Capitulo 32
Por Narrador
O plano arquitetado para invadir a favela onde Jefferson estava sendo protegido e se escondia, estava prestes a ser posto em prática. Como Bárbara não era policial local, não conseguiu autorização para participar da invasão, mas a mesma iria estar trabalhando com o agente Maik em um carro blindado. O objetivo era monitorar as imagens aéreas geradas pelas câmeras do helicóptero da polícia, e com base nelas orientar os policias em ação. No entanto, parece que alguém não estava nada feliz com essa notícia.
– Eu ainda não entendo porque diabos você tem que participar desse negócio. Desde quando virou policial brasileira? – Daniela resmungava pela milésima vez no apartamento de Bárbara, onde todas nós ficaríamos aguardando notícias da operação.
– Minha queridinha, eu não sei se você percebeu, mas estou trabalhando nesse caso com os tiras. Sem falar que fui contratada por Marcela para ajudar a resolver o caso, e não vou sossegar até pegar esse cara. – Bárbara respondia de maneira altiva e decidida.
– Ô queridinha, Marcela te contratou para ajudar a resolver o caso, e não para você ficar exposta ao perigo em um lugar que você nem conhece. Não sei se te informaram, mas isso aqui não é a liga da justiça não, meu amor. – Daniela se colocou de pé parando na frente de Bárbara sem se importar com o olhar mortal que recebeu da outra.
– E desde quando você tem alguma coisa com isso? – Bárbara já perdia a paciência com a outra.
– Quer saber? Você é uma idiota mal agradecida. Eu não vou mais perder meu tempo me importando com isso, mas se algo acontecer não diga que não avisei.
A baixinha voltou a sentar cruzando os braços enquanto quase espumava de raiva, o que acabou atraindo olhares das amigas para si. Ninguém conseguiu entender aquela reação explosiva justamente da que mais costumava levar as coisas na brincadeira. Aquilo era algo novo para todas que assistiam a cena boquiabertas. Por sua vez, Bárbara não gostava de se sentir pressionada, não estava acostumada que alguém se importasse com ela, é muito menos sabia lidar com aquele sentimento que a perturbava desde que conheceu Daniela. Parecia que a outra tinha o poder de deixá-la desestabilizada, e quando ela cogitava a ideia de magoar a baixinha, um sentimento de culpa a atingia em cheio indo contra tudo que ela acreditava ser o certo. Mas ainda assim, a sensação de vulnerabilidade ou exposição era tudo o que Daniela inconscientemente conseguia provocar na portuguesa. Por isso a detetive fazia de tudo para se mantê-la afastada, mesmo que para isso fosse preciso ser rude com ela.
À portuguesa passou a mão pelo cabelo tentando se recompor e pela primeira vez na vida fez algo que jamais pensou em fazer, voltou atrás em algo que havia dito. Mesmo que isso a incomodasse, ela resolveu não pensar muito a respeito e apenas agiu.
– Daniela, me desculpe, ok? Eu sei que você está apenas preocupada porque eu não sou familiarizada com o país, mas não precisa se preocupar. Eu vou estar rodeada por policiais treinados. Nada vai me acontecer, e eu prometo que nós duas vamos poder continuar nos odiando. Ou pensa que é fácil se livrar de mim?
Daniela apenas sustentou os olhos azuis da detetive. Por um momento ela nada respondeu, mas logo voltou a provocar a outra.
– Sabemos que nem o capeta te quer por perto, não é? Então é óbvio que você vai voltar e vamos continuar nos odiando. Combinado?
– Muito bem garota! É assim que se fala. Continuaremos nos odiando. – Uma sustentou o olhar da outra. – Trato feito!
As outras continuavam olhando atentamente para o diálogo entre Bárbara e Daniela, e apesar de não entenderem aquela situação inesperada, elas estavam claramente se divertindo com àquela implicância mútua.
A detetive estirou a mão para Daniela, que mesmo com receio acabou aceitando o cumprimento. Ninguém sabia, mas era completamente atordoante para ambas a corrente elétrica que sentiram passear por seus corpos quando aquele pequeno contato foi selado. Era algo novo para elas que mantinham os olhos conectados como se tentassem ler os pensamentos uma da outra.
…
Poucas horas depois que Bárbara deixou do apartamento, os policiais começaram dar início a operação. Entrar na favela nunca seria fácil. Assim como já imaginavam, eles foram recebidos por tiros que vinham de todos os lados, deixando qualquer um surdo. Enquanto isso, próximo dali, Bárbara e Maik trabalhavam lado a lado, cada um responsável por monitorar ângulos diferentes e assim passar as coordenadas necessárias para os policiais em ação.
– Agente Suzana, se você virar a sua esquerda terá acesso a uma escada que vai te levar a um telhado. Lá você vai conseguir pegar um deles. O homem está sozinho, mas atenção, ele está portando o que parece ser um fuzil. Você precisa surpreendê-lo! – A portuguesa falou para a agente que comandava a operação junto com outro companheiro.
– Entendido detetive!
Bárbara monitorava as imagens, mas sua real intenção era ver se conseguia qualquer imagem que pudesse indicar ser o homem que ela procurava, mas isso seria quase impossível tendo em vista que as imagens eram transmitidas de forma aérea e nem sempre conseguia focar nos rostos dos bandidos. Sem falar que muitos deles estavam com os rostos cobertos, o que dificultava o reconhecimento.
– Merda! Isso vai ser mais difícil do que pensei.
– Como disse? – Maik perguntou sentindo dificuldade de compreender o sotaque da detetive.
– Nada de importante. Só pensei alto demais. – Ela deu de ombros e o outro voltou sua atenção para a tela do computador.
A operação já durava cerca de uma hora. Muitos dos bandidos que confrontavam a polícia tinham sido pegos e outros feridos, mas até aquele momento nenhum sinal de Jefferson, e isso começava a irritar a portuguesa. Bárbara tirou os olhos da tela do seu computador e olhou para o de Maik, tamanha foi sua surpresa ao olhar a tela. a detetive logo se aproximou e apontou para uma imagem em especifico que estava sendo transmitida.
– Aqui… aumente um zoom bem nesse ponto. – Maik se assustou com o grito da mulher, mas fez o que ela pediu. – Puta merd*! É ele… é o nosso alvo!
Maik analisou a imagem e logo repassou as orientações para os agentes que estavam no helicóptero não deixar de persegui-lo e continuar transmitindo as imagens sem cortes de onde Jefferson e outros três bandidos escoltavam o chefão do tráfico.
– Atenção, agente Suzana. Nosso alvo foi localizado. Ele está a três quadras da sua posição. Aparentemente está fugindo na companhia de outros quatros meliantes, entre eles o chefe do tráfico na região.
A perseguição a Jefferson começou a se tornar real pela primeira vez naquela operação. A agente Suzana e seus outros companheiros corriam pelos becos estreitos da favela, e a troca de tiros ficava ainda mais intensa. O único problema é que mesmo os policias recebendo as coordenadas da detetive, eles não conseguiam se aproximar do alvo que parecia escorregar pelas mãos dos policias deixando Suzana com ódio, mas não mais que Bárbara.
– Ele está se aproximando da nossa região! Atenção agente Suzana, peço permissão para persegui-lo.
Maik olhou assustado para a mulher ao seu lado, que agora parecia ter fogo nos olhos.
– O quê? Você está louca portuguesa? Eu não posso fazer isso, é totalmente contra as regras da nossa corporação. – Suzana respondia ofegante.
– Ele vai fugir! É isso que queres? – Um silêncio se fez presente na escuta. – Merda! O alvo está cada vez mais próximo. Vamos perdê-lo e tem vidas dependendo disso. Autorize logo agente, ou agirei por contra própria.
Bárbara se desesperava vendo as imagens na tela à sua frente.
– Puta que pariu! Eu posso ser suspensa por isso. Dane-se... Está autorizada detetive Bárbara!
A portuguesa não esperou mais nenhuma palavra, desceu do blindado seguindo em direção ao local que havia memorizado pelas imagens. Ela corria com maestria como se sempre tivesse conhecido aquelas ruas estreitas. Enquanto isso, Suzana e seus companheiros seguiam pelo lado oposto na tentativa de fazer um cerco. Ambas conseguiam ouvir suas respirações alteradas através do ponto de comunicação, e qualquer um que assistisse aquela cena poderia atestar que aquelas duas juntas formavam uma bela dupla.
Jefferson e seus comparsas estavam quase chegando ao local esperado para ter acesso ao carro a paisana que já os aguardava para fugir com segurança, mas uma voz tão próxima e nada familiar atraiu sua atenção, fazendo com que o plano fosse adiado.
– Jefferson Mascareno, se não parar eu atiro.
A voz grave e o sotaque da portuguesa fez com que todos os bandidos ficassem sem ação por um momento, mas logo um tiroteio começou entre eles. A detetive estava em desvantagem e tentava se proteger como podia das balas que era destinadas a si. Ela viu quando um dos bandidos correu fazendo a proteção daquele que era o chefe da organização criminosa na região. Com sua experiência, ela logo percebeu a clara intenção de todos que tentavam atrair sua atenção enquanto o outro seguia a rota de fuga planejada. O que nenhum deles esperavam, era que Bárbara fosse astuta e determinada. Para a fúria do bandidos, ela conseguiu um tiro certeiro bem na perna do homem que uivou de dor. A detetive viu os policias se aproximando e atirando sem cessar tornando uma briga mais justa. A portuguesa viu quando Jefferson correu em direção a um barraco que ficava próximo de onde ela estava, então sem pensar duas vezes, ela correu em sua direção e jogou-se nas costas do bandido que sem esperar pelo peso do seu corpo desequilibrou e caiu no chão entrando logo em um confronto corporal.
Jefferson não entendia de onde tinha saído aquela mulher que parecia ter fixação nele mesmo tendo outros de maior importância em sua volta. Era como se ela estivesse determinada em pegá-lo, mas ele não parava para pensar nisso, pois estava mais preocupado em conseguir se livrar dela e escapar.
Ambos estavam sem armas já que as mesmas tinham sido jogadas para lados opostos durante a queda. A mulher conseguiu deferir um golpe certeiro no rosto de Jefferson o fazendo sentir o gosto de sangue na boca. Por sua vez, Bárbara sabia que não teria forças para o homem que estava cada vez mais raivoso, e internamente ela pedia que Deus mandasse ajuda o quanto antes. Ela não sabia por quanto tempo aguentaria aquela briga, então ela resolveu arriscar uma jogada perigosa, porém necessária. Aquele era o momento de atrair sua atenção, e dar a ele motivos para se caso escapasse, não recuar em seu jogo com Hanna.
– É ela que você quer, não é mesmo? Acha mesmo que Hanna não está protegida? Acha que estou aqui por quê?
A detetive viu o exato momento que os olhos do homem faiscaram ao ouvir o nome da mulher de Marcela. E então ela soube que acertou o ponto que pretendia. Conseguiu fazer a atenção do bandido se desviar, porém ela viu também o momento que o ódio surgiu nos olhos dele, e então Bárbara soube que era o momento de distraí-lo ainda mais.
– Você não vai conseguir chegar perto dela. É melhor desistir e se entregar por bem, ou acabará morto.
– E vai ser você que vai me matar? – Ele desdenhou com um tom rouco de pura raiva.
Nesse momento, com uma rapidez e agilidade incrível, a detetive conseguiu mobilizar o bandido que tentava a todo custo se soltar sem sucesso do golpe de armlock bem aplicado. Bárbara chamava a agente Suzana pela escuta e ela não sabe como ou quando, mas sentiu apenas algo acertando sua cabeça e fazendo com que perdesse a força completamente. O sangue escorria pelo rosto da detetive e Jefferson finalmente se colocou de pé mesmo com dificuldade ficando de frente para detetive.
– Eu poderia te matar agora mesmo, mas não vai ser dessa vez pois preciso dos seus serviços. Diga a aquela vagabunda e a namoradinha infeliz dela, que eu vou acabar com as duas, e a pirralha projeto de aberração que elas têm como filha.
Mesmo bastante machucado o homem saiu correndo do local sem destino certo. Logo depois os policiais chegaram ao local socorrendo a detetive que estava quase apagando pela dor imensa que sentia na cabeça.
Fim do capítulo
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