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O lago por Luciane Ribeiro

Ver comentários: 1

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Palavras: 2275
Acessos: 58   |  Postado em: 08/07/2026

As três visitas

 

O que devemos fazer agora, chefe? - perguntou um dos seguranças.

Olhei para Marcelo e para o motorista. Os dois estavam machucados, exaustos e ainda abalados.

- Primeiro, levem os dois para o hospital.

Túlio assentiu imediatamente.

- Certo.

- Quero que sejam examinados por um médico e que a administração do hospital me informe qualquer alteração no estado deles.

- Sim, senhora.

Voltei meu olhar para Marcelo.

- Você foi muito corajoso.

Ele tentou sorrir.

- Não tive muita escolha.

- Descanse. O resto nós resolvemos.

Em seguida me virei para Túlio.

- Vou até a delegacia registrar a ocorrência. Também preciso informar a equipe de monitoramento sobre o que aconteceu.

- Edu acompanha a chefe.

O segurança ao nosso lado ergueu a cabeça.

- Claro.

- Não precisa - respondi.

Túlio me encarou.

- Precisa sim.

- Seu Túlio...

Olhei para a mata ao nosso redor.

A escuridão parecia ainda mais pesada agora.

- Eu vou ficar bem.

- Por favor.

A preocupação em sua voz não era a de um funcionário falando com a supervisora.

Era a de um pai que acabara de encontrar o filho vivo por muito pouco.

Suspirei.

- Está bem.

Túlio pareceu relaxar um pouco.

- Obrigado.

Os seguranças começaram a conduzir Marcelo e o motorista de volta aos veículos.

Antes de sair da clareira, lancei um último olhar para o local.

As marcas no chão.

As cordas abandonadas.

O sangue.

E quanto mais eu pensava nisso, mais a sensação de que o incêndio e o desaparecimento do caminhão estavam ligados crescia dentro de mim.

Meu celular vibrou novamente.

Uma nova mensagem de Joyce.

"Você ainda está trabalhando? Estou começando a achar que vou precisar sequestrar você para conseguir um jantar."

Apesar da tensão, um pequeno sorriso surgiu em meus lábios.

Digitei rapidamente:

"Prometo que vou compensar. ."

A resposta chegou quase instantaneamente.

"Vou cobrar com juros essa dívida. "Já está tarde, tome cuidado ao voltar pra casa .

Ia responder mas achei melhor esperar até chegar em casa.  

Na delegacia, o delegado - que não gostava de mim desde o episódio envolvendo o prefeito - deu pouquíssima importância ao caso.
Expliquei sobre o caminhão roubado.
Expliquei que os funcionários haviam sido sequestrados.
Expliquei que os criminosos conheciam a rota, a carga e até os nomes dos ocupantes.
Ainda assim, ele tratou tudo como apenas mais um roubo de carga.
Saí de lá me sentindo enojada.
Não pela falta de competência.
Pela falta de interesse.
Assim que entrei no carro, liguei para Marcos.
O choque na voz dele foi imediato quando contei o que havia acontecido.
- Meu Deus...
- Escute com atenção. Quero esse assunto restrito à equipe de monitoramento.
- Certo.
- Verifiquem todos os caminhões em rota. Todos.
- Entendido.
- Se notarem qualquer alteração, por menor que seja, quero ser avisada imediatamente.
- Pode deixar, Laura.
Desliguei e permaneci alguns segundos encarando o volante.
Minha cabeça doía.
Meu corpo inteiro parecia pesado.
Quando finalmente dei partida, tudo o que eu queria era chegar em casa.
O trajeto pareceu durar uma eternidade.
Ao entrar, larguei as chaves sobre a bancada e fui direto para o banho.
A água quente ajudou a aliviar um pouco a tensão acumulada, mas não conseguiu afastar os pensamentos.
O incêndio.
As invasões ao sistema.
O caminhão roubado.
Os funcionários amarrados na mata.
E a sensação crescente de que alguém estava vários passos à nossa frente.
Depois do banho, vesti uma roupa confortável, esquentei as sobras do jantar que Joyce havia preparado na noite anterior e me sentei em frente à televisão.
Eu nem prestava atenção no que estava passando.
Estava apenas cansada demais para pensar.
Foi então que meu celular vibrou.
Pensei que fosse uma mensagem.
Mas era uma ligação.
Joyce.
Atendi imediatamente.
- Oi, amor.
- Por que você não respondeu nenhuma das minhas mensagens, Laura?
A irritação na voz dela era evidente.
Fechei os olhos por um instante.
- Desculpe, meu amor. Estava distraída e muito ocupada com o trabalho.
- Você disse que era uma emergência e depois simplesmente desapareceu.
- Eu sei.
- Fiquei preocupada.
A raiva dela diminuiu na mesma hora.
Porque nunca tinha sido raiva.
Era preocupação.
- Desculpe - repeti.
Houve alguns segundos de silêncio.
- O que aconteceu?
Olhei para o prato esquecido sobre a mesa.
- Um dos nossos caminhões desapareceu.
O silêncio do outro lado da linha ficou ainda mais pesado.
- O quê?
- Encontramos o motorista e o auxiliar amarrados numa área de mata.
- Meu Deus...
- Eles estão vivos.
Ouvi Joyce soltar o ar lentamente.
- E você foi até lá?
- Fui.
- Laura...
- Eu precisava ir.
- Isso foi muito perigoso!!E se vocês encontrassem os criminosos e eles decidissem atirar ? Você poderia acabar levando um tiro!
- Eu sei,mas não podia deixar dois funcionários meus serem mortos.
Ela não respondeu imediatamente.
Porque sabia que eu tinha razão.
Mesmo sem gostar.
- Você está bem?
A pergunta saiu mais suave.
Mais íntima.
Mais preocupada.
Apoiei a cabeça no encosto do sofá.
- Estou cansada.
- Comeu alguma coisa?
Olhei para o prato.
- Estou comendo agora.
- Vou acreditar.
Fechei os olhos.
Aquelas palavras aqueceram algo dentro de mim.
Algo que o banho quente não tinha conseguido alcançar.
Foi acolhedor.
Como se apenas ouvir sua voz tornasse tudo um pouco mais suportável.
- Você quer que eu vá aí? - ela perguntou.
Por um instante, quase disse sim.
Quase pedi que viesse.
Que me abraçasse.
Que passasse a noite comigo.
Mas já era tarde.
E ela também precisava descansar.
- Não. Amanhã você precisa trabalhar.
- E você também.
- Infelizmente.
- Então me promete uma coisa?
- O quê?
- Se alguma coisa acontecer, você me avisa.
Olhei pela janela para a escuridão do lago.
- Prometo.
- E responda minhas mensagens.
- Vou tentar.
- Laura.
- Vou responder.
- Melhor.
Sorri.
Talvez aquele tivesse sido o pior dia desde o incêndio.
Mas ouvir Joyce no fim da noite me lembrava de algo importante.
Eu não estava enfrentando aquilo sozinha. Nos despedimos e eu voltei a comer. Meia hora depois quando me preparava pra dormir. Meu celular tocou de novo. Era Joyce novamente com voz de sono e dengosa.
_Não consigo dormir. Posso dormir aqui com você?
Cheguei na porta em menos de dois segundos. A abracei o mais apertado que pude. Ela me abraçou e me manteve suspensa em seus braços enquanto eu beijava seu rosto e sua boca.
_Uau.Tambem senti sua falta ,minha princesa.
Escondi o rosto em seu pescoço.
Joyce me abraçou ainda mais forte.
- Dia difícil né.
Assenti.
Ela não fez mais perguntas.
Não naquele momento.
Ela me levou para o quarto, preparou a cama ,me colocou deitada nela em seguida se deitou e me aconchegou em seus braços.

Tive um sono sem sonhos ou pesadelos. Daqueles que só acontecem quando o corpo e a mente estão completamente exaustos e o cérebro simplesmente desliga.

Eu provavelmente teria dormido o dia inteiro se não fosse o som insistente da campainha.

Abri os olhos confusa e levei alguns instantes para entender que estava em casa, na minha própria cama.

Ao meu lado, Joyce continuava dormindo profundamente, completamente indiferente ao barulho.

Relutantemente, me soltei dos braços dela e fui atender.

Era Jeremias, o avô de Joyce.

Ele estava fazendo a entrega quinzenal de leite e queijo que eu comprava da fazenda.

Achei estranho vê-lo tocar a campainha. Normalmente ele deixava tudo sob o banco da varanda e eu fazia o pagamento todo dia vinte, como sempre.

- Bom dia, minha filha.

- Bom dia, seu Jeremias. Tudo bem com o senhor?

- Estou muito bem.

Ele ergueu uma pequena sacola de papel.

- Desculpe acordar você a essa hora. Liguei para a Joyce, mas ela não atendeu. Passei na casa dela e também não a encontrei.

Meu coração deu um pequeno salto.

- Entendo...

- Eu precisava entregar isso a ela. Será que você poderia me fazer a gentileza de repassar?

Peguei a sacola.

- Claro. Entrego assim que ela acordar...

As palavras saíram tão naturalmente que só percebi o que havia dito quando o sorriso de Jeremias se alargou.

- Ah, ótimo.

Havia algo suspeitamente satisfeito naquela expressão.

- Então tenha um bom dia, minha filha.

- O senhor também.

Fiquei observando enquanto ele se afastava pela varanda.

Fechei a porta devagar.

Depois encostei a testa na madeira.

- Droga.

Voltei para o quarto segurando a sacola.

Joyce continuava dormindo exatamente na mesma posição.

Parecia impossível que aquela mulher tivesse causado tantos problemas sem sequer abrir os olhos.

Sentei na cama e finalmente processei a conversa.

"Entrego assim que ela acordar."

Fechei os olhos.

Eu praticamente tinha anunciado que Joyce passara a noite comigo.

Será que ele percebeu?

Lembrando daquele sorriso satisfeito...

A resposta provavelmente era sim.

Joyce abriu um dos olhos, mas o fechou novamente quase no mesmo instante.

Sorri.

Deitei ao lado dela e lhe dei um beijo demorado no rosto.

- Não adianta fingir. Eu sei que você já está acordada.

Ela sorriu sem abrir os olhos.

- Mentira... isso é um sonho.

- Um sonho bom?

- Vai ser.

Antes que eu pudesse responder, ela se virou rapidamente e ficou por cima de mim.

Seu olhar encontrou o meu e permaneceu ali por alguns segundos.

Ela me observava com tanta atenção que tive a impressão de que conseguia enxergar cada pensamento meu.

Então sorriu de canto.

- Bom dia, princesa.

Inclinou-se e me beijou.

Começou com um selinho demorado, mas bastaram poucos segundos para o beijo ganhar intensidade.

Quando finalmente nos afastamos, ainda com as testas encostadas, ela sorriu.

- Quem era na porta?

- Seu avô.

 

Joyce arregalou os olhos.

 

- O quê? O que ele veio fazer aqui?

 

- Sou uma das clientes dele. Veio entregar meu leite e meu queijinho. Ah... também deixou uma coisa para você.

Ela levou uma das mãos à testa.

- Céus... o vovô já descobriu sobre nós.

- Como?

Ela soltou uma risada sem graça.

- Eu nunca consegui esconder nada dele.

- Sério?

- Ontem de manhã fui visitá-lo. Ele olhou para mim por alguns segundos e disse que eu estava diferente.

- E você contou?

- Não. Mas ele perguntou se precisava mandar alguns chás para você dormir melhor.

Olhei para ela, sem entender.

- E o que isso tem a ver?

Joyce fechou os olhos por um instante.

- Sem perceber, eu respondi que você dormia bem.

Demorei alguns segundos para entender.

Depois comecei a rir.

- Você praticamente confirmou que passa as noites comigo.

- Exatamente.

- E ele...

- Conhecendo meu avô, percebeu na mesma hora.

- Agora faz sentido aquele sorriso quando eu disse que entregaria o pacote assim que você acordasse.

Joyce escondeu o rosto no travesseiro.

- Pronto... agora ele tem certeza.

Não consegui conter a gargalhada.

- Relaxa. Acho que ele gostou da notícia.

Ela levantou a cabeça e sorriu.

- Também acho. O problema é que, daqui para frente, ele vai aproveitar cada oportunidade para me provocar.

- Melhor eu evitá-lo ou vou acabar entregando todos os meus segredos para ele.

Joyce riu.

- E para mim? Vai entregar seus segredos também?

- Me convença.

- Adoraria, mas tenho que ir. Minha chefe marcou uma reunião logo cedo. E eu ainda nem terminei meu relatório de desempenho.

- Ficou adiando de novo, Joyce!?

Ela fez uma careta divertida.

- Falta pouco. Acho que só preciso de um incentivo.

- Joyce Lyons Reis, acho bom...

A frase ficou suspensa quando ela me beijou.

Eu tentei continuar séria, mas resistir aos beijos dela estava ficando cada vez mais difícil.

Cada vez que eu ensaiava me afastar, ela encontrava um jeito de me fazer esquecer o relógio.

Suas mãos passeavam pela minha cintura sem pressa, como se o mundo inteiro pudesse esperar mais alguns minutos.

- Joyce...

- Quer que eu pare?

Olhei para ela e sorri de canto.

- Não... mas nós devemos.

- Ainda temos tempo.

Nesse instante, a campainha tocou.

Quase ao mesmo tempo, meu celular começou a vibrar insistentemente.

Nós duas nos afastamos imediatamente.

Aquela combinação de sons fez meu estômago se contrair.

Problemas.

Só podia ser.

Peguei o celular enquanto caminhava apressada até a porta e atendi na chamada seguinte.

- Alô.

- Bom dia, gostosa! Vim tomar café e conhecer o lago.

Parei por um instante.

- Carol?

Do outro lado da linha, ela riu.

- Viu como você não demorou nem um pouco para reconhecer a minha voz?

Abri a porta e lá estava ela. Como uma repetição inconveniente da chegada de Joyce na noite passada. Mas diferente da visita da minha namorada ,aquela era um grande incômodo.

Vestia um pijama confortável e sexy, por baixo do grosso roupão. segurava uma sacola de pães, um bolo ainda morno e um pacote do meu café favorito.

Sorriu como se fosse a coisa mais natural do mundo aparecer na casa de alguém logo cedo.

- Bom dia.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela entrou, depositou um beijo no meu rosto, perto demais da minha boca, e seguiu para a cozinha.

Fiquei parada na porta por alguns instantes, tentando processar o que tinha acabado de acontecer.

- Achei que você precisasse de um café decente depois de ontem.

Fechei a porta lentamente.

- Carol...

Ela se virou sorrindo.

- O quê? Não vai me dizer que não gosta de café da manhã surpresa.

Olhei discretamente para o corredor que levava aos quartos.

Meu coração acelerou.

Se Joyce resolvesse aparecer naquele instante, eu teria um problema enorme.

 

 

Fim do capítulo


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Comentários para 14 - As três visitas:
HelOliveira
HelOliveira

Em: 10/07/2026

Essa Carol já é problema, torcendo pra Joyce sair do quarto

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