De volta ao CD
Já estava acordada nos primeiros raios de sol daquela manhã, saber que voltaria ao trabalho presencial estava me deixando muito animada , principalmente porque Joyce estaria a apenas a uma curta caminhada de mim.Tomei um banho demorado ,realizei a minha cerimônia de moer e coar o meu café para tomar antes de sair e levar para o trabalho, fazia questão de levar minha própria garrafa própria para o trabalho. Para não acabar doente novamente ,preparei algumas frutas e lanchinhos para comer durante os intervalos da papelada. Sai de casa por volta das seis e meia, a cidade estava acordando mas já era possível ver a agitação das crianças a caminho da escola e dos trabalhadores. Não pude deixar de ficar ainda mais contente ao pegar a estrada que ia para o CD ,era satisfatório muito satisfatório dirigir naquele asfalto novinho em folha e saber que contribui para que fosse feito. Meu dia até o momento estava excelente e ao sentir o cheiro gostoso de limpeza do meu escritório ,decidi que não importava quais problemas surgiriam, nada mudaria meu bom humor.
Comecei o dia fazendo uma reunião com o encarregado e os auxiliares de logística. Pedi que fizessem um relatório completo sobre as perdas e o que tinha sido salvo. Depois, enviei reforços para a equipe de limpeza do galpão. Em seguida segui para a Expedição, Joyce mantinha sua equipe unida e eficiente ,mas negligente quando se tratava do uso de epis , tinha recebido um email com uma reclamação da Técnica de Segurança sobre eles. Precisei dar uma advertência em um de seus funcionários logo que cheguei e isso causou um desentendimento entre Joyce e eu.
Precisei usar a carta de supervisora para ela e todos os outros escutarem. Para garantir que usariam os epis corretamente marquei um treinamento especial de segurança para todos os funcionários. Joyce parecia querer me assassinar ,mas ignorei sua cara feia e a fiz voltar ao trabalho. Mais do que nunca, eu precisava dela na expedição - não poderiam mais ocorrer atrasos nos envios.
Voltei para minha sala com o coração apertado por ter sido dura com ela, mas ali nossos papéis não poderiam ser esquecidos. Por volta das dez, comecei uma reunião com meu chefe.
- Como isso pode acontecer, Laura? Nosso sistema anti-incêndio é eficiente, nunca apresentou falhas.
- Infelizmente, sofremos uma sabotagem.
- Uma sabotagem?! Onde estava a segurança que não impediu? Ou agora também vamos culpar o acaso? Você precisa controlar sua equipe e manter o CD seguro. Se não for capaz... encontrarei alguém que seja.
- Foi um crime muito bem planejado. A polícia local está investigando. E, caso o senhor se importe, nenhum funcionário ficou gravemente ferido. As perdas foram pequenas, graças à ação rápida deles.
- Claro... que bom. Pelo menos isso.
(pausa)
- E também fico satisfeito em ver que está recuperada do seu problema de saúde... Seria uma pena lidar com tudo isso e ainda ter que me preocupar com sua saúde e estabilidade física e mental.
- Não há necessidade de se preocupar com a minha estabilidade. Como o senhor bem sabe, nesses quatro anos eu nunca me ausentei - nem mesmo por doença. Durante minha internação, continuei trabalhando e em contato com a equipe, ainda que remotamente.
(pausa breve)
- Em relação ao incêndio, já fornecemos as imagens de segurança e todo o material necessário para a investigação da polícia.
- Confia neles?
- O suficiente para cumprir o protocolo. Mas estou conduzindo minha própria investigação.
- Ótimo. Porque eu não confio. Mandarei uma especialista para te ajudar. Quero resultados - rápidos.
(pausa breve)
- E sobre o atraso nas entregas de Fortaleza?
- Por mais que nossos caminhões tenham sido rigorosamente vistoriados, as estradas estão bastante ruins em alguns trechos. Um dos caminhões teve um problema no eixo dos pneus e ficou preso em uma cidadezinha. O outro apresentou falha semelhante. Por isso solicitei que a equipe de vendas ajustasse as datas de entrega, considerando que esse tipo de imprevisto tem sido recorrente.
- Sua equipe... parece ter muitas justificativas ultimamente.
- Minha equipe tem apresentado resultados, como mostrei nos últimos relatórios.
(pausa)
- Espero que continuem assim.
(pausa mais longa)
- Espero muito de você, Laura. Não me desaponte.
- Fui promovida porque demonstrei com atos que sou competente o bastante para estar nesse cargo. Neste momento, tenho quatrocentas vidas sob minha responsabilidade - e não pretendo decepcionar nenhuma delas.
- Certo. Espero os relatórios completos na sexta. E mandarei a Carolina se apresentar na próxima segunda. Bom dia.
- Bom dia, senhor.
Fiquei alguns instantes absorvendo tudo e contendo a raiva. Eu sabia que ele tinha me promovido para me derrubar. Sabia que eu estava ganhando destaque, sendo cogitada para ocupar o lugar dele. Convenceu a diretoria a me mandar para cá, esperando que eu não desse conta.
Eu iria provar que era capaz.
E agora havia outro problema: Carolina... nós tínhamos um passado.
Saí do escritório e voltei ao galpão, onde retiravam os últimos resquícios do incêndio. Como tudo já estava encaminhado, peguei o carrinho para ir até as docas de recebimento. No caminho, fui parada por Luiza.
- Bom dia, Luiza.
- Bom dia, chefe. Tem um minuto?
- Claro. É sobre o que você ia me falar no dia do incêndio?
- Sim.
- Suba. Podemos conversar no caminho.
Ela subiu, e seguimos rumo ao norte, o caminho ate as docas por ali era mais longo, porém passava pela expedição... e Joyce. Seria bom ver o rosto dela de novo, mesmo que provavelmente estivesse aborrecida comigo.
- Está tudo bem? Parece distraída.
- Tudo bem. O que queria me contar?
- Eu detectei vários ataques ao nosso sistema de segurança naquela manhã. Precisamos nos dedicar bastante para impedir.
- Conseguiu localizar o endereço de IP?
- Não consegui definir o local exato, mas sei que veio de algum lugar da Barra da Tijuca, no Rio.
- Da sede...
- Provavelmente...
- Eu sabia que essa promoção estava boa demais para ser verdade. Caí em uma armadilha. Ele quer mesmo me derrubar.
- Pode tentar. Não vamos deixar. Continuarei a investigar as invasões.
- Ótimo. Vamos almoçar? Não tinha percebido que já era tão tarde, irei as docas depois.
- Com certeza, estou faminta.
No caminho para o refeitório, encontramos Sara, que parecia bastante irritada. Luiza se apressou em convidá-la para o almoço - provavelmente achou que o mal que a afligia era fome. No entanto, seu descontentamento foi dirigido direto a mim.
- Por que chamou aquela mulherzinha para investigar o incêndio?
- Eu não convidei. Foi uma decisão do meu chefe, não tive como recusar. Até porque, apesar de tudo, ela sabe ser uma excelente profissional.
- Excelente profissional... só se for em seduzir a mulher dos outros! É bom você não ficar a menos de dois metros de distância daquela mulher, Luiza!
- De quem? Alguém me explica?
- Laura teve um caso com outra mulher enquanto ainda estávamos juntas. E essa mulher está vindo trabalhar com ela novamente .
- Eu não tive caso algum. Foi você quem inventou que estávamos juntas e fez aquele escândalo.
- Não se faça de sonsa, Laura. Vocês estavam jantando juntas. Cheias de intimidade e risinhos.
- Foi a trabalho! Quantas vezes ainda terei que repetir isso?! Espera... não. Eu não tenho mais que me explicar para você.
- Quero ver o que a Joy vai achar disso.
Meu sangue gelou. Ainda que nunca tivesse havido nada entre Carolina e eu, a versão de Sara sobre o meu relacionamento com ela poderia me causar problemas.
- Não tem por que você falar sobre nosso passado com ela. Até porque teremos que trabalhar todas juntas, não quero que fique um clima estranho.
- Eu só queria que você admitisse.
- Não posso admitir algo que não aconteceu. Eu trabalhava tanto que não tinha tempo para você que era minha mulher - onde conseguiria tempo e disposição para ter outra?
_Essa é a questão! Você não estava em casa porque estava com ela no trabalho!!!
- Amor, deixa a Laura e a Joyce terem seus próprios problemas e crises de ciúmes.
- Está bem... mas já vou avisando: ficarei de olho nela. E em você! Não vou deixar você trair a Joyce.
_Não irei!!!!Nunca!
_Chega!!Vamos almoçar!
Durante o almoço, procurei por Joyce, mas ela não estava no refeitório. Achei estranho - tinha ajustado meu horário de almoço só para poder vê-la, mesmo que de longe.
Ao ouvir algumas conversas, soube que ela decidiu pular o almoço para terminar os relatórios que eu havia pedido. A sensação ruim do nosso pequeno desentendimento profissional ficou ainda pior ao saber disso.
Meu coração ficou apertado ao imaginá-la com fome e com raiva, verificando planilhas e cronogramas. Disfarçadamente, pedi a Sara que fosse até a sala dela levar um lanchinho.
Queria muito ir até ela e abraçá-la... mas ali, eu era a chefe.
Não podia ficar pensando nela, então foquei no trabalho. Me distraí, e a tarde passou num piscar de olhos. Já passava das seis e meia quando ouvi alguém bater na porta.
- Entre.
Joyce entrou com cara de quem queria aprontar alguma coisa.
- Joyce?! Por que ainda está aqui?
- Pergunto o mesmo. Saiu ontem do hospital e já está exagerando de novo?
- Eu já estava encerrando para ir para casa. Qual a sua desculpa?
Ela se aproximou de mim, fazendo meu coração dar uma leve disparada.
- Estava esperando minha namorada. A chefe dela é uma carrasca que a obriga a fazer hora extra.
- Sua namorada devia pedir demissão. Onde já se viu deixar uma linda mulher esperando?
- Concordo. O que devo fazer? Fiquei o dia todo querendo abraçá-la.
- Acho que posso te ajudar com isso. Vou ter uma conversa séria com essa chefe. Prometo que vou liberar sua namorada.
- Se você ver o meu amor, diga a ela que estarei esperando em casa.
Meus olhos a seguiram até que ela saiu pela porta. A pressa tomou conta de mim. Deixei o resto do trabalho para o dia seguinte, desliguei tudo, me despedi dos responsáveis pelo turno da noite e fui para o estacionamento.
Quando já ia ligar o carro, a porta do carona se abriu. Joyce entrou e se sentou.
- Espero que não se importe em me dar uma carona.
_De maneira alguma.
O percurso foi silencioso em palavras, mas carregado de uma comunicação muito mais profunda ,o toque. Suas mãos envolveram as minhas, depois deslizaram devagar até minha coxa, despertando cada centímetro do meu corpo.
Parei o carro e a puxei para um beijo. Não houve hesitação - apenas urgência. Nossos corpos reagiram de imediato, como se já soubessem exatamente o que queriam.
Estávamos próximas de perder o controle ali mesmo, mas me contive. Eu queria mais do que pressa. Queria sentir cada segundo.
Dirigi até a casa mais próxima - a minha.
Mal a porta foi aberta, suas mãos me prenderam pela cintura, me puxando de encontro a ela. O toque firme, seguro, do jeito que sempre me desmontava. Nossos lábios se encontraram outra vez enquanto avançávamos pela casa, tropeçando entre beijos e respirações descompassadas.
As roupas foram ficando pelo caminho, uma a uma. Cada toque parecia acender ainda mais o que já queimava dentro de mim.O dia foi longo ,decidimos tomar um banho antes de nos perdermos na cama.
No chuveiro, a água fria contrastava com o calor dos nossos corpos. Minha pele se arrepiava não pelo frio, mas pelos seus lábios percorrendo meu pescoço, meus ombros, descendo lentamente.
Ela me virou de costas, aproximando seu corpo do meu. Senti seu toque deslizar pela lateral do meu corpo, firme, explorando, fazendo meu corpo responder sem qualquer controle. Minha respiração falhou, um som baixo escapou dos meus lábios enquanto eu me rendia àquele ritmo que me envolvia por completo.
Fechei os olhos, sentindo tudo se intensificar, cada sensação mais forte que a anterior... até que tudo ao redor deixou de existir.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: