Epílogo
A grande virada de chave na configuração familiar dos Fields não veio assinada por nenhum escritório burocrático de Mayfair, mas sim carimbada com o selo de embarque do aeroporto de Heathrow.
Dois meses após o fatídico e libertador final de semana em Hertfordshire, Althea Fields havia, para o desespero de um escandalizado tio Freddie, transferido sua base de operações para o vibrante e despojado distrito de Mitte, em Berlim.
A matriarca agora só pisava em solo londrino uma vez por mês - geralmente para presidir as reuniões de conselho com uma energia visivelmente renovada, usando ternos ligeiramente menos estruturados e exibindo um bronzeado discreto que ninguém ousava perguntar de onde vinha.
Sem a sombra constante e vigilante de Althea pairando sobre a capital, Londres havia se transformado no cenário de uma dinâmica completamente nova para Phoebe. Mas naquela manhã específica de domingo, o cenário já não era mais a sua cobertura impecável e silenciosa em Mayfair. Era o apartamento de Isla.
O relógio marcava pouco mais de oito horas quando a primeira ofensiva tática do dia começou. Não vinha na forma de uma ligação de emergência da Fields Cosmetics ou de Althea, mas sim de um peso de quatro quilos com pelos cinzas tigrado e um ronronar que lembrava o motor de um cortador de grama antigo.
Barnaby, o gato mais velho de Isla, havia se posicionado estrategicamente em cima do estômago de Phoebe. Logo ao lado, enroscada na dobra dos joelhos de Phoebe, estava Amélia, uma gata preta bem velhinha e também ranzinza que ela mesma havia resgatado no estacionamento da empresa e que parecia ter como única missão de vida garantir que ninguém mudasse de posição na cama sem a devida autorização felina.
- Cooper... - Phoebe balbuciou, a voz abafada pelo travesseiro posto sobre o rosto, sem coragem de abrir os olhos. - O seu destacamento de infantaria felina quebrou o perímetro de isolamento. De novo.
Isla soltou uma risada rouca e preguiçosa, vinda de algum lugar sob o edredom bagunçado. Um de seus braços subiu pela bagunça de lençóis, os dedos firmes encontrando a cintura de Phoebe e puxando-a para mais perto. O movimento causou um protesto imediato de Barnaby, que soltou um miado ultrajado antes de pisar deliberadamente no peito de Phoebe para se acomodar melhor no vão entre os ombros das duas.
- Eles estão apenas cobrando a taxa do condomínio, Fields - Isla murmurou, os olhos verdes abrindo devagar, cheios de uma malícia sonolenta. - O Barnaby é o dono do imóvel. Eu só assino os recibos.
- Ele é um chantagista - Phoebe reclamou, embora sua mão já estivesse, por puro instinto, coçando a base das orelhas do animal. - E a Amélia está prendendo a circulação das minhas pernas. Eu sou a CEO de uma multinacional, Isla. Eu não deveria ser feita de refém por criaturas que limpam o próprio corpo com a língua. Pelo menos o Napoleão está dormindo no sofá.
Napoleão ainda não havia aceitado completamente a nova inquilina Amélia, o que gerava com frequência estresses, pelos eriçados e fufus entre os dois.
- É bom para o seu ego - Isla brincou, inclinando-se para dar um beijo rápido e estalado na ponta do nariz de Phoebe, antes de apoiar a cabeça no braço, observando o desalinho da namorada. - Na Fields Cosmetics todo mundo diz "sim, senhora" para você. Aqui, se você não abrir a lata de sachê nos próximos dez minutos, o Barnaby vai começar a roer os seus sapatos de grife. É uma boa lição de humildade.
Phoebe sorriu, deixando o corpo relaxar contra o colchão, sentindo o calor da pele de Isla misturado à confusão de roupas de cama e patas macias que agora faziam parte de suas manhãs de domingo e que ela adorava. A rotina dos últimos dois meses havia sido exatamente assim: um misto de jantares executivos em Mayfair e noites dividindo o espaço reduzido da cama de Isla, aprendendo a ignorar os pelos no sofá e a valorizar o som da gargalhada rouca da chefe de segurança ao final de um dia exaustivo.
Ela olhou ao redor do quarto de Isla. Era um espaço prático, limpo, que exalava a personalidade sem rodeios da dona. Mas havia um detalhe novo: um canto do armário que agora exibia os suéteres de caxemira de Phoebe alinhados ao lado das jaquetas de couro de Isla, e uma coleção crescente de cremes de alta performance dividindo a prateleira do banheiro com as coisas da segurança.
Phoebe limpou a garganta, adotando um tom casual que não enganaria nenhum analista de mercado, mas que carregava uma ponta de timidez que ela raramente demonstrava.
- Pensando bem sobre essa questão de espaço e logística... - Phoebe começou, os olhos castanhos fixos no teto enquanto seus dedos continuavam o carinho em Barnaby. - A cobertura em Mayfair tem três quartos completamente vazios. E as janelas têm aquela proteção de vidro duplo que barrava a névoa de Londres, o que eu imagino que seja excelente para o controle térmico de felinos idosos.
Isla arqueou uma sobrancelha, o sorriso de canto se alargando.
- Onde você quer chegar com essa análise imobiliária, Fields?
Phoebe virou a cabeça no travesseiro, olhando bem no fundo dos olhos de Isla. A brincadeira sumiu por um instante, dando lugar a uma seriedade calorosa e decidida.
- Quero saber quando é que você vai aceitar unificar as nossas operações de moradia, Cooper. E se você cogitaria... bom, levar os seus dois assessores de segurança peludos junto com a Amélia. Nós poderíamos ser uma família. Lá na cobertura.
O quarto ficou silencioso por alguns segundos. Barnaby pareceu aprovar a menção aos três quartos vazios e soltou um ronronar ainda mais alto. Isla encarou Phoebe, a expressão mudando da diversão para algo profundo, tocado pela vulnerabilidade da pergunta. Ela esticou a mão, os dedos quentes traçando a linha da mandíbula de Phoebe com uma delicadeza que desarmava qualquer expressão protocolar.
- Uma família, é? - Isla repetiu, a voz mais mansa. - Você tem certeza de que a alta sociedade de Mayfair está preparada para ver a chefe de segurança de uma empresa do porte da Fields Cosmetics entrando e saindo da cobertura da CEO com sacos de areia para gatos e arranhadores de corda?
- A alta sociedade de Mayfair sobreviveu à minha mãe namorando um diretor de Berlim que usa tênis de corrida com terno de alta costura - Phoebe rebateu, com um sorrisinho confiante. - Acho que eles aguentam dois gatos, uma gata preta e um sofá ligeiramente arranhado. Além disso, eu sou a dona do prédio. Quem reclamar vai ter o contrato de aluguel revisto.
Isla soltou aquela gargalhada gostosa que Phoebe tanto amava, puxando a executiva pela nuca para um beijo longo, profundo e cheio de promessas. Barnaby, sentindo-se espremido entre os dois corpos que agora se moviam com uma urgência bem conhecida, soltou um miado de protesto e pulou da cama, seguido por Amélia.
- Bom... - Isla murmurou contra os lábios de Phoebe, as mãos descendo pelas costelas dela por baixo do pijama de seda. - Se a proposta inclui imunidade diplomática para os meus gatos e o privilégio de acordar com essa sua cara de brava todos os dias na cama da cobertura, acho que o meu comitê de aprovação vai aceitar o negócio.
- Excelente - Phoebe suspirou, entregando-se ao toque firme de Isla que começava a ditar o ritmo daquele início de domingo. - Considero o contrato assinado.
- Só tem uma condição, chefe - Isla sussurrou, mordendo de leve o lóbulo da orelha de Phoebe antes de descer os beijos pelo seu pescoço.
- Qual? - Phoebe balbuciou, já perdendo o foco.
- Quem vai limpar as caixas de areia na cobertura nova é você. É bom para manter a humildade em dia.
Phoebe soltou uma gargalhada limpa e escandalosa que preencheu o quarto, puxando Isla para mais perto enquanto os lençóis se bagunçavam de vez. Ali, longe das aparências e dos antigos fantasmas aristocráticos, a gerência da vida de Phoebe Fields finalmente havia encontrado o seu melhor investimento.
Fim do capítulo
Senhoras e senhoritas
Espero que tenham apreciado a história de Isla e Phoebe tanto quanto eu ao escrevê-la. O objetivo foi proporcionar romance e diversão de forma leve.
Algumas notas:
Em um universo paralelo, muito parecido com este nosso, existe uma humilde autora de textos e romances, que realmente considera portas de geladeiras bem hostis, rsrsrs.
E que escreve calçando suas pantufas do Garfield no inverno. Nos horários de folga, há sempre um livro de bolso do nosso gato laranja preferido, se bem que isso sempre provoca ciúmes nos outros sete gatos bem gordinhos e reais que estão sempre orbitando por perto, enquanto ela escreve seus textos.
E mais um esclarecimento: boatos de que o Grande Golpe do Coelho de Natal realmente ocorreu, só que em 1987. rsrsrs
Um abraço e até a próxima aventura!
Lady Texiana
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Nadine Helgenberger
Em: 15/06/2026
Adorei!! Dose certa de humor, paixão e atritos...e muito bem escrito. Lí tudo em poucas horas, não fosse eu uma devoradora de letras rsrsrs. Parabéns!
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HelOliveira
Em: 13/06/2026
Meu Deus o golpe do coelho é real kkkkkk
Obrigada por compartilhar me diverti muito lendo essa história...
Bom saber dessas curiosidades
Já estou com saudades, todos dias já ficava esperando as atualizações dos capítulos
Lady Texiana
Em: 17/06/2026
Autora da história
Simmm
O coelho de natal foi real, kkkkk.
Obrigada pelo carinho.
Abraços.
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Socorro
Em: 12/06/2026
Autora,
primeiramente .... PARABÉNS amei acompanhar essa história leve e gostosa vou sentir saudades...
volta logo ...
Lady Texiana
Em: 17/06/2026
Autora da história
Querida
Obrigada por ler e compartilhar suas impressões!
Agradeço de coração por todos os comentários.
Abraços.
Ps. pretendo voltar em agosto.
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Lady Texiana Em: 17/06/2026 Autora da história
rsrsrs
Querida
Obrigada mesmo por ler e por compartilhar sua opinião. Estou muito feliz que você tenha apreciado.
Abraços