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Filha da Noite por Maysink

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Palavras: 2407
Acessos: 58   |  Postado em: 20/06/2026

Capitulo XII

A dor causada pelas palavras de Amélie quase foi responsável pelo meu completo descontrole. Um sentimento visceral me dominava, e como reflexo, uma tempestade indomável pairou sobre Eradia durante uma semana. Incessante e cruel. Amélie permanecia inconsolável, como se a culpa das atrocidades da avó fosse exclusivamente dela, mesmo garantindo que a responsabilidade não era sua. Elizabeth Fairfall seria a única a responder pelos próprios atos — isso era uma certeza irrefutável. Meu lado divino exigia uma retaliação apropriada, daquelas bem criativas e crueis, porém a pouca prudência que eu cultivava — com verdadeiro esforço, foi suficiente para salvar aquela mulher de ser o alvo de toda a ira que me assolava sem piedade.

Num ato destemperado – confesso, invoquei Hécate. Talvez não fosse uma boa ideia, mas eu precisava de respostas e a Deusa era a única que as tinha. Quando ascendi a vela, minhas mãos tremeram anciosas. Um silêncio sepulcral se estendeu depois de uma prece simples. Como da primeira vez, houve um instante de espera que pareceu durar uma eternidade, antes de sua presença poderosa se fazer presente. Única, inegável.

— Minha filha, você me chamou! – ela disse, sóbria. Parecia sentir o estalar da minha raiva no ar a nossa volta. Na minha frente, desta vez, estava sua versão mais jovem – conhecida como a donzela. A escolha da personificação soava como um apelo fraco em demonstrar simpatia. Eu não sabia se suas versões eram aleatórias, mas tinha quase certeza de que ela mudava conforme a ocasião. Apesar da tentativa admirável de demonstrar empatia, meu ódio não desvaneceu.

— Me pergunto se suas ações são movidas puramente por motivos altruístas ou se tudo o que está acontecendo te beneficia de alguma forma! – soltei ríspida, sem qualquer noção do perigo de confrontar uma Deusa ctônica.

— Compreendo que sua centelha divina te conceda uma dose nada adequada de ousadia, mas lembre-se de com quem está falando, Emily. – lembrou-me, numa represália transbordando ameaça. Os olhos negros e afiados irradiavam alertas perigosos que fiz questão de ignorar. O ar ao meu redor se tornou denso, eu podia sentir o poder dela me cercando. Um simples pensamento nocivo dela poderia me matar, porém, há muito tempo a prudência escapava por entre meus dedos. 

— Não me peça moderação quando ambas sabemos que minha mãe morreu e você não fez nada, mesmo sabendo quem era a culpada. — redargui, num tom totalmente julgador. As feições da Deusa se fecharam, quase instantaneamente, após minha acusação nada velada. Vincos irritadiços se formaram entre suas sombrancelhas. Magia antiga agora arranhava minha pele como castigo a minha ousadia desvelada. 

— Até mesmo os deuses tem limite! – comentou, igualmente ríspida. O suspiro impaciente fez seus ombros pálidos, expostos pelo decote discreto do vestido negro, subirem e descerem pesadamente. Parecia lhe custar muito manter o controle de si mesma. Soava até engraçado, que até mesmo ela parecia lutar contra si mesma. 

Em outro momento, talvez, eu tivesse acreditado em sua completa impotência, mas os últimos acontecimentos mostraram que Hécate caminhava nas bordas, dando pequenas sugestões para moldar toda a situação. Uma manipuladora natural. Senhora das sombras. Ela poderia até não fazer nada diretamente, mas como um bom maestro, indicava as notas certas com um simples gesto de mão. Afinal, no começo, eu poderia ter seguido um caminho diferente – ido embora de Eradia sem olhar para trás, se não fosse sua interferência disfarçada de clamor na noite do funeral. Ela usou minha fragilidade descaradamente, fazendo parecer que havia sido uma escolha minha, quando na verdade colocava um peão moldável naquele jogo que parecia escapar de suas mãos divinas.  

— Isso não te impediria de ter feito algo! – inquiri, mais uma vez, não permitindo que ela desse outro rumo àquela conversa. Minha mãos tremiam nervosas, o poder se rebelando agitado dentro de mim, em reflexo a raiva que sentia. — Você já o fez, outras vezes.

— Criança, não seja tola! – riu em desagrado, sentando-se elegantemente sob o banco de pedra do jardim da minha casa. O vestido negro se ajustou no busto claro, e sua extensão etérea se estendeu em cascatas negras intermináveis. Uma imagem magnífica e assustadora. Mesmo sob uma aparência simples seu poder irradiava por toda parte, como um sinal sutil de uma armadilha mortal.

— Onde estão seus limites, agora? – questionei. Me soava muito conveniente como suas ações — ditas como restritas, fossem tão oportunas aos seus desejos. 

—Não pense que me agrada essa situação, ver tantas de minhas filhas mortas por um desejo mesquinho. – o curvar infeliz de sua boca em nada me convenceu. 

— Porque não me contou sobre Elizabeth? – ignorei-a, deliberadamente, erguendo meu queixo com altivez. 

— Você está fazendo a pergunta errada, minha filha. – disse, desviando os olhos escuros feito a noite para a chama consumindo a vela negra de invocação. Era um aviso, meu tempo estava acabando. 

— O que você não está me contando? – estreitei os olhos, desconfiada, ignorando seu alerta.

— Certas sementes jamais prosperam se não forem cultivadas. – falou, rígida. — Elizabeth não chegou onde chegou sozinha. Havia mais alguém por trás, e não me orgulha dizer que não sabia disso até pouco tempo. A profecia da chegada da filha da noite foi erroneamente interpretada, por alguém que pensei estar morta a séculos. – completou, e para uma Deusa, o desconforto evidente em sua afirmação pareceu inadequado. A revelação dosada trouxe um amargor à minha boca. 

— Eu não sou sua única filha, não é mesmo?! – questionei, com escárnio. Ela pareceu um livro aberto diante de mim.

— Os deuses não são conhecidos por serem comedidos quando se trata de seus desejos. – respondeu, simplista.

— Quem? – perguntei, ríspida.

— Não importa!

— Então, eu herdei não um mas dois problemas seus! – rebati, rindo descrente. 

— Ela não é um assunto com o qual precise se preocupar, eu garanto! – frisou, firme, antes de inclinar levemente a cabeça para o lado de maneira brincalhona dando-me um sorriso enigmático antes de completar… — No entanto, Elizabeth…

— Eu faço questão de lidar com ela! — respondi, com convicção. A satisfação que brilhou em seus olhos revirou meu estômago.

— Imaginei que sim… – sorriu sombria e orgulhosa. Saber que ela já esperava pela minha resposta trouxe de volta o desconforto de estar sendo manipulada. — Devo alertá-la Emily, que a arrogância é a pior inimiga que se possa ter, até mesmo deuses tendem a cair perante ela. Não se superestime!

— Não o farei! – assegurei, resoluta.

— Assim espero, minha filha! – ela disse, e sua voz assim como sua presença, se desfez no ar junto a chama da vela. Como o sopro de um instante. O eco de tempos sombrios pairando na brisa fria da noite.

Fiquei parada, absorta, olhando para a fumaça do fogo apagado dançando lentamente no ar. Se as intenções de Hécate fossem a gasolina, eu faria questão de acender a fagulha capaz de queimar tudo, até que não sobrasse nada.

Na manhã do oitavo dia, as rajadas grossas, que materializavam meu estado de espírito caótico, enfim cessaram. Um silêncio atordoante ecoava como o prelúdio de uma catástrofe. Eu podia sentir o peso do olhar de Diana nas minhas costas, enquanto as nuvens escuras e pesadas davam lugar a um céu azul límpido pela janela do meu quarto.

— Você precisa tomar uma decisão. – proferiu, cautelosa. Sua voz rouca saindo como um sussurro.

— Imagino que invocar todos os cães infernais para um banquete não seja a melhor delas. – brinquei, sorrindo amarga, mantendo meus olhos perdidos na paisagem à minha frente. A tímida luz do sol emergia das sombras, irradiando fios frágeis de esperança. Parecia quase poético depois de dias de completa escuridão.

 — Gostaria de poder concordar, mas nós duas sabemos que a situação exige um pouco mais de tato e estratégia. – disse, envolvendo os braços ao meu redor, me confortando. Suspirei, me deixando levar pelo brevíssimo momento agradável. Estar nos braços de Diana servia como um calmante potente.

— Um confronto direto é tudo o que ela deseja, apesar de não saber que temos conhecimento de suas ações. – compartilhei, divagando. — A tensão após o evento com as abençoadas só serviu de combustível para alastrar a insegurança entre as bruxas. Preciso ter cuidado!

— Elizabeth é astuta demais para não ver uma guerra chegando. – afirmou, depositando um beijo delicado na minha têmpora. O calor do gesto simples aqueceu meu coração. 

— Então faremos ela começar uma!

A conversa com Hécate voltou a minha mente. Fairfall teve suas ambições muito bem alimentadas sabe-se lá por quem. Ela com certeza não iria ficar parada me vendo cair nas graças da Deusa e das bruxas. Eu sabia, que ela não iria aguentar outra Maycler se destacando como ouro em meio ao cascalho. Ela agiria, e eu precisava estar um passo à frente. 

Guiada por um extinto nublado pelo ódio acumulado por tantos dias, soltei-me a contragosto dos braços calorosos da minha diaba na intenção de sair da casa. Quando coloquei os pés do lado de fora, chamei por Cérbero que apareceu imediatamente. 

— Preciso que fique de olho em Elizabeth Fairfall, garotão. – pedi, cedendo-lhe um afago generoso atrás das orelhas grandes, sentindo seu ronronar vibrar nas pontas dos meus dedos. — Tente ser discreto. 

Cérbero rosnou em concordância, e logo em seguida desapareceu entre os arbustos fartos que rodeavam a casa. O cheiro de Diana anunciou sua presença ao meu lado, antes mesmo de sua magia denunciar sua chegada. 

— E agora? – perguntou-me.

— Nos preparamos para a guerra!

Os dias que precederam minha decisão passaram lentos, mas muito atarefados. Para não levantar nenhuma suspeita seguimos com nossa rotina normalmente. Havíamos formalizado os novos integrantes do coven Maycler, para nossa surpresa não houve muita resistência. Elizabeth sequer ousou contestar a neta, apenas destinou um olhar amargo para minha amiga. As matriarcas pareceram lutar bravamente para não demonstrar a insatisfação ao ver que o coven, antes a beira da extinção, caminhava para bem longe desta sentença. A indiferença forçada das velhas me deixou em alerta máximo. 

Amélie, depois de muita insistência da minha parte, retomou os preparativos do casamento, e agora já tínhamos até uma data. Esperava com certa ansiedade que a batalha iminente ocorresse antes, para não ofuscar esse momento tão especial. Amélie merecia um pouco de felicidade depois de tudo. Apesar de minha amiga demonstrar total apoio, eu sabia que ela se preparava para o pior. Porém, por maior que fosse meu ódio por Elizabeth eu sabia ser incapaz de mata-lá. Muito sangue escorria das mãos daquela mulher e eu não queria me tornar igual a ela. Por isso, secretamente, eu e Diana vínhamos estudando formas de contê-la. Fosse pelas leis bruxas, fosse por meios mágicos. Devido a isso, meus treinamentos se intensificaram. Diana, com sua experiência, dominava seu dom com exímia habilidade enquanto me ajudava a controlar os meus. 

Apesar de ser filha de uma deusa ctônica, minha magia era diferente. Diana acreditava que era influência de Alice, que tinha domínio em mudanças climáticas. Ter essa percepção fez com que me sentisse ainda mais próxima de minha mãe. Cada vez que um raio cortava o céu servia como um lembrete vívido do nosso vínculo inquebrável.

Foi numa tarde fria que Cérbero veio apressado. Seus uivos grotescos arranhando nossos ouvidos como trovões poderosos. Estávamos reunidos no jardim dos fundos da minha casa, depois de mais um treinamento intenso. Ele se aproximou, encostando sua testa larga na minha cintura, como num pedido mudo para que me abaixasse. Quando meus joelhos cederam ao chão, ele encostou nossas frontes e as imagens que inundaram minha mente foi uma certeza indesejada. Elizabeth parecia se preparar para um grande ritual, porém, foram as ordens dadas as outras matriarcas que fizeram os pelos dos meus braços se arrepiarem. Fairfall compelia as outras matriarcas, com feitiço proibido, para que elas a encontrassem na clareira, na virada daquela noite. Eu não sabia quais eram suas intenções, mas a sensação de que não viria nada de bom se espalhou como ondas desagradáveis por todo meu corpo. 

– Elizabeth está agindo. Precisamos agir! – gritei, fazendo todos ao meu redor se agitarem. Meus olhos foram diretamente para Amélie, olhando-a com tristeza. Minha amiga sorriu pequeno, assentindo logo em seguida, me dando a força que eu precisava.

– Vocês precisam reunir as líderes dos covens, e nos encontrar lá. Vamos tentar resolver de forma diplomática, antes de qualquer confronto direto. – Diana, ordenou às abençoadas. – Amélie, você e Philip vem conosco. Não sabemos o que iremos encontrar, então precisamos estar preparados. 

Todos concordaram, saindo apressados para se prepararem, sumindo num piscar de olhos. Diana pousou a mão sobre meu ombro, me incentivando em silêncio. Havia chegado a hora! O confronto tão aguardado. 

Tínhamos algum tempo até a virada da noite, então nos preparamos como podíamos. Eu terminava de ajustar a bota em meus pés quando Amelie bateu na porta do meu quarto, anunciando sua presença. 

– Em, você não está sozinha! – disse, me lembrando. Eu assenti devagar, ainda meio aérea devido aos pensamentos ansiosos. Por mais controlado que meus poderes estivessem, ainda assim, estaria enfrentando uma bruxa poderosa e muito mais experiente. O medo de não poder proteger as pessoas que amava apertava meu peito dolorosamente. 

– Preciso que vocês se protejam, independente de qualquer situação! – pedi, minha voz saindo trêmula.

– Não se preocupe conosco! – Amélie garantiu, me abraçando de lado. 

Quando a lua surgiu, brilhante e cheia, nós quatro fomos até a clareira. Por todo o caminho eu rogava a Deusa que me desse força para lidar com o que quer que encontrasse, mas nada me preparou para o que vimos quando chegamos. A imagem à nossa frente, quando colocamos os pés onde Elizabeth estava, foi assombrosa. As matriarcas ajoelhadas ao redor da Farfaill mais velha, enquanto ela, estava no centro do círculo com os braços esticados como se estivesse aguardando um abraço. Filetes de poder negro formavam caminhos no chão, como teias, as ligando. Elizabeth parecia estar sugando a magia delas. Veias negras cobriam seu corpo, assim como seus olhos estavam igualmente escuros. Havia uma regra muito clara entre as bruxas, jamais podíamos tomar o poder uma das outras. O que Elizabeth estava fazendo ia de encontro uma das principais leis mágicas. 

– Pela Deusa, ela enlouqueceu? – Amélie perguntou totalmente alarmada. 

Fim do capítulo


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