Capitulo 9 - Alinhamentos de Risco, Felinos e Outros Acidentes Domésticos
O sábado amanheceu com um céu cinzento e uma brisa insistente que sobrava do Tâmisa, mas dentro do sedã de Phoebe Fields, o clima era de pura ebulição.
Eram apenas sete e meia da manhã quando ela estacionou na rua residencial de tijolos vermelhos. Phoebe não havia conseguido esperar o horário combinado para o início da tarde; a ansiedade e o pânico de cruzar a fronteira de Hertfordshire sem um roteiro estritamente ensaiado a haviam arrancado da cama às cinco.
Ela precisava de um plano de ação detalhado. Como CEO, ela jamais entraria em uma reunião de fusão sem estabelecer os parâmetros dos termos contratuais: a frequência dos toques, o limite dos olhares cúmplices e a mecânica exata de qualquer demonstração pública de afeto sob o escrutínio atento de Althea.
Phoebe subiu os degraus até o segundo andar para o apartamento de Isla e bateu à porta com três toques firmes, ajustando os óculos escuros no topo da cabeça. Quando a tranca girou, Phoebe preparou seu melhor semblante profissional, mas toda a sua postura desmoronou no instante em que a porta se abriu.
Isla estava no meio de sua rotina de exercícios matinais.
A segurança vestia apenas um short de moletom cinza e uma regata branca de algodão canelado, que estava parcialmente úmida de suor. O tecido aderia ao seu torso, delineando com uma nitidez perturbadora a musculatura definida de seus ombros e os contornos esculpidos de seus braços - herança evidente dos anos de treinamento pesado na Força Aérea. Seus cabelos loiros curtos estavam desalinhados, alguns fios colados ao suor na testa devido ao esforço físico, e sua pele exalava um calor quase palpável, misturado ao aroma sutil de sabão de coco e hormônio feminino.
- Senhora Fields? - Isla arfou levemente, apoiando uma das mãos no batente da porta enquanto tentava recuperar o fôlego. Seus olhos verdes brilharam com uma surpresa genuína. - O encontro para Hertfordshire não era só depois do almoço?
Phoebe congelou no tapete de entrada. O rubor subiu por seu pescoço com a força de uma avalanche, tingindo suas bochechas de um vermelho tão intenso que rivalizava com o batom carmim que estava usando. Seus olhos castanhos traíram seu autocontrole, descendo involuntariamente pela linha clavicular de Isla, fixando-se por um segundo longo demais na ondulação de seu abdômen sob a regata justa. Ela engoliu em seco, sentindo a garganta subitamente seca.
- Eu... eu decidi adiantar o cronograma, Cooper - Phoebe gaguejou, odiando a si mesma pela perda de compostura, enquanto tentava desviar o olhar para o teto do corredor. - Precisamos estabelecer um protocolo de conformidade afetiva antes de partirmos. Não podemos improvisar diante da minha mãe.
Isla percebeu o embaraço da chefe e um sorriso travesso, carregado de uma provocação silenciosa, surgiu em seus lábios. Ela deu um passo para o lado, abrindo espaço.
- Claro. Entrar na toca do lobo sem conhecer o terreno seria um erro tático. Entre, por favor. Só me dê alguns minutos para terminar a última série de flexões.
Phoebe entrou, pisando com rigidez no piso de madeira clara. O apartamento de Isla era pequeno, mas impecavelmente organizado. No centro da sala, um tapete de borracha indicava o cenário do crime. Phoebe sentou-se na ponta do sofá cinza, mantendo a bolsa de couro rigidamente apoiada sobre os joelhos como um escudo.
Dali, no entanto, a visão era ainda mais complexa para a sua sanidade. Isla voltou para o tapete, posicionou as mãos no chão e começou uma sequência de flexões de braço com uma facilidade irritante. Phoebe observou, em um misto de fascínio e interesse, o jogo dos músculos das costas de Isla subindo e descendo, a tensão nos tríceps e a linha perfeita que seu corpo mantinha.
A tensão sexual no ambiente tornou-se tão espessa que o ar parecia vibrar. Phoebe sentiu o baixo ventre contrair-se com a mesma intensidade de seus sonhos reprimidos, e ela precisou respirar fundo várias vezes, rezando para que Isla não notasse o quanto ela estava afetada por aquela exibição de vigor físico.
***
- Pronto. Fim do treinamento - Isla anunciou, levantando-se de um salto e pegando uma toalha pequena para limpar o suor do pescoço. Ela olhou para a executiva, que parecia uma estátua de gelo prestes a derreter de nervoso. - Vou tomar um banho rápido para acertarmos as nossas medidas como namoradas. Fique à vontade.
Assim que Isla sumiu pelo corredor em direção ao banheiro e o som do chuveiro começou a ecoar, Phoebe soltou o ar que nem sabia que estava segurando. Ela relaxou os ombros por meio segundo, até que um ruído de garras no estofado a fez enrijecer novamente.
Dois vultos imensos e peludos surgiram de trás da poltrona. Eram os guardiões que Phoebe vira na janela na noite da carona. Dois gatos vira-latas resgatados da rua, bichanos comuns, mas incrivelmente gordinhos e bem-nutridos. Um deles era cinza tigrado, com olhos astutos que pareciam julgar todo o passado de Phoebe; o outro era um clássico branco e preto, roliço como um pequeno barril.
Phoebe, cujo único contato com o mundo natural nos últimos anos limitara-se ao malfadado caroço de abacate de Florence, arregalou os olhos. - Não. Fiquem aí. Eu... não, não se aproximem.
Os felinos, operando sob a máxima de que gatos de rua ignoram qualquer hierarquia humana, interpretaram o pânico de Phoebe como um convite de boas-vindas. O tigrado cinza deu um salto pesado, aterrissando diretamente no colo da CEO com o impacto de um pequeno saco de cimento. O impacto fez Phoebe soltar um ganido agudo. Antes que ela pudesse empurrar o invasor, o companheiro branco e preto escalou a lateral do sofá e depois acomodou-se confortavelmente a seu lado, prendendo-a em uma armadilha de calor.
- Cooper! - Phoebe chamou em voz baixa, com medo de que qualquer movimento brusco fizesse os animais usarem as garras em seu terno de linho. - Cooper, seus leopardos domésticos estão me mantendo refém! Socorro!
Nenhuma resposta veio do banheiro além do som da água. O cinza tigrado soltou um miado rouco e, com uma audácia tipicamente felina, começou a cabecear as mãos de Phoebe, exigindo carinho. Sem alternativa e temendo pelo tecido de sua roupa, Phoebe estendeu um dedo trêmulo e tocou o topo da cabeça do animal. O pelo era denso e macio. O gato fechou os olhos e começou a emitir um ronrono tão alto que vibrou através do abdômen de Phoebe.
Em poucos minutos, a rigidez da executiva começou a ceder. Ela se pegou coçando a bochecha do felino cinza com as duas mãos, enquanto o gordinho branco e preto apoiava o queixo na sua coxa. Quando Isla saiu do banheiro, vestindo uma calça jeans confortável e uma camisa de botões leve, a cena que encontrou a fez parar no corredor.
Phoebe Fields, a mulher mais temida do mercado de cosméticos de Londres, estava afundada no sofá, com um sorriso quase infantil no rosto, cercada por duas massas ronronantes.
- Vejo que Barnaby e Napoleão já aprovaram a nova madrasta de mentirinha - Isla comentou, enxugando os cabelos loiros com uma toalha menor.
Phoebe pigarreou imediatamente, tentando recuperar a carranca aristocrática, embora continuasse a acariciar o gato cinza. - Eles são... surpreendentemente persuasivos, Cooper. Mas isso não muda o fato de que precisamos conversar sobre o nosso plano. Minha garganta está seca. Poderia me dar um copo d'água?
- Claro. Tem uma garrafa de água mineral bem gelada na porta da geladeira. Pode pegar lá enquanto eu termino de me vestir - Isla gritou de volta, retornando para o quarto para pegar o relógio.
Phoebe levantou-se com cuidado para não ofender Barnaby e Napoleão, que protestaram com miados preguiçosos, e caminhou até a cozinha americana. Seus pensamentos ainda estavam parcialmente nublados pela imagem de Isla de regata, o que reduzia sua capacidade de coordenação motora para níveis perigosamente baixos.
Ela abriu a porta da geladeira de aço inoxidável. Localizou a garrafa de água na prateleira inferior da porta. O problema do design das geladeiras modernas, no entanto, é que as prateleiras da porta se projetam para fora, e a mente de Phoebe estava focada em regatas suadas, exercícios e beijos de mentira.
Phoebe pegou a garrafa com a mão esquerda. Com a mão direita, ela empurrou a porta pesada com um pouco mais de entusiasmo do que o necessário. No mesmo milésimo de segundo, por puro reflexo estabanado, ela inclinou o corpo para a frente para pegar um copo que estava na bancada ao lado.
O resultado foi uma colisão física de proporções consideráveis.
A borda espessa de plástico rígido da porta da geladeira voltou com velocidade total, colidindo diretamente contra o nariz de Phoebe Fields antes que ela pudesse retrair a cabeça. O impacto foi seco e sonoro.
- Ai! Puta que pariu! - Phoebe soltou um grito agudo de dor, largando a garrafa de água na bancada de qualquer jeito e cobrindo o rosto com as duas mãos. A dor foi instantânea e lancinante, daquelas que fazem os olhos lacrimejarem na mesma hora.
Isla surgiu na cozinha como um raio, os punhos da camisa ainda desabotoados e a expressão alarmada de quem estava pronta para interceptar uma ameaça.
- O que aconteceu?! Caiu? Se machucou? - Isla perguntou, os olhos escaneando o ambiente até fixarem-se em Phoebe, que estava encolhida contra a pia, gem*ndo de dor com os dedos pressionados contra a face.
- A... a sua geladeira me atacou! - Phoebe choramingou, a voz saindo anasalada e abafada por trás das mãos. - Eu fechei a porta e o meu rosto estava no caminho!
Isla piscou, a tensão militar transformando-se rapidamente em um misto de incredulidade e diversão contida. Ela aproximou-se com passos rápidos, segurando suavemente os pulsos de Phoebe e puxando suas mãos para longe do rosto para avaliar o estrago.
- Deixe-me ver, Phoebe. Remova as mãos.
Quando Phoebe cedeu, revelou o topo do nariz perfeitamente esculpido ostentando uma marca horizontal vermelha e inchada bem na altura do septo. Seus olhos castanhos estavam cheios de lágrimas involuntárias, dando a ela o aspecto de um cachorrinho que acabara de levar uma bronca.
- Meu Deus, senhora Fields... como a senhora consegue prensar o próprio nariz na porta da geladeira? - Isla perguntou, a voz oscilando entre a preocupação real e uma risada iminente. - Isso é um eletrodoméstico comum, não uma armadilha militar.
- Não zombe de mim, Cooper! Está doendo como se eu tivesse sido atropelada por um daqueles caminhões de entrega! - Phoebe protestou, fungando, o que só fez a dor piorar. - Acho que fraturei o septo. Eu vou ficar deformada para o almoço com a minha mãe! Althea vai dizer que eu nem sei abrir uma porta sem causar um desastre!
Isla soltou uma risada baixa e calorosa, cujo som reverberou na cozinha pequena. Ela soltou os pulsos de Phoebe; e usou os polegares para fazer uma leve pressão nas laterais do nariz da executiva, testando a estrutura. O toque de suas mãos era firme, experiente e incrivelmente cuidadoso.
- Não está quebrado - Isla diagnosticou, aproximando seu rosto do de Phoebe para examinar a vermelhidão. A proximidade fez Phoebe prender a respiração, o calor do corpo de Isla e o perfume pós-banho atingindo seus sentidos com a força de um segundo torpedo. - Mas vai ficar um pouco inchado. Espere aqui.
Isla virou-se, abriu o congelador e retirou um saco de ervilhas congeladas, envolvendo-o rapidamente em um pano de prato limpo. Ela voltou para perto de Phoebe e, com delicadeza, pressionou a compressa fria contra o nariz machucado da CEO.
- Segure isso aqui - Isla orientou, guiando a mão de Phoebe para manter o pano no lugar. - E tente não brigar com mais nenhum móvel até sairmos de Londres. Se a senhora nocautear a si mesma antes de chegarmos a Hertfordshire, eu vou ter que explicar para a sua mãe que a minha namorada de mentirinha foi derrotada por uma cozinha suburbana.
Phoebe, segurando o saco de ervilhas contra o rosto com um bico de pura humilhação, olhou para Isla por cima do pano. O coração em seu peito ainda martelava, e ela teve a nítida e assustadora certeza de que o fim de semana em Hertfordshire seria o menor dos seus problemas. O verdadeiro perigo morava naqueles olhos verdes que a encaravam com disfarçada diversão.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 29/05/2026
Meu Deus, Phoebe é desastre total.....e esses gatos henn são fofos demais e dominaram até até a toda poderosa....daqui a pouco ela nem vai lembrar do caroço de abacate ????
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Lady Texiana Em: 01/06/2026 Autora da história
Acho que o caroço do abacate já era. Rsrsrs