A chegada de Carolina
Encontrei um pequeno buquê de flores silvestres no meu carro.
Sorri sozinha.
Mais um truque daquela mulher teimosa para me deixar cada vez mais rendida.
O caminho para o CD pareceu mais bonito naquela manhã. Levei o pequeno buquê comigo e o coloquei sobre a mesa da minha sala. Sempre que olhava para ele, me lembrava de Joyce, e isso era suficiente para me fazer sorrir, independentemente do problema que estivesse à minha frente.
Como a chegada de Carolina.
Por volta das nove horas, a portaria me notificou sobre sua chegada. Fechei os relatórios que estava analisando, peguei um dos carrinhos de transporte e segui para a entrada principal.
Carolina aguardava ao lado do carro quando cheguei.
Usava uma camisa clara de mangas dobradas e óculos escuros. Parecia exatamente a mesma de anos atrás.
Quando me viu, abriu um sorriso.
- Laura.
- Carolina.
Ela retirou os óculos e me observou por alguns segundos.
- Fico feliz em ver que está bem.Soube que ficou tão doente que precisou ser internada.
- Estou melhor.
- Continua péssima em descansar?
- E você continua chegando a conclusões rápido demais.
Ela riu.
- Então ainda continua trabalhando mais do que seu belo corpo aguenta.
- Vamos logo!Vou te mostrar tudo.
Coloquei uma de suas malas no carrinho.
- Já começou dando ordens.
- Você está em minhas instalações agora.
- Isso parece uma ameaça.
- Talvez seja.
Fizemos um tour pelo CD. Mostrei os setores afetados pelo incêndio, as áreas já recuperadas e os pontos que ainda precisavam de reparos. Carolina fez perguntas, observou detalhes e tomou notas. Profissional como sempre.
Quando terminamos, seguimos para minha sala.
Mal a porta se fechou atrás de nós, senti suas mãos em minha cintura.
Meu corpo enrijeceu imediatamente.
- Senti sua falta.
Afastei suas mãos.
- Me solta, Carol.
Um sorriso surgiu em seus lábios.
- Carol. Gostei. Já estava preocupada, achando que você tinha esquecido o quanto somos íntimas.
- Íntimas? Engraçado ouvir isso de você.
- Engraçado é você ter vindo sem ao menos me contar.
- Foi apenas uma vez. Concordamos que não seria nada além disso.
Carolina desviou o olhar para a janela antes de voltar a me encarar.
- Não para mim.
O silêncio que se seguiu foi desconfortável.
- Quando sua ex fez aquele escândalo, achando que estávamos tendo um caso, eu não fiz nada porque respeitava os sentimentos dela. Quando vocês se separaram e nós nos envolvemos, combinamos que era só aquela noite...
Ela suspirou.
- Mas eu queria que fosse mais.
Permaneci em silêncio.
- Eu queria que você me desse uma chance.
- Carol...
- Eu sei. Já faz anos.
- Então por que tocar nesse assunto agora?
Ela deu de ombros.
- Porque é a primeira vez que estamos sozinhas desde então.
Cruzei os braços.
- E continua sendo a mesma resposta.
Carolina sustentou meu olhar por alguns segundos.
- Você nunca facilitou as coisas para mim.
- Não havia nada para facilitar.
Ela soltou uma breve risada.
- Continua brutalmente honesta.
- E você continua ouvindo apenas o que quer ouvir.
- Justo.
O clima pareceu aliviar um pouco.
Carolina caminhou até minha mesa e observou o pequeno buquê de flores.
- Bonitas.
Meu olhar acompanhou o dela.
- São.
Por sorte, ela não fez mais perguntas.
Peguei uma das pastas da investigação e a coloquei sobre a mesa.
- Já que resolveu aparecer sem avisar, pode começar a trabalhar.
- Agora sim estou reconhecendo a Laura que eu conheço.
Ela abriu a pasta e começou a folhear os documentos.
- Amanhã começarei a entrevistar seus funcionários da segurança.
- Certo.
- Também falarei com os porteiros e com os funcionários que trabalhavam no depósito incendiado.
- Avisarei a todos para cooperarem.
Carolina fechou a pasta.
- Deseja mais alguma coisa, majestade?
Um sorriso travesso surgiu em seus lábios.
- Você.
Revirei os olhos.
- Isso não é possível.
- Ainda.
Ignorei a provocação.
- Mais alguma coisa?
- Já que perguntou, preciso de um lugar para ficar.
- Já reservamos um quarto para você em uma das pousadas .
- Que sem graça.
- Pare de reclamar ! Eu garanto que vai adorae!
- O quê? Vai dizer que não sente falta das nossas discussões?
- Não sinto falta nem das discussões, nem dos seus comentários inconvenientes.
- Mentira.
- Verdade.
Ela levou uma das mãos ao peito, fingindo indignação.
- Estou ofendida.
- Vai sobreviver.
Carolina riu.
- Está bem !!Irei pra pousada.
- Excelente decisão.
- Mas espero pelo menos um jantar de boas-vindas.
- Você acabou de chegar e já está fazendo exigências.
- Sou uma convidada.
- É uma funcionária.
- Que viajou centenas de quilômetros para resolver os seus problemas.
- Meu problema principal está sentado na minha frente.
Ela gargalhou.
- Certo. Vou me instalar e começar a analisar tudo isso ainda hoje.
Já estava abrindo a porta quando voltou a olhar para mim.
- Sabe, apesar de tudo, estou feliz em ver você de novo.E mais feliz ainda em ver que está se cuidando melhor.
A sinceridade na voz dela me pegou desprevenida.
- Obrigada, Carol.
Ela assentiu.
- Até amanhã, Laura.
- Até amanhã.
Esperei a porta se fechar antes de voltar minha atenção para a mesa.
Meu olhar pousou no pequeno buquê de flores silvestres.
Sorri.
Entre Carolina e os problemas do CD, aquele seria um longo dia.
Mas bastou olhar para aquelas flores para me lembrar de que existia alguém capaz de tornar qualquer dia melhor.
O turno de Joyce terminava dentro de alguns minutos.
Deixei o que estava fazendo de lado, desci, peguei meu carrinho e segui rumo à expedição, torcendo para encontrá-la antes que fosse embora.
Quando estava me aproximando, vi Carolina conversando com Joyce.
Reduzi a velocidade.
As duas estavam próximas à doca principal.
- Sua supervisora da expedição é impressionante - dizia Carolina.
- Espero que isso seja um elogio - respondeu Joyce.
- É sim. Você conhece cada etapa da operação melhor do que muita gente da gerência.
- Faz parte do trabalho.
Foi então que Joyce me viu se aproximando.
- Chefe!
O sorriso que ameaçou surgir em seus lábios desapareceu tão rápido que qualquer outra pessoa teria perdido o detalhe.
- Como foi o primeiro dia da investigação? - perguntou.
- Produtivo.
- Joyce acabou de me explicar metade dos processos da expedição - comentou Carolina. - Economizou umas três horas da minha vida.
- Vou cobrar consultoria.
- Justo.
Observei as duas por um instante.
A interação era completamente profissional, mas ainda assim algo me deixava inquieta.
Talvez porque eu conhecesse Carolina.
Talvez porque eu conhecesse Joyce.
Ou talvez porque eu me conhecesse.
- Bem - disse Joyce, ajustando a bolsa no ombro. - Meu turno acabou oficialmente há cinco minutos.
Ela olhou para mim.
- Vou para casa preparar o jantar e apreciar o lago.
- Ouvi dizer que o lago é lindo - comentou Carolina. - Você também mora perto dele, Laura?
- Sim.
- Acho que terei que fazer uma visita.
- O lago é grande. Tem espaço para todo mundo.
Joyce respondeu antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
Carolina sorriu.
- Então está decidido.
- Não acho que convites para a minha casa funcionem dessa forma - falei.
- Que pena. Eu já estava me imaginando tomando um café na varanda enquanto admirava a vista.
- Pode fazer isso da cafeteria perto do lago.
- Isso é um convite?
_Não!
_Fria do jeito que eu gosto.
Joyce deu um passo para trás tentando disfarçar o ciúme.
- Bem, vou indo. Meu jantar não vai se preparar sozinho.
- Boa noite, Joyce.
- Boa noite, chefe.
Ela acenou para Carolina e seguiu em direção ao estacionamento.
Meus olhos a acompanharam até que desaparecesse de vista.
Quando voltei a olhar para frente, encontrei Carolina me observando.
Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.
- O quê?
- Nada. Eu só estava pensando que sua encarregada é uma figura interessante.
- Ela é uma excelente profissional.
- Não foi isso que eu disse.
Revirei os olhos.
- Vá para a pousada , Carol.
- Sim, chefe.
Ela sorriu.
- Até amanhã.
Voltei ao escritório para encerrar o trabalho. Já estava prestes a desligar o computador quando o telefone tocou.
- Laura, um dos nossos caminhões desapareceu perto da cidade.
Reconheci imediatamente a voz de Marcos, do monitoramento de cargas.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
- Como assim desapareceu?
- Perdemos o sinal de rastreamento há quase quarenta minutos. Já tentamos contato com o motorista e com o auxiliar.
- E?
- Conseguimos falar com o auxiliar por alguns segundos. A ligação estava cheia de interferência. Ele parecia nervoso. Disse apenas "tem alguma coisa errada" e a chamada caiu.
Endireitei a postura na cadeira.
- Devemos acionar a polícia?
Olhei pela janela do escritório. O estacionamento já estava quase vazio.
O incêndio.
As invasões ao sistema.
Os atrasos nas entregas.
E agora um caminhão desaparecido.
Aquilo não parecia coincidência.
- Não. Ainda não.
- Laura...
- Quero a última localização do caminhão, a rota completa, o histórico do rastreador e todas as tentativas de contato realizadas até agora.
- Certo.
- E me envie os dados do motorista e do auxiliar.
- Estou mandando.
Desliguei.
Menos de um minuto depois os arquivos chegaram ao meu computador.
Abri o mapa.
A última posição registrada ficava em uma área rural a menos de quarenta quilômetros dali.
Meu celular vibrou.
Uma mensagem de Joyce.
"Já está indo embora ou a carrasca resolveu dormir no escritório?"
Sorri involuntariamente.
Por alguns segundos pensei em responder.
Mas outra coisa chamou minha atenção.
O horário da última transmissão do caminhão.
Meu sorriso desapareceu.
A transmissão havia sido interrompida exatamente dez minutos depois da chegada de Carolina.
Peguei as chaves do carro.
Se havia a menor chance de que meus funcionários estivessem em perigo, eu não ficaria esperando atrás de uma mesa.
Não daquela vez.
Fui até a sala de segurança e pedi que o turno do dia ficasse algumas horas a mais.Em seguida fui até Tulio o chefe de segurança.
- Boa noite, seu Túlio. Será que o senhor poderia me ajudar em um assunto delicado e perigoso?
O chefe da segurança ergueu os olhos dos relatórios que analisava.
- Boa noite, chefe. O que posso fazer pela senhora?
- Um dos nossos caminhões desapareceu perto da Trilha do Pardal. Gostaria que me acompanhasse até lá.
A expressão dele ficou séria imediatamente.
- Qual caminhão, chefe?
- O oitenta e seis.
Por um instante, toda a cor desapareceu do rosto dele.
- Meu filho está nesse caminhão.
O pânico tomou conta de sua expressão.
Sem pensar, Túlio caminhou até o cofre da segurança, retirou uma segunda arma e já se dirigia para a porta quando me coloquei em seu caminho.
- Calma, seu Túlio.
- Chefe, meu filho...
- Eu sei.
Ele fechou os olhos por um instante, tentando recuperar o controle.
- Não vamos agir impulsivamente. Se houver alguém precisando de ajuda, não seremos úteis entrando naquela mata sem planejamento.
Túlio respirou fundo e assentiu.
- O que a senhora sugere?
- Reúna três homens da sua absoluta confiança. Quero todos equipados. Lanternas, rádios, coletes e kit de primeiros socorros.
- Entendido.
- Não quero chamar atenção desnecessária, mas também não vou correr riscos.
Enquanto ele fazia as ligações, voltei à sala de monitoramento e imprimi o mapa da região.
A Trilha do Pardal ficava em uma área isolada, cercada por mata fechada e estradas de terra utilizadas principalmente por fazendeiros e moradores locais.
Pouco mais de quinze minutos depois, estávamos a caminho.
Eu dirigia o primeiro veículo.
Túlio estava ao meu lado.
Atrás de nós seguia a caminhonete da segurança.
A noite já havia caído completamente.
Os faróis iluminavam apenas uma pequena faixa da estrada enquanto a vegetação escura parecia engolir todo o resto.
Túlio mantinha os olhos fixos na estrada.
As mãos estavam cerradas sobre as próprias pernas.
- Não gosto disso - murmurou.
- Nem eu.
- A senhora acha que tem relação com o incêndio?
Pensei por alguns segundos.
- Espero que não.
Mas nós dois sabíamos que eu não acreditava na própria resposta.
O rádio preso ao painel chiou.
- Estamos entrando na estrada de terra - informou um dos seguranças.
- Recebido.
Reduzi a velocidade.
A estrada estava cheia de buracos e marcas recentes de pneus.
Meu coração acelerou quando avistei algo refletindo a luz dos faróis.
Pisei no freio.
- Encontrou alguma coisa? - perguntou Túlio.
Apontei para frente.
Uma das placas de sinalização da estrada estava caída no chão.
Não parecia resultado de um acidente.
Parecia ter sido arrancada.
Saí do veículo.
O silêncio era inquietante.
Nem mesmo os insetos pareciam fazer barulho naquele trecho.
Os outros seguranças se aproximaram.
Foi então que um deles iluminou o chão com a lanterna.
- Chefe...
Segui o feixe de luz.
Havia marcas profundas de pneus saindo da estrada principal e entrando por uma trilha estreita no meio da mata.
Túlio se abaixou imediatamente para examiná-las.
- São recentes.
Meu celular vibrou no bolso.
Uma nova mensagem de Joyce.
"Você ainda está trabalhando?"
Olhei para a tela por alguns segundos.
Depois para a trilha escura à nossa frente.
Uma sensação ruim percorreu meu corpo.
Daquelas que nunca apareciam sem motivo.
Guardei o celular.
- Vamos entrar mais na mata. A senhora fica aqui com o Edu.
- Vou com vocês. Posso parecer frágil, mas não sou.
Túlio pareceu prestes a protestar, mas desistiu.
- Certo. Mas fique perto de nós.
Acendi a lanterna e seguimos pela trilha.
A mata ficou mais fechada conforme avançávamos. Galhos estalavam sob nossos pés e o feixe das lanternas recortava pedaços da escuridão à nossa frente.
Caminhamos por alguns minutos até chegarmos a uma grande clareira.
Parei imediatamente.
O solo estava marcado.
Parecia que algo muito pesado havia sido arrastado por ali.
- O caminhão? - murmurou um dos seguranças.
- Talvez.
Túlio já procurava sinais do filho.
A lanterna dele percorria freneticamente cada canto da clareira.
- Marcelo! - gritou.
Nenhuma resposta.
Continuei observando os arredores.
Foi então que notei algo refletindo sob a luz da minha lanterna.
No chão.
A poucos metros dali.
Me aproximei.
Meu coração acelerou.
Sangue.
Pouco.
Mas suficiente para me deixar em alerta.
- Túlio!
Ele se virou imediatamente.
- O que foi?
Apontei para o chão.
As gotas seguiam em direção à parte mais densa da mata.
- Por aqui.
Começamos a seguir o rastro.
Uma gota.
Depois outra.
E mais outra.
Até que o feixe da minha lanterna iluminou uma árvore.
Por um segundo meu cérebro demorou a compreender o que estava vendo.
- Aqui!
Corri alguns passos à frente.
- Eu os encontrei!
Amarrados ao tronco de uma árvore estavam o motorista e Marcelo, o filho de Túlio.
Os dois tinham as mãos presas para trás.
Estavam machucados e exaustos, mas conscientes.
- Pai!
Túlio atravessou a clareira praticamente correndo.
- Meu Deus...
Enquanto um dos seguranças cortava as cordas, eu me ajoelhei ao lado do motorista.
- Vocês estão bem?
Ele assentiu com dificuldade.
- Levaram o caminhão...
- Quem?
- Não conseguimos ver.
- Quantos eram?
- Pelo menos quatro.
Marcelo respirava com dificuldade, tentando recuperar o fôlego.
- Eles sabiam exatamente qual caminhão atacar.
Olhei para ele.
- Como assim?
- Sabiam a rota. Sabiam a carga. Sabiam até nossos nomes.
O silêncio caiu sobre o grupo.
Senti um frio percorrer minha espinha.
Aquilo não tinha sido um roubo aleatório.
Alguém havia planejado tudo.
E, pela primeira vez desde o incêndio, comecei a suspeitar que o inimigo estava muito mais perto do que imaginávamos.
Fim do capítulo
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