Capitulo 18 - Momentos Domésticos e Companhias Felinas
O estalo seco da fechadura ao trancar a porta de metal pintado funcionou como o encerramento oficial do expediente na mente de Phoebe Fields. O barulho abafado do trânsito do subúrbio de Londres, que ainda insistia em ecoar do lado de fora das janelas, parecia pertencer a outro mundo, incapaz de passar da porta que Isla Cooper chamava de lar.
Phoebe soltou o ar, relaxando, deixando os ombros caírem sob o peso do sobretudo de lã. Ela desfez os botões do casaco devagar, revelando por completo a blusa de seda marfim toda amarrotada e a marca roxa que Isla tinha deixado na base do seu pescoço na madrugada anterior - um selo de posse que passara horas escondido pela gola dura da roupa de trabalho.
- Primeira regra do subúrbio, Fields - Isla disse, jogando a mochila preta em cima de um baú de madeira escura perto da entrada e tirando as botas de couro com uma agilidade quase militar. - Sapatos caros ficam no tapete da porta. Aqui dentro, a gente anda descalça ou de meia e fica o mais confortável possível.
Phoebe deu um sorriso leve, o tipo de expressão que raramente encontrava espaço no seu rosto. Ela tirou os pés dos saltos agulha, sentindo o contato imediato das meias finas com a madeira fria e gasta do taco.
Antes que pudesse dar o primeiro passo em direção à sala, uma massa cinzenta e enorme bloqueou seu caminho. Napoleão, com seus quilos extras de pura folga felina, sentou-se exatamente em cima do pé esquerdo de Phoebe, olhando para ela com uma cara de cobrança silenciosa. Ao lado dele, Barnaby levantou o rabo em formato de ponto de interrogação, esfregando a cabeça ritmadamente no tornozelo de Isla.
- Parece que a alfândega local está cobrando pedágio - Phoebe comentou, abaixando-se com uma ponta de hesitação que sumiu assim que seus dedos tocaram o pelo grosso e macio de Napoleão. O gato começou a ronronar alto, fechando os olhos, adorando o carinho. - Quarenta anos acreditando que eu ia parar no hospital se ficasse perto de um bicho desses... Althea realmente merece um prêmio pelas mentiras que inventou para mim.
- Eu avisei que aquela alergia era pura invenção, chefe - Isla riu, indo para a cozinha americana enquanto tirava a camisa azul-escuro do uniforme, ficando só com a camiseta preta de algodão que marcava bem os seus ombros largos. - Agora, se você quiser jantar algo que preste sem ter que pedir pizza fria por aplicativo, sugiro que tire essa armadura de executiva. Vou preparar uma comida simples, daquelas que a gente não precisa de dicionário para entender o cardápio.
Vinte minutos depois, Phoebe voltou para a sala vestindo uma das calças de moletom cinza de Isla - que ficou um pouco larga na cintura, obrigando-a a dar um nó bem apertado no cordão - e uma camiseta velha de uma banda de rock brasileira que Isla tinha trazido da época em que serviu na RAF, em um intercâmbio.
Mas o que realmente quebrou qualquer pose restante da CEO da Fields Cosmetics estava nos seus pés. Fuçando no armário de Isla atrás de algo para aquecer os pés, ela encontrou um par de pantufas enormes, peludas e cor-de-laranja, com a cara gorda e preguiçosa do Garfield.
Ao calçá-las e se olhar no espelho do corredor, Phoebe não aguentou. Uma crise de riso genuína e escandalosa tomou conta dela, o tipo de gargalhada que ela não dava há anos. Ela andava pela sala arrastando as patas gigantes do gato de desenho animado, rindo tanto que os olhos chegaram a lacrimejar.
Isla parou o corte das cebolas na bancada da cozinha, olhando para a cena com os olhos brilhando de diversão.
- Nem vem, Fields! - Isla defendeu-se, segurando o riso. - Estava na promoção e são extremamente confortáveis. É o meu calçado oficial de inverno.
- Cooper, isso é... isso é um crime contra qualquer código de vestimenta! - Phoebe conseguiu falar entre as risadas, apontando para os próprios pés enquanto o rosto gordo do Garfield balançava a cada passo. - Se os diretores da empresa vissem a presidente deles usando pantufas de um gato laranja que odeia segundas-feiras, eu perderia o cargo por justa causa amanhã mesmo.
- Mas combinou com você - Isla elogiou, os olhos verdes descendo pela silhueta relaxada de Phoebe com um jeito caloroso que fez o peito da executiva dar um salto. - Você quase parece uma pessoa normal assim. Quase. Ainda tem essa postura de quem vai dar bronca aqui na minha cozinha.
- Eu só gosto das coisas organizadas, Cooper - Phoebe defendeu-se, aproximando-se da bancada com os braços cruzados, ainda rindo um pouco e arrastando as pantufas.
A cozinha de Isla era minúscula, o oposto exato daquela cozinha enorme de aço escovado da mansão da sua mãe ou do apartamento minimalista de Mayfair. Tinha um dente de alho amassado na tábua, uma lata de tomates pelados aberta e uma panela de ferro que já começava a chiar com o azeite esquentando.
- O que estamos inventando aqui? - Phoebe perguntou, inclinando-se para olhar.
- Espaguete com o que sobrou no armário - Isla respondeu, mexendo a faca com uma rapidez que mostrava bem seus anos de sobrevivência prática. - Molho de tomate simples, manjericão seco e muito alho. Sua mãe provavelmente acharia que isso é falta de etiqueta, mas fica ótimo. Quer ajudar ou vai ficar só vigiando?
- Eu posso ajudar - Phoebe garantiu, cheia de uma confiança que não sentia. - Sou ótima com tarefas manuais. O que eu posso fazer que tenha menos chance de estragar a comida?
Isla entregou uma colher de madeira para ela, apontando com o queixo para a panela onde as cebolas começavam a dourar.
- Fica de olho no fogo. Mexe devagar para não queimar o fundo. Se a cebola passar do ponto, o molho fica amargo e o jantar vai por água abaixo.
Phoebe pegou a colher como se estivesse assumindo um projeto importantíssimo. Ficou ali na frente do fogão de duas bocas, mexendo a comida com uma cara super séria. Seus olhos não saíam dos pedaços de cebola, com a mesma concentração que usava para caçar erros nas contas da empresa.
- Cooper, essa panela não esquenta igual em todos os lados - Phoebe avisou, franzindo a testa enquanto empurrava a comida. - O lado esquerdo está bem mais quente.
Isla deu uma risada baixa, chegando por trás. Sem aviso, colou o peito nas costas de Phoebe, cobrindo a mão da executiva com os seus dedos compridos e firmes para guiar o movimento da colher em círculos maiores e mais calmos. O calor do corpo de Isla passou direto pela camiseta fina, e o cheiro de sabão de coco misturado com o vapor do refogado fez o estômago de Phoebe dar um nó bom.
- Esquece a teoria, Fields, vai no ritmo - Isla sussurrou bem perto do ouvido dela, a voz rouca mandando um arrepio direto para a espinha de Phoebe. - Cozinhar é questão de jeito e paciência. Duas coisas que você costuma atropelar na correria do seu trabalho.
- Eu não atropelo nada, eu só resolvo as coisas rápido - Phoebe rebateu, mas a voz saiu bem mais fraca do que queria porque os lábios de Isla estavam quase tocando a sua nuca.
Enquanto as duas tentavam dar conta do fogão daquele jeito, o chão da cozinha virou uma bagunça. Napoleão, sentindo o cheiro da comida, começou a se enroscar nas pernas de Phoebe, quase fazendo-a tropeçar com aquelas pantufas enormes do Garfield. No mesmo segundo, Barnaby pulou na ponta da bancada, esticando a patinha em direção ao manjericão.
- Cooper! Perdemos o controle aqui! - Phoebe exclamou, tentando não pisar no gato gordo e segurando a panela ao mesmo tempo. - O Barnaby vai roubar o tempero!
- Deixa comigo - Isla disse, pegando um pedacinho de queijo que estava no canto da bancada e jogando no chão da sala.
Napoleão mudou de rumo na hora, correndo com uma velocidade que ninguém esperava daquele tamanho em direção ao queijo. Barnaby viu e pulou da bancada correndo atrás para não perder o pedaço.
Phoebe olhou a cena, balançando a cabeça com um sorriso leve que limpou todas as rugas de preocupação do seu rosto.
- Você é boa nisso. Devia usar essa estratégia na empresa.
- Sobrevivência, Fields - Isla desligou o fogo e jogou os tomates na panela, aquele chiado alto enchendo o apartamento enquanto o molho começava a engrossar. - Agora, arruma a mesa. E já aviso: não tem taça bonita aqui. Vamos tomar o vinho do mercado no copo de vidro normal mesmo.
Comer sentada em um sofá velho e confortável, com o prato equilibrado nos joelhos e a garrafa de vinho em cima de uma caixa de madeira que servia de mesa de centro, foi a coisa mais diferente que Phoebe já tinha feito na vida. Sua rotina sempre foi cheia de jantares formais em mesas enormes de madeira cara, onde todo mundo usava talheres de prata seguindo regras chatas de etiqueta e as conversas pareciam reuniões de negócios disfarçadas.
Ali naquele cantinho do subúrbio, ouvindo os dois gatos ronronando perto dos seus pés e vendo Isla lamber um pouco de molho de tomate do dedo sem se importar com nada, Phoebe percebeu que a verdadeira liberdade não tinha nada a ver com o controle da empresa, mas sim com aqueles momentos onde não existia nenhuma regra para seguir.
***
Quando os pratos vazios foram para o lado e a garrafa de vinho chegou na metade, o silêncio que ficou no apartamento não era mais aquele clima tenso de quem estava prestes a brigar, mas de duas pessoas que não tinham mais nenhuma barreira entre si.
A luz da sala estava bem baixa, vinda só de uma luminária de canto e do reflexo amarelado dos postes da rua passando pela cortina da cozinha. Isla estava encostada no braço do sofá, com uma das pernas compridas dobrada, olhando para Phoebe com um jeito focado, daqueles que faziam o coração acelerar.
Phoebe girou o vinho no copo, sentindo o efeito da bebida relaxar o último ponto de tensão nas suas costas.
- O que você está olhando tanto, Cooper? - Phoebe perguntou com a voz mais mansa, sem conseguir tirar os olhos da boca de Isla.
- Estou calculando quanto tempo você vai levar para admitir que perdemos o controle da situação - Isla disse, a voz caindo para um sussurro rouco que acabou com qualquer distância que ainda existia na sala.
Phoebe largou o copo na caixa de madeira de qualquer jeito. Moveu-se pelo sofá rápido, encurtando o espaço até que seus joelhos encostassem no quadril de Isla.
- Eu já não mando em nada e não controlo nada desde ontem, Cooper - Phoebe confessou, deixando de lado toda aquela pose aristocrática enquanto suas mãos subiam devagar para os ombros de Isla, segurando o tecido da camiseta preta. - Agora eu só estou... deixando acontecer.
Isla não disse nada. Estendeu a mão, os dedos firmes e calejados tocando o rosto de Phoebe, subindo até perto do cabelo para afastar uma mecha que tinha soltado do coque. O contraste da mão de Isla com a pele macia de Phoebe fez a executiva soltar um suspiro longo, aproximando os lábios com uma vontade que vinha guardando o dia todo.
Isla foi para frente e puxou Phoebe para um beijo que acabou com qualquer dúvida. Não tinha nada daquela calma ou daquele cuidado que Phoebe precisava ter nos lugares que frequentava; era um beijo com vontade, profundo, de quem precisava daquilo depois de passar horas fingindo que estava tudo certo. A língua de Isla pediu passagem com vontade, arrancando de Phoebe um gemido abafado que sumiu no apartamento silencioso.
As mãos de Phoebe foram para o cabelo loiro e curto de Isla, bagunçando tudo enquanto o beijo ficava mais quente, mais urgente. Isla segurou a cintura de Phoebe com os dois braços, levantando-a do sofá sem fazer esforço nenhum e puxando o corpo dela para o seu colo. Phoebe ficou montada nas coxas de Isla, sentindo o calor forte que vinha da segurança.
- Isla... - Phoebe chamou, o nome saindo quase num sussurro quando a boca de Isla desceu pelos seus lábios para morder de leve o seu queixo, descendo pelo pescoço até dar um beijo estalado perto da clavícula.
- Deixa comigo, chefe, já disse - Isla murmurou contra a pele dela, fazendo o peito de Phoebe subir e descer rápido. - Só relaxa.
Isla enfiou as mãos por baixo da camiseta velha que Phoebe usava, os dedos frios tocando a pele das costelas, subindo com uma pressão gostosa que certamente deixaria o lugar com mais uma marcação no dia seguinte. Phoebe arqueou o corpo, entregando-se inteira àquele toque. Sem parar de beijar, Isla levantou do sofá carregando Phoebe no colo e foi dando passos lentos até o quarto pequeno, enquanto Barnaby e Napoleão foram deitar sossegados perto da janela da cozinha.
Quando caíram na cama de casal, as duas se jogaram no colchão bagunçado sem preocupação nenhuma. A camiseta de algodão de Isla foi parar no chão num puxão rápido de Phoebe, que começou a passar os dedos pelos músculos da barriga e das costas da segurança, boba com a força que ela tinha. Isla tirou a calça de moletom de Phoebe sem pressa, aproveitando cada segundo para deixar a outra ainda mais ansiosa.
O quarto escuro virou o cenário perfeito para as duas esquecerem o resto do mundo. Cada toque parecia um combinado em segredo; cada som baixinho contra o travesseiro macio mostrava que nenhuma das duas queria sair dali tão cedo. Isla guiava tudo com um jeito focado, o peso do seu corpo em cima de Phoebe deixando a executiva completamente entregue, enquanto suas mãos ajudavam a ditar o ritmo dos arrepios que tomavam conta de Phoebe.
Os lábios de Isla desceram pelo peito de Phoebe, dando beijos demorados até a barriga, fazendo a executiva apertar e arranha os ombros da segurança com as unhas, o que certamente também deixaria marcas visíveis na pele, os cabelos castanhos agora todos soltos e espalhados pelo lençol. Quando Phoebe chegou ao limite, perdeu o controle de vez, abraçando Isla com muita força, numa entrega total que continuou até que o cansaço deixou as duas com a respiração calma e pesada.
Isla deitou de lado, puxando o edredom quentinho por cima delas. Phoebe deitou a cabeça no peito da segurança, ouvindo o coração dela bater firme, sentindo-se, pela primeira vez na vida, completamente segura e longe de qualquer problema familiar.
***
A rotina das duas alterou-se, com Phoebe visitando a cobertura apenas para buscar algumas roupas e material de higiene e cosméticos, passando as noites com Isla. Os dias restantes da semana deixaram todos perplexos com a nova dinâmica da chefe encerrando o expediente mais cedo e indo embora no exato instante da chefe de segurança. As especulações agora atingindo um nível extremo.
Para Phoebe, este novo acordo tácito não formalizado, sequer verbalizado, estava sendo a melhor parte dos seus dias nos últimos anos.
***
No sábado, eram quase sete e meia da manhã quando o celular de Phoebe começou a tocar lá na sala, quebrando o silêncio. O barulho, mesmo longe, serviu para lembrar que o fim de semana não ia ser só curtição no subúrbio. Aliás, já estava se acostumando com essa rotina suburbana e intensamente familiar, indo a sua cobertura apenas para trocar de roupas, desde a última quarta-feira.
Phoebe abriu os olhos devagar, vendo a luz fraca do sábado entrar pela janela. Ela estava deitada de lado, presa pelo braço de Isla que continuava na sua cintura, como um decreto de posse. Napoleão tinha dormido bem no meio das suas pernas, roncando feito um motorzinho 1.0.
Ela se mexeu com cuidado para não assustar o gato, sentindo o corpo um pouco dolorido de mais uma noite intensa. Sentou na cama, puxando o lençol para se cobrir, olhando para Isla, que já abria os olhos verdes com aquela rapidez de quem sempre ficava alerta.
- O trabalho já está chamando, Fields? - Isla perguntou com a voz rouca de sono, esticando os braços para cima.
- Pois é, Cooper - Phoebe respondeu, olhando para as novas marcas roxas no seu ombro antes de soltar um suspiro. - Hoje à noite tem aquele jantar na casa da minha mãe. Althea quer a gente lá às oito em ponto para o que ela chama de 'conversa de família'. Na verdade, é só uma armadilha para tentar te encher de perguntas e descobrir se o nosso namoro é de verdade ou só fachada para a família.
Isla sentou na cama, encostando as costas na parede, com o cabelo loiro todo bagunçado e aquele sorriso folgado de sempre.
- Playboy de suéter caro e drama de família não me assustam, Fields. Já aguentei interrogatório de verdade no exército em lugar muito pior. Sei muito bem o que falar e o que fazer.
- Você não conhece a minha mãe, Cooper - Phoebe disse, levantando da cama e pegando a camiseta no chão para se vestir. - Althea não faz pergunta direta. Ela solta aquelas piadinhas maldosas enquanto serve o chá em xícaras de porcelana. Se ela notar uma bobeira na nossa voz ou no jeito que a gente se olha... se bem que eu acho que ela vai descobrir outra coisa agora. - completou maliciosa, dando uma piscadela para Isla.
Isla levantou logo depois, chegando perto de Phoebe devagar. Parou bem na frente dela, segurando a cintura da executiva por baixo da camiseta larga, puxando-a para perto com um jeito firme que tirou qualquer preocupação da cabeça de Phoebe.
- Então é melhor a gente começar a ensaiar um pouco mais agora, chefe - Isla murmurou, aproximando o rosto até encostar os narizes. - Se a sua mãe olhar para a gente hoje à noite, a única coisa que ela vai ver é que a dona da empresa passou a semana inteira caidinha pela chefe da segurança. E contra isso, nenhuma intervenção da sua família vai conseguir dar jeito.
Phoebe sorriu, fechando os olhos enquanto Isla a beijava de novo, começando o sábado mandando qualquer preocupação com o famigerado jantar de família bem para longe.
Fim do capítulo
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Lady Texiana Em: 08/06/2026 Autora da história
Háaa, então...
Será que Althea realmente conhecerá os netos felinos? rsrsrs
Tenho minhas dúvidas.
Abraços