Capitulo 4
Os ponteiros do Rolex de Nigel se aproximavam das nove horas quando ele viu Emily pela segunda vez naquela acinzentada manhã de dezembro. Eles apenas se cruzaram rapidamente quando ela chegou; o diretor de arte estava ocupado com umas peles sintéticas. Emily parecia jurar morte, ou algo muito próximo disso, a um estagiário recém-contratado por pegar um texto do rapaz que começava com
um “Olá, Joey, claro que posso ajudar!”. O garoto de quase dois metros de altura e cabelos roxos saiu da sala mais branco do que a neve que prometia cair nos próximos dias.
— Eu ia perguntar se o seu dia estava difícil, mas o do Joey parece bem mais...
— Apesar de ter quase um quilômetro de altura, aquele infeliz não é bonito o suficiente para ser modelo e não tem habilidade para ser jogador de basquete. No mínimo, esse idiota tem que ser competente! Bom dia! — Com um sorriso nos lábios, o diretor de arte estendeu a Emily um par de brincos de ouro branco em formato de ponto de luz, fazendo-a interromper momentaneamente a ira para admirar a delicada peça. — Nossa, Nigel! É uma grande sacanagem da matriz o fato de você não gostar de mulheres, porque você sabe perfeitamente como acalmar uma...
— Homofobia antes das nove, querida?
— Eu não cometeria tal ato, até porque todo homofóbico é cafonérrimo e feio se analisarmos. Só acho que os homens héteros deviam se inspirar em você para tratar uma mulher. Ainda admirando o par de brincos. — São perfeitos! — O olhar clínico de Emily detectou imediatamente. — Ouro branco?
Um gesto de confirmação.
— Chegaram ontem no acervo. Por que não os usa? — Nigel sugeriu. — Tenho certeza de que vão combinar mais com o restante do look. Ou usar um brinco só é questão de praticidade, já que a Miranda é capaz de comer uma das suas orelhas?
Confusa, Emily levou a mão às orelhas e, de fato, a orelha esquerda estava sem o brinco. Estava colocando-o quando foi atropelada por uma discussão com Júlia, no momento em que a menina terminava de se arrumar para ir à escola.
— Merda! — Retirou o brinco sem par para substituí-lo pelos trazidos pelo amigo. — Essa menina está me enlouquecendo... — Explicou enquanto colocava a peça nova. — Eu sou a pessoa mais horrorosa do mundo porque não quero permitir que ela, com doze anos e sozinha, se enfie em um ônibus e pegue doze horas de estrada até Detroit.
— Qual é o grande evento do ano que deixou a Paris Fashion Week fora de modê?
— Meu querido, primeiro: ninguém mais fala de “modê”, isso é old... — Emily assistiu ao amigo ajeitar os próprios óculos. — Uma competição de cosplayers de Pokémon, e eu aparentemente estou impedindo a evolução de um Charmander para Charizard porque minha filha virou um Charmeleon e não vai...
— Ah... — Nigel levou a mão à boca, mimetizando horror. — Um grande desastre!
— É exatamente assim que minha filha tem me olhado, como se eu fosse... como se eu fosse a pior pessoa dos Estados Unidos sendo que moramos no mesmo país que o Donald Trump.
Nigel riu.
— Nigel!
— Ela só tá sendo uma menina de doze anos? — Questionou, divertido. — Todo mundo passa por essa fase...
— Sim, só que as pessoas têm pais firmes. Sabe o que Vincent disse para Júlia? “Sua mãe é quem sabe.” — Terminou de colocar o segundo brinco. — É lógico que ele não sabe. Se eu posso sair como a bruxa da história, por que ele teria que saber? Ele é o superpai que, nas duas vezes por semana em que precisa ser pai, deixa a menina fazer o que bem entende, comer besteiras e nem olha os cadernos dela. Ela estava mal em todas as matérias porque os óculos quebraram quando foi treinar caratê. Ele sabia disso havia mais de um mês, mas não quis me entregar porque a Júlia estava com medo de eu brigar, já que os óculos eram novos. — Conferiu a própria fisionomia na câmera do celular e gostou do resultado. Pelo menos Miranda não a julgaria como desleixada por ter perdido um brinco. — Ou seja, ele é o superpai que a protege de todo o mal e eu sou a bruxa que só diz não, que briga quando ela não cuida das próprias coisas e não deixa o Charmander virar Charizard. — Respirou fundo. — Eu não sei lidar com esse Charmeleon. Quero a fase fofa do Charmander de volta, e não esse Pokémon que só sabe lançar chamas em mim.
Nigel pressionou os lábios para não rir.
— Nosso pretty little baby não é mais tão baby assim...
— Sabe quem tinha razão nessa história toda? — Emily constatou. — A Shakira, que fez uma música inteira para desmascarar o ex-marido e a sogra!
Nigel não se aguentou e riu.
— Nigel!
— Meu amor... — Disse ainda entre risos.
— Minha filha me acha uma ditadora chata... — Emily murmurou dramaticamente. — E o pior é que estou me sentindo assim. Parece que eu não relaxo nunca.
Nigel massageou os ombros de Emily em consolo.
— Ontem, quando você chegou da noite de autógrafos, parecia estar bem. A gente nem conseguiu conversar direito... Como foi lá?
— Ela estará aí hoje, às nove horas.
— Isso você já me disse, mas eu quero detalhes. — Nigel pressionou um nódulo tenso no ombro da ruiva. — Ontem, confesso que achei que você voltaria mais... agitada...
— Agitada?
— Levando em conta o histórico de você e da six... — Emily virou o pescoço para encará-lo. — Sonsice não combina com a cor do seu cabelo, querida... Vocês sempre tiveram uma questão meio eletrostática...
— Ah não, Nigel... Não me diga que você chegou na idade de caducar e ai! — Emily urrou após a forte pressão no pescoço e se afastou do amigo. — Endoidou?
— Quem endoidou foi você me chamando de caduco! — Emily massageou o próprio pescoço, ensaiando um sorriso. — Você sabe muito bem do que estou falando... Você e a Andy parecem aqueles carrinhos de bate-bate de parque que se esbarram... — Fez um gesto com as mãos. — Sai faísca para todo lado...
Emily se aproximou da mesa e pegou a matéria da qual Joey havia assumido a autoria.
— Nem os tópicos do ChatGPT esse garoto apagou...
Nigel apertou os olhos. Mais de vinte anos convivendo com a ruiva o transformaram em um especialista em lê-la, e ele conhecia bem seus subterfúgios.
— Como o RH pode contratar um imbecil desses? Deve ser dívida de jogo de alguém ou ele viu o diretor da Elias-Clark enterrando um corpo. Não é possível!
— Você vai parar de fugir do assunto?
— Não tem assunto para fugir! That's all!
Nigel e Emily se encararam como dois adversários em uma partida de Uno: um joga a carta achando que fará o outro comprar, mas o segundo anuncia que está com apenas uma na mão. Emily usou o bordão da editora-geral pensando que finalmente calaria Nigel.
Por quê? Porque não achava necessário falar nada.
Não queria comentar o quanto o risoto de vieiras estava espetacular, exatamente como Andy prometera. Nem que o Chardonnay estava na temperatura perfeita assim como a playlist selecionada. Também não queria admitir o quanto o baseado e o tempo compartilhado com Andy desaceleraram sua percepção do tempo, a ponto de mal sentir as horas passarem. E Nigel definitivamente não precisava saber que, em determinado momento, Emily se sentira tão à vontade que esqueceu estar fazendo uma entrevista; esqueceu até que havia um desequilibrado assassinando modelos. Tudo porque Andy contou uma história tão engraçada sobre como seu pai reagiu exageradamente quando ela disse que moraria na América do Sul que ela quase deixou a bebida entrar pelo lugar errado e por pouco não se engasgou de tanto rir,o que seria inadmissível dentro das rígidas regras de etiqueta britânicas de Emily.
— Você não vai mesmo dizer? — Nigel insistiu.
Emily pegou a matéria de Joey e fez uma bolinha de papel.
— Tudo bem. Eu pergunto para ela! — Sorriu. — That's all.
Nigel ia virar as costas e sair da sala triunfante quando Emily respirou fundo.
— Ela... ela parece bem... Muito requisitada... Está se saindo bem... — ponderou. — Apesar de estar me saindo uma manipuladorazinha bem da ordinária...
— “Manipuladorazinha bem da ordinária”? — Nigel riu. — Então você gostou...
Emily deu de ombros.
— Foi uma noite aceitável... — Ajeitou um dos anéis da mão esquerda e esticou os dedos para ver se estava de acordo. — Satisfeito?
— Você contou para ela porque se separou do Vincent?
Antes que qualquer resposta viesse, a sala de Emily foi invadida. Era Joey, ainda mais pálido do que quando havia saído. Emily fechou o cenho.
— Se não tiver um incêndio que justifique essa atitude, eu mesma vou começar um queimando aquela porcaria que você me deu como matéria.
— Querida, você quer ser cancelada no Twitter pela geração Z? É só um menino meio verde... — Nigel disse, forçando um sorriso para Joey. — Diga, querido...
— Vocês não vão acreditar em quem está aí! — Joey tremia dos pés ao timbre da voz. — Olha como eu estou! — Estendeu as mãos para Emily e Nigel. — Uma verdadeira estrela no meu local de trabalho, eu não estou acreditando. Ela está subindo naquele elevador!
Nigel caiu sentado na cadeira acolchoada do escritório de Emily, com a mão sobre o peito.
— Minha nossa! A Madonna? — perguntou com um fio de voz.
— Quem?
— A cantora? Você nunca ouviu Vogue? - E cantarolou. - Strike a pose... Strike a pose...
— Ah, é aquela velha?
Antes que Nigel agredisse Joey por tamanha heresia, Emily segurou os ombros do amigo para mantê-lo sentado e repetiu entre dentes:
— “Você quer ser cancelado no Twitter? É só um menino meio verde.”
— Não! Ela escreveu o livro da década... A autora de Névoa e Orquídeas... A. G. Sachs!
Nigel e Emily se entreolharam. A atenção dos dois, porém, foi interrompida pelo ruído das portas do elevador se abrindo. Antes mesmo de conseguirem enxergar Andy direito, viram funcionários abandonando seus postos para pedir autógrafos e tirar selfies.
Apesar da aglomeração evidente, Andy não parecia surpresa. Pelo jeito, aquela reação já era comum desde que descobriram que ela era a criadora da trilogia mais comentada do momento.
Os olhares de Nigel e Emily voltaram a se encontrar.
— Ah, six... — Nigel balbuciou.
— Sim, a six... — Emily confirmou.
Joey apontou para a caneta nas mãos de Emily.
— Me empresta? Quero que ela autografe meu braço... — Disse animado. — Já até fiz orçamento com o tatuador.
Boquiaberta, Emily lhe entregou a caneta.
— Ah... eu fui levar o café da Miranda e ela não está nada bem. Reclamou que a garota gorda e inteligente estava atrasada! Eu nem sei quem é essa mulher... — Pegou a caneta das mãos dela. — Com licença.
Emily mal viu Joey sair correndo para se juntar ao bolo de pessoas que impedia Andy de chegar à antessala. Seus olhos azuis foram até o relógio de parede.
09h10.
— Merda! — Juntou os cabelos em um rabo de cavalo, tentando amortecer a tensão, quando ouviu o amigo chamá-la. — O que foi agora, Nigel?
— Acho que você deixou cair um dos brincos. De novo.
Emily fechou os olhos.
Como tanta coisa já podia ter acontecido se mal eram nove horas da manhã?
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A reunião marcada para as nove só veio começar, de fato, depois das nove e meia. Andrea bem que tentou cumprir sua parte no trato; chegou ao prédio da Elias-Clark vinte minutos antes do horário marcado. Ela percorreu aquele caminho tantas vezes que sabia quanto tempo levava da portaria até a sala de Miranda. O que não podia imaginar era quantas pessoas iam pará-la nesse meio-tempo. A. G. Sachs assumia o posto. Autógrafos, selfies e elogios. Andrea recebeu tantos abraços que sentiu sua jaqueta de couro cor de café levemente amassada. Ela terminou de amarrotar quando ajudou Nigel a sentar Joey em uma das poltronas da antessala, após o gigante estagiário desmaiar de emoção ao conseguir um autógrafo e uma selfie com A. G. Sachs. Mas tudo bem. Não havia mais o desespero de outrora em julgarem suas roupas. Ao abraçá-la, Nigel até a elogiou, e Emily não retrucou, o que Andy entendia como um grande acerto.
Quando voltou para Nova York, Andrea sabia que Miranda continuava como diretora-geral da Runway. Imaginou que, em algum momento, elas se cruzariam. Nova York era uma cidade culturalmente rica; ela era a escritora do momento e Miranda seguia à frente de um dos grupos de comunicação mais robustos do mundo. Era meio inevitável que se encontrassem em alguma ocasião. Só não esperava que fosse logo no segundo dia de seu retorno. E agora ela se encontrava ali, diante da Dama de Ferro.
Se Emily envelheceu como vinho, Andrea julgava Miranda como metal. O olhar claro permanecia inoxidável, apesar de Andrea saber muito bem que Miranda não era feita tão de ferro como gostava de passar para o resto do mundo. Sorriu.
Qualquer mágoa ou ressentimento afundaram junto do seu bipe naquela fonte em Paris. A verdade é que a promessa foi cumprida. Qualquer garota se mataria por aquele emprego que prometia abrir portas. De fato, abriu muitas. Andrea não sabia odiar o próprio divisor de águas.
— Uau... Não parece alucinação? Nós quatro em reunião nessa sala... — Andrea admirou a estética nova do ambiente. — Parece mentira, não? Como vai a vida, Miranda?
— Ela está drogada? — Miranda questionou Nigel.
Emily ia abrir a boca para dizer que não, mas, ao ver Andrea rir nostalgicamente do tom de Miranda, ela mesma ficou em dúvida.
— Você já falava tanto assim quando trabalhava aqui?
— Sempre fui muito comunicativa... E estou feliz em vê-la, feliz em reencontrar Nigel, em ter jantado com a Emily ontem...
— Feliz demais... — Miranda murmurou. Deu um gole em seu café. — Podemos tratar do assunto que a trouxe aqui?
— Emily se esmerou, eu não pude deixar de atender. — Andrea comentou. — Vocês queriam uma reunião... Estamos aqui. Quero escutar vocês...
— Para isso, é necessário que você fique em silêncio, se conseguir... — Miranda a cortou.
Emily sentiu a garganta coçar e pigarreou.
— Nigel...
O diretor de arte se levantou para buscar a pasta com informações, e Emily resolveu se manifestar.
— Andrea, nós resolvemos procurar você por interesse no seu trabalho, no ramo do jornalismo investigativo...
O olhar de Andrea se revezou entre a editora-geral e a editora de moda, cultura e arte.
— Vocês pretendem abrir espaço para reportagens policiais? É isso?
— Não é bem isso... Quando Emily sugeriu seu nome, resolvi pesquisar sobre você e vi que seu gênero literário são romances policiais. Uma influência de Sidney Sheldon e Agatha Christie, mas com um toque muito pessoal e uma visão bastante interessante e não estereotipada sobre a América Latina. Espero que a Netflix respeite sua obra e não transforme a filmagem em um emaranhado de pessoas levemente suadas, de regata de algodão branca sob um filtro amarelo horrendo. Enfim... — Miranda ergueu os olhos e soltou o ar. — Você é uma escritora aceitável.
— Obrigada. — agradeceu. — Só que ainda não entendi direito. A editora quer lançar livros policiais?
— Não... É delicado, Andrea. Nós precisamos do seu serviço porque não temos a experiência que você tem em lidar com a polícia... — Emily admitiu. — Não sei se você está acompanhando uma série de mortes que os jornais estão tratando como obra de “O Estilista”. Modelos têm sido assassinadas.
Chris havia lhe mostrado alguma coisa sobre aquilo, mas ela não deu a atenção devida.
— Ah... Meu assistente chegou a comentar dessa fake news...
Emily fez um gesto negativo.
— Espera... Vocês estão dizendo que não é boato?
— Infelizmente não... — Emily lamentou.
— Parece que um desses assassinos de ficção decidiu nos assombrar de verdade e está fazendo modelos de vítimas... — As palavras de Miranda pesaram tanto que Andy sentiu o corpo afundar na cadeira e os dedos tocarem o fundo do bolso, em busca do isqueiro. — Nigel, entregue os arquivos para Andrea.
O diretor de arte estendeu uma pasta marrom de couro Louis Vuitton, finíssima. Andrea a abriu com cuidado e deixou que os papéis caíssem sobre a mesa de Miranda.
Eram recortes de jornais noticiando os crimes.
O primeiro era do mês de setembro. As modelos tinham entre vinte e trinta e oito anos. Fisicamente, não se pareciam, apesar de todas serem notoriamente bonitas. Andy era tarimbada no assunto; não era a primeira nem a segunda vez que lidava com mortes que fugiam do lugar-comum. No entanto, o que chamava sua atenção era o fato de o assassino reproduzir capas da revista.
E não eram capas quaisquer.
— A escolha das capas...
— São capas que se tornaram emblemáticas da Runway. — Emily explicou. — Não é difícil ele ter acesso às imagens...
— Quando foi o último assassinato?
— Ontem. — Miranda respondeu.
— A edição está saindo mensalmente?
— Sim. — Nigel respondeu. — A deste mês foi lançada hoje.
— E vocês têm lançado certinho a cada trinta dias?
Emily e Nigel fizeram um gesto de confirmação.
Andy passou os olhos pelos jornais e se deteve nas datas.
— Ele também.
— Como assim? — Miranda questionou.
— Olhem as datas em que as moças foram assassinadas. — Estendeu os jornais para Miranda. — Exatamente um dia antes do lançamento da edição seguinte. Quatro vítimas, certo? Hoje é primeiro de dezembro. A primeira vítima foi em setembro... — começou a contar nos dedos. — Outubro, a segunda. Novembro, a terceira. Ontem, a quarta... E sempre um dia antes do lançamento...
Nigel, Emily e Miranda se entreolharam. A polícia nunca havia se atentado àquele detalhe.
— Seguindo essa lógica, então quer dizer que no primeiro de janeiro vai haver outra garota da capa morta? — Emily questionou, horrorizada. — É isso?
— Não, se a gente pegar ele antes disso.
— Ou seja... — Nigel murmurou. — Uma corrida contra o tempo.
— Exatamente.
Um silêncio sepulcral se estendeu pela extensa sala. O único barulho possível de ouvir, além do ruído do aquecedor, eram as respirações dos quatro.
A tensão se manifestava de formas diferentes.
Nigel concentrava sua atenção nas matérias à sua frente. Emily contornava o “J” entre os dedos enquanto massageava o próprio pescoço. Miranda tamborilava os dedos na mesa, produzindo um leve ruído das unhas contra o vidro. Andy se movimentava em pequenos círculos na cadeira giratória onde estava sentada.
Até que um ruído metálico os interrompeu.
Era o celular de Emily.
Ela atendeu, trocou algumas palavras e rapidamente desligou.
— Desculpem, mas vou precisar descer. Chegaram aquelas câmeras novas que a minha editoria encomendou e, como fui eu quem fez o pedido, precisam da minha assinatura. Já volto.
Miranda fez um gesto de concordância, que Emily interpretou como autorização para sair, e ela passou pela porta.
Algum tempo depois, Andy também se levantou e seguiu até a porta.
— Onde você vai?
— Fumar um cigarro. — Respondeu à ex-chefe. — E te dar um tempo...
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As portas do elevador estavam quase totalmente cerradas quando Emily viu a mão perfeitamente esmaltada de Andy se meter entre as duas placas de metal. A porta tornou a se abrir, permitindo que a morena entrasse. Emily a olhou de soslaio.
— Solta uma bomba daquelas e depois foge, Sachs? — Apesar da tensão, o tom provocativo saiu dos lábios da ruiva de forma natural. Era como se ela não fosse capaz de falar com Andrea em outro idioma.
— Precisava fumar... — Andrea se justificou. Riu. — Te falei que encarar a Miranda de cara limpa não era muito a minha praia...
Emily fez um gesto negativo.
— Não entendo como você é capaz de fazer piada com uma situação dessas...
— Cacoete de repórter policial... Tá lamentando uma morte e, cinco minutos depois, seguindo com a vida. — Emily olhou para o visor; ainda faltavam dez andares. — Se não for assim, a gente acaba sendo engolida pelo trabalho... Se é que você me entende...
— Se eu entendo de ser engolida pelo trabalho? Você lembra com quem está falando?
Andrea riu. Mais alguns segundos de silêncio. Quarto andar. Uns senhores entraram.
— O Joey parece ser um cara legal.
— Joey?
— O “J”... Óbvio que é de Joey.
Emily virou-se na direção de Andrea e riu. A morena riu de volta.
— Que foi?
— Desiste, Sachs. Você nunca vai adivinhar.
— Será? — Andrea provocou.
Finalmente, térreo.
— Olha que vou ter mais tempo por aqui.
— Então você vai ajudar a Runway nesse caso?
— Se a Miranda concordar. — Andy deu de ombros. — Só tenho uma condição.
Emily a encarou, curiosa.
— Ficar na editoria de Moda, Arte e Cultura. É um bom disfarce para eu poder circular à vontade, encontrar o assassino... E o “J”.
Emily revirou os olhos.
— “Eu amo meu trabalho”... — repetiu, fazendo Andrea rir. — “Eu amo meu trabalho”...
— Posso te perguntar algo? Ontem eu não confirmei que viria hoje... Se eu não viesse?
— Dúvido que você deixaria de buscar sua estrelinha na testa ofertada pela Miranda. — Emily respondeu. Andrea sorriu. As portas do elevador se abriram. Debochada. — No fundo você continua sendo uma “boa garota”.
Ao chegarem à recepção, a questão das câmeras foi resolvida com duas assinaturas. Por sugestão de Andrea, Emily deixou as câmeras recém-chegadas na portaria e decidiu acompanhá-la até a cafeteria. Assim, a morena fumava seu cigarro e, de quebra, levavam cafés para todos da reunião. Quem sabe o líquido quente ajudasse Miranda na digestão?
Conversavam distraídas e nem perceberam que estavam sendo seguidas.Só notaram quando já era tarde demais. Emily só não foi atingida em cheio porque Andrea a puxou contra a parede, e as duas assistiram a um copo gigante de café explodir a poucos metros de onde estavam. O líquido respingou nas roupas caras de uma horrorizada Emily.
O perigo realmente estava à solta pelas ruas.
— Meu Deus... — Emily soltou, resfolegante. — O que é isso?
— ANDREA SACHS, VOCÊ É UMA MULHER MORTA!
Fim do capítulo
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