Sereia
Mal a porta foi aberta, suas mãos me prenderam pela cintura, me puxando de encontro a ela. O toque firme, seguro, do jeito que sempre me desmontava. Nossos lábios se encontraram outra vez enquanto avançávamos pela casa, tropeçando entre beijos e respirações descompassadas.
As roupas foram ficando pelo caminho, uma a uma. Cada toque parecia acender ainda mais o que já queimava dentro de mim.O dia foi longo ,decidimos tomar um banho antes de nos perdermos na cama.
No chuveiro, a água fria contrastava com o calor dos nossos corpos. Minha pele se arrepiava não pelo frio, mas pelos seus lábios percorrendo meu pescoço, meus ombros, descendo lentamente pela minha barriga ..
Ela me virou de costas, aproximando seu corpo do meu. Senti seu toque deslizar pela lateral do meu corpo, firme, explorando, fazendo meu corpo responder sem qualquer controle. Minha respiração falhou, um som baixo escapou dos meus lábios enquanto eu me rendia àquele ritmo que me envolvia por completo.
Fechei os olhos, sentindo tudo se intensificar, cada sensação mais forte que a anterior... até que tudo ao redor deixou de existir.
Quando voltei a abrir os olhos, ainda estava atualizado nela, tentando recuperar a respiração enquanto a água escorria pelos nossos corpos. Joyce tirou uma mecha molhada do meu rosto e concedeu aquele jeito calmo que sempre me desmontava mais do que qualquer toque.
- Era para fazermos isso do jeito certo. Primeiro um jantar, depois uma taça de vinho no píer...
- Ainda podemos fazer isso.
- Podemos, mas agora eu ainda não quero te soltar.
- Desde quando você é uma namorada grudenta?
- Desde que Sara colocou uma pulga atrás da minha orelha, falando de uma tal Carolina com quem você teve um caso. Não acredito que você a tenha traído.
- Sara é mesmo rápida em causar confusão. Vamos terminar o banho e conversar.
- Não quero conversar sobre isso agora. Já tivemos uma briga hoje. Melhor deixar a próxima para amanhã.
- Se você pretende acreditar que eu a traí, não vai ser uma briga. Muito menos uma conversa.
Saí do box, peguei uma toalha e fui para o quarto. Estava irritada e um pouco triste.
Nosso namoro acabara de começar, e Joyce já demonstrou dúvidas. Talvez não fosse falta de confiança. Talvez fosse insegurança. Mas, naquele momento, eu não consegui enxergar a diferença.
Abri o guarda-roupa e procurei qualquer roupa confortável para vestir.Ouvi os passos dela se aproximam pelo corredor.
Não me virei.
Parte de mim queria que ela viesse atrás de mim.
A outra parte queria que ela entendesse sozinha o que aquelas palavras me machucaram.
Ela me abraçou por trás e beijou meu ombro.
- Desculpe. Eu não queria te chatear.
Virei-me para ela. Seus olhos se prenderam aos meus. Levei a mão ao seu rosto e acariciei sua pele.
- Eu posso ter sido uma esposa negligente, mas nunca traí a Sara. E não tenho a menor intenção de fazer isso com você. Carolina está sendo enviada pelo meu chefe para investigar o incêndio. Não posso negar sua presença. Nossa relação vai ser prejudicial profissional.
- Promete que não vai fazer hora extra enquanto ela estiver aqui?
- Não confia em mim?
- Confio em você. Não nela.
Suspirei, incapaz de conter um pequeno sorriso.
- Está bem. Prometo que você sairei todos os dias no horário certo enquanto ela estiver na cidade.
Joyce depositou um beijo rápido em meus lábios e depois me envolveu em um abraço.
- De preferência, eu gostaria que você viesse direto para mim. Fico louca de vontade de te abraçar durante o trabalho.
Ri e passei os braços ao redor da sua cintura.
- Acredite, o sentimento é mútuo.
Ela colocou a cabeça em meu ombro , ficamos ali apenas aproveitando a companhia uma da outra.
Até que minha barriga roncou.
Joyce começou a rir.
- Acho que alguém está com fome.
- Acho que está na hora do jantar. O que você deseja comer, minha princesa?
- Vai cozinhar para mim?
- Por que o espanto? Sou uma ótima cozinheira.
- Só acredito vendo. Quanto ao cardápio, você decide, chef.
Joyce enviou e caminhou até a cozinha.
Minha vida, naquele momento, parecia uma cena saída de um GL. Como eu não poderia me perder em pensamentos observando-a circular pela cozinha?
Suas mãos grandes cortavam legumes com precisão, organizavam ingredientes e misturavam temperos com uma confiança invejável. Eu estava sentado na bancada observando cada movimento, completamente distraída.
- Está me encarando.
- Estou fiscalizando.
- Fiscalizando?
- Claro. Preciso ter certeza de que esse tal chef não estava trapasseando.
- E qual o resultado da auditoria?
- Ainda está em andamento.
Joyce riu e voltou ao trabalho.
O aroma que começou a se espalhar pela casa era maravilhoso. Abri a geladeira para pegar uma bebida e encontrei mais ingredientes do que eu lembrava de ter comprado.
- Desde quando eu tenho tudo isso aqui?
- Essa é uma excelente pergunta.
Examinei algumas prateleiras.
- Definitivamente isso não foi obra minha.
-Sua mãe?
- Só pode ter sido.
- Então agradeça a ela por mim.
- Vou agradecer por ter abastecido minha geladeira ou por ter me arrumado uma namorada que cozinha?
- Pelos dois motivos.
Caímos na gargalhada.
Algum tempo depois, a mesa estava posta. Nada sofisticado, mas tudo tinha uma aparência incrível.
Joyce colocou o último prato sobre a mesa e abriu os braços.
- Pronto, princesa. Seu jantar.
- Estou impressionada.
- Eu disse que era uma ótima cozinheira.
Experimentei a primeira garfada e fechei os olhos.
- Meu Deus...
- Isso é um elogio?
- Isso é um pedido de casamento.
Joyce quase derrubou o copo de tanto rir.
Jantamos conversando sobre assuntos aleatórios, sem menor pressa. Histórias da faculdade, situações engraçadas do trabalho, lembranças da infância e discussões até absurdamente sérias sobre qual era o melhor sabor de pizza.
Em determinado momento, percebi que estava prestando mais atenção nela do que na comida.
Gostava da forma como seus olhos brilhavam quando ela contava alguma história. Gostava do jeito que mexia as mãos enquanto falava. Gostava das pausas dramáticas que fazia para tornar qualquer acontecimento mais engraçado.
Quando terminamos de comer, a cozinha estava uma bagunça.
- Você cozinha bem, mas deixa rastros de destruição.
- Isso se chama criatividade culinária.
- Isso se chama preguiça de lavar louça.
-Também.
Levantei para começar a organizar tudo, mas Joyce segurou meu pulso.
- Nem pense nisso.
- A cozinha está um caos.
- E vai continuar até amanhã.
- Joy...
- Laura, isso não é urgente.
- Está bem.
- Ótimo. Agora que concordamos,venha se sentar no sofá comigo.
Acabei obedecendo.
Pouco depois ficamos uma ao lado da outra, dividindo um cobertor enquanto assistíamos qualquer coisa na televisão sem realmente prestar atenção.
O som da TV preenchia o ambiente, mas o que me deixava confortável era a sensação do peso da cabeça dela reforçada em meu ombro.
Não havia relatórios para revisão.
Não houve reuniões para condução.
Não havia decisões urgentes esperando por mim.
Naquela noite, bastava estar ali.
E, para minha surpresa, aquilo era mais do que suficiente.
Adormecemos ali mesmo no sofá. Quando acordei senti o cheiro de café recém-coado, a cozinha estava limpa e organizada. Era espantosa a forma como ela tinha arrumado a bagunça sem fazer nenhum barulho. E tinha saído da minha casa do mesmo jeito. Pelo menos foi o que eu pensei. Peguei uma xicara daquele café ,mesmo colocando quase um quilo de açúcar ele ainda estava ruim.Me senti um pouco melhor comigo mesma ao saber que existia algo que ela não fazia bem.Ainda era cedo, então com a xícara nas mãos, decidi me sentar no píer para admirar a beleza do lago ao amanhecer.
Mas, ao abrir a porta, me deparei com uma beleza ainda maior.
Joyce boiava tranquilamente na água, como se fizesse parte daquela paisagem. Os primeiros raios de sol refletiram na superfície do lago, desenhando pontos dourados ao seu redor. Por um instante, ela pareceu pertencer às águas serenas tanto quanto às árvores que cercavam a margem.
Aproximei-me em silêncio e me sentei na extremidade do píer, deixando os pés tocarem na água.
Estava gelada.
Para mim, pelo menos.
Porque Joyce parecia completamente confortável, flutuando sem qualquer pressa, aproveitando a calma da manhã.
Ao perceber minha presença, ela abriu os olhos e sorriu.
Então começou a nadar na minha direção.
Linda.
Era a única palavra que me vinha à mente.
As gotas escorriam por seus cabelos e ombros enquanto ela se aproximava. Havia algo quase hipnotizante na forma como se movia pela água.
Como uma sereia.
Uma sereia perfeitamente consciente do efeito que causava em mim.
Quando chegou ao píer, apoiou os braços na madeira e protegeu o rosto para me olhar.
- Bom dia, princesa.
Sorri, incapaz de esconder o quanto de diversão naquela cena.
- Bom dia.
- O café está ruim, não está?
acabamos rindo.
- Horrível.
- Sabia.
- Foi por isso que você fugiu antes de eu acordar?
- Não. Foi para evitar ouvir reclamações sobre meus talentos culinários.
- Seus talentos culinários continuam intactos.
- E o café?
- O café é um crime contra a humanidade.
Como consegue ficar tão à vontade nessa água fria?
- Não está fria.
- Discordo. A única coisa que consegui colocar nela foi a ponta do pé.
- Pode parecer frio no início, mas seu corpo se adapta. Vem. Garanto que vai valer a pena.
Ela estava tão linda e convincente que, em um misto de coragem e vontade de provar que eu não era covarde, entrei na água.
Me arrependi imediatamente.
O frio subiu pelas minhas pernas como um choque e, por alguns segundos, tive certeza de que havia perdido o juízo.
- Está muito gelada.
- Você se acostuma.
- Não vou me acostumar.
- Vai sim.
Ela se moveu nadando até mim e passou os braços ao meu redor.
_Esta melhor?
_Não...
Antes que eu pudesse continuar reclamando, ela me beijou.
E, por mais absurdo que parecesse, funcionou.
O frio continuou ali, mas já não era a única coisa que eu sentia.
Aproximei-me ainda mais dela, escondendo o rosto em seu pescoço enquanto seus braços me mantinham junto ao seu corpo.
- E agorar?
- Um pouco.
- Só um pouco?
Antes da minha segunda segunda resposta, ela me beijou, como se estivesse tentando me trazer de volta a vida. E funcionou, meu corpo começou a esquentar, lentamente, assim como o nosso desejo. Saímos do lago direto pra cama, onde nossos corpos queimados em combustão, dessa vez com menos pressa que na noite anterior. Suas mãos percorreram minhas costas enquanto minha boca viajava pelas curvas bem traçadas do seu corpo. Senti seu corpo se abrir e começar a tremer quando meus dedos começaram a deslizar pra dentro dela sem pressão, seus gemidos elevaram meu desejo a um nível que me levava perto de me perder em êxtase sem sequer ser tocada. Ela não queria sentir sozinha ,queria que chegássemos juntas ,então encaixou nossos corpos e começou a se mover lentamente aumentando o ritmo ,de acordo com meus gemidos e minhas unhas que agora arranhavam sua pele.Atingimos juntas o ápice e caímos juntas ,abraçadas e conectadas.
Ficamos abraçadas, bem juntas, apenas sentindo o calor do corpo uma da outra.
Eu sabia que toda aquela euforia provavelmente tinha a ver com o começo do namoro. Ainda assim, era bom demais para ser ignorado.
- Não quero trabalhar...Temos mesmo que ir?
Joyce soltou um suspiro dramático
Acariciei seus cabelos enquanto ela permanece aconchegada em meu peito.
- Também queria continuar aqui com você, mas minha chefe pode me dar uma advertência. Ela não vai entender minha necessidade de passar mais tempo com a minha linda namorada.
- Sua chefe parece uma pessoa terrível.
- É uma carrasca.
- Cruel.
- Insensível.
- Sem coração.
- Exatamente.
Caímos na risada.
Joyce esconde o rosto para me olhar.
- Talvez eu deva ligar para ela e explicar a situação.
- E o que você diria?
- Que a divertida e mais eficiente encarregada da expedição esta impossibitadada de comparecer porque precisa ficar abraçada à namorada.
- Um argumento forte.
- Irrefutável.
Passei o questionamento por sua bochecha.
- Infelizmente, acho que ela não vai aceitar.
- Então vamos precisar levantar?
- Eventualmente.
- Odeio essa palavra.
- Eu também.
Nenhuma de nós se moveu.
Alguns segundos depois, Joyce se ajeitou ainda mais perto.
- Só mais cinco minutos.
- Você disse isso há dez minutos.
- E continuo acreditando que é uma excelente estratégia.
Sorri e depositei um beijo em sua testa.
Talvez estivéssemos atrasando um pouco o início do dia.
Mas, naquele momento, nenhuma das duas parecia interessada em se preocupar com isso.
- Chega. Se eu me deixar levar, você me atrasará. Pare de me seduzir, amor. Ainda tenho que passar na minha casa, trocar de roupa e pegar o carro. E você vai ter que fazer outro café para levar. Sinto muito por isso, princesa.
- Amo a sua profissionalidade. Vou falar muito bem de você para a carrasca do seu chefe.
- Espero que funcione.
Ela deu e me deu um beijo demorado, daqueles capazes de bagunçar completamente qualquer plano de ser responsável.
Por um instante, considerei seriamente a possibilidade de ignorar o trabalho, desligar o celular e passar o resto do dia ali com ela.
Mas apenas por um instante.
- Vai logo antes que eu mude de ideia - falei, empurrando-a de leve.
- Carrasca!!!
- Uma carrasca vendo a funcionária atrasada.
Joyce riu, escolheu as chaves e trilhas em direção à porta.
- Te vejo mais tarde, chefe.
- Te vejo mais tarde, funcionária..
- Isso foi muito romântico.
- Foi extremamente profissional.
- Horrível.
- Vai trabalhar.
- Estou indo.
Ainda a observei por alguns segundos depois que ela saiu.
A casa pareceu maior e mais silenciosa sem ela.
Peguei o notebook e fui para a cozinha. Coloquei outra garrafa de café para passar e eu me senti à mesa enquanto o aroma se espalhava pelo ambiente.
Com a caneca ao lado e o computador aberto à minha frente, comecei a organizar o trabalho do dia.
Relatórios, cronogramas, entregas pendentes, manutenção do galpão e a investigação do incêndio.
A realidade estava me esperando exatamente onde eu havia deixado.
Mas, naquela vez, ela parecia um pouco mais fácil de enfrentar.
Fim do capítulo
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