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O lago por Luciane Ribeiro

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Palavras: 2616
Acessos: 165   |  Postado em: 15/06/2026

A chegada de Carolina

Encontrei um pequeno buquê de flores silvestres no meu carro.

Sorri sozinha.

Mais um truque daquela mulher teimosa para me deixar cada vez mais rendida.

O caminho para o CD pareceu mais bonito naquela manhã. Levei o pequeno buquê comigo e o coloquei sobre a mesa da minha sala. Sempre que olhava para ele, me lembrava de Joyce, e isso era suficiente para me fazer sorrir, independentemente do problema que estivesse à minha frente.

Como a chegada de Carolina.

Por volta das nove horas, a portaria me notificou sobre sua chegada. Fechei os relatórios que estava analisando, peguei um dos carrinhos de transporte e segui para a entrada principal.

Carolina aguardava ao lado do carro quando cheguei.

Usava uma camisa clara de mangas dobradas e óculos escuros. Parecia exatamente a mesma de anos atrás.

Quando me viu, abriu um sorriso.

- Laura.

- Carolina.

Ela retirou os óculos e me observou por alguns segundos.

- Fico feliz em ver que está bem.Soube que ficou tão doente que precisou ser internada.

- Estou melhor.

- Continua péssima em descansar?

- E você continua chegando a conclusões rápido demais.

Ela riu.

- Então ainda continua trabalhando mais do que seu belo corpo aguenta.

- Vamos logo!Vou te mostrar tudo.

Coloquei uma de suas malas no carrinho.

- Já começou dando ordens.

- Você está em minhas instalações agora.

- Isso parece uma ameaça.

- Talvez seja.

Fizemos um tour pelo CD. Mostrei os setores afetados pelo incêndio, as áreas já recuperadas e os pontos que ainda precisavam de reparos. Carolina fez perguntas, observou detalhes e tomou notas. Profissional como sempre.

Quando terminamos, seguimos para minha sala.

Mal a porta se fechou atrás de nós, senti suas mãos em minha cintura.

Meu corpo enrijeceu imediatamente.

- Senti sua falta.

Afastei suas mãos.

- Me solta, Carol.

Um sorriso surgiu em seus lábios.

- Carol. Gostei. Já estava preocupada, achando que você tinha esquecido o quanto somos íntimas.

- Íntimas? Engraçado ouvir isso de você.

- Engraçado é você ter vindo sem ao menos me contar.

- Foi apenas uma vez. Concordamos que não seria nada além disso.

Carolina desviou o olhar para a janela antes de voltar a me encarar.

- Não para mim.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável.

- Quando sua ex fez aquele escândalo, achando que estávamos tendo um caso, eu não fiz nada porque respeitava os sentimentos dela. Quando vocês se separaram e nós nos envolvemos, combinamos que era só aquela noite...

Ela suspirou.

- Mas eu queria que fosse mais.

Permaneci em silêncio.

- Eu queria que você me desse uma chance.

- Carol...

- Eu sei. Já faz anos.

- Então por que tocar nesse assunto agora?

Ela deu de ombros.

- Porque é a primeira vez que estamos sozinhas desde então.

Cruzei os braços.

- E continua sendo a mesma resposta.

Carolina sustentou meu olhar por alguns segundos.

- Você nunca facilitou as coisas para mim.

- Não havia nada para facilitar.

Ela soltou uma breve risada.

- Continua brutalmente honesta.

- E você continua ouvindo apenas o que quer ouvir.

- Justo.

O clima pareceu aliviar um pouco.

Carolina caminhou até minha mesa e observou o pequeno buquê de flores.

- Bonitas.

Meu olhar acompanhou o dela.

- São.

Por sorte, ela não fez mais perguntas.

Peguei uma das pastas da investigação e a coloquei sobre a mesa.

- Já que resolveu aparecer sem avisar, pode começar a trabalhar.

- Agora sim estou reconhecendo a Laura que eu conheço.

Ela abriu a pasta e começou a folhear os documentos.

- Amanhã começarei a entrevistar seus funcionários da segurança.

- Certo.

- Também falarei com os porteiros e com os funcionários que trabalhavam no depósito incendiado.

- Avisarei a todos para cooperarem.

Carolina fechou a pasta.

- Deseja mais alguma coisa, majestade?

Um sorriso travesso surgiu em seus lábios.

- Você.

Revirei os olhos.

- Isso não é possível.

- Ainda.

Ignorei a provocação.

- Mais alguma coisa?

- Já que perguntou, preciso de um lugar para ficar.

- Já reservamos um quarto para você em uma das pousadas .

- Que sem graça.

- Pare de reclamar ! Eu garanto que vai adorae!

- O quê? Vai dizer que não sente falta das nossas discussões?

- Não sinto falta nem das discussões, nem dos seus comentários inconvenientes.

- Mentira.

- Verdade.

Ela levou uma das mãos ao peito, fingindo indignação.

- Estou ofendida.

- Vai sobreviver.

Carolina riu.

- Está bem !!Irei pra pousada.

- Excelente decisão.

- Mas espero pelo menos um jantar de boas-vindas.

- Você acabou de chegar e já está fazendo exigências.

- Sou uma convidada.

- É uma funcionária.

- Que viajou centenas de quilômetros para resolver os seus problemas.

- Meu problema principal está sentado na minha frente.

Ela gargalhou.

- Certo. Vou me instalar e começar a analisar tudo isso ainda hoje.

Já estava abrindo a porta quando voltou a olhar para mim.

- Sabe, apesar de tudo, estou feliz em ver você de novo.E mais feliz ainda em ver que está se cuidando melhor.

A sinceridade na voz dela me pegou desprevenida.

- Obrigada, Carol.

Ela assentiu.

- Até amanhã, Laura.

- Até amanhã.

Esperei a porta se fechar antes de voltar minha atenção para a mesa.

Meu olhar pousou no pequeno buquê de flores silvestres.

Sorri.

Entre Carolina e os problemas do CD, aquele seria um longo dia.

Mas bastou olhar para aquelas flores para me lembrar de que existia alguém capaz de tornar qualquer dia melhor.

O turno de Joyce terminava dentro de alguns minutos.

Deixei o que estava fazendo de lado, desci, peguei meu carrinho e segui rumo à expedição, torcendo para encontrá-la antes que fosse embora.

Quando estava me aproximando, vi Carolina conversando com Joyce.

Reduzi a velocidade.

As duas estavam próximas à doca principal.

- Sua supervisora da expedição é impressionante - dizia Carolina.

- Espero que isso seja um elogio - respondeu Joyce.

- É sim. Você conhece cada etapa da operação melhor do que muita gente da gerência.

- Faz parte do trabalho.

Foi então que Joyce me viu se aproximando.

- Chefe!

O sorriso que ameaçou surgir em seus lábios desapareceu tão rápido que qualquer outra pessoa teria perdido o detalhe.

- Como foi o primeiro dia da investigação? - perguntou.

- Produtivo.

- Joyce acabou de me explicar metade dos processos da expedição - comentou Carolina. - Economizou umas três horas da minha vida.

- Vou cobrar consultoria.

- Justo.

Observei as duas por um instante.

A interação era completamente profissional, mas ainda assim algo me deixava inquieta.

Talvez porque eu conhecesse Carolina.

Talvez porque eu conhecesse Joyce.

Ou talvez porque eu me conhecesse.

- Bem - disse Joyce, ajustando a bolsa no ombro. - Meu turno acabou oficialmente há cinco minutos.

Ela olhou para mim.

- Vou para casa preparar o jantar e apreciar o lago.

- Ouvi dizer que o lago é lindo - comentou Carolina. - Você também mora perto dele, Laura?

- Sim.

- Acho que terei que fazer uma visita.

- O lago é grande. Tem espaço para todo mundo.

Joyce respondeu antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.

Carolina sorriu.

- Então está decidido.

- Não acho que convites para a minha casa funcionem dessa forma - falei.

- Que pena. Eu já estava me imaginando tomando um café na varanda enquanto admirava a vista.

- Pode fazer isso da cafeteria perto do lago.

- Isso é um convite?

_Não!

_Fria do jeito que eu gosto.

 Joyce deu um passo para trás tentando disfarçar o ciúme.

- Bem, vou indo. Meu jantar não vai se preparar sozinho.

- Boa noite, Joyce.

- Boa noite, chefe.

Ela acenou para Carolina e seguiu em direção ao estacionamento.

Meus olhos a acompanharam até que desaparecesse de vista.

Quando voltei a olhar para frente, encontrei Carolina me observando.

Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.

- O quê?

- Nada. Eu só estava pensando que sua encarregada é uma figura interessante.

- Ela é uma excelente profissional.

- Não foi isso que eu disse.

Revirei os olhos.

- Vá para a pousada , Carol.

- Sim, chefe.

Ela sorriu.

- Até amanhã.

Voltei ao escritório para encerrar o trabalho. Já estava prestes a desligar o computador quando o telefone tocou.
- Laura, um dos nossos caminhões desapareceu perto da cidade.
Reconheci imediatamente a voz de Marcos, do monitoramento de cargas.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
- Como assim desapareceu?
- Perdemos o sinal de rastreamento há quase quarenta minutos. Já tentamos contato com o motorista e com o auxiliar.
- E?
- Conseguimos falar com o auxiliar por alguns segundos. A ligação estava cheia de interferência. Ele parecia nervoso. Disse apenas "tem alguma coisa errada" e a chamada caiu.
Endireitei a postura na cadeira.
- Devemos acionar a polícia?
Olhei pela janela do escritório. O estacionamento já estava quase vazio.
O incêndio.
As invasões ao sistema.
Os atrasos nas entregas.
E agora um caminhão desaparecido.
Aquilo não parecia coincidência.
- Não. Ainda não.
- Laura...
- Quero a última localização do caminhão, a rota completa, o histórico do rastreador e todas as tentativas de contato realizadas até agora.
- Certo.
- E me envie os dados do motorista e do auxiliar.
- Estou mandando.
Desliguei.
Menos de um minuto depois os arquivos chegaram ao meu computador.
Abri o mapa.
A última posição registrada ficava em uma área rural a menos de quarenta quilômetros dali.
Meu celular vibrou.
Uma mensagem de Joyce.
"Já está indo embora ou a carrasca resolveu dormir no escritório?"
Sorri involuntariamente.
Por alguns segundos pensei em responder.
Mas outra coisa chamou minha atenção.
O horário da última transmissão do caminhão.
Meu sorriso desapareceu.
A transmissão havia sido interrompida exatamente dez minutos depois da chegada de Carolina.
Peguei as chaves do carro.
Se havia a menor chance de que meus funcionários estivessem em perigo, eu não ficaria esperando atrás de uma mesa.
Não daquela vez.
Fui até a sala de segurança e pedi que o turno do dia ficasse algumas horas a mais.Em seguida fui até Tulio o chefe de segurança.

- Boa noite, seu Túlio. Será que o senhor poderia me ajudar em um assunto delicado e perigoso?

O chefe da segurança ergueu os olhos dos relatórios que analisava.

- Boa noite, chefe. O que posso fazer pela senhora?

- Um dos nossos caminhões desapareceu perto da Trilha do Pardal. Gostaria que me acompanhasse até lá.

A expressão dele ficou séria imediatamente.

- Qual caminhão, chefe?

- O oitenta e seis.

Por um instante, toda a cor desapareceu do rosto dele.

- Meu filho está nesse caminhão.

O pânico tomou conta de sua expressão.

Sem pensar, Túlio caminhou até o cofre da segurança, retirou uma segunda arma e já se dirigia para a porta quando me coloquei em seu caminho.

- Calma, seu Túlio.

- Chefe, meu filho...

- Eu sei.

Ele fechou os olhos por um instante, tentando recuperar o controle.

- Não vamos agir impulsivamente. Se houver alguém precisando de ajuda, não seremos úteis entrando naquela mata sem planejamento.

Túlio respirou fundo e assentiu.

- O que a senhora sugere?

- Reúna três homens da sua absoluta confiança. Quero todos equipados. Lanternas, rádios, coletes e kit de primeiros socorros.

- Entendido.

- Não quero chamar atenção desnecessária, mas também não vou correr riscos.

Enquanto ele fazia as ligações, voltei à sala de monitoramento e imprimi o mapa da região.

A Trilha do Pardal ficava em uma área isolada, cercada por mata fechada e estradas de terra utilizadas principalmente por fazendeiros e moradores locais.

Pouco mais de quinze minutos depois, estávamos a caminho.

Eu dirigia o primeiro veículo.

Túlio estava ao meu lado.

Atrás de nós seguia a caminhonete da segurança.

A noite já havia caído completamente.

Os faróis iluminavam apenas uma pequena faixa da estrada enquanto a vegetação escura parecia engolir todo o resto.

Túlio mantinha os olhos fixos na estrada.

As mãos estavam cerradas sobre as próprias pernas.

- Não gosto disso - murmurou.

- Nem eu.

- A senhora acha que tem relação com o incêndio?

Pensei por alguns segundos.

- Espero que não.

Mas nós dois sabíamos que eu não acreditava na própria resposta.

O rádio preso ao painel chiou.

- Estamos entrando na estrada de terra - informou um dos seguranças.

- Recebido.

Reduzi a velocidade.

A estrada estava cheia de buracos e marcas recentes de pneus.

Meu coração acelerou quando avistei algo refletindo a luz dos faróis.

Pisei no freio.

- Encontrou alguma coisa? - perguntou Túlio.

Apontei para frente.

Uma das placas de sinalização da estrada estava caída no chão.

Não parecia resultado de um acidente.

Parecia ter sido arrancada.

Saí do veículo.

O silêncio era inquietante.

Nem mesmo os insetos pareciam fazer barulho naquele trecho.

Os outros seguranças se aproximaram.

Foi então que um deles iluminou o chão com a lanterna.

- Chefe...

Segui o feixe de luz.

Havia marcas profundas de pneus saindo da estrada principal e entrando por uma trilha estreita no meio da mata.

Túlio se abaixou imediatamente para examiná-las.

- São recentes.

Meu celular vibrou no bolso.

Uma nova mensagem de Joyce.

"Você ainda está trabalhando?"

Olhei para a tela por alguns segundos.

Depois para a trilha escura à nossa frente.

Uma sensação ruim percorreu meu corpo.

Daquelas que nunca apareciam sem motivo.

Guardei o celular.

- Vamos entrar mais na mata. A senhora fica aqui com o Edu.

- Vou com vocês. Posso parecer frágil, mas não sou.

Túlio pareceu prestes a protestar, mas desistiu.

- Certo. Mas fique perto de nós.

Acendi a lanterna e seguimos pela trilha.

A mata ficou mais fechada conforme avançávamos. Galhos estalavam sob nossos pés e o feixe das lanternas recortava pedaços da escuridão à nossa frente.

Caminhamos por alguns minutos até chegarmos a uma grande clareira.

Parei imediatamente.

O solo estava marcado.

Parecia que algo muito pesado havia sido arrastado por ali.

- O caminhão? - murmurou um dos seguranças.

- Talvez.

Túlio já procurava sinais do filho.

A lanterna dele percorria freneticamente cada canto da clareira.

- Marcelo! - gritou.

Nenhuma resposta.

Continuei observando os arredores.

Foi então que notei algo refletindo sob a luz da minha lanterna.

No chão.

A poucos metros dali.

Me aproximei.

Meu coração acelerou.

Sangue.

Pouco.

Mas suficiente para me deixar em alerta.

- Túlio!

Ele se virou imediatamente.

- O que foi?

Apontei para o chão.

As gotas seguiam em direção à parte mais densa da mata.

- Por aqui.

Começamos a seguir o rastro.

Uma gota.

Depois outra.

E mais outra.

Até que o feixe da minha lanterna iluminou uma árvore.

Por um segundo meu cérebro demorou a compreender o que estava vendo.

- Aqui!

Corri alguns passos à frente.

- Eu os encontrei!

Amarrados ao tronco de uma árvore estavam o motorista e Marcelo, o filho de Túlio.

Os dois tinham as mãos presas para trás.

Estavam machucados e exaustos, mas conscientes.

- Pai!

Túlio atravessou a clareira praticamente correndo.

- Meu Deus...

Enquanto um dos seguranças cortava as cordas, eu me ajoelhei ao lado do motorista.

- Vocês estão bem?

Ele assentiu com dificuldade.

- Levaram o caminhão...

- Quem?

- Não conseguimos ver.

- Quantos eram?

- Pelo menos quatro.

Marcelo respirava com dificuldade, tentando recuperar o fôlego.

- Eles sabiam exatamente qual caminhão atacar.

Olhei para ele.

- Como assim?

- Sabiam a rota. Sabiam a carga. Sabiam até nossos nomes.

O silêncio caiu sobre o grupo.

Senti um frio percorrer minha espinha.

Aquilo não tinha sido um roubo aleatório.

Alguém havia planejado tudo.

E, pela primeira vez desde o incêndio, comecei a suspeitar que o inimigo estava muito mais perto do que imaginávamos.

 

Fim do capítulo


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