Capitulo 22 - O Efeito Berlim e Outras Confissões Diplomáticas
O relógio de pêndulo no topo da escadaria principal marcava exatamente três horas da manhã quando a porta do antigo quarto de Phoebe se fechou, silenciando o eco distante dos últimos passos dos convidados pelo saguão de mármore. O jantar de sábado e a recepção que se estendeu pela madrugada haviam sido, contra todas as expectativas de Phoebe, a noite mais divertida e surpreendente da história da família.
Com o anúncio de Althea virando a noite de cabeça para baixo, os comentários maldosos de Arthur e Julian foram completamente sufocados pela presença de Gabriel. O tio Freddie, que adorava ser o centro das atenções e ditar as regras do jogo, passara o resto da festa emburrado num canto com seu copo de uísque, incapaz de competir com o charme e a simpatia do namorado alemão de sua cunhada.
Isla fechou o trinco da porta com um clique suave, tirando o paletó do terno escuro e jogando-o de qualquer jeito sobre a poltrona de veludo no canto.
- Se alguém me dissesse no início desta semana que eu terminaria o sábado assistindo à sua mãe dar uma patada daquelas no seu tio por causa de um namorado bonitão de cinquenta e poucos anos, eu ia achar que era brincadeira de mau gosto - Isla comentou, com a voz ainda mais rouca pelo cansaço e pelos drinks tomados, enquanto começava a abrir os botões da camisa branca.
Phoebe, que já estava desfazendo o fecho do vestido verde-escuro diante do espelho, soltou uma risada gostosa, balançando a cabeça.
- Nem me fale. Eu ainda estou tentando processar a imagem do meu tio engasgando com a bebida. E a Penélope acabou com a raça dos dois idiotas do Arthur e do Julian para o resto do ano. Estou de alma lavada.
Isla caminhou até ela, parando logo atrás. Suas mãos firmes encontraram os ombros de Phoebe, afastando o tecido de seda para os lados e deixando o vestido escorrer pelo corpo da executiva até o chão. O contato da pele nua com o ar frio do quarto sumiu no instante em que Isla a puxou contra o próprio peito, envolvendo-a num abraço apertado e encostando os lábios na curvatura de seu pescoço, bem em cima da marca que iniciara toda a confusão com os primos no jantar.
- Você foi maravilhosa hoje, Phoebe - Isla sussurrou, as mãos descendo pela cintura dela, apertando a pele nua com um carinho possessivo e gostoso. - Me ajudou a sobreviver ao interrogatório na biblioteca, encarou a família inteira de cabeça erguida e ainda deu o maior apoio para o namoro da sua mãe. Acho que você merece um prêmio.
Phoebe virou-se no abraço, colando os braços ao redor do pescoço de Isla e olhando bem no fundo daqueles olhos verdes que pareciam ainda mais bonitos sob a luz fraca do abajur.
- O meu único prêmio aceitável agora, Cooper, são algumas horas de sono com você bem grudada em mim nesta cama.
Isla sorriu de canto, beijando-a com intensidade, deixando Phoebe excitada com uma facilidade que sempre a fazia perder o fôlego, e caminhou a empurrando em direção aos lençóis macios. Daquela vez, nenhuma das duas se importou em amassar a cama perfeitamente arrumada.
***
O domingo amanheceu com aquela luz preguiçosa e cinzenta do interior inglês, se espalhando de leve pelas frestas das cortinas de linho. Quando Phoebe finalmente abriu os olhos, o celular na mesa de cabeceira marcava pouco mais de dez horas. Era uma quebra de hábitos impressionante, para quem costumava pular da cama antes das seis, mesmo nos finais de semana, cheia de preocupações na cabeça e a atenção voltada para os resultados das bolsas de valores pelo mundo.
Ao seu lado, Isla ainda dormia de bruços, com metade do corpo coberta pelo edredom e um dos braços jogado por cima da cintura de Phoebe, segurando-a como se não quisesse deixá-la escapar. A respiração de Isla era pesada e calma. Sob a luz fraca da manhã, as cicatrizes discretas - algumas bem recentes, como os arranhões avermelhados que Phoebe havia deixado - em suas costas e ombros pareciam suavizadas pelo desalinho dos lençóis.
Phoebe não se moveu. Ficou ali por longos minutos, apenas curtindo o rosto relaxado de Isla, sentindo o calor da pele dela contra a sua. Ela esticou a mão livre e começou a acariciar os cabelos loiros e bagunçados de Isla, um carinho suave que fez a outra resmungar baixinho e apertar ainda mais o abraço, puxando Phoebe para mais perto, até que seus narizes se tocassem.
- Você está acordada há muito tempo, meu bem? - Isla perguntou, sem abrir os olhos, a voz saindo num tom tão baixo e rouco que fez um arrepio gostoso correr pela espinha de Phoebe.
- O suficiente para ver que a minha... - Phoebe hesitou por um segundo, testando as palavras na mente antes de continuar com um sorriso corajoso - ...que a minha namorada de... - Pigarreou. - De mentira está muito preguiçosa hoje às dez da manhã.
Isla abriu um dos olhos, dando um sorriso de canto que fez covinhas surgirem em seu rosto.
- "Namorada de mentira"? Pensei que o status havia se alterado substancialmente desde a primeira noite que trans*mos, Fields.
Phoebe deu uma risada baixa, mas seu olhar se tornou mais focado, brilhando com uma intensidade muito íntima. Ela ajeitou uma mecha de cabelo do rosto de Isla, deixando a mão repousar na bochecha dela, sentindo a pele quente e suave do rosto dela.
- Sabe, Cooper... Eu passei o fim de semana inteiro inventando desculpas para mim mesma e criando estratégias para explicar a sua presença aqui e mais ainda na minha rotina, que devo dizer, você alterou permanentemente. Mas a verdade é que, quando eu vi você enfrentando o meu tio na biblioteca e rindo com a minha prima no salão, eu não consegui focar em nenhuma desculpa de mentira nem para mim e nem para os outros. Eu só consegui pensar na sorte que eu tenho por ter você aqui comigo e no quanto você descontruiu as minhas barreiras.
Isla abriu o outro olho, a postura descontraída dando lugar a uma atenção profunda. Ela não disse nada, apenas continuou acariciando a cintura de Phoebe, esperando onde aquela conversa ia dar.
- Então... - Phoebe respirou fundo, o coração batendo um pouquinho mais rápido contra o peito. - Eu quero rasgar o roteiro de fachada que a gente combinou em Londres no início disso tudo. Isla Cooper, você aceita ser minha namorada? De verdade. Sem cláusulas de confidencialidade, sem encenação para a minha mãe e sem prazos de validade?
O silêncio que se instalou no quarto foi quebrado apenas pelo som do vento lá fora. Isla encarou Phoebe por alguns segundos, aqueles olhos verdes escaneando o rosto da executiva até ter certeza absoluta de que ela estava falando sério. O sorriso que nasceu nos lábios da chefe de segurança foi o mais aberto e sincero que Phoebe já tinha visto.
Isla puxou Phoebe pela nuca, colando as testas das duas.
- Fields, você é a CEO mais teimosa, desastrada e mandona que eu já conheci na minha vida - Isla sussurrou, a voz carregada de um carinho profundo. - Mas eu seria uma idiota se deixasse você escapar de mim. É claro que eu aceito. Já era hora de você oficializar essa contratação.
Phoebe sorriu aliviada e selou os lábios nos de Isla num beijo calmo, demorado e cheio de certezas, sentindo o peso de todas as aparências desaparecer por completo. Quando se afastaram, Isla deu um tapinha leve na coxa de Phoebe por cima do edredom.
- Agora que o contrato está assinado e o status atualizado, o perímetro deve estar seguro. O seu tio provavelmente está trancado no escritório tentando lamber as feridas do orgulho ferido e os primos não devem ter acordado ainda do nocaute que a Penélope deu neles ontem à noite. Nós temos todo o tempo do mundo.
Phoebe suspirou, apoiando a cabeça no peito de Isla, ouvindo as batidas calmas do coração dela.
- Sabe... pensando bem agora, eu devia ter desconfiado que a minha mãe estava aprontando alguma - Phoebe comentou, olhando para o teto. - No final de semana passado, quando ela foi até o meu apartamento em Londres e bebeu aquelas taças de vinho a mais... lembra? Quando ela começou a desabafar? Falou todas aquelas coisas a nós duas. Falou sobre como a vida era curta para passar o tempo todo fingindo ser perfeita para os outros. Na hora, achei que fosse só por causa do tédio em que ela vivia, das pressões sociais que ela própria sempre estimulou. Mas agora tudo faz sentido. Já era o efeito desse namoro mexendo com ela.
Isla soltou uma risada gostosa, o peito vibrando sob a cabeça de Phoebe enquanto sua mão subia para acariciar as costas nuas dela.
- A dona Althea estava só criando coragem para soltar a bomba, Phoebe. E pelo que eu vi ontem, o tal do Gabriel sabe muito bem como fazer ela feliz. A sua mãe parecia até mais... humana.
- Mais humana é pouco - Phoebe riu, levantando a cabeça para olhar para Isla. - Ela defendeu você na frente do tio Freddie. Ela jogou na cara do meu tio que ele sai com garotas bem mais novas e que ela nunca se meteu na vida dele por isso. Eu passei a vida inteira ouvindo essa mulher ditar regras de etiqueta e convenções sociais, Isla. Ver ela chutar o balde daquele jeito foi a melhor coisa em toda a minha vida.
- O amor faz milagres pelas pessoas, até pelas mais duras - Isla brincou, dando um tapa leve e carinhoso na coxa de Phoebe por cima do lençol. - Agora anda, vamos levantar. Estou morrendo de fome e aposto que o café da manhã dessa casa deve ter alguma coisa maravilhosa para se comer.
***
Vinte minutos depois, devidamente banhadas e vestidas com roupas confortáveis - Phoebe de calça de moletom e suéter solto - uma novidade no vestuário sempre tão formal que ela costumava usar - Isla de calça jeans e uma camiseta cinza que marcava bem seus ombros largos e bem definidos -, as duas desceram a imensa escadaria em direção à cozinha. O cheiro de café fresco, bacon frito e waffles quentes guiava o caminho.
Quando cruzaram a porta da imensa cozinha cheia de panelas de cobre penduradas, a cena que encontraram foi mais um choque para Phoebe. Ela estacou, atordoada com a cena na cozinha. Isla, que vinha atrás, quase colidiu com as costas de Phoebe, colocando as duas mãos na cintura dela para estabilizar.
Althea Fields não estava sentada na ponta da mesa esperando ser servida por ninguém. Ela estava de pé, ao lado da bancada central de mármore, vestindo uma calça clara e uma camisa informal com as mangas dobradas até os cotovelos. Ela segurava um batedor de arame e misturava uma massa de panquecas com uma alegria contagiante, enquanto Gabriel, encostado na pia com uma caneca de café na mão, dava risada de alguma coisa que ela dizia.
Os funcionários da casa se movimentavam ao redor num ritmo tranquilo, e o clima geral parecia mil vezes mais leve do que o habitual domingo tenso da família.
- Bom dia, meninas - Althea anunciou assim que ouviu os passos, levantando os olhos com um sorriso radiante, sem nada daquela pose séria do dia anterior. - Pensei que vocês fossem passar o domingo inteiro trancadas no quarto, embora não possa condená-las por isso. - Disse em tom de galhofa. - Sentem-se, o café está fresquinho.
Phoebe piscou, parando no meio da cozinha e olhando para a mãe como se estivesse diante de uma invasão extraterrestre.
- Bom dia, mãe... Gabriel - Phoebe cumprimentou, sentando-se numa das banquetas altas da bancada. Isla sentou logo ao lado, olhando tudo com um brilho divertido nos olhos verdes. - Eu nem lembrava que você sabia bater uma massa de panqueca.
- Eu tenho muitas surpresas guardadas, Phoebe. Você é quem passa tempo demais preocupada com os negócios para reparar nessas coisas - Althea rebateu com uma piscadela carinhosa, virando uma panqueca na chapa com perfeição. - E o Gabriel me ensinou que os domingos em Berlim são muito mais gostosos assim, com a mão na massa. Tive que aprender a relaxar.
Gabriel deu um sorriso simpático para as duas, estendendo a mão para Isla sobre a mesa.
- Bom dia, Isla. Phoebe. Soube que a partida de críquete ontem foi inesquecível. O Arthur ainda está tentando tirar a lama dos sapatos dele no banheiro social.
- Ele não soube escolher o calçado para o terreno molhado, Gabriel - Isla respondeu, apertando a mão dele com firmeza e soltando uma de suas risadas roucas. - Acabou levando a pior.
Althea colocou um prato cheio de panquecas douradas e bacon bem no centro da bancada, na frente de Isla e Phoebe. Ao fazer isso, ela olhou de relance para o pescoço de Phoebe. Sob a luz clara da cozinha, as marcas deixadas por Isla ainda estavam ali, mas a executiva já não parecia se importar nem um pouco em escondê-las.
- Comam enquanto está quente - Althea disse, pegando sua xícara de chá. - E vejo que o fim de semana no interior te fez muito bem, Phoebe. Você está até com mais cor no rosto. Normalmente você chega aqui parecendo um fantasma, branca como os papeis das suas planilhas de custos.
- O interior é ótimo, mãe - Phoebe respondeu, pegando uma panqueca. - Mas acho que o verdadeiro motivo é outro... eu também andei convivendo muito bem com os gatos da Isla na última semana em Londres e, surpreendentemente, a minha alergia sumiu por completo. Acho que ganhei imunidade de tanto ficar perto deles.
Althea parou por um segundo, apoiando as mãos na borda da bancada e olhando para a filha com uma expressão intensa misturada com um pouquinho de arrependimento. Ela soltou um suspiro longo.
- Fico muito feliz por isso, querida. De verdade - Althea começou, com a voz bem mais mansa e sincera, o que fez Phoebe parar com a caneca de café no meio do caminho. - Olhando para vocês duas ontem... e vendo o quanto você conseguiu dar risada e se divertir naquele jardim... eu percebi uma coisa. Eu passei anos da minha vida tentando moldar você para ser perfeita, a filha implacável que nunca erra, que está sempre impecável. Eu cobrei casamentos, cobrei postura, cobrei que você seguisse a mesma vida rígida que eu segui.
Gabriel colocou a mão confortavelmente sobre as costas de Althea, dando um apoio silencioso que ela aceitou com um leve aceno de cabeça.
--- Mas a verdade - Althea continuou, olhando fixo nos olhos de Phoebe - é que toda essa rigidez quase me secou por dentro. E ver que você encontrou a sua própria felicidade, longe das regras bobas que eu mesma criei, abriu os meus olhos. A Isla trouxe de volta uma versão sua que eu achei que tinha sumido quando você ainda era criança. Uma versão que sabe dar uma gargalhada sem se importar com o que o Freddie ou os primos vão achar. E por isso, eu só tenho a agradecer a ela.
Phoebe engoliu em seco, sentindo os olhos marejarem diante do desabafo tão sincero da mãe. Em toda a sua vida, ela nunca tinha visto Althea Fields admitir um erro ou pedir desculpas por o que quer que fosse.
Isla, sentindo o clima ficar emocionado demais, estendeu a mão por baixo da bancada e deu um aperto carinhoso no joelho de Phoebe. Em seguida, Isla limpou a boca com o guardanapo e olhou para a sogra com um sorriso largo e brincalhão.
- Bom, dona Althea... se a senhora continuar me elogiando desse jeito, vou começar a achar que mereço um aumento pelo meu trabalho cuidando do coração da sua filha - Isla ironizou, quebrando o gelo com aquele seu jeito descontraído.
Althea soltou uma risada clara, um som leve que Phoebe raramente ouvia. Ela apontou o batedor de ovos na direção de Isla, com os olhos brilhando de diversão.
- Ah, não abuse da sorte, Cooper. Eu gosto de você, mas ainda sou pão-dura. E aliás... "dona Althea" é formal demais para quem passou o sábado defendendo você na biblioteca. Pode me chamar de Althea. Ou de sogra, se você preferir, já que o namoro de vocês agora é mais do que oficial.
Phoebe quase se engasgou com o café, ficando vermelha na hora enquanto olhava para as duas.
- Sogra? - Phoebe repetiu, com a voz sumindo. - Mãe, por favor! Nós estamos juntas há o quê, duas semanas? ... quer dizer... - ela olhou para Isla com um sorriso radiante - ...oficialmente desde hoje de manhã. Não comece a correr com as coisas.
Gabriel soltou uma gargalhada alta, se divertindo com a situação.
- Deixe a sua mãe, Phoebe. Em Berlim a gente faz as coisas rápido. Se o relacionamento é bom, não tem por que perder tempo.
Isla se inclinou na bancada, apoiando o cotovelo e olhando para Althea com uma cumplicidade de dar inveja, fazendo Phoebe balançar a cabeça, fingindo estar brava.
- Sogra me parece ótimo, Althea - Isla aceitou a brincadeira, piscando para a mãe de Phoebe. - Em termos de segurança operacional, esse vínculo só fortalece a nossa parceria. Mas já vou avisando: se o seu cunhado tentar me dar outro sermão no almoço, a senhora vai ter que me pagar um jantar para compensar.
- O Freddie está bem controlado, Isla. O Gabriel prometeu explicar para ele como funcionam os negócios de tecnologia dele antes do almoço. Tenho certeza de que a cabeça do meu cunhado vai dar um nó que não vai se desfazer até o chá das cinco - Althea respondeu, rindo e voltando a cuidar das panquecas.
Phoebe olhou para as duas conversando cheias de intimidade na cozinha, depois olhou para Gabriel, que apenas piscou de volta com um sorriso cúmplice. Toda aquela pose fria e dura da matriarca da família Fields tinha ido por água abaixo.
E enquanto comia sua panqueca, sentindo a mão firme de Isla encontrar os seus dedos por cima da mesa e apertá-los com força, Phoebe teve a certeza de que a sua vida nunca esteve tão protegida e cheia de amor. O domingo estava apenas começando, e a sua família finalmente parecia de verdade.
Fim do capítulo
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