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A Próxima Edição - O Diabo Veste Prada por Arame Farpado

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Palavras: 3790
Acessos: 75   |  Postado em: 01/06/2026

Capitulo 5

Andréa precisou de alguns segundos para que a cena absurda que se desenhava à sua frente fizesse algum sentido. Emily Charlton, sua ex-colega de trabalho, superior, fashionista e alguns anos mais velha, estava ali, banhada da cabeça aos pés de café com leite e creme. Do outro lado estava Mia, a autora do “atentado”. Mia era uma jovem de 23 anos que Andy conhecera em Ohio, quando foi visitar os pais logo que chegou de volta aos Estados Unidos. Não fazia ideia de como a garota tinha chegado ali, mas seu olhar mortal não era difícil de ser decifrado. Nem o de Emily, que escolheu sintetizar todos os seus questionamentos em uma única frase:

— Que porr* é essa?! Você é maluca ou o quê?

— Emily... — Andréa tentou acalmá-la, apesar de saber que só conseguiria aquele milagre se nadasse em uma piscina de ácido na frente dela para compensar o Valentino estragado. Tocou seu braço. — Por favor...

— EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ VAI TER A CORAGEM, ANDRÉA SACHS... A CORAGEM DE FICAR DE AGARRAMENTO COM ESSA VAGABUNDA NA MINHA FRENTE! — Mia manifestou-se, furiosa.

— Você me chamou de quê? — Emily reagiu, obrigando a escritora a se meter entre ela e a jovem de cabelos alourados. — Vagabunda?

Naquele instante, já se formava uma pequena aglomeração para observar a coreografia das três mulheres. De um lado, Emily Charlton e seu natural efeito de desconjurar qualquer ser humano com a força de um olhar de desprezo; do outro, uma garota ressentida, cheia de energia e com uma insanidade de quem não tinha nada a perder. No meio, Andréa tentava apaziguar os ânimos, girando para um lado e para o outro em rápidos movimentos circulares para evitar o conflito físico, participando de uma dança quase dantesca.

— Emily, Emily... Está acontecendo um mal-entendido... — Andréa tentava fazer a ruiva encará-la, mas Emily desviava-se, buscando ficar de frente para a oponente. — Por favor...

— Mal-entendido é entregarem meu café errado! ESSA JOVEM APRENDIZ DE PIRANHA ME CHAMOU DE VAGABUNDA E EU QUERO SABER O PORQUÊ!

— COMO A GENTE CHAMA QUEM TEM UM CASO COM A MULHER DOS OUTROS?! — Mia quase rosnou.

Umas pessoas que apenas estavam de passagem até pararam querendo ver no que ia dar aquela história após a nova informação.

— Ela só está nervosa e... — Andréa congelou ao repercutir as palavras. Virou-se para a loira. — Peraí! A gente só ficou um final de semana juntas... Isso não quer dizer nada!

Emily abriu a boca, chocada com a informação. Encarou Andréa.

— Andrea Sachs! — A ruiva murmurou ainda meio zonza com tudo.

— EU VIM DE OHIO ATRÁS DE VOCÊ E É ASSIM QUE VOCÊ ME TRATA?

— Sachs, você tem alguma coisa com essa... — Mia sentiu o olhar desdenhoso de Emily pairar sobre si. — Garota? — Sem lábios se franziram em um gesto de desdém. — Sério?

— Eu não tenho nada com ela! Não é nada disso que você está pensando! — defendeu-se a escritora.

— NÃO FALA COM A MINHA MULHER! — gritou Mia em direção a Emily.

— MAS EU NÃO SOU SUA MULHER! — Sachs desesperou-se. — A gente só saiu duas vezes... — Virou-se para Emily. — Te juro... Foram só duas vezes e...

— Você tem que explicar para a sua mulher, não para mim! — Emily ironizou.

— EXATAMENTE, ANDRÉA SACHS!

Os olhos castanhos de Andy gritavam por ajuda em direção à ruiva.

— Pelo amor de Deus, Emily... Não coloca mais pilha nessa doida!

— Você tá oprimindo uma mulher? - Emily provocou.

— Exatamente! Você está me chamando de doida, Andréa Sachs? — Mia puxou Andréa em sua direção. — O que essa mulherzinha fez com a sua cabeça?

— Mulherzinha é o car... — Ao ouvir a plateia reagindo como se estivesse prestes a sair um gol de copa do mundo, Emily respirou buscando controle. — Quer saber? Essa história não é minha. Eu sou maior que isso. Uma de nós precisa ser a adulta nessa conversa e, pelo andar da carruagem, terei que ser eu. - Mais uma vez respirou fundo. - Estou indo embora porque não tenho nada a ver com esse drama. Se você quiser dar um esculacho nessa sem-vergonha... Ela é toda sua.

— Eu não sou, não! — Andréa insistiu.

— Cala a boca, Sachs! — Emily rosnou. — E dá licença!

Antes que a ruiva pudesse dar um passo, Mia segurou firmemente o seu braço. A plateia em volta já assistia a tudo como um verdadeiro espetáculo.

— Calma aí... Você não vai sair dando uma de superior depois de passar a noite com a mulher dos outros, não...

— Eu não passei a noite com ela! — Emily se defendeu. — Você não queria a sua mulher, já disse, ela é sua!

— Eu não sou a mulher dela! — Sachs repetiu mais uma vez para Emily. Mia abriu a boca, mas Andrea foi mais rápida. — Eu não sou... —  Respirou fundo tentando se acalmar. — Mia, vamos conversar, pelo amor de Deus. Eu te pago uma passagem de volta para Ohio, primeira classe. O motorista te leva até o aeroporto. Eu ressarço os seus gastos e...

— Cala a boca, Andréa Sachs! Você acha que um relacionamento acaba assim?

— Meu Deus! — Andréa não acreditava no que ouvia. — Você não me entendeu? Você bebeu, por acaso?

— Não querendo me meter no relacionamento alheio, mas... — Emily alfinetou. — Essa menina tem idade para beber legalmente?

O grupo de jovens transeuntes, que em vez de ajudar estava incentivando o barraco, soltou um “uouuuuu” coletivo em apoio à provocação. A reação alimentou a energia do conflito, que voltou à voltagem máxima. Andréa virou-se para a colega, implorando:

— Emily, pelo amor de Deus... Não dá pilha para essa maluca!

— Maluca, Andréa? Você me troca por uma coroa metida a perua e ainda me chama de maluca?

Ao ouvir a palavra coroa, Andréa soube que tudo estava acabado. Nem se tivesse uma força sobrenatural seria capaz de segurar Emily, que abandonou o papel de mulher superior para dar fim à raça da inconsequente Mia, que não fugiu da briga. Andréa ainda tentou amenizar o estrago, em vão; serviu apenas de saco de pancadas, levando tapas, empurrões e arranhões, enquanto Emily e Mia se ofendiam mutuamente e só entravam em acordo na hora de xingar a escritora.

A sorte delas foi que Joey havia saído do prédio da Elias-Clarke com o mesmo intuito de tomar café e deparou-se com o caos no caminho. Sua chefe, uma executiva da Runway, estava amarrotada, coberta de café com leite e se engalfinhando com uma garota de All Star que vestia uma baby look oficial do fã-clube “Eu amo A. G. Sachs”. O gigante estagiário correu para ajudar Andréa. Graças ao seu físico avantajado, conseguiu afastar Mia, enquanto Andréa imobilizava Emily, abraçando-a por trás para evitar que ela desferisse novos tapas e puxões de cabelo.

Os quatro pareciam exaustos. Joey foi o primeiro a se manifestar.

— O que está acontecendo aqui? — o rapaz de quase dois metros questionou, confuso. Olhou para Mia, a única desconhecida ali, e perguntou para Emily. — Essa é a garota gorda de quem a dona Miranda estava falando?

Ao fundo, Andréa só ouviu o "UOOOOO" da plateia ecoar novamente. Vendo que a fúria da tresloucada Mia agora mirava em Joey, Andréa aproveitou, puxou uma Emily enfurecida e arrastou-a para longe, deixando o estagiário para trás.

Ao chegarem à recepção da Elias-Clarke, Emily continuava soltando faíscas e desferindo todo tipo de ofensa contra Andréa. Uma das recepcionistas correu para ajudar, achando que a editora tinha sido assaltada, e guiou-as até a copa dos funcionários. Andréa pediu um copo d'água enquanto tentava acalmar os ânimos da editora de Moda, Arte e Cultura. Levou um tapão nas costas.

— AIIIIIIIII!

— AIIII nada! Pra se esfregar com aquela pirralha você teve coluna, sua safada! - Emily retrucou. - Eu devia mandar arrancar a sua pele, Sachs, para fazer um carpete novo para o meu lavabo! Arrancar os seus olhos! Quem você pensa que é para ter um caso com uma ninfeta? A porr* do Leonardo DiCaprio? — Indignada, Emily retirou o blazer manchado e jogou-o com raiva na poltrona ao lado. — A Shakira mais uma vez tem razão... Una loba como yo no está pa' tipos como tú — Acusou, enfurecida, apontando o indicador para uma encolhida Sachs. A pronúncia do castelhano perfeito deixava a cena ainda mais teatral e Emily mais fascinante. — O meu Valentino destruído por uma fulana que deve usar Crocs com meia... — Jogou a cabeça para trás, lamentando. — Uma mulher da minha magnitude sendo agredida por aquela coisinha que você deve ter comido no banheiro de um McDonald's em Columbus, porque ela não deve ter idade nem para entrar em um motel!

— Na verdade, a minha família é de Millersburg... Tem McDonald's lá, mas eles valorizam muito mais a cultura local, os passeios de charrete... São passeios bem interessantes e...

— Se você não calar essa boca agora, Andréa Sachs, eu te coloco para puxar uma dessas charretes! Melhor, uso uma das charretes para transportar o que restar dos seus ossos! — Emily disse, quase espumando. Andy notou que os lábios da ruiva estavam dramaticamente vermelhos e os olhos pareciam ainda mais azuis.

— Ok, informação cultural no momento errado... — Murmurou Andy, quando a recepcionista voltou. — Ah, chegou. Graças a Deus.

— Tome a sua água, dona Emily... — A solicíta moça disse. — Peguei bastante e bem geladinha para ver se acalma.

— Vai acalmar, sim — Andréa comentou, esperançosa. — Toma aos poucos.

Emily pegou o copo de meio litro e, em um movimento rápido, sem pensar duas vezes, entornou o líquido extremamente gelado na cara de Andréa, chocando tanto a escritora quanto a recepcionista. Andréa fechou os olhos, sentindo cada gota congelante escorrer pela pele e a jaqueta de couro.

Emily respirou mais tranquila como se acabasse de ter saído da terapia, virou-se para a moça e sorriu, aliviada:

— Não é que acalmou mesmo? Tem como providenciar mais uns quatro desses, querida?

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Depois de literalmente fazer uma tempestade em um copo d’água, Emily mandou uma mensagem a Nigel avisando que precisaria passar em casa. Por mais que pudesse tomar um banho e pegar uma troca de roupas no luxuoso closet da revista, ela precisava respirar. E de seu sabonete importado, sua skincare francesa e sua maquiagem italiana.

Por sorte, a briga de rua não deu tempo de chegar aos ouvidos de Miranda, porque a Dama de Ferro teve que sair logo depois que Andréa se ausentou da sala para fumar. Teve que resolver um problema de última hora que envolvia as gêmeas e a moradia delas em Harvard. Nigel desconfiava que a chefe teria que ir até Boston pessoalmente e provavelmente só voltaria dali a dois dias.

Após o banho de água fria, Andréa também foi embora do prédio da Elias-Clarke. Nigel tratou de ele mesmo levá-la até o The Plaza em segurança. Andy estava com medo de encontrar Mia pelas adjacências, ainda mais depois que o pobre Joey voltou todo rasgado da rua após tentar contê-la, sem sucesso. Nigel precisou entrar pelo estacionamento interno do hotel, já que havia alguns jovens com a camisa do fã-clube de A. G. Sachs na porta do estabelecimento.

— Não tenho como te agradecer pela gentileza, amigo...

— Reencontro com a Dama de Ferro, pista do possível assassino, fãs histéricos, mulheres se degladiando por você em praça pública como os romanos antigos no Coliseu... — Andréa baixou a cabeça e colocou as mãos no rosto, meio envergonhada e meio querendo rir. — Na verdade, eu que agradeço por todo o entretenimento proporcionado a este velho diretor de arte.

— Velho nada... — Andréa fez um gesto negativo. — Parece que você envelheceu cinco minutos. Você está ótimo.

— Estou vivo e, graças a Deus, envolto em meus ternos italianos. Você, sim, está ótima. — Constatou. — Meu peixinho dourado parece ter virado um tubarão.

— Que a Charlton quase fez frito para o almoço dela.

Nigel admirou-se no retrovisor do carro.

— Você sabe que ela apenas trabalha na Runway por uma ineficiência do destino. Aquela ruiva nasceu para fazer Medeia, Jocasta... Se fosse uma música, seria uma ópera de Bizet. Dramática até o último fio de cabelo, mas, depois que as cortinas se fecham, quem chora é o público, se descabela. Ela não. Ela se desfaz da maquiagem e sai daquele palco gigantesca... Pronta para o dia seguinte. — Andréa concordou com um sorriso. — E, pelo bem da humanidade, que Emily nunca me escute falar isso, senão ela vai ficar com o ego do tamanho da Casa Branca, mas ela está certa. Você mereceu o banho de água fria... —  Andrea, meio murcha, concordou. - Permitir que nossa Medeia se engalfinhe com uma menininha que ainda deve frequentar choppada de atlética de faculdade...

— Ela já é formada... — Andréa se defendeu.

— No ensino médio... — Nigel brincou, fazendo a morena rir. — Aliás, em que momento do filme passou de "ele" para "ela", Sachs? — E confessou. — Você me parecia tão...

— Hétero?

— Ia falar apaixonada pelo cozinheiro, mas, de fato, hétero faz mais sentido.

Andréa sorriu. Sua mão tocou a de Nigel, que estava no volante.

— Não menosprezando o seu carro, mas acho que a nossa conversa merece um cenário melhor... Quer almoçar comigo mais tarde? Aí a gente bota essa e outras fofocas em dia.

— Impossível, não existem fofocas no mundo corporativo de Nova York... — Os dois se entreolharam de forma divertida. — Aqui no Plaza?

— É... Eu estou aqui com o Chris por enquanto. A gente morava junto, mas agora que nasceram uns cabelos na cara do Chris, ele está se achando adulto e quer o espaço dele. Alugou um estúdio no SoHo... — Andréa brincou. — Eu comprei uma casa no West Village, mas ainda está em reforma, vai demorar uns meses para ficar pronta. Não quero passar esse tempo todo aqui, mas ainda não tive tempo de ver um lugar legal...

— Escritora morando no West Village. Mas você é mesmo uma romântica incurável, Sachs. — Nigel, que tamborilava os dedos no volante, parou com o gesto. — Eu tive uma ideia. Não vou conseguir almoçar com você porque tenho que representar a Miranda em um almoço, mas por que você não vai lá para casa depois do expediente? Eu sei que o Upper East Side não é bem a sua praia, mas tem um apartamento três andares acima do meu que está para alugar, semimobiliado... Se você gostar do espaço, podemos falar com o corretor.

Andréa ajeitou a jaqueta de couro que estava dobrada em seus braços.

— Sério?

— É um bom apartamento e o preço está razoável... Coisa rara em Manhattan. E também... A gente não acabou a conversa sobre o nosso colega obcecado pelas capas da Runway.

Nigel tinha razão. O assassino estava à solta e não tinham muito tempo a perder. Precisavam encontrar uma boa pista o quanto antes. Miranda iria querer chegar de Boston sedenta por novidades.

— Verdade. A gente não pode perder tempo — Andréa constatou. — Tudo bem. Às 20h?

— Perfeito, eu passo o endereço por mensagem. Até mais, meu peixinho dourado.

 

 

Por conta da situação atípica do dia, Emily se permitiu fazer o restante de seu expediente de casa. Após uma breve reunião remota com duas diretoras da Gucci, fazer contato com duas feministas negras que dariam entrevista à Runway e verificar três vídeos destinados ao portal online e às redes sociais, ela finalmente se afastou de seu MacBook para preparar o almoço da filha. Optou por macarrão com molho de carne; definitivamente não era um de seus pratos preferidos, mas queria agradar à garota, que amava massas.

Emily estava preocupada com Júlia. Tinha quase certeza de que sua briga com Mia vazaria por aí e, pior do que se explicar com Miranda, era pensar na exposição da filha. Quando se separou de Vincent, a menina sofrera bastante por causa das redes sociais. Seu ex-marido fazia parte do escritório de advogados que defendia o senador Webber Kingston, envolvido em um esquema de corrupção que desviava verbas destinadas à aposentadoria e indenizações de idosos.

Quando a história explodiu nos jornais, respingou para todos os lados, e qualquer pessoa que tivesse vínculo com Kingston se tornou suspeita. Vincent não foi poupado. Júlia, com apenas oito anos na época, não entendia ao certo o que acontecia, mas sabia que seu pai estava atrelado a um caso de roubo. As pessoas não poupavam críticas, e Emily não queria que a garota lidasse com tanta exposição novamente; mas, já que provavelmente teria que lidar, queria pelo menos que ela se sentisse acolhida em casa.

— Mãe? Tá em casa?

Mesmo antes de Júlia se anunciar, Emily sabia que a filha tinha chegado pelo barulho de chaves na porta, seguido pelo ruído da mochila do colégio sendo jogada em qualquer canto. Júlia não herdara a obsessão por arrumação da mãe. Moda também não era seu interesse; preferia usar moletons, camisas de time de basquete, boné e tênis. Em poucos segundos no apartamento, a garota foi atraída pelo cheiro de molho de tomate refogado e descobriu a mãe na cozinha. Abraçou-a por trás.

— Te amo! Tem queijo para pôr em cima?

— Olha o milagre que uma porção de carboidrato com molho não faz... — Emily brincou, dando um beijo nos cabelos cheios e rubros da menina. — Eu também te amo, minha Charmanderzinha. E você não vai para Detroit...

Júlia fez uma careta de desdém. Com o novo assunto que estava em sua cabeça, tinha até esquecido daquela história. Retirou o headphone que estava pendurado no pescoço e colocou-o sobre a mesa da cozinha. Acomodou-se ali após Emily proibi-la de jogar videogame antes de comer. Quando estavam apenas as duas, achavam mais fácil almoçar por ali mesmo. Aproveitou que a mãe estava distraída para puxar o bloco de desenhos e o estojo da mochila, focada em finalizar o uniforme Pokémon que estava criando.

— Mãe, e a Big Boss Mi-Prime? Ela vai trabalhar hoje?

— A Miranda viajou... E não chama ela assim.

— Por quê? Ela farma aura!

— Porque se ela descobre, eu vou ter que farmar aura na fila do emprego. Guarda esse caderno e tira esse boné, a gente vai comer... Lavou as mãos?

A editora-executiva da Runway ganhava vida da porta da rua para fora; dentro de casa, Emily era muito parecida com as outras mães que Júlia conhecia. Era amorosa, mas sabia dar broncas. Cobrava a lição de casa e fazia pipoca para assistirem a Stranger Things juntas. Sabia dizer não, mas também sabia dizer sim. Uma mulher comum, mas que cozinhava espaguete vestindo um roupão de seda que devia custar o preço de um salário mínimo.

Júlia foi se servir de refrigerante e ouviu a advertência da mãe:

— Você está tomando água? Porque a gente combinou refrigerante só de vez em quando... Ontem você voltou com a garrafinha da escola cheia.

— No final de semana... Já é final de semana!

— Hoje ainda é sexta... — Emily lembrou-se de repente. — Meu Deus, hoje você tem terapia.

— Mãe, cê tá basicamente por fora. Um monte de lugar já tem semana que as pessoas trabalham basicamente quatro dias, e a sexta virou o novo sábado, o sábado virou domingo e o domingo... — Pensou um pouco. — Basicamente, ainda não existe um novo nome para o domingo... Mas você entendeu. Então hoje é basicamente sábado.

Indignada, Emily assistiu à filha dar um gole no refrigerante.

— Mocinha, em primeiro lugar... Legal que você aprendeu o que é basicamente, mas a palavra não é vírgula para fazer sentido usar em tudo. Segundo... Eu estou por fora?

— Sim. Você não é, basicamente, assalariada? Tem que apoiar os trabalhadores e adotar a semana de quatro dias.

— Assalariada? — Emily, boquiaberta, desligou o fogo. — Nossa!

— Que foi? Que cara é essa?

— A cara de uma mãe quando descobre que pariu a reencarnação do Karl Marx... — Júlia acabou rindo enquanto dava mais um gole no refrigerante. Emily abriu o armário em busca de pratos. — Essa sua escola é avançada, né? Você está no sétimo ano e já estão estudando isso... — Colocou os pratos sobre a mesa enquanto Júlia pegava uma travessa para servir o macarrão. — Acho que nem na faculdade eu fui estudar isso...

— Eu não viu o que é assalariado na escola, eu vi numa entrevista da A. G. Sachs para um podcast sobre os trabalhadores assalariados se juntarem. Ela disse que assim todo mundo trabalha menos cansado — explicou a garota. — Por que você não fala com a Big Boss Mi-Prime?

Emily pressionou o pegador de macarrão com mais força. Sachs!

— Por que você não assiste a desenho animado igual a todo mundo da sua idade?

— Porque eu não posso ir para Detroit no campeonato de cosplayers de Pokémon que todo mundo vai. E por quê? Porque a minha mãe disse que eu não sou todo mundo! — Júlia arqueou as sobrancelhas e disparou: — That’s all! RÁ!

— Você não fez isso comigo... — Emily disse, completely passada e até meio divertida, enquanto assistia à filha comemorar o xeque-mate com uma dancinha do TikTok. Respirou fundo. — Senta que eu vou servir o almoço.

Júlia obedeceu.

— Você esteve com ela ontem, né? Você falou que ia ao Plaza e ela estava lá... Você conhece ela, não conhece?

— Quem, Júlia? Conheço um monte de gente...

— Chamada A. G. Sachs?

— Eu... É... Bom, sim. Ela é escritora, você sabe que eu já trabalhei com vários autores... E se eu contasse para você, você ia querer ir junto, e não era um evento apropriado para crianças. Aliás... Ela é uma pessoa extremamente inapropriada! — Emily enfatizou. Ao perceber o olhar de desconfiança da filha, perguntou: — Que foi?

— Mãe, basicamente, eu já sei de tudo — Júlia por fim disse. Emily a encarou, confusa. — Sobre você e a A. G. Sachs. Eu já descobri.

— Descobriu? — Emily gelou. Júlia era realmente esperta. Como ela teria descoberto que as duas já se conheciam de longa data? — Como?

— Pelo TikTok — revelou a menina, soltando a bomba logo em seguida: — Eu sei que vocês são namoradas!

O pegador de macarrão foi direto ao chão.

— QUÊ?

 

Fim do capítulo


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Comentários para 5 - Capitulo 5:
RENATA32
RENATA32

Em: 14/06/2026

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