FamÃlia
Embora o aconchego estivesse extremamente agradável, voltei para a minha cama pouco antes do amanhecer. Por pouco não fomos flagradas pela enfermeira - e, de certa forma, a adrenalina até que foi... interessante, devo confessar.
Mais tarde, o resultado dos meus exames chegou, e pude finalmente - e oficialmente - ter alta.
Já Joyce... teve que continuar em observação. Consequência direta da noite anterior.
Meus pais foram me buscar e, enquanto eles agradeciam ao doutor Jaime, comecei a recolher minhas coisas. Dobrava a camisola, guardava o pouco que tinha espalhado pelo quarto... mas minha atenção não estava ali.
Estava nela.
Joyce me observava da cama ao lado, com aquele olhar silencioso que já começava a dizer mais do que qualquer palavra.
- Então... você vai mesmo? - ela perguntou, tentando soar casual.
- Vou - respondi, me aproximando um pouco mais. - Já fiquei tempo demais nesse hospital.
- Vou morrer de tédio sem você.
- Não vai ficar tempo suficiente pra isso. Seu pai disse que você estará em casa ao anoitecer.
- É muito tempo...
Sorri de leve.
- Se você se comportar, lhe darei um presente no nosso próximo encontro.
Ela arqueou a sobrancelha, interessada.
- Só vou me comportar se ganhar um beijo seu.
- Aqui?
- Sim.
Olhei rapidamente ao redor, avaliando o corredor, a porta, qualquer sinal de movimento.
- Você é impossível...
Ela sorriu, daquele jeito convencido que já estava começando a me desmontar com facilidade demais.
- Você gosta assim.
Suspirei, vencida.
Me aproximei mais da cama, inclinando o corpo na direção dela. Joyce me observava com atenção, como se aquele momento fosse maior do que um simples gesto.
E talvez fosse.
Encostei minha mão de leve no rosto dela.
- Talvez eu goste...só um pouquinho...
Ela não respondeu.
Não precisava.
Quando nossos lábios se tocaram, foi rápido... mas cheio de significado.
Sem pressa, sem intensidade exagerada - apenas um beijo sincero, quente, que dizia exatamente o que ainda estávamos aprendendo a colocar em palavras.
Quando me afastei, ela ainda ficou com os olhos fechados por um segundo a mais.
- Seja boazinha e comporte. Até mais tarde.
- Até mais tarde... me manda mensagem quando chegar em casa - ela respondeu, me acompanhando com o olhar.
Saí do quarto sentindo o coração leve.
Meia hora depois de chegar em casa, meus pais decidiram fazer uma pequena festinha. Logo minha casa estava uma pequena bagunça de pessoas. Tinham meus pais, Luiza, Sandra, Sara, Jackeline irmã de Joyce ,alguns vizinhos com quem minha mãe havia feito amizade... e, para minha alegria, meu irmão Luan havia acabado de chegar.
- Olá...
Antes que ele pudesse responder, minha mãe apareceu atrás dele, já organizando tudo como se estivesse comandando um evento de grande porte.
- Nada de conversa séria hoje! Hoje é dia de comemorar que você está em casa!
- Nada sério, mamãe, pode ficar tranquila.
Luiza conversava animadamente com Sara, próximas o bastante para me fazer acreditar que não era apenas eu quem estava começando algo novo. Enquanto isso, minha mãe e Sandra trocavam histórias de guerra da maternidade.
- Sinceramente, se eu soubesse que ter filhos era tão difícil, eu permaneceria solteira com meus peitinhos durinhos.
- Nem me fale - minha mãe respondeu. - Eu devia ter aprendido na primeira gravidez que aquele homem era fértil demais. Três bebês de uma vez só. Três meninos.
- Trigêmeos?
- Trigêmeos! E quando eles tinham três anos e estávamos já tirando a maternidade de letra, ele me levou pra conhecer Campos do Jordão, aquela lareira e o vinho... você sabe como é...
- Já sei onde isso vai dar - Sandra riu.
- Resultado: outra gravidez. Dessa vez, duas meninas. Gêmeas idênticas.
- Mãe...
- E não acabou! Quando elas tinham um ano, ele veio me convidar pra conhecer Gramado. Eu olhei pra ele e disse: "Podemos até ir ,mas você não vai encostar um dedinho em mim até eu estar operada!"
As duas riram.
- Como a senhora tem certeza que é o papai quem é fértil demais?
- Olhe pra vocês! São todos a cara dele!
- Certeira - Sandra respondeu. - Eu, felizmente, consegui parar no Jonas. Se dependesse de Jaime, eu teria dez filhos, mas quatro já foi o máximo que consigo aguentar.
Sorri, observando aquela bagunça boa.
Peguei o celular e mandei mensagem para Joyce contando como nossas mães pareciam velhas amigas.
Ela respondeu daquele jeito engraçado e reclamão:
- Meu pai está me fazendo de refém, vou ligar pra minha mãe pra ela convencê-lo a me deixar ir pra casa. Ou melhor... pra sua casa. Aposto que elas nos casariam hoje mesmo.
Sorri ao ler.
- Ah, parece que sua mãe quer apresentar o Luan pra sua irmã Jaqueline. Então serão dois casamentos.
Antes que eu pudesse continuar a conversa, Luan veio para perto de mim como se eu fosse capaz de protegê-lo das duas casamenteiras.
- Me salva!
- Conta logo pra mamãe que você tem namorada.
- Ela não gosta da Samanta.
- Vai gostar depois que conhecer melhor, mamãe só não gosta dela porque a vizinha ficou enchendo a cabeça dela contra a garota.
- Pode ser... mas e você? Quem é a felizarda? Você fica sorrindo igual idiota olhando para o celular.
- O nome dela é Joyce.
- É bonita?
- Muito.
- Já contou para os nossos pais?
- Não! Ainda é cedo. Estamos apenas no começo.
- Parece que sua ex está muito próxima da Luiza. Acho que tem algo acontecendo ali.
- Parece que sim.
- Não se importa?
- Me importo, mas torço pra elas ficarem juntas. Sara merece alguém que vá tratá-la como merece. Sei que a Luiza é a pessoa certa pra isso.
- Quanta maturidade.
- Às vezes temos que ser.
- Vamos! Me mostra a mulher por quem seus olhos estão brilhando. Quero julgar pra ver se é bonita mesmo.
Mostrei a foto de Joyce e ele começou a sorrir.
- Ela é mesmo forte como aparenta?
- Sim... e eu adoro isso.
- Sabia que a Sara era delicada demais pra você. Você precisa de alguém de pulso firme.
Joyce tinha aquele olhar firme, decidido... o tipo de pessoa que não recua. Ela me fazia ceder sem muito esforço, poderia me deixar irritada, mas ao invés disso me deixava mais atraída.
- É interessante te ver novamente com essa cara de boba apaixonada. Torço para que seja diferente dessa vez. E que seja muito feliz.
- Obrigada! Vou conversar com a mamãe sobre a Yasmin. Ela vai acabar entendendo que ela merece uma chance de mostrar que não é o que dizem.
- Tomara! Gosto muito dela. Queria que elas se dessem bem... olha quem acabou de chegar. Acho que vou ter que procurar outra pessoa pra bater papo.
Joyce entrou acompanhada de seu pai. Ele parecia exausto, ela no entanto estava alegre e satisfeita. O que significava que tinha deixado seu pai à beira da loucura pedindo que ele lhe desse alta.
Ela se aproximou e meu sorriso bobo saiu automático, vivo.
- Boa noite, chefe.
- Boa noite, Joyce. Fico feliz em ver que está bem.
- Sim. Meu pai concordou que já estou ótima. Espero que não se importe em ter invadido sua festinha.
- Claro que não, fique à vontade.
Luiza e Sara se aproximaram de nós, as quatro se olhando, confidenciando seus relacionamentos secretos. Luan observava, se divertindo, mas pronto pra causar.
- Mamãe, a senhora não acha que a Lala anda um tanto distraída e feliz? Eu acho que ela está namorando.
Olhei pra ele com o olhar de metralhadora alemã.
- Ele está dizendo isso porque está tão apaixonado que está pensando em se casar e ter filhos.
Eu sabia que a mente da minha mãe focaria apenas na possibilidade de ter mais netinhos.
- Você está namorando, Luan? Quem é ela? Há quanto tempo estão juntos?
Luiza soltou uma gargalhada.
Minha mãe interrogou Luan, se mostrou desgostosa ao saber quem era a pretendente, mas isso mudou ao ver fotos do bebê que ela criava sozinha e era o motivo da vizinha falar mau dela pras pessoas.Segundo a infeliz vizinha,Yasmin andava com muitos homens e nem sabia quem era o pai da criança.Na verdade o pai era seu filho ,ela fazia isso pra proteger o filho mimado de assumir a responsabilidade .
Mamãe se encantou pelas covinhas da bebê ,logo ela já queria conhecer a menina.
Por volta das sete, depois de despedidas e conselhos, todos foram embora.
Restaram apenas Sara, Luiza, Joyce e eu.
Joyce olhou pra Sara.
- Vamos conversar no pier. Nós quatro. Acho que temos assuntos a tratar.
Fomos.
Joyce se posicionou, cruzando os braços.
- Eu sei que vocês têm um passado e são amigas. Quero que você me diga, na presença da sua atual, que não tem a menor possibilidade de querer a minha mulher de volta.
"Minha mulher."
Senti um misto de felicidade e orgulho.
Luiza ficou tensa.
Sara riu.
- Bem, teoricamente, ela ainda é minha mulher. Não assinamos o divórcio... mas agora eu estou rendida pela versão mais divertida... que se encaixa perfeitamente em mim, na minha vida, no meu corpo...
- Ok! Ok! Já entendi! - Joyce interrompeu.
- Não se preocupe, Joy. Vamos ficar todas bem e felizes em nossos novos relacionamentos.
- Bem... só resta acreditar e esperar pra ver.
- Não, meu amor. Cabe a nós fazer dar certo.
- Amor...?
- Sim! Amor! Minha irritantemente linda namorada.
Joyce sorriu daquele jeito que meu coração mal conseguia suportar e me abraçou com carinho. E ali, naquele abraço, eu tive certeza: ela tinha sentido minha falta tanto quanto eu senti a dela.
- Passei o dia todo com saudade...
- Também senti a sua.
Era engraçado estar apaixonada.
Passávamos longos períodos juntas, mas cada pequeno momento longe parecia uma eternidade.
Eu me sentia como em um filme clichê, água com açúcar...
Mas quando suas mãos firmes seguraram minha cintura...
Tudo mudou.
Meu corpo estremeceu.
Minha pele arrepiou.
E quando seus lábios encontraram os meus...
O beijo começou suave, mas logo ganhou intensidade.
- Acho que devemos ir, Sara. Parece que estamos atrapalhando - Luiza disse.
- Vamos fazer isso também lá na minha casa - Sara respondeu.
Nos separamos.
- Acho que nos empolgamos um pouquinho. Peço desculpas.
- Não se desculpem. É difícil resistir ao toque quando estamos com alguém que gostamos.
Joyce ainda segurava minha mão.
- Vamos pra minha casa, Lu. Quero fazer o mesmo que elas.
- Sara!
- O quê? Somos todas adultas.
- Agora que você é dela... - falei - Sara vai te virar do avesso. Melhor ir se acostumando, Lulu.
- Laura! - Joyce riu.
- Isso vai ser tão estranho...
- O quê?
- A dinâmica entre nós quatro.
- Talvez no começo seja - respondi - mas já passamos pela parte mais difícil.
- Agora é só não complicar - Sara disse.
- E a gente é boa nisso - Joyce completou.
- Espero...
- Vem, Lulu - Sara puxou.
- SARA!
Nós rimos.
E elas foram.
Ficamos só nós duas. Conversamos sobre trabalho ,sobre nossas famílias e sobre o quanto o lago ficava irresistível a luz da lua. Estávamos próximas como um casal de velhinhas que contando histórias da longa vida que viveram e sem perceber desejei que esse fosse nosso futuro .De certa forma ,ali com ela ,eu não sentia falta da agitação da cidade grande .Na verdade quanto mais eu conhecia e convivia com as pessoas daquela cidade ,menos vontade de ir embora eu tinha . Queríamos ficar juntas naquela noite, mas ainda precisávamos ter cautela pra que a situação da noite passada não se repetisse então eu a levei pra casa .Senti um prazer gigantesco ao deitar na minha cama ,que saudades que senti da minha casinha. Dormi maravilhosamente bem e acordei ainda melhor .Pronta pra enfrentar o dia e tudo que viria seja bom ou ruim.
Fim do capítulo
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Luciane Ribeiro Em: 26/04/2026 Autora da história
Olá .Boa noite.Fiquei verdadeiramente feliz com seu comentário,saber que está gostando das meninas me incentiva a escrever cada vez mais.Grande abraço