Quem? A Marcela? – Ri, mas por dentro eu chorava porque dizer aquilo era como levar Marcela também de volta aos próprios fantasmas. – Marcela nunca significou nada pra mim. Você acha que alguém como eu poderia gostar dela? Ela não faz o meu tipo. Se ela fosse a última pessoa da terra, ainda assim eu não ficaria com ela.
Ela me estudou por alguns segundos, agora já não apertando o braço de Gabriela, porém ainda mantendo-a sob seu domínio.
– Eu não sei se acredito em você. Eu vi como você olhava pra ela.
– Interesse, Jefferson. Marcela tinha dinheiro, e isso era a única coisa que me agradava nela. Mas agora… agora você tá aqui e pode me dar tudo o que eu preciso. Eu largo a Marcela, e nós fugimos com esse dinheiro que eu trouxe. Esqueça a Marcela, ok? Foca em mim… Ela não significa nada para mim.
Disse as últimas palavras com dor. Era como se uma lâmina estivesse rasgando meu coração, mas eu precisava ser firme, eu precisava ser convincente.
– Venha! Solte a garota e me dê a mão. – Estendi a mão em direção a Jefferson como uma proposta tentadora. – Eu estou bem aqui, e sempre foi a mim que você quis. A menina não tem importância pra você.
– NÃOOOOO HANNA! NÃO FAÇA ISSO, POR FAVOR. NÃO SE ENTREGUE A ELE DESSE JEITO!
Ouvi o grito desesperado de Marcela na escuta e meu coração doeu de uma maneira tão absurda que chegou a me faltar o ar. Eu estava entre a cruz e a espada. De um lado tinha a vida da minha filha, do outro tinha a mulher da minha vida. Mas Gabriela era apenas uma criança, ela merecia viver e ela jamais estaria nessa situação se não fosse pela raiva que o homem sentia por mim.
– Você não está falando sério. Eu sei que você só quer que eu solte essa pestinha.
– Eu estou falando sério! Claro que estou! Você acha que teria te obedecido se não estivesse disposta a qualquer coisa por você? – Os olhos de Jefferson brilharam ainda mais e vi quando ele afrouxou a arma me fazendo ter a sensação de que era questão de tempo para ele soltar Gabriela, se eu continuasse a jogar conforme ele gostaria. – Você sempre me quis, não é verdade? – Dei um passo encurtando a distância entre nós dois, e ele só observou meu movimento. – Agora eu estou aqui. Você vai mesmo perder essa chance por causa de uma vingança estúpida? Larga a menina e vamos embora gastar todo esse dinheiro como você quiser.
– Você não sabe quantas vezes eu quis ouvir isso. Mas agora eu não sei se posso confiar em você. Eu quero que me prove que está falando a verdade e então eu te perdoarei.
– Hanna, não se coloque em perigo desse jeito. Troca de reféns não estava nos nossos planos. Isso está ficando perigoso demais. Vamos acabar invadindo mesmo ele estando com a criança. – Susana advertiu e ainda podia ouvir o choro e súplicas de Marcela enquanto alguém tentava contê-la.
– E o que você quer que eu faça? – Perguntei com toda calma que eu não tinha.
– Se está mesmo disposta a tudo isso, me deixe matar esse projeto de aberração. Prove que não sofre por nada que tenha a ver com aquela mulher desgraçada. Prove que está disposta a se curar.
Jefferson parecia se deliciar com cada palavra que falava e meu coração falhou por um momento diante daquele pedido absurdo. Eu pensava que estava conseguindo tirar a fixação que ele tinha em Gabriela, mas percebi que o problema dele era outro, o problema dele era a minha relação com Marcela e qualquer coisa que nos ligasse uma à outra, e como na cabeça dele, Gabriela era filha de Marcela, tirar a vida da criança e me ter em seus braços seria sua maior vitória e também a maior perda da vida de Marcela.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa vi um vulto adentrando no local surpreendendo não apenas a mim, mas a Jefferson e Gabriela que estava com os olhos brilhando como uma luz no fim do túnel tivesse surgido.
– Você vai precisar ser muito homem para tocar em um fio de cabelo de uma das duas. Vai precisar passar por mim primeiro.
A voz de ódio de Marcela soou no local, e meus pelos arrepiaram quando vi que aquilo era algo compartilhado pelos olhos de Jefferson. Aquilo não era nada bom! Marcela, mantinha uma arma apontada em direção de Jefferson.
– Você me enganou, sua vadia? – Ele disse alternando o olhar entre Marcela e eu.
– Mas que merd*! Quem deixou Marcela escapar? Agora temos três vítimas em situação de risco!
Susana gritou e um dos policiais choramingou respondendo que Marcela o havia acertado na cabeça e tomado sua arma.
Jefferson agora não sabia bem o que fazer. Ele alternava a pontaria da arma entre Marcela e eu, e vi que o pior estava prestes a acontecer. Foi então que joguei minha última carta… Era tudo ou nada, mas pela vida da minha filha e da minha namorada, valia a pena arriscar.
– Esquece a Marcela, Jefferson. Foca em mim.
– Você não vale nada! Você me enganou, sua vadia. Mas quer saber? Isso é bom porque assim vou matar as três de uma só vez.
– Você não pode matar a criança, Jefferson.
– Por que não? Ela é um projeto de aberração. Por que eu não mataria alguém como ela? – O vi puxar os cabelos de Gabriela e voltar apontar a arma em sua cabeça.
– POR QUE ELA É SUA FILHA! NÃO ATIRE NA SUA PRÓPRIA FILHA!
Falei as últimas palavras com lágrimas nos olhos e dor no coração. Eu nunca desejei dar a ele o prazer daquela informação. Lembro o exato momento quando junto com minha família decidimos que Gabriela jamais teria qualquer informação sobre a família paterna, e do quanto lutamos para que o pai de Jefferson concordasse em abrir mão de qualquer vínculo. Assinar aquele acordo não foi uma conquista fácil, mas quando finalmente conseguimos, celebramos. Contudo, a situação em que nos encontrávamos agora e o desespero em ter Gabriela longe de qualquer risco, me fez ceder.
Vi os olhos Marcela cruzarem com os meus e uma dor profunda transbordarem, enquanto o homem me olhou no mesmo instante com o semblante assustado.
– O quê? O que você disse?
– Ela é sua filha! – Voltei afirmar.
– Isso é impossível!
– Impossível? – Tenho certeza que o olhei com desprezo. – Ela nasceu do estupro que você me fez. Faça as contas! Eu sei que você sempre foi bom com números. Ela tem cinco anos. Olha bem para ela e depois olhe para a Marcela… Gabriela não tem nada que lembre ela. Ela não é filha da Marcela. Ela não é nada da Marcela. Ela é minha… Ela sua… Ela é nossa filha!
Aquilo foi uma das coisas mais cortantes que eu já disse em toda minha vida, e soou tão errado… Eu nem conseguia encarar os olhos de Marcela, mas podia senti-los pesar sobre mim. Como ela não podia ser nada da Marcela? Gabriela escolheu amá-la e acolhê-la como mãe. Não foi uma imposição, não foi um desejo que partiu de mim, mas sim uma construção… Um encontro de almas raro de se ver, e violar isso tinha sido uma das maiores dores da minha vida. Agora não me resta a muito o que fazer… Eu apenas rezava para ela não considerar nenhuma das minhas palavras. Apesar da dor. eu precisava agir assim, eu precisava lutar com todas as cartas para ter minha filha viva.
Jefferson ainda me olhava assustado. Em seguida, ele abaixou diante de Gabriela e como se estivesse paralisado, analisou cada pedacinho do rosto infantil que estava assustado e choroso.
Olhei para Marcela que tinha abaixado a arma e parecia em choque diante da cena.
Jefferson me olhou novamente e voltou a questionar...
– Uma filha? Você me deu uma filha? Nossa filha! – A raiva de outra hora deu lugar a um encantamento doentio. – Nem nos meus melhores sonhos eu poderia me sentir mais feliz. Eu… Eu sou pai! Eu sou pai de uma criança nossa.
Vi o homem largar a arma nos seus pés e rapidamente tirou a mordaça da boca da minha pequena.
– Mamãe Marcela, pega eu daqui. Ele é mau!
O grito desesperado de Gabriela atraiu nossa atenção e só então Marcela desviou os olhos dos meus.
Parecendo perceber que aquilo dito por Gabriela seria o maior gatilho para o homem, Susana ordenou…
– Pessoal, não dá mais para esperar. Vocês têm permissão para invadir agora.
– Eu não sou mal! Eu sou seu pai, e ordeno para que nunca mais você chame essa vadia de mãe. – Ele soltou Gabriela e pegou novamente a arma olhando com fúria para Marcela. – Você não vai me tirar minha filha sua desgraçada. Eu vou acabar com sua vida.
– Então nos encontraremos no inferno!
O soar das vozes de ódio mútuo compartilhado por Jefferson e Marcela foram as últimas palavras que ouvi antes de tudo acontecer.
Gabriela correu em minha direção e no mesmo instante eu ouvi o barulho da porta explodindo por trás de Jefferson.
Três disparos foram o último som naquele lugar.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
priskelly Em: 02/07/2026 Autora da história
Kkkkkkk cheguei! Fui um pouquinho má, né?
Bjus!