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A volta do amor que nunca se foi por priskelly

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Palavras: 4668
Acessos: 470   |  Postado em: 26/06/2026

Capitulo 34

Por Bárbara

Já faziam dois dias que eu estava trancada naquele hospital, mas graças a Deus, naquela manhã eu estava embora. Nesses dias, Marcela e as outras faziam questão de me visitar com frequência e jamais me deixar sozinha. Até mesmo Suzana tinha ido me ver mais de uma vez, o que acabou deixando Daniela irritada sem motivo nenhum aparente. Segundo ela, Suzana estava me influenciando a continuar me expondo ao perigo, o que não era uma verdade absoluta. Na verdade, eu fiquei feliz em saber por Suzana, que os demais policias que participaram da operação me definiram como destemida. Segundo ela, eles já me consideravam como uma deles, mesmo que isso de fato não fosse verdade. 

No geral estava tudo bem. Tudo não tinha passado de um susto. Eu me sentia bem de saúde e estava doida para voltar a investigar aquele desgraçado até finalmente conseguir pegá-lo. Eu jurava para mim mesma que na próxima vez que ele estiver na minha frente, eu não pensaria duas vezes antes de mandá-lo para o inferno. 

A única coisa que andava me incomodando era como o clima mudava quando eu estava diante daquela baixinha insuportável, mas eu não podia  negar que esses dois dias, em que estive internada e ela sempre aparecia para me visitar, apesar da sua mudança de humor repentino quando Suzana aparece, eu não conseguia ser indiferente ao perceber como ela tem estado preocupada comigo. Era algo novo, algo que eu não estava acostumada, mas também parecia ser algo que aquecia meu coração de alguma forma.

Eu estava me arrumando para finalmente deixar o hospital quando ouvi batidas na porta… Logo imaginei ser a enfermeira que ficou de trazer minha alta e autorizei a entrada, mas meus olhos cruzaram com os olhos negros da mulher que por dias me tirava do sério pelo simples fato de conseguir me atormentar como jamais nenhuma outra mulher conseguiu fazer. Eu não entendia, e muito menos aceitava, que em poucos dias de convivência essa mulher conseguisse fazer meu coração bater descompensado toda vez que ela estava por perto. Logo eu que tinha riscado a palavra amor do meu dicionário, agora era submetida aquelas sensações estranhas? Mas foda-se! Seja lá o que esteja acontecendo dentro de mim, eu jamais me entregarei a um sentimento superficial como esse.

– Bom dia! – Ela falou calma e tímida. – Eu vim para te levar para casa. Marcela está em reunião e me pediu para fazer esse favor. 

– Não precisava se incomodar. Eu podia chamar um táxi. 

A vi revirar os olhos revirando com impaciência, e não pude deixar de achar estranhamente linda a maneira como ela ficava quando se esforçava para controlar a vontade que sentia de me xingar.  

– Olha só… Deixa de ser marrenta pelo menos uma vez na sua vida. Você ainda está se recuperando, e não pode andar fazendo estripulias por ai. Então nós deixe cuidar de você, ok? 

Não respondi nada, apenas ergui as mãos em sinal de rendição. Não ia adiantar discutir, até porque eu não podia negar que ela tinha razão. Com o canto do olho pude vê-la sorrindo ao perceber que naquele momento eu não ia ria contradizê-la. Aliás, diga-se de passagem era sorriso lindo. 

“Por céus Bárbara, não seja trouxa. Você não pode se entregar a essa fantasia passageira!” Mentalizei para me mesma.

– O que foi? – Ela me perguntou enquanto me analisava.

– O quê? – Devolvi a pergunta. 

– Você aí sorrindo sozinha. 

– Eu não estava sorrindo. Deve ser coisa da sua imaginação.

– Ah claro! Porque eu sou doida, não é mesmo? – Ela cruzou os braços já se irritando.

– Bom, ai é algo que você mesma está afirmando. Eu não lembro de ter dito nada disso. – Falei com pouco caso.

– AAAAAAHHHHHH! QUE INFERNO! – Confesso que me assustei com aquela pequena explosão repentina, mas não demonstrei nada. – Por que você sempre faz questão de demonstrar o quanto não gosta de mim? Aliás, que droga eu fiz para você não gostar de mim? Tenho cuidado de tudo para você desde que chegou. 

Então era isso que ela pensava de mim? Ela achava que eu não gostava dela, e por isso a tratava mal? Mas que idiota! Será que ela não percebe o que é capaz de causar com um simples olhar?

“Para com isso, Bárbara. Você não deve achar ruim que ela pense isso, afinal, não é essa a intenção?” Meus pensamentos foram cortados por sua voz que novamente esbravejando ao meu lado. 

– ÓTIMO! AGORA VAI COMEÇAR IGNORAR MINHA EXISTÊNCIA TAMBÉM. 

– Ei, será que você consegue parar de berrar como um bode velho? Ainda estamos em um hospital, sabia? – Falei tentando não demonstrar emoção alguma. – Eu não tenho raiva de você, Daniela. Apenas somos mulheres completamente diferentes, e isso acaba nos afastando. 

Uma parte de mim torcia para ela acreditar em minhas palavras, mas a outra parte me batia por não conseguir dizer o que realmente estava se passando dentro de mim, e isso era muito assustador. Só vivi isso uma vez na vida, e me dei muito mal quando peguei minha ex noiva trans*ndo com meu ex parceiro de trabalho. Desde aquele dia, jurei para mim mesma que nunca mais iria me apaixonar por mulher alguma, e agora vem essa baixinha dos infernos atormentar minha vida trazendo uma avalanche de sentimentos inesperados em tão pouco tempo.

– Você tem razão. Somos muito diferentes, não nos suportamos, e por isso vou esperar por você lá fora. Quanto menos tempo próximas uma da outra melhor será para nós duas. – Daniela disse como se fosse importante aquela autoafirmação de que me odiava.

Não demorou muito para que a enfermeira trouxesse minha alta assinada pelo médico. Demorou menos ainda para que eu estivesse dentro do carro da Daniela indo em direção ao apartamento que Marcela tinha alugado para mim. 

O silêncio dentro do carro era incômodo, mas percebi que Daniela não estava muito a fim de conversar, então achei que deveria ficar quieta também. 

Chegamos ao apartamento e antes que eu pudesse pegar a bolsa com meus pertences, a baixinha fez isso sem me dar chances para recusa. Ela foi rápida quando seguiu em direção ao elevador sem me dar tempo de questioná-la. Isso era uma das coisas que mais me irritava nela, ou seja, a capacidade que ela tinha de fazer as coisas sem que eu conseguisse questioná-la. Era como se ela limitasse meus pensamentos, sentimentos ou até atitudes, e isso era frustrante para alguém como eu que não sabia agradecer por gestos de cuidados.

– Vai ficar ai por muito tempo, ou vai subir? – Ela gritou do elevador e só então percebi que eu permaneci ao lado do carro.

– Você é tão delicada como um espinho, sabia disso? 

– Olha quem fala. A senhora delicadeza em pessoa, não é? – Ela retrucou baixinho, mas consegui ouvir perfeitamente. 

Entramos no apartamento e ela deixou a bolsa no sofá, mas a vi  seguindo em direção a cozinha e estranhei sua atitude, por isso fui atrás dela. Quando cheguei ao local percebi que ela estava grudando um papel na geladeira, o que me espertou curiosidade. 

– O que é isso? 

– Sua receita com os horários dos remédios que deve tomar. Aliás, isso deve ser feito nos horários certos. Espero de verdade que siga as instruções aqui. 

Olhei para sua expressão séria, senti meu corpo estremecer como se ela tivesse poderes sobre ele.

– Eu vou providenciar os remédios. 

– Não é necessário! Eu já fiz isso quando paramos para abastecer. – A vi jogar sob a mesa uma pequena embalagem de farmácia. – Tinha uma farmácia ao lado do posto.

– Você não precisava.

– Mas eu quis. – Ela disse com urgência como se quisesse encerrar o assunto. – Não é grande coisa! Além disso, se eu levasse a receita para Marcela, ela certamente iria me pedir para providenciar de qualquer maneira. Apenas antecipei o trabalho. 

Embora tentasse se esforçar para parecer indiferente, estava claro que existia uma preocupação genuína da qual eu não podia seguir ignorando. 

– Você não precisa se preocupar. Eu já estou bem. Foi apenas um corte, e não tive nada grave. 

– Por pura sorte. E você não pode dizer que foi por falta de aviso. Bem, de qualquer forma, é melhor seguir as orientações direito, ok? Apesar de você achar que possui super poderes, sinto informar que não… Definitivamente você não possui.

Ela piscou o olhou debochada e passou por mim indo em direção à sala me deixando sem ação por breves segundos. 

– Ei, onde pensa que vai? Você não pode me afrontar assim e sair me deixando feito uma idiota. – Rosnei para ela que me direcionou um olhar indecifrável. 

– Ah, claro que não. Porque a super poderosa sempre quer ter o prazer de dar a última palavra, ou quem sabe ter a chance de praticar seu esporte preferido.

Eu não entendi o que ela quis dizer com aquelas últimas palavras, e acho que minha expressão de confusão deixou isso claro para ela, pois logo vi um sorrisinho diabólico se formando em seu rosto.

– Vai me dizer que não sabe do que estou falando? – Daniela veio em minha direção quase cuspindo fogo. – Você adora me humilhar. Adora se sobressair em qualquer situação, ou algo que eu fale. Adora demonstrar desprezo por mim, principalmente na frente de outras pessoas. – Ela já estava com o corpo quase colado no meu. Seus dedos que contornavam meu rosto pararam na minha boca que se entreabriram sem permissão, e nossos olhos não se desconectavam nem por um minuto. – Mas sabe o que acho? Toda essa sua marra, é simplesmente pelo fato de você me querer. Eu consigo sentir que você tem atração por mim desde o dia que você chegou. Eu te deixo desconcertada, vulnerável… E é isso que você não gosta não é mesmo, Afrodite? 

As últimas palavras de Daniela foram ditas sussurradas próximo ao meu ouvido me fazendo arrepiar inteira. Suas mãos lentamente tomaram posse do meu corpo sem encontrar resistência alguma já que me fez quase perder o controle das minhas próprias pernas por um breve momento.

 Daniela estava tão próxima do meu corpo que o cheiro dos seus cabelos estavam tomando conta dos meus sentidos, e por impulso minhas mãos foram parar na sua cintura de forma possessiva acabando com aquela distância que nos separava, Nossos corpos colaram um no outro, provocando um suspiro da baixinha.

– O que pensa que está fazendo? – Ela perguntou se afastando do contato.

– Eu não faço ideia, mas foi você quem começou com isso. – Respondi com dificuldade enquanto sentia o cheiro do seu pescoço que estava sempre à mostra devido seu cabelo ser curto.

– Então isso me leva a crer que eu estava certa em tudo que falei. – Ela sussurrou enquanto suas mãos enlaçaram meu pescoço fazendo com que uma corrente elétrica passasse por todo meu interior.

– Você costuma ser muito insuportável, e também tem uma petulância que me incomoda. Além disso, você se acha muito fodona, o que acaba me fazendo ter vontade de te mostrar o quanto é iludida. – Não sei como, mas eu já estava distribuindo beijos pelo seu pescoço e ombros enquanto falava. – Mas devo admitir que ainda assim você consegue prender minha atenção sim, assim como vejo que a sua está totalmente voltada para mim também. – Dei uma pequena mordida no lóbulo da sua orelha e senti suas unhas arranharem minha nuca em resposta. – Se você acha que eu te quero, talvez essa não seja uma exclusividade minha, já que seu corpo responde a cada toque meu.

Uma das minhas mãos passeou com lentidão pelas costas dela que acabou soltando um gemido baixinho. 

– Você é uma portuguesa maldita que veio para o Brasil, só para me atormentar. Não é como se eu gostasse de você, se essa é a sua dúvida. 

Apesar da tentativa dela em ser agressiva, seu corpo estava totalmente vulnerável aos meus toques, e confesso que aquilo estava me enlouquecendo… Me queimando por dentro. 

– Acho que você precisa entender suas convicções, Daniela. Porque é realmente engraçado como sua boca fala algo que seu corpo desmente. – Encarei Daniela desviando minha atenção dos olhos negros para a boca carnuda e vermelha. – Acho que preciso tirar a prova para saber no que devo  acreditar. 

Sem mais esperar um segundo, toquei a boca da Daniela em um beijo faminto, cheio de desejo e pressa. Senti seus dedos entrelaçarem em meus cabelos os deixando bagunçados… Sua outra mão agora apertava minha cintura cravando suas unhas na minha pele, o que provocava um leve ardor no local, mas nada se comparava ao fogo que sentia queimar meu corpo por dentro. Nossas línguas brincavam em perfeita sintonia, ambas intercalando ch*padas e mordidas nos lábios. Aquele beijo era diferente de tudo que eu já tinha experimentado na vida, e meu coração batia em um ritmo que misturava sentimentos desconhecidos por mim até aquele momento. 

Eu não conseguia pensar muito naquele momento, e muito menos queria pensar. A única coisa que eu queria, era a boca da baixinha que me correspondia com a mesma necessidade. 

Não sei quanto tempo, e muito menos quantos beijos trocamos ali naquela sala. Sempre que precisávamos de ar, interrompíamos o beijo em silêncio, mas não desgrudávamos nossos lábios. Quando percebi, já estávamos sem blusas e com Daniela sentada em meu colo no sofá da sala. Testas coladas, respirações ofegantes, corpos quentes, corações batendo no mesmo ritmo acelerado e com um desejo avassalador tomando conta de ambas. Somente depois de um tempo que pouco a pouco a nossa sanidade mental foi voltando a razão. 

Daniela levantou do meu colo tão apressada quanto desajeitada, me deixando perdida enquanto olhava cada movimento seu sem conseguir entender minhas próprias emoções. 

– Eu preciso voltar para a empresa. – Ela falou enquanto voltava a vestir sua blusa – Isso que aconteceu aqui…

Ela deu uma pausa ajeitando os cabelos e percebi que ela estava tão perdida quanto eu. Resolvi então que era o momento de tomar controle da situação, e logo adotei a postura que ela esperava, afinal, o que eu pensava? Daniela era claramente o tipo de mulher que pegava, mas jamais se entregava à sentimento. 

– Não se preocupe! Ninguém saberá, e também não acontecerá novamente. Foi um erro, e erro não se repetem, não é mesmo?

Ela me analisou por algum momento e adotou uma postura fria que até então eu desconhecia.

– Ótimo! De fato foi um erro, e não deve acontecer novamente. Tenha um bom dia!

A baixinha passou por mim apressadamente me deixando só com o barulho da porta fechando e os lábios formigando ainda com o gosto da sua boca. Inconscientemente levei meus dedos até meus lábios como se aquele ato pudesse me fazer senti-la novamente. 

– Porr*, Bárbara! Não é possível que isso esteja acontecendo com você. Não novamente, e ainda mais com a pessoa errada.

 

Por Daniela

– Maldição!

Essa foi a palavra que resmunguei sem perceber quando entrei na sala de Marcela sem ao menos bater na porta. 

Dei de cara com Renata e Marcela, as duas me olharam espantadas e confusas, mas apenas me joguei no sofá sem dizer nada. Desde que saí daquele apartamento, minha cabeça estava uma verdadeira guerra. Eu me praguejava por ter me deixado levar por aquela Afrodite dos infernos e depois ser obrigada a vê-la zombando da minha cara. Mas tudo bem, se ela pensava que só ela sabia jogar esse jogo, estava muito enganada.

– Será que podemos saber o motivo desse seu humor adorável? – Renata perguntou sarcástica. 

– Não pode saber de nada não. Fica na sua, e me deixa quieta. – Ela trocou olhares com Marcela que sorriu debochada. – Eu só queria saber se já assinou a autorização das nossas divulgações. Eu preciso mandar isso para nossos parceiros e começaremos a divulgar a nova campanha do mês. 

– Assinei sim! – Com o olhar fixo no meu, Marcela me passou os documentos. Sem dizer mais nada, fui em direção à porta, mas antes que eu pudesse alcançá-la, a voz de Marcela soou alto. – Você buscou a Bárbara como pedi? Como ela está?

Respirei fundo tentando me controlar para não mandar Marcela para a puta que pariu. Voltei a encará-la e percebi Renata tentando conter o sorriso. As duas já pareciam ter percebido que mencionar a portuguesa havia me deixado ainda mais irritada.

– Fui fazer o favor que me pediu, mas vou te dizer uma coisa Marcela Bettencourt. – Espalmei as mãos na mesa de Marcela que apenas ergueu uma sobrancelha em uma tentativa em vão de conter o sorriso. – Você não vai poder me negar favores por no mínimo uns vinte anos. Porque para aguentar aquela sua amiga insuportável, não quero menos que isso. Me entendeu bem? – Marcela concordou com a cabeça ainda contendo o riso. – E quanto a como ela se sente, não se preocupe, aquela diaba está melhor que qualquer uma de nós.

– Daniela, você sabe que toda essa implicância vai acabar em namoro, não sabe? – Renata falou provocativa me fazendo lançar um olhar mortal em sua direção. 

– Nunca! Ouviu bem? Nunca mais repita um absurdo desses. Nem que ela fosse a última mulher do universo todinho eu ficaria com aquela... aquela... 

Busquei algum xingamento, mas na minha mente só vinha o quanto ela era gostosa. 

– Anda Daniela, diz… Aquela o quê? – Marcela já gargalhava me fazendo ficar ainda mais nervosa. 

– Aquelazinha lá! Vocês querem fazer o favor de me deixar em paz? 

– Calma, Dani. Nós somos suas amigas e não queremos menos que o seu bem. – Renata falou me fazendo revirar os olhos.

– Ótimo! Então já podem parar de me rogar praga. 

Saí da sala de Marcela ainda mais irritada do que quando entrei e pude ouvir os risos das minhas amigas.

 

Por Marcela

Semanas depois

 

Eu e Hanna tínhamos levado Gabriela em um parquinho que ficava próximo ao apartamento da minha namorada, pois a pequena estava começando a estranhar o fato de nunca querermos sair com ela. Nossos seguranças nos acompanharam, mas agiam de maneira discreta não apenas para não chamar atenção, mas também para Gabriela não se sentir desconfortável com a imposição da presença deles. 

Desde o dia da operação que resultou na fuga de Jefferson, as coisas andavam no mais completo silêncio, sem nenhuma ação do bandido, mas também sem nenhuma nova pista do seu paradeiro. 

Eu estava sentada com Hanna entre minhas pernas, sob a sombra de uma árvore enquanto observava Gabriela brincando com algumas outras crianças. A menina parecia feliz e longe de se sentir cansada. Beijei o rosto da minha namorada que me presenteou com um leve sorriso.

– Adoro ter momentos assim com você e nossa pequena. – Falei baixinho no seu ouvido.

– Eu também amo estar assim com vocês. Nunca imaginei que viveríamos assim, nós três, juntas como se fôssemos uma família. – Fazia um carinho em seu braço olhando em direção a Gabi. 

– Mas quem disse que não somos uma família? – Ela me olhou com aqueles verdes esmeraldas brilhando. – Não somos casadas, e nem moramos juntas, mas nos considero como uma família.

– Você já tinha imaginado algo assim antes? Digo... Ter uma família sabe? Casar e ter filhos.

– Para ser bem sincera nunca tinha imaginado. – Hanna me olhava atentamente. – Antes de conhecer você naquela época, você sabe que eu não era acostumada a ter namoros sérios. Só namorei uma garota antes de você. 

– Eu sei! Você costumava ser bem galinha. – A voz brava da minha namorada me fez rir.

– Continuando... Quando começamos a namorar foi tudo muito conturbado e apesar dos nossos momentos bons juntas, nunca paramos para falar sobre algo mais sério. Depois fui para Portugal e lá não tive relacionamento sério com ninguém. Na verdade, depois de tudo o que aconteceu entre nós, eu não cogitava a hipótese de namorar e muito menos casar e ter filhos. 

– Queria te fazer uma pergunta, mas não quero que pense que estou forçando a barra ou coisa assim. 

– Amor, você pode perguntar o que quiser. – Beijei seu ombro tentando passar confiança.

– Já faz meses que namoramos e as coisas entre nós estão evoluindo rapidamente. Bom, eu sei que é cedo para pensar nisso tudo, mas... é... só que eu queria saber se um dia, quem sabe, se você pensa em evoluir nossa relação. 

Era impossível não sorrir do jeito envergonhado e confuso que Hanna falava. Ela parecia tentar escolher as palavras certas para tocar naquele assunto, mas no mesmo instante, ela falhava na tentativa. 

Virei seu corpo deixando ela de lado entre minhas pernas de maneira que pudéssemos nos olhar. 

– Hanna, nós vivemos uma história no passado que não deu certo. Ficamos anos longe uma da outra, e tínhamos tudo para nunca mais nos relacionarmos, mas olha só como estamos agora… estamos mais juntas do que um dia já estivemos, e apesar do momento tenso, ainda assim nós estamos felizes com nossa relação, com nossa pequena. Você acha mesmo que é possível eu não querer evoluir isso que estamos construindo? 

– Não é isso, amor. Eu só pensei que talvez você hoje continuasse sem querer uma família.

– Eu já tenho uma família. Uma mulher maravilhosa, que todo dia faz com que eu me apaixone mais, e uma filha encantadora. 

Hanna sorriu lindamente e precisei me segurar para não tomar seus lábios nos meus, já que estávamos em um local público e com muitas crianças em volta. 

– Mãe, eu quero sorvete de chocolate. Você pode me dar? – Gabriela chegou correndo se jogando sobre nós duas.

Eu adorava ser chamada de mãe pela pequena, e confesso que não conseguia dizer não para nada do que ela me pedia. 

– Claro, meu amor. Vou buscar e já trago pra você. – A pequena concordou em esperar e sentou-se ao lado de Hanna. – Você quer também, meu bem? 

– Não, amor. Obrigada!

Eu sabia que Hanna estava apreensiva demais com a possibilidade de que eu me afastasse delas. Ela não se sentia confortável em estar passeando com a Gabi enquanto tudo não fosse resolvido. 

Fui em direção ao carrinho que vendia sorvete para buscar a casquinha da minha pequena, mas meu desespero começou quando retornei para onde deixei mãe e filha. 

– Hanna, o que está acontecendo? 

Perguntei para a mulher que segurava o celular tão forte que pensei que fosse quebrar o aparelho ao meio. Em seus olhos pude ver o pavor e lágrimas começavam a cair. Gabriela parecia assustada nos braços da minha namorada que mesmo sem perceber apertava a pequena contra se corpo com toda força que tinha. 

– Ai mamãe, tá doendo o meu braço. – A pequena resmungou, mas minha namorada não saía do estado de choque. 

– Amor, olha para mim. Sou eu aqui com você. Larga a Gabi, amor. Você está machucando nossa filha. 

Somente nesse momento parece que Hanna despertou do choque que a dominava. Ela olhou para a Gabriela que fazia um biquinho prestes a chorar a qualquer momento. Entreguei o sorvete para Gabi com a esperança de evitar que ela abrisse um berreiro no meio do parque e chamasse atenção de todos para nós.

– Fabrício, pega a Gabriela e leva para o carro. Fique atento a qualquer coisa ao seu redor. Eu não sei o que está acontecendo, mas fique atento. Pedro, fique perto de nós e atento a qualquer coisa incomum. 

Me voltei novamente para Hanna que não parava de chorar e tentei acalmá-la.

– Amor, fica calma ok? Você não está sozinha, mas preciso que fique calma para conseguir nos explicar o que aconteceu. – Ela me olhou profundamente e tive certeza que o caso era sério.

– Ele está aqui. – Olhei sem conseguir assimilar aquilo, mas por dentro meu coração disparou. – Ele me ligou, Marcela. Ele disse que estava nos observando e logo voltaríamos a ficar cara a cara novamente. 

Olhei para o segurança que já estava vasculhando o local com o olhar. Olhei em direção onde Gabi estava com Fabrício, para ter certeza que ela estaria bem. Meu coração estava batendo descompensado. Eu tinha uma mistura de ódio, desespero e medo cultivado dentro de mim naquele momento. No entanto, ainda assim tentei manter a calma e fazer o que era certo, ou seja, procurar ajuda policial. 

– Vem comigo. Vamos sair daqui! 

E assim partimos em direção ao apartamento de Bárbara para decidirmos o que iríamos fazer. 

 

Por Bárbara

Eu estava com Marcela e Hanna, no meu apartamento esperando que Suzana chegasse com o Maik, que me ajudaria a montar uma rede de rastreamento do número que entrou em contato com Hanna.

– Bárbara, seja sincera comigo. Quais são as chances reais disso dar certo? 

– Bom Marcela, é quase de cem porcento, afinal, ele é muito amador. Ligar de um celular e sem ser em número privado é o maior erro que ele pode ter cometido na vida, e se quer saber o que eu acho, considero muito bom o fato dele ter entrado em contato por ligação, isso nos abriu portas para encontrá-lo. O erro que ele cometeu mostra que de alguma maneira eu consegui atingi-lo naquele dia. Ele não está pensando muito para agir, mas por outro lado isso também é preocupante. Demonstra também que ele pode ser irracional e ainda mais perigoso. 

– Ele estava perto de nós. Ele descreveu exatamente as roupas que estávamos vestindo, e falou também que era um erro arriscar sair com a Gabi para lugares tão movimentados onde qualquer um poderia pegá-la.

A voz de Hanna soou chorosa, e eu não poderia julgá-la por isso, sua filha tão inocente estava sendo ameaçada também.

– Hanna, eu compreendo sua aflição, mas você precisa manter a calma e não se deixar levar desse jeito, pois é isso exatamente o que ele quer. Se ele estava perto, ele conseguiu observar como você reagiu a ameaça dele. Ele deve saber exatamente que a menina é o seu maior ponto fraco, e isso pode ser usado a favor dele.

A agente Suzana chegou acompanhada por Maik e outro policial que ainda não conhecia. Hanna repassou todas as informações, e eu expliquei qual o plano que eu tinha em mente, porém seria preciso autorização da justiça para fazer tudo corretamente. 

Enquanto a agente ficou responsável por conseguir a liberação judicial para quebrarmos o sigilo do número, eu e Maik já fomos adiantando toda aquela parte técnica dos programas que usaríamos para conseguir atingir nosso objetivo. 

– Cara, eu daria tudo para você entrar na nossa corporação. Você é muito inteligente detetive. – O homem ao meu lado falou e não pude deixar de rir com sua empolgação.

– Seria uma honra para mim, acredite nisso. Mas eu sou o tipo de pessoa que gosta de trabalhar sozinha. Digamos que não sou boa em obedecer a ordens. 

– Ah, mais isso eu já percebi. Confesso que fiquei assustado com sua ação naquele dia, mas ainda assim foi muito bom te ver em ação.

Fiquei pensando por um momento em toda aquela situação e como eu estava me sentindo trabalhando em conjunto com uma equipe depois de tantos anos. Desde que descobri a traição da minha ex noiva e meu ex parceiro, eu decidi que não era seguro confiar em ninguém e por isso resolvi começar a trabalhar sozinha de forma que não precisasse de parceiros a quem fosse obrigada a confiar, mas agora ali, vivendo tudo aquilo, eu não sei o que estava acontecendo comigo… Era uma sensação boa e leve, era como se de fato eu pertencesse àquele mundo, e pela primeira vez em anos, eu me sentia feliz e completa.

Fim do capítulo


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