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A volta do amor que nunca se foi por priskelly

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Palavras: 6166
Acessos: 304   |  Postado em: 08/06/2026

Capitulo 25

Por Marcela

 

Estava se tornando um hábito almoçar na companhia de Hanna, e como de costume, naquele dia não foi diferente: O momento compartilhado foi agradável. A verdade, é que cada dia estávamos ainda mais próximas, e verdadeiramente apaixonadas. Eu tinha como negar que Hanna estava me fazendo sentir muito feliz desde que retornou para minha vida. Ela me fazia sentir viva de verdade como há muito tempo não me sentia. Era como se nada fosse capaz de nos afetar negativamente. Pelo menos era isso que eu pensava até o fim daquela tarde, onde por um momento tive a certeza que em questão de segundos somos capazes de ir do céu ao inferno.

– Hanna, o que está acontecendo? Essa já é a terceira vez que você para e olha para trás. – Perguntei para minha namorada que parecia impaciente com alguma coisa. 

– Eu não sei amor, eu só... Estou com uma sensação estranha de estar sendo observada. 

Olhei na mesma direção para onde Hanna olhava. Muitas pessoas estavam em nossa volta, já que estávamos no meio da rua indo em direção onde deixei o carro estacionado. Contudo, nenhuma daquelas pessoas pareciam de fato estar prestando atenção em nós. Na pressa do dia a dia, cada uma delas estavam mais preocupadas na verdade em seguir seu próprio caminho enquanto nós duas estávamos paradas como estátuas impedindo-as de passar.

– Amor, por favor. Não tem ninguém nos observando. – Tentei tranquilizá-la. – mas vão acabar nos xingando se continuarmos impedindo-as de passar. Vem, vamos para o carro!

Olhei para Hanna que ainda parecia com os olhos perdidos no meio da pequena multidão. 

– Anda, Hanna. Vamos embora! – Segurei sua mão e sai puxando-a lentamente. 

– É, você tem razão. Deve ser apenas coisa da minha cabeça. – A voz dela soou desanimada. 

– Aconteceu alguma coisa? Você não parece nada bem, e eu estou começando ficar preocupada. 

– Não é nada! Acho que estou ficando com enxaqueca. 

– Quer ir para casa? – Não pude conter a preocupação.

– Não, amor. Eu vou ficar bem. 

Quando finalmente chegamos onde o carro estava, mantendo minha atenção concentrada em Hanna, abri a porta para que ela pudesse entrar. A verdade é que eu nunca tinha visto ela tão pálida como naquele momento. Alguma coisa realmente estava deixando ela incomodada. 

– Você tem certeza que não quer ir para casa? – Perguntei novamente quando entrei no carro.

– Pode ficar tranquila, meu bem. Está tudo bem! É apenas um mal-estar. – Respondeu me fazendo um carinho no rosto. 

Logo chegamos na empresa e seguimos juntas para nossas salas. Mas eu estava incomodada com aquela mudança de humor repentina de Hanna. Eu já tinha prestado atenção que nos últimos dias, aquela instabilidade emocional estava se tornando frequente. Uma hora Hanna estava bem, e em poucos minutos já estava em um precipício de nervosismo.

– Me desculpa! Acho que acabei estragando tudo, não é? – Ela murmurou. 

– Não! Não estragou nada. Eu só estranhei a mudança em seu humor. Digamos que foi repentina demais. Na verdade, você anda estranha ultimamente. 

– Não se preocupe! Eu só ando meio estressada com o trabalho. 

– Algum problema com o setor? 

– Tem estado mais intenso, ultimamente. Mas nada com o qual eu não consiga lidar. – Ela garantiu. – Quanto a hoje, eu realmente senti que estávamos sendo observadas. Meu coração apertou de um jeito estranho. Deve ser bobagem, não é? Coisa da minha cabeça.

Olhei para a mulher ao meu lado que parecia inexplicavelmente abalada. A puxei para junto do meu corpo e depositei um beijo em sua testa na tentativa de transmitir segurança.

– Tudo bem! Não precisa se preocupar. Eu não estou chateada, ok?

Hanna sorriso fraco e apenas concordou com um aceno.

A porta do elevador se abriu e juntas seguimos em direção ao espaço que dava acesso a nossas salas. Naquele momento sequer imaginávamos o inferno que estava prestes a iniciar. 

– Senhorita Hanna, esse senhor está a sua espera. – Dona Marta falou educadamente. 

Assim que ela buscou contato visual com aquele que estava sendo anunciado, a vi ficar ainda mais pálida que antes. Eu não compreendia o que aquilo significava, e quando sustentei o olhar do homem que estava a sua espera, entendi menos ainda o motivo por trás daquela reação. O homem que de aparência não parecia ser tão mais velho que meu pai, era bem apresentado, estava bem vestido, e mantinha uma postura digna de alguém que mantinha boa relação na sociedade. Na verdade, não tinha como negar que ele parecia exalar mesmo uma pontada de soberba, o que era um contraste com as pessoas do ciclo de convivência da mulher ao meu lado. Por outro lado, existia no olhar daquele homem, um cansaço diferente… Eu não saberia explicar mesmo que tentasse. 

Busquei o olhar da minha namorada na tentativa de encontrar algo que explicasse o porquê de repente sua mão ficou tão fria. Mas me preocupei de verdade quando me dei conta que a mesma estava em estado de choque. Em seus olhos encontrei pavor claro e absoluto, enquanto sua pele estava branca feito cera.

Não existiu nenhuma troca de palavras, mas a atmosfera que os sustentava, era carregada quase como se fosse incapaz de respirar. Os dois mantiveram aquele contato visual carregado por sentimentos que ninguém mais parecia ser capaz de compreender o significado. Foram poucos segundos… Tudo pareceu acontecer em câmara lenta,. Em um momento ela estava ali encarando o homem à nossa frente, e no outro já estava completamente apagada. Eu só tive tempo para ampará-la antes de que seu corpo atingisse o chão provocando a ela algum machucado. 

– ALGUÉM AJUDA AQUI... SOCORRO! – Me desesperei enquanto sustentava seu corpo em meus braços.

 

Por Hanna

 

Não somos capazes de conseguir descrever a sensação que sentimos provocada pelo o afeito de um desmaio. Tudo acontece muito rápido, e o corpo só se dar conta que algo está errado quando retornamos de um mundo paralelo. É uma mistura de sentimentos que vão ocorrendo tão rapidamente e quando percebemos já estamos sentindo nossos pés flutuando nos levando para uma outra dimensão. Tudo vai ficando embaçado e aos poucos escurece de vez, como se a vida perdesse toda cor. 

Eu conseguia ouvir vozes ao meu redor, mas não conseguia identificar nada do que era falado ou quem estava falando. Sentia também meu corpo amolecido, sendo carregado por alguém. Eu até tentava falar, gritar, dizer que me deixassem exatamente onde eu estava, mas minha voz ficava presa na garganta, como se o pavor que o rosto daquele homem me trouxe, tivesse me tirado a capacidade de viver.

Aos poucos senti um cheiro forte de álcool dominando meus sentidos, mas meu cérebro relutou de todas as formas em retornar. Existia um espírito apavorado em meu coração. Se retornar significasse que eu precisava voltar encarar aquele homem, eu não queria voltar. 

Eu não sabia a quanto tempo exatamente estava vivendo aquela guerra interna, mas aos poucos meus olhos foram abrindo e encontrando dificuldades para se acostumar com o incômodo que aquela forte luz branca que os atingiam provocava. 

Me sentindo perdida e com medo, olhei para os lados em busca de qualquer indício de que tudo aquilo não passava de um maldito pesadelo, então meu coração disparou quando Marcela entrou no meu campo de visão. Sua expressão era de puro pavor enquanto ela se mantinha sentada ao meu lado, mas pareceu aliviar um pouco quando sustentou meu olhar.

Demorou um pouco para que me situasse de onde estava, mas logo notei que estava deitada no sofá que ficava na sala de Marcela. Tentei forçar um pouco a memória para lembrar detalhes do que havia acontecido e não demorou para que pequenos flashes surgissem lentamente como um filme rebobinando. Não era um pesadelo! Meu coração começou a bater mais forte quando aquele rosto familiar, porém indesejável, surgiu em minha mente. Me desesperei e rapidamente quis me levantar dali, mas fui impedida pelas mãos de Marcela que me conteve.

– Ei, calma ai. Está tudo bem amor, eu estou aqui. Você não pode se levantar assim, você acabou de desmaiar. – Sua voz tentava soar calma, mas meu desespero não me deixava ser envolvida por ela. 

– Me digam que é mentira. Me digam que ele não está aqui. Isso é um pesadelo. – Comecei a me desesperar e vi Marcela buscar os olhos da minha irmã em um pedido silencioso por socorro.

– Calma, Hanna. Você precisa se acalmar e nos ouvir. – Micaela tinha uma voz firme, mas ainda assim era possível sentir que existia medo em suas palavras.

Marcela me envolveu em seus braços com cuidado e me puxou para junto do seu corpo. Por um instante ninguém ousou em falar nada naquela sala. Todas que estavam em minha volta como uma rede protetora, também pareciam tomadas por um choque opressor, mas ainda assim estava, dispostas a esperarem o tempo que fosse necessário pelo meu tempo. 

Enquanto o silêncio reinava, eu só conseguia lembrar do rosto daquele homem que tinha visto pela última vez diante de um tribunal que havia condenado seu filho anos atrás. O que ele poderia querer comigo? Por que ele estava no meu local de trabalho? E pior, por que estava a minha procura?

Senti lágrimas silenciosas escorrerem pelo meu rosto e morrendo em meus lábios, deixando apenas o rastro de gosto salgado. Meu corpo tremia involuntariamente nos braços de Marcela, que me apertava ainda mais contra o seu.

– Amor, se sente melhor? – Ela me perguntou em um sussurro, quase como um sussurro. 

– Eu estou com medo do que vou ouvir de vocês. Eu não quero saber. – Falei em um fio de voz. 

– Hanna, você realmente precisa nos ouvir. O Jorge Mascareno, ainda está ai fora, e o caso é importante. Você precisa recebê-lo. – Micaela, embora cautelosa, ainda assim foi direta. 

– Amor, presta atenção. Você não está mais sozinha! Eu estou aqui, e não vou te largar. Mas sua irmã tem razão. Você precisa encarar isso.

Estava claro que Marcela já sabia de quem se tratava aquele homem. Provavelmente Micaela havia explicado tudo o julgar ser necessário. Era possível ver no olhar de Marcela, que embora ela estivesse me repassando força, ela cultivava um névoa de puro ódio. 

Com muita dificuldade e apoio da minha namorada, amigas e irmã, eu resolvi que iria ouvir o que aquele homem tinha para falar. Daniela, séria como jamais esteve antes, autorizou a entrada dele na sala. Marcela não saiu do meu lado um só minuto, o que agradeci mentalmente, pois ela sequer podia imaginar que estava sendo o meu sustento naquele instante. Micaela sentou no meu outro lado, e ficamos as três paradas observando a entrada do homem, enquanto Renata seguiu em pé, quase como uma segurança pronta para atacar.

– Desculpem! Eu não queria causar nenhum transtorno, especialmente para você, Hanna. – Ele falou mantendo seu olhar fixo em mim.

Nada consegui responder. Encolhi no corpo junto ao da minha namorada em busca de proteção. 

– O senhor poderia ir direto ao assunto? Não temos muito tempo para perder com sua pessoa. Hanna está abalada demais, se não percebeu. – A voz de Marcela foi cortante, dura e fria. 

– Você quem é? – Ele perguntou olhando para Marcela com certa curiosidade. 

– Marcela Bettencourt, namorada da Hanna. – Ela soou firme. – Devo deixar claro que sua visita não nos agrada nem um pouco.

– Eu entendo o sentimento de vocês em relação a mim, e tudo que posso representar. Mas acreditem, eu estou aqui em missão de paz. Não tenho interesse em prejudicar ninguém.

A voz do homem deixava claro o desconforto que ele também sentia, e aquilo me assustava cada vez mais. 

– Ok! Vamos acalmar os ânimos. – Daniela interferiu de forma calma, atraindo para si a atenção do homem que visivelmente estava tenso. – Sr. Jorge, poderia nos dizer o que lhe trouxe aqui? 

Ele logou voltou a buscar meu olhar.

– Eu gostaria de falar com você Hanna, de preferência a sós. 

– De jeito nenhum!

Marcela interferiu em um tom ríspido. Quase cortante. O que atraiu a atenção do mais velho que a olhou sem qualquer receio em mostrar seu desconforto diante dela. 

– Marcela tem razão! Se o senhor tem algo para falar com ela, terá que ser na nossa frente. – Micaela levantou-se encarando o homem. 

Assim como Marcela, minha irmã estava controlando a própria raiva provocada pela presença do outro.

– Já que é assim… – Ele intercalou seu olhar entre todas nós, mas por fim parou no meu. – Eu sei que naquela época fizemos um acordo onde determinava que jamais voltaríamos nos ver. Mas achei que seria importante você saber o que está acontecendo agora. Vou direto ao assunto pois não sou homem de rodeios. Há poucos dias fui informado que Jefferson fugiu da penitenciária. Ele está sendo procurado pela justiça e, devido ao seu comportamento enquanto preso, ele é considerado um criminoso perigoso.

Meu corpo estremeceu ao ouvir a informação. Senti como se fosse perder os sentidos novamente, mas Marcela me apertou em seus braços e uma calmaria me atingiu, porém não o suficiente para me fazer não sentir o impacto do que aquilo significava.

– Inicialmente eu não tinha nenhuma ideia do seu paradeiro. Até coloquei alguns homens particulares para tentar localizá-lo, mas sem sucesso. Contudo, hoje cedo fui surpreendido por ele. 

Assim como eu, todas pareciam ter prendido o ar. Minha irmã adotou uma postura protetora ao meu lado, não tão diferente de Marcela, e então o homem continuou a despejar aquela realidade cruel. 

– Posso te assegurar que ele se tornou um homem transtornado. 

– Ele não se tornou um homem transtornado. Pelo o visto, ele sempre foi. – Marcela encarou o mais velho com certa fúria, agora sem conseguir manter contida. – Seu filho é um crápula. Um bandido da pior espécie.

– Calma Marcela. – Renata a conteve.

O homem a olhou de cima a baixo. Era notório que embora ele estivesse ali em uma posição que não o favorecia em nada, ainda assim os respingos da sua soberba eram enraizados em si. Ele olhava para Marcela com desprezo, e em seguida olhou para mim. 

– Eu tentei incentivá-lo a se entregar, mas... Eu não reconheço mais o meu filho. Ele não é o homem que criei para que se tornasse. Ele está completamente louco, senhorita Prado. 

– O que ele falou para o senhor? – Micaela o questionou com frieza.

– Ele queria dinheiro. Claro que prontamente eu neguei, e isso o que o deixou ainda mais enfurecido. Mas eu não posso sujar a minha imagem que levei anos para construir, por causa dos destemperamentos de Jefferson. 

– E onde Hanna entra nessa história? – Micaela voltou a questionar, agora com impaciência.

O mais Velho suspirou pesado, mantendo seu olhar no meu.

– Para ser bem mais direto, ele está jurando vingança de todos os que ele julga ser responsável pelo inferno que sua vida se transformou, entre esses... Você, senhorita Prado. Eu aconselho que a partir de hoje, enquanto ele não for pego, você seja cautelosa e tenha cuidado com sua própria vida. Nós dois sabemos que hoje não é somente você. 

Eu tentava absorver todas aquelas palavras ditas por ele, especialmente as últimas que logo compreendi sobre o que se tratava. Ou melhor, sobre quem. Nesse momento, ao ter meus pensamos levados até minha filha, estremeci nos braços de Marcela. Aquilo parecia ser um verdadeiro pesadelo que eu jamais imaginei viver. O passado literalmente estava voltando para me atormentar, e eu não me sentia preparada para enfrentar aquilo tudo. O medo tomava conta do meu coração e logo meus pensamentos voaram em direção à Gabriela. Agora não era apenas a minha vida em perigo, tinha também a vida da minha filha, que era apenas uma criança indefesa. Uma criança que não conhecia a crueldade do mundo, e sequer sabia da crueldade que fazia parte da sua história. Quando os pensamentos do que poderia acontecer com ela, surgiram em minha mente o medo deu lugar ao desespero. 

– Bom, eu acho que já tomei demais o tempo de vocês, mas eu precisava informar para você Hanna, sobre o que está acontecendo. Não tive chance de fazer isso no passado… Quero dizer, impedir que de alguma maneira meu filho te causasse mal. Mas no presente tive pelo menos a oportunidade de alertar. Saiba que eu nunca aprovei o que meu filho fez a você. Eu nunca concordei com as atitudes dele. 

Diante do meu silêncio absoluto, ele caminhou em direção à porta sem intenção de despedir formalmente. No entanto, antes que ele pudesse desaparecer, a voz de Marcela soou atraindo sua atenção novamente. 

– Sr. Jorge – Ela chamou, e o homem direcionou seu olhar para ela. Marcela me soltou e foi em direção ao mais velho em passos lentos, quase opressivos. – Ainda não tive o desprazer de conhecer o imprestável do seu filho, mas gostaria de lhe pedir um favor. – O homem ergueu uma sobrancelha para minha namorada e pela primeira vez consegui ter alguma reação. Me levantei e me coloquei ao lado dela buscando acalmá-la. – Se encontrar seu filho novamente, avise para ele, que se ele ousar chegar perto da minha mulher, ou da Gabriela,  a passagem dele já vai está o aguardando. Eu te juro estarei preparada para acabar com a vida dele. 

– Isso é uma ameaça? – O mais velho sustentou o olhar de Marcela sem receio.

– O senhor nos trouxe um aviso. E eu estou te dando outro. O senhor pode ter certeza que se ele ousar pelo menos pensar atormentar Hanna, sua família terá um corpo para velar.

Ela falou cada palavra de forma lenta e assustadora, me fazendo imaginar por um momento o que poderia acontecer se Marcela encontrasse aquele maldito. Mas definitivamente, eu não queria que ela estragasse sua vida por minha culpa. 

Micaela se colocou do outro lado de Marcela, e então concluiu:

– E eu ajudarei garantir que o senhor tenha um velório para organizar.

O homem olhou para as duas mulheres que lhe lançavam olhares fulminantes me deixando completamente desesperada. 

– É com esse tipo de gente, que você tem criado minha neta? 

Marcela investiu o corpo contra o dele, mas antes que a distância fosse encurtada, eu me mantive entre os dois. 

– Não ouse chamá-la assim. – Finalmente eu consegui dizer algo. Mencionar Gabriela, e fez sentir um sabor quase ferino. – Ela não é sua neta.

– Minha sobrinha nada tem haver com sua família. – Micaela cuspiu as palavras com fúria. – Isso ficou claro naquele acordo que foi assinado por nossas famílias. 

– Você é advogada, Hanna. Sabe que as coisas não são bem assim. – Engoli seco! – De qualquer maneira… – Ele estava visivelmente cansado, mas logo adotou uma postura arrogante, a mesma que sempre conheci durante a época de faculdade, e então o homem se direcionou à Marcela e falou... – Eu vejo nos seus olhos a mesma intensidade de ódio que vi nos olhos do meu filho nessa manhã. O que isso te torna tão diferente dele? É isso que a menina merece ser criada? No fim das contas, se as coisas seguirem esse rumo, infelizmente julgo que será uma batalha onde restará somente um sobrevivente. Você ou ele! Com licença!

E então ele se foi nos deixando para trás com aquela certeza que uma tempestade inesperada havia chegado. 

 

Por Marcela

 

Aquele homem saiu daquela sala me deixando com o sangue fervendo. Só de imaginar que alguém poderia fazer mal a Hanna e a Gabi, eu ficava enlouquecida. 

Busquei o olhar de Hanna, e senti meu coração apertar quando encontrei desespero nos verdes que tanto eu amava. Trouxe ela para junto do meu corpo e a abracei fortemente.

– Ei, não fica assim. Nós vamos dar um jeito. Você não está sozinha nessa, e eu prometo te proteger. 

– É Hanna, nós sabemos o quanto é difícil essa situação, mas estamos com você. – Daniela se aproximou de onde estávamos e nos abraçou. 

– Hanna, tem uma coisa que está me incomodando. – Micaela falou atraindo a atenção de todos nós. 

Micaela ficou em silêncio como se estivesse se comunicando com a irmã por olhar.

– Não, Micaela. Esquece isso, por favor. – Hanna se desesperou em meus braços e percebi que existia algo de errado.

– Hanna, elas precisam saber. Marcela precisa saber. Só assim podemos todas te ajudar. 

– Fala de uma vez, Micaela.

Acho que minha voz saiu quase em um grito, pois todas se assustaram, mas tudo o que eu não tinha naquele momento, era paciência. 

– Alguns dias atrás, Hanna recebeu um buquê de flores. No começo ela acreditou ser seu, mas o cartão estava assinado como anônimo.

Fiquei pasma diante do que Micaela falava. Como eu não fiquei sabendo de algo assim?

– Como é que é? – Olhei para minha namorada e lágrimas já escorriam pelo seus olhos. – Como você me escondeu algo assim, Hanna? – Me afastei dela e comecei a andar nervosa pela sala.

– Calma, Marcela. Não é o momento de perder a cabeça. – Renata falava já prevendo o que se passava por minha cabeça.

– Amor, por favor...

– Não tem isso de amor, Hanna. Por que escondeu isso de mim? 

Minha namorada voltou a sentar no sofá e colocou as mãos na cabeça em um ato de desespero. Aquilo me partiu o coração, mas no mesmo instante eu estava revoltada e me sentindo traída com aquela atitude dela. Por que ela esconderia algo assim de mim? 

– Marcela, não tire conclusões precipitadas. Senta e nos escute.

O tom de voz de Micaela foi firme, e mesmo contrariada, eu apenas fiz o que ela mandou, mas meus olhos não saíram de cima da minha namorada.

Entre lágrimas e desespero, Hanna começou a narrar tudo o que tinha acontecido. Uma parte de mim conseguia entender o seu lado diante daquela situação, mas a outra parte não conseguia deixar de se sentir mal por ter ficado de fora de algo tão importante assim. Será que seria sempre assim? Será que Hanna sempre me excluiria de coisas importantes da sua vida? Mesmo que fosse por medo da minha reação, não deveria existir segredos entre nós, afinal de contas, uma relação é construída com base na confiança e aquilo me dava motivos para desconfiar dela. 

– Espera! Isso tudo é muito sério. Hanna, você ainda tem o cartão? – Renata perguntou para minha namorada, e eu apenas observava tudo em silêncio. 

– Tenho sim! Mas em que isso pode ajudar? 

– Isso pode ajudar em muita coisa. Bom, a primeira coisa que precisamos fazer é voltar a falar com a advogada que cuidou do seu caso na época. Precisamos também ir à delegacia que está cuidando das buscas desse ordinário. Precisamos mostrar o cartão e expor nossas suspeitas que isso pode ter ligação com ele. Eles precisam investigar a floricultura onde as flores foram compradas. E também precisam garantir medidas protetivas a você.

– Isso mesmo. Como não pensei nisso antes? Renata você é incrível! – Micaela falou agitada. 

– É verdade! Lá eles podem encontrar alguma pista sobre o paradeiro do cara, e mesmo que não encontre nada, eles precisam saber que Hanna pode estar em perigo. – Daniela argumentou. 

Senti o olhar de todas pesando sobre mim, como se esperassem alguma reação, mas naquele momento eu não conseguia ter reação alguma. 

– Meninas, por que vocês não vão com a Hanna para que ela entre em contato com a advogada? Logo eu e Marcela vamos encontrar vocês.

Micaela praticamente ordenou, e elas logo entenderam o recado. Hanna levantou-se de onde estava e veio em minha direção. Embora magoada, eu não recuei. Senti suas mão tomarem posse do meu rosto me forçando olhar em seus olhos. 

– Depois nós duas conversaremos a sós, ok? Mas por hora, só te peço que confie em mim. Eu jamais faria nada para perder você novamente. – Seus lábios encostaram-se aos meus em um contato rápido. – Vou ligar para meu pai buscar a Gabi na escola. – Nos vemos depois, certo? 

– Certo! – Respondi em um murmuro. – Diga a ele para trazer ela para cá.

Hanna me olhou por alguns segundos, mas não se opôs ao meu pedido. A verdade, é que embora eu soubesse que Gabriela estaria bem com seus avôs, ainda assim eu me sentia mais confortável com a sensação que ao nosso lado, eu conseguiria protegê-la melhor. 

– Ok! Vou fazer isso. 

Observei ela se afastar com as outras duas. 

– Imagino que deve ser difícil para você. – A olhei para Micaela buscando entender o que ela queria dizer. – Tudo isso, esse pesadelo acontecendo, mas principalmente confiar nela novamente.

Suspirei como se deixasse quilos caírem do meu corpo. 

– É complicado! São muitas informações, e... Bom, eu confesso que não esperava por essa situação dela esconder algo tão importante. Eu não sei exatamente o que pensar. 

– Marcela, não quero defendê-la. E quero que saiba que não estou aqui nesse momento como irmã dela, mas sim sua amiga, então escute com atenção o que tenho para falar. Vocês voltaram a ficar juntas há pouco tempo, aí logo agora na melhor fase de vocês, surge algo assim sem que ela esperasse, buscasse ou desse liberdade. Você no lugar dela faria o quê? – Eu entendi onde ela queria chegar e percebi que de certa forma ela tinha razão. – Ela teve medo de te contar tudo e isso gerar conflitos entre vocês. Ela correu para mim em busca de ajuda, fez de tudo para encontrar a pessoa, mas em nenhum momento ficou feliz com a situação. Você consegue entender o que quero dizer?

– Consigo, Mica. Por um lado eu entendo a situação dela, mas por outro eu tenho medo que seja sempre assim, entende? Eu não quero que nossa relação seja baseada em segredos ou medo. Eu preciso que ela entenda que estamos juntas nisso para qualquer situação, e que para dar certo precisa existir diálogo.

– Eu também entendo o seu lado, minha amiga. Você tem razão! Eu só não quero que você se deixe levar por uma situação mal explicada. Converse com ela sobre isso e diga como se sente. A conversa é sempre a melhor saída para resolver qualquer problema. 

Conversar com Micaela realmente estava me fazendo muito bem. Eu consegui enxergar pontos daquela situação embaraçosa com mais clareza e menos raiva. Tudo que eu e Hanna, não precisávamos naquele momento era viver um conflito na nossa relação. Eu a amava, e ela estava precisando de mim agora mais que nunca, e eu jamais sairia do seu lado.

– Obrigada, Mica. Você realmente me ajudou bastante com essa situação. Às vezes eu não sei agir diante dos acontecimentos, mas eu amo sua irmã e não vou sair do lado dela nesse momento. – Garanti e Micaela sorriu abertamente  me puxando para um abraço apertado. 

– Eu não tenho dúvidas do quanto você a ama. Hanna não poderia estar em melhores mãos. 

Nos afastamos depois de um abraço longo deixando que os sentimentos fossem se acalmando e então seguimos à procura de Hanna e nossas amigas.

 

Por Hanna

Estávamos na sala de Renata, e eu só ouvia ela ao celular repassando para minha antiga advogada os últimos acontecimentos. Daniela estava ao meu lado tentando me manter calma, mas aquilo era uma missão quase impossível. Como eu poderia me sentir diante do fato de estar revivendo meu pior pesadelo? E o pior é que eu não sabia o que esperar ou quando esperar, afinal, agora ele estava solto por ai, podendo aparecer a qualquer momento, e isso me deixava apavorada. Outro fator que me perturbava era a minha relação com Marcela. Estava claro que minha namorada tinha ficado chateada comigo por ter escondido a história das flores, e pensando melhor agora, poxa que mancada que eu dei. Estava me sentindo exausta, perturbada, com medo e perdida. 

– Ei, não fica assim. Vai ficar tudo bem, minha rabugenta preferida. – Dani me abraçava de lado e tentava me animar.

– Eu não sei nem o que pensar sobre isso tudo, Dani. E para piorar, Marcela deve estar me odiando. – Suspirei pesadamente. – Eu não posso perdê-la de novo Dani. – Lágrimas já escorriam pelos meus olhos.

– Ela não estar te odiando, e nem vai te largar. Aquela magricela metida te ama e não vive sem você. Depois vocês conversam com calma e vão se resolver, tenho certeza. Mas não faça mais algo assim. Você precisa aprender confiar que conversando tudo se resolve.

Eu iria falar algo, mas vi Marcela e Micaela entrando na sala e apenas foquei em minha namorada. 

Marcela veio em minha direção e mesmo com uma expressão séria, ela se colocou ao meu lado me puxando para junto do seu corpo, o que claro, me pegou de surpresa, pois eu já estava acostumada com sua postura explosiva diante de incertezas. 

– Você não está com uma cara nada boa. – Ela fez um carinho em meu rosto, e aquilo me acalmou quase que de imediato.

– Marcela, eu queria te pedir desculpas... – Ela simplesmente colou seus lábios nos meus em um selinho demorado.

– Depois falamos sobre isso, ok? – Ela sussurrou sob meus lábio. – Agora vamos nos concentrar no nosso problema. Aliás, ligou para seu pai pedindo para buscar a Gabi na escola? 

– Sim! Ele ficou de trazê-la aqui para nos encontrar. Eu disse a ele que precisávamos conversar. Mica, você me ajuda com isso?

– Claro! Meu Deus, mamãe vai ficar enlouquecida. – Minha irmã sentou na cadeira à nossa frente e sorria amigavelmente para Marcela. 

– Eu... Bom, eu sei que é coisa de família – Marcela começou a falar atraindo nossa atenção. – Mas eu gostaria de saber se eu posso estar junto para conversar com seus pais. É que... Hanna eu queria, mas só se você quiser é claro. – Ela falava apressadamente e eu mal conseguia de fato entender o que ela queria dizer. – Eu só queria estar com você e a Gabi a todo momento agora. 

– Eita! Gente, temos um pedido de casamento exclusivo aqui. – Dani falou com divertimento e atraiu até o olhar de Renata que permanecia na ligação.

– Daniela, você é tão desnecessária. – Marcela estava vermelha. – Não estou pedindo em casamento, eu só... 

Virei o rosto de Marcela para mim, e meu coração batia tão forte que eu acho que todos naquela sala podiam ouvir.

– Você faz parte da minha família. Estando com você, eu me sinto segura. É óbvio que você não só pode como deve me acompanhar.

Marcela deixou um sorriso surgir em seus lábios, e aquilo me encantou. Meu Deus, como sou apaixonada por essa mulher. 

– Que momento minhas amigas, que momento... – Daniela falou divertida nos fazendo rir em meio ao caos. Só ela mesma para ser o alívio cômico que precisávamos.

– Pronto! – Renata disse após desligar o celular. – Informei tudo à Dra. Larissa. Ela vai nos esperar na delegacia. Hanna, você precisa ir e lá, ela vai te orientar. 

– Ótimo! Então nós vamos. – Marcela se colocou de pé olhando para todas. – Quem vai nos acompanhar? 

– Eu acho melhor ir só você e a Mica. Eu e a Dani ficamos por aqui cuidando de tudo. – Renata falou e Daniela concordou com ela. – Mas nos mantenham informadas. 

 

…

 

Quando chegamos à delega minha advogada já estava a nossa espera. Eu achava que nunca mais iria precisar passar por tudo aquilo de novo, mas agora aqui estava eu, novamente nessa situação. Contudo, agora existia algo que me fazia sentir mais segura para enfrentar o que tivesse que ser… Marcela estava ao meu lado me dando todo suporte necessário para me fazer sentir protegida e para compartilhar cada sensação. Marcela era minha, e eu era dela. 

Dra. Larissa achou melhor abrir um B.O para que ficasse registrada a possível tentativa de aproximação daquele homem, e assim a polícia iniciasse as investigações sobre quem havia me enviado aquelas flores, e sobre a possível ameaça que, segundo o pai do próprio Jefferson, o mesmo havia feito.

Era uma confusão tudo aquilo, mas por se tratar de um foragido, que por sinal estava preso por ter me violentado, o melhor caminho seria justamente esse que estávamos tomando. Minha advogada me orientou que qualquer informação, mesmo mínima que fosse, eu relatasse imediatamente à ela para que medidas fossem tomadas conforme necessário. Durante todo o tempo, Marcela não saia do meu lado. Minha irmã também não, mas Mica parecia mais contida do que Marcela, que parecia preocupada a ponto de explodir a qualquer momento com aquilo tudo. 

Depois que prestei depoimento estávamos apenas aguardando as últimas burocracias

– Ei, está tudo bem. Eu estou aqui com você, meu bem. – Ela sussurrou no meu ouvido enquanto esperávamos uma papelada para eu assinar.

– Você é a melhor coisa que já me aconteceu, meu amor. Obrigada por estar comigo nesse momento. 

– Agora é tudo diferente de antes. Agora você tem a mim. – Me fez um carinho e me aconchegou em seus braços. Naquele momento os braços de Marcela eram o melhor lugar para estar. 

Assim que saímos da delegacia voltamos direto para a empresa onde Daniela avisou que papai já estava nos aguardando. O clima era de pura tensão. Todas nós estávamos exaustas com aquela tarde conturbada.

Assim que entramos na sala de Renata, Gabriela correu em nossa direção. Seu abraço inocente era quase como um bálsamo para minhas angústias.

– Ei, pequena. Que saudades!

Marcela a pegou no colo e a vi abraçar minha filha com certa força, como se aquilo fosse capaz de mantê-la protegida.

– Eu também estava, mamãe Marcela. Da senhora também, mãe Hanna. 

Tive que conter a vontade de chorar. Beijei seu rosto com amor, em seguida olhei para Renata.

– Rê, você pode levar Gabi para a lanchonete aqui de baixo? Compra um sorvete para ela. 

– Claro! – Renata logo entendeu a situação. – Vamos Gabi? Vou te comprar o maior sorvete que tiver lá.

– Oba! – A criança se animou. 

Mesmo visivelmente insegura, Marcela permitiu que Renata pegasse a menina no colo e a levasse para longe de nós, mas não antes de fazer o pedido:

– Por favor, cuida dela. 

– Como se fosse minha própria vida. Não se preocupe! – Renata sorriu tentando tranquilizar a amiga.

– O que está acontecendo? – Papai perguntou após ficarmos a sós. – Vocês estão claramente tensas. 

Não demorou muito para que detalhássemos para papai, tudo o que tinha acontecido. 

– Minha maior preocupação é com minha filha. Esse sujeito não pode chegar perto dela, papai. De preferência ele não deve nem sonhar com a existência dela. 

– Ele não vai fazer nada com a Gabi. Nós podemos revezar para ficarmos indo buscá-la na escola, além disso o papai e o Robson podem sempre estar com ela também. – Micaela falou séria.

– É claro, filha. Esse bandido não vai chegar perto da minha neta, e nem de você. – Papai assegurou sem conter o nervosismo. – Santo Deus, sua mãe vai adoecer quando souber disso.

– Entendo que todos estão dispostos a ajudar, mas também trabalhamos. Eu acho que deveríamos contratar um segurança para escoltar a Gabi. o que vocês acham? – Marcela atraiu nossa atenção e Micaela trocou um olhar comigo.

– Você não acha que seria uma atitude extrema? A Gabi é apenas uma criança. Algo assim não pode mexer com o psicológico dela? – Micaela perguntou cautelosa para Marcela, que pareceu pensar a respeito. 

– Eu acho que ele poderia apenas agir como um motorista, e trabalhar de forma que não chamasse atenção. A situação é extrema Micaela, eu não conheço o grau de perigo desse canalha, mas sei o bastante para me incomodar com a existência dele na terra. Quero ele longe da Gabi, da Hanna, de todas nós, mas como você disse a Gabi é apenas uma criança, portanto mais vulnerável. 

O que Marcela falava fazia sentido. Aquele homem representava perigo e minha filha era criança, não saberia se defender de nada. Mas ainda assim eu tinha medo disso tudo afetar a cabecinha da minha pequena.

– Eu concordo com Marcela. Acho que deveríamos pensar melhor a respeito. – Papai, que era sempre metódico, expressou sua opinião.

– Ok, vamos pensar nisso tudo com calma. Estamos todos alterados, e sem conseguir pensar direito, mas com calma chagaremos a um acordo. – Falei sem muito ânimo. 

A situação era caótica, extremamente estressante, mas eu estava certa que eu jamais estaria sozinha para enfrentar aquela situação.

Fim do capítulo


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Comentários para 25 - Capitulo 25:
Lea
Lea

Em: 09/06/2026

Esse "Sr Jorge", é tão ruim quanto o filho.

Pq ele mesmo, não ligou para a polícia,assim que,o filho o procurou?

É muito tenso,tudo isso!

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