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Contrato de Risco Romântico por Lady Texiana

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Palavras: 1994
Acessos: 580   |  Postado em: 30/05/2026

Capitulo 10 - Protocolos de Proximidade, Subúrbios e o Comitê de Recepção

 

O gelo das ervilhas congeladas parecia anestesiar não apenas o septo castigado de Phoebe, mas também parte de sua dignidade. Sentada na banqueta de madeira da cozinha de Isla, com o pano de prato pressionado contra o rosto, ela observava a segurança terminar de abotoar a camisa de linho verde com uma paciência irritante. Barnaby e Napoleão rondavam a base das banquetas, miando em um coral sincronizado que claramente exigia sachê, completamente alheios ao colapso que se desenhava no ambiente.

- Muito bem, senhora Fields - Isla começou, conferindo o relógio de pulso militar e apoiando as mãos na bancada, inclinando-se levemente na direção de Phoebe. A proximidade fez o nariz da CEO latejar um pouco mais, ou talvez fosse apenas o sangue subindo para as bochechas novamente. - Se vamos ter que sobreviver a sua mãe, precisamos alinhar o nosso plano de voo. Qual é a história do nosso primeiro encontro?

Phoebe afastou a compressa por um segundo, revelando a marca vermelha que agora ganhava um tom levemente violáceo.

- No elevador - Phoebe disparou, a voz saindo um pouco abafada. - É o mais lógico. Você trabalha na segurança, eu comando a empresa. Um olhar aqui e ali entre o térreo e o trigésimo andar. Um clichê bem inofensivo.

Isla soltou uma risada curta, balançando a cabeça.

- Negativo. Se contarmos isso, sua mãe vai achar que você usou o seu cargo para seduzir a funcionária, ou que eu sou uma alpinista social com um uniforme. Sem contar que todo mundo sabe que o problema do elevador se resolveu e eu subi por ele apenas duas vezes, e só uma a sós com você. Se a fofoca vazar, o roteiro cai por terra. Precisamos de algo... mais humano. E que justifique o motivo de você ter se apaixonado por alguém tão fora do seu círculo da alta sociedade.

Phoebe franziu a testa, recolocando as ervilhas no nariz. - Tem uma sugestão melhor, Cooper?

- A carona de quarta-feira à noite - Isla propôs, os olhos verdes brilhando com aquela diversão que Phoebe já estava começando a temer... e a apreciar. - Você estava estressada após uma reunião com os alemães. Seu carro oficial teve um problema com o motorista ou você simplesmente queria dirigir para espairecer. Parou no acostamento perto da saída dos funcionários, me viu saindo do turno em uma noite romântica tipicamente londrina e ofereceu carona. Conversamos sobre coisas mundanas. Você admitiu que odeia abacates com um bico aristocrático... sim, não me olha com essa cara, que você faz biquinho sim... e eu achei aquilo a coisa mais fascinante que já tinha visto. Houve química. No outro dia, saímos para tomar um drinque em um charmoso pub escondido longe do centro.

Phoebe piscou por trás do pano de prato, processando a narrativa. Havia uma precisão cirúrgica na forma como Isla misturava fatos reais - o ódio por abacates, a carona - com a mentira romântica.

- É... aceitável - Phoebe murmurou, sentindo um calafrio estranho com a menção à palavra "química". - Tem textura. Althea gosta de detalhes. Mas ela vai tentar procurar furos, fique preparada.

- Ótimo. Agora, a mecânica do afeto - Isla deu a volta na bancada, aproximando-se da banqueta de Phoebe. - Dê-me a sua mão livre.

- Para quê?

- Protocolo de conformidade afetiva, senhora Fields. Se você segurar a minha mão como se estivesse me entregando um relatório, sua mãe vai nos mandar para a guilhotina antes do chá das cinco.

Phoebe hesitou, mas estendeu a mão direita. Os dedos de Isla, longos e ligeiramente calejados nas palmas devido ao manuseio de equipamentos e treinos, envolveram os seus. O contraste era absurdo: a mão de Phoebe era macia, de unhas feitas e pele hidratada com os melhores produtos da Fields Cosmetics; a de Isla era quente, firme, transmitindo uma segurança que fez o coração da executiva errar uma batida.

- Você está tensa - Isla observou, usando o polegar para acariciar suavemente o dorso da mão de Phoebe. O gesto foi tão natural, tão absurdamente íntimo, que Phoebe sentiu um arrepio subir pelos braços. - Relaxe os dedos. Quando estivermos na frente dela, o toque precisa parecer natural. Como se você conhecesse o relevo da minha mão de cor.

- Eu não costumo... tocar as pessoas em público, Cooper - Phoebe justificou, a voz saindo mais baixa do que o normal, os olhos fixos no encaixe de seus dedos.

- Pois vai ter que começar hoje. E me chame de Isla. Se você soltar um "Cooper" durante o almoço, Althea vai achar que estamos em um quartel e não em um relacionamento.

***

Antes de pegarem a estrada, Isla insistiu que precisavam fazer duas paradas estratégicas. A primeira foi no apartamento vizinho. Isla bateu à porta e uma senhora de cabelos brancos cacheados e avental florido abriu com um sorriso radiante. Era a Sra. Gable, a responsável por alimentar Barnaby e Napoleão durante o fim de semana.

- Oh, Isla, querida! Já ia descer com os petiscos - a idosa sintonizou os olhos na figura de Phoebe, que esperava no corredor, ainda segurando o pano com ervilhas, parecendo uma criatura exótica perdida em um bairro residencial de classe média. - E quem é a sua amiga elegante?

- Sra. Gable, esta é a Phoebe - Isla disse, passando o braço com naturalidade pela cintura de Phoebe, puxando-a para perto. O choque elétrico do contato fez a CEO enrijecer por um milésimo de segundo antes de lembrar do protocolo e forçar um sorriso. - Minha namorada. Ela teve um pequeno... desentendimento com a porta da minha geladeira esta manhã.

- Oh, pobrezinha! - a Sra. Gable juntou as mãos, olhando para Phoebe com sincera compaixão. - Cuidado com a Isla, minha jovem, cuide bem dela. Essa menina tem força de militar, mas o coração é de manteiga. Deixe que eu cuido daqueles dois gorduchos. Vá descansar esse final de semana!

Phoebe apenas acenou com a cabeça, sentindo o calor da mão de Isla em sua cintura mesmo após se afastarem. A segunda parada foi em uma delicatessen local. Enquanto Phoebe esperava no sedã, tentando cobrir o inchaço com uma camada generosa de corretivo e pó compacto usando o espelho retrovisor, Isla voltou com duas sacolas de papel pardo exalando cheiro de pães artesanais, queijos curados e geleia de mirtilo.

- O que é isso? - Phoebe perguntou quando Isla entrou no banco do motorista, assumindo o volante do sedã a pedido da própria CEO, que alegara não ter condições psicológicas e motoras de dirigir.

- Suborno gastronômico - Isla respondeu, dando a partida no motor silencioso do carro. - Você disse que sua mãe mede seus fracassos. Se aparecermos de mãos vazias, o primeiro ponto para ela será sobre a sua falta de etiqueta e cuidados. Vamos dizer que compramos isso na sua delicatessen favorita em Chelsea, mas a verdade é que o queijo do Velho Thomas, aqui do subúrbio, ganha de qualquer coisa que vendam no centro.

Phoebe olhou para o perfil de Isla enquanto ela manobrava o sedã com a perícia de quem pilotava caças. Havia uma eficiência calma na segurança que começava a desatar os nós que Phoebe cultivava no estômago há dias.

***

A viagem até Hertfordshire foi consumida por um ensaio rigoroso. Isla testou Phoebe sobre seus gostos falsos, seus horários e a dinâmica do relacionamento fictício. Quando o sedã finalmente cruzou os portões de ferro fundido de uma imponente propriedade de tijolos vitorianos cercada por jardins perfeitamente podados, o estômago de Phoebe já havia retornado ao estado de ebulição.

- Lembre-se - Isla sussurrou, estacionando o carro diante da fachada aristocrática. - Respire. Você é a minha namorada. E eu estou aqui.

Elas desceram. Phoebe ajeitou o blazer azul-marinho, enquanto Isla pegou as sacolas da delicatessen. Antes de tocarem a campainha, Isla estendeu a mão. Phoebe a segurou. Desta vez, os dedos se entrelaçaram com menos rigidez. Uma aliança tática de sobrevivência.

A porta foi aberta por um mordomo de expressão severa que as conduziu até o salão de chá, onde as paredes eram cobertas por papéis de parede de seda e retratos a óleo de antepassados que provavelmente nunca haviam sorrido na vida.

Sentada em uma poltrona de encosto alto, segurando uma xícara de porcelana com a precisão de um cirurgião, estava Althea Fields. Aos setenta anos, a matriarca possuía cabelos de um cinza prateado e penteado impecável, olhos castanhos que pareciam duas lâminas de gelo e uma postura que faria generais do exército se encolherem.

- Phoebe - Althea começou, a voz era uma melodia fria e polida, sem oscilar em um único tom. Ela pousou a xícara sem fazer o menor ruído contra o pires. - Você está atrasada sete minutos. Presumo que você ainda mantenha o costume da pontualidade. E... mas o que é isso no seu rosto? Você andou brigando na rua?

Phoebe sentiu o habitual mecanismo de defesa travar sua garganta, mas antes que pudesse responder com sua frieza habitual, Isla deu um passo à frente, mantendo os dedos firmemente entrelaçados aos de Phoebe.

- Boa tarde, senhora Fields - Isla disse, a voz ecoando com uma clareza militar e um charme descontraído que cortou a tensão do salão como uma faca quente na manteiga. - A culpa pelo atraso e pelo nariz é inteiramente minha. Eu insisti que parássemos para buscar algumas iguarias que Phoebe sabe que a senhora aprecia. E o nariz... bem, digamos que a Phoebe tentou me ajudar na cozinha e descobriu que geladeiras podem ser consideravelmente mais hostis do que as salas de reuniões.

Althea Fields ergueu uma sobrancelha perfeitamente desenhada, seus olhos cortantes migrando de Phoebe para Isla, descendo pela roupa alinhada da segurança, detendo-se demoradamente no aperto de suas mãos.

- Então esta é a... ex-militar - Althea destilou, com uma ironia fina que pesou no ambiente. Ela se levantou, aproximando-se com a elegância de uma pantera. - Isla Cooper, correto? Minha filha tem um gosto peculiar para anúncios intempestivos. Da última vez, ela me trouxe uma botânica que passava os jantares discutindo o sistema reprodutivo das samambaias e isso durou longos quatro anos. Agora, uma segurança...

Phoebe sentiu a provocação morder seu orgulho, mas Isla não vacilou. Em vez disso, apertou de leve a mão de Phoebe, um sinal silencioso de "eu cuido disso".

- As samambaias têm sua utilidade, senhora Fields - Isla respondeu, mantendo um sorriso educado, mas com os olhos verdes fixos nos de Althea, recusando-se a baixar a cabeça. - Mas garanto que, na Força Aérea, aprendemos a lidar com terrenos muito mais perigosos do que as estufas de samambaias. Inclusive com comitês de recepção altamente belicosos.

Althea estreitou os olhos. O silêncio no salão tornou-se quase audível. Phoebe segurou o fôlego, certa de que a mãe ordenaria que os cães fossem soltos. No entanto, após cinco segundos de puro escrutínio, um vislumbre quase imperceptível de respeito passou pelas feições da matriarca.

- Uma resposta audaciosa, senhorita Cooper. Quase ofensiva. Mas... gosto disso, tem personalidade. - Althea comentou, virando-se em direção à mesa posta para o almoço. - Sentem-se. Vamos ver se o seu apetite é tão grande quanto a sua audácia. E Phoebe... trate de passar mais maquiagem nesse nariz. Você parece um boxeador que perdeu uma luta.

Phoebe soltou o ar lentamente, sentindo os ombros relaxarem pela primeira vez desde que entrara na propriedade. Enquanto caminhavam em direção à mesa, Isla inclinou-se sutilmente perto do ouvido de Phoebe, seu hálito quente roçando a pele da executiva.

- Um ponto para nós, chefe. Ela não comprou a mentira ainda, mas pelo menos passou a respeitar o perímetro.

Phoebe olhou para a segurança, os dedos ainda unidos aos dela, e sentiu que o verdadeiro risco daquele fim de semana não era Althea Fields descobrir a farsa. O verdadeiro risco era o fato de que, a cada minuto que passava, ela desejava menos que aquela simulação fosse apenas um contrato de mentira.

 

Fim do capítulo


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