Capitulo 22
Por Hanna
Os primeiros raios de sol entravam pela janela do quarto me fazendo despertar preguiçosamente. Olhei em volta e ao meu lado vi que aquilo não era um sonho, ela estava mesmo ali, adormecida na minha cama depois de juntas protagonizarmos uma das melhores noites da minha vida. Eu ainda tentava processar tudo o que tinha acontecido na noite anterior, e sentia que o sorriso não abandonava meus lábios. Eu não tinha apenas superado um trama, mas também feito isso com a mulher da minha vida.
Olhei o relógio ao lado da cama e vi que ainda estava cedo, então resolvi deixar Marcela dormindo um pouco e fui fazer minha higiene matinal. Logo em seguida prepararia o café da manhã e levaria na cama para minha namorada. Em mal podia acreditar que agora ela era completamente minha.
Após fazer tudo conforme planejado, deixei a bandeja de lado e fui despertar Marcela, que ainda estava em um sono profundo. Foi impossível controlar a vontade de beijá-la e quando percebi já estava ao seu lado na cama distribuindo beijos em suas costas nua. A pele de Marcela era tão macia e cheirosa, que aquilo já me deixava louca e despertava o desejo de tê-la novamente.
Meus beijos seguiam uma trilha no meio das suas costas, um caminho que facilmente me levaria a sua nuca. Senti Marcela se remexer lentamente, e quando beijei sua nuca, vi os pelos do seu corpo eriçarem. Marcela se virou ficando de frente e deixando seus seios a mostra o que ganhou a atenção do meu olhar. Percebi que o mamilo estava rígido, denunciando que seu corpo respondia as menores das minhas provocações. Sua mão pousou em minha nuca enlaçando os dedos por dentro do meu cabelo quando beijei toda extensão da sua barriga. Ouvi um gemido rouco e abafado sair da boca de Marcela, quando minha boca alcançou seu seio. Afoitas, minhas mãos alisavam aquela barriga chapada, uma verdadeira tentação, impossível de resistis... Marcela estremecia com cada toque, cada provocação, cada contato que era intensificado.
Me encaixei ainda mais ao corpo, e me deliciei sem pressa com aqueles seios macios que encaixavam perfeitamente em minha mão. Eu sabia que aquele era um caminho sem volta, e que dadas nossas necessidades, o café da manhã certamente ficaria para depois.
– Você é tão gostosa, sabia? Consegue me deixar louca só em ouvir seus gemidos. – Sussurrei em seu ouvido sem deixar de dar atenção ao seu corpo.
– Deixa de me torturar... P-Por favor. – Sua voz rouca e falha me deixou ainda mais louca de desejo.
– Diz o que quer, meu amor. – Pedi sedutoramente.
– Quero goz*r para minha namorada. – Ela respondeu sem pudor.
Aquilo sem dúvidas foi um golpe baixo.
– Eu também quero isso, mas quero de outra forma.
Coloquei Marcela sentada praticamente em meu colo, cruzando nossas pernas uma de frente para outra. Ela me olhou confusa e irritada por eu ter parado o que fazia anteriormente. Quando ela ia protestar apenas peguei sua mão e levei até minha intimidade. Eu poderia jurar que vi os olhos de Marcela brilharem quando sentiu o quanto eu estava molhada para ela.
– Que gostosa! – Ela sussurrou em meu ouvido quando começou a fazer movimentos circulares onde já estava sensível.
Nossos gemidos se misturaram naquele cômodo silencioso. Nos beijávamos enlouquecidas com cada toque e sensação que sentíamos. Senti o corpo de Marcela estremecer praticamente no mesmo instante que o meu, e então senti seu liquido escorrer sobre meus dedos da mesma forma que o meu escorria sobre os dela. Estávamos ofegantes e trêmulas enquanto sua mão deslizava por minhas costas e as minhas repousavam em sua cintura suada. Nossos seios colados e nossas respirações se misturando como se fôssemos uma só alma.
– Meu amor, eu simplesmente te amo. Nunca deixei de te amar. – Sua voz rouca invadiu meus ouvidos quando seus olhos se conectaram com os meus.
– Você me chamou de amor? – Eu ainda processava aquelas palavras. Marcela apenas sorriu e me deu um selinho demorado. – Eu também te amo! Hoje ainda mais que ontem, e com certeza menos que amanhã. – Falei emocionada.
…
Estávamos agora devorando tudo o que eu tinha colocado naquela bandeja: pães, frios, iogurte, geleias suco e frutas. Tudo o que Marcela gostava estava ali para satisfazê-la. Inclusive eu!
– Meu Deus, eu ainda não acredito que você virou uma dona de casa que sabe cozinhar dessa forma deliciosa. – Ela falava enquanto devorava um potinho de salada de frutas que eu tinha servido. – Acredito menos ainda que me trouxe café da manhã na cama.
– A ideia inicial era apenas o café, mas eu não resisti quando vi seu corpo nu na minha cama. – Falei passando a língua pelos lábios na tentativa de provocá-la.
– Por Deus, Hanna! Assim você acaba comigo, mulher. – Ela falava deixando o pote de frutas do lado e me puxando para um beijo.
– Ver se come direto, e para de saliência. Ainda precisamos trabalhar. – Falei quando separamos nossos lábios.
– Podemos chegar atrasadas hoje. Eu prometo não descontar do seu salário. – Seu tom de voz safado me arrepiou, mas logo tratei de afastar aqueles pensamentos.
– Marcela, você é a dona, mas eu sou sua empregada. Não vou dar motivos para falatórios. Além disso, Renata ainda não está ai, e seu dia está cheio.
– Tudo bem, estraga prazeres.
Percebi que ela ficou pensativa por um momento e aquilo me deixou curiosa.
– O que foi? Você ficou quieta.
– Nada demais! Eu estava apenas pensando em uma coisa.
– Que coisa? – Insisti na pergunta vendo que ela estava desconfortável com alguma coisa.
– Eu só... Bom, fiquei pensando que não faz muito sentido isso. Eu sei que você trabalha na empresa que me pertence, mas somos adultas. Acho que não tem problemas se assumirmos nosso relacionamento para todos. A menos que isso seja um problema para você. – Ela explicou com aquela insegurança que eu já conhecia o motivo.
Afastei a bandeja para o lado percebendo que ela não iria mais comer, então me voltei para ela, segurei suas mãos e sustentei olhar.
– Eu entendo sua insegurança, mas eu já te garanti que mudei, meu amor. – Fiz um carinho em seu rosto e ela fechou os olhos apressando o contato. – Eu não pretendo esconder isso de ninguém. A cautela que tenho em relação a empresa, é em relação a troca de carinhos exagerados. Mas isso é por questão de ética. E também não quero qualquer tipo de previlégio só porque sou sua namorada. Odeio lidar com falatórios levianos. Fora isso, entenda que você é minha namorada, e eu não tenho porque me envergonhar disso. Não me incomoda nenhum pouco que saibam.
Marcela sorriu abertamente ao ouvir minhas palavras. Aquele sorriso era a coisa mais linda do mundo.
Nos beijamos demoradamente e quando nos separamos voltei a falar...
– E saiba que vou deixar nenhuma cabelo de fogo dos infernos chegar perto da sua sala. Se caso eu chegar lá e encontrar com aquela mulher, vou esfregar essa aliança na cara dela.
Marcela gargalhou, e eu ergui a sobrancelha. Será que ela pensava que estava brincando?
– Isso não tem graça, Marcela. Eu estou de olho em você. – Me levantei da cama indo em direção ao banheiro para tomar banho. Olhei para trás e ela percebi que ela encarava meu corpo nu com malicia. – Vai ficar só olhando? Deveria me acompanhar no banho. – Pisquei para ela e entrei no banheiro.
Pouco tempo depois
Seguíamos para a empresa já bastante atrasadas para a reunião que teríamos com os funcionários. A ideia de tomar banho juntas talvez não tenha sido a melhor. Pelo não para o aspecto profissional.
– Merda! Estamos completamente atrasadas. – Ela murmurou estacionando o carro em sua vaga.
– Eu te avisei, mas você não parecia querer saber disso durante o banho. – Falei debochada.
– Pensando agora no motivo do nosso atraso, eu não me arrependo nenhum pouco. – Respondeu deixando prevalecer seu lado safado. – Vem logo, amor. Vamos subir!
Marcela segurou minha mão me fazendo sorrir com o gesto delicado. Eu realmente não estava me importando se atrairíamos olhares.
Seguimos diretamente para a sala de reunião já que dona Marta nos informou que já estavam todos nos esperando. Marcela abriu a porta da sala e me deu passagem, sorri em agradecimento e segui para uma cadeira vazia próximo a Dani e Micaela. Foi impossível não perceber os olhares das duas quando nos viram chegar juntas. Daniela me olhava com uma cara debochada e com um sorriso safado nos lábios. Por sua vez, Micaela me olhava sem conter a curiosidade, mas surpreendentemente também mantinha um sorriso safado.
A reunião demorou tempo suficiente para me deixar entediada, a única coisa que me salvava era poder admirar Marcela que conduzia a reunião com seriedade, o que por sinal a deixava sexy.
– Limpa a baba, Hanna. Está escorrendo bem ai no canto.
Daniela sussurrou em meu ouvido me tirando do transe. Ignorei seu comentário mas tratei de me recompor, afinal tinham muitas pessoas ali.
Quando a reunião acabou a sala foi sendo esvaziada e Daniela continuava explicando para Marcela e Micaela sobre alguma ideia que tinha tido para o marketing de uma nova campanha de divulgação da empresa. Eu queria poder falar com ela, mas não queria atrapalhar a explicação, então fui me retirar da sala. Ao passar por perto de onde as três estavam olhando o que o estava projetado no quadro branco, sinto sua mão me segurando pelo braço e me puxando para junto do seu corpo.
– Onde a senhorita pensa que vai? – Sua atitude tinha me pego de surpresa.
Eu poderia sentir os olhos de Daniela e Micaela me queimando.
– Eu... Estava indo para minha sala. – Não me afastei do seu corpo. – Você estava concentrada, então não quis atrapalhar.
Marcela soltou meu braço, mas em seguida me envolveu pela cintura com aquela delicadeza que me fazia derreter.
– Você pode ir, mas só depois de me dar um beijo.
Nem processei o que ela falou e já senti seus lábios grudando nos meus sem qualquer constrangimento por estarmos na frente das outras. Como resposta, enlacei o pescoço de Marcela, e também sem me importar com as duas que estavam ali, retribui o beijo de forma carinhosa. Não foi um beijo longo, mas tão bom quanto qualquer outro que fosse com ela.
– Quem diria que presenciaríamos uma cena assim, Dani. Às vezes nem consigo acreditar que esse milagre aconteceu. – Minha irmã falou sentando na cadeira ao lado da mesa.
– Eu sabia que cedo ou tarde, isso aconteceria. Mas ainda assim estou chocada – Daniela falou e logo adotou uma expressão safada. – Mas vem cá, tira aqui uma dúvida para essa pobre alma curiosa. Vocês chegaram juntinhas, então isso significa que dormiram juntas é? – O olhar malicioso de Daniela era gritante. – É claro que dormiram! Olha só a pele brilhante da Hanna. É pele de quem deu gostoso a madrugada toda.
Escondi meu rosto no pescoço de Marcela, que me abraçou possessivamente. Daniela era a amiga mais sem noção do universo.
– Respeita minha mulher, sua nanica. – Marcela falou brava, mas Daniela pouco se importou. – Sim, dormimos juntas. Chegamos juntas e estamos juntas. Agora essa senhorita aqui é oficialmente minha namorada. – Marcela falou com orgulho mostrando a aliança para as duas que nos olhavam divertidas.
– Finalmente! Já era tempo disso acontecer. Eu realmente estou feliz por vocês. – Minha irmã falou demonstrando felicidade.
– eu perdi isso? Eu queria ter assistindo ao pedido oficial. Vocês são estraga prazeres. – Daniela não perdia tempo de ser idioto, e Marcela apenas sorria do jeito todo afetado que nossa amiga falava
Ficamos ali na sala de reunião contando para as duas, quase todos os detalhes do meu pedido oficial de namoro, já que a curiosa da Daniela nos encheu de perguntas. Marcela me abraçava por trás em todo o momento, e eu simplesmente me sentia a mulher mais feliz do mundo.
Por Marcela
Dias depois
Já estava fazendo quase um mês que Hanna e eu, começamos a namorar. Não tinha como negar que esses estavam sendo os melhores dias de toda minha vida. Hanna havia se tornado a mulher que sempre sonhei, ela era atenciosa, carinhosa e cuidadosa não apenas comigo, mas com aquilo que estávamos construindo juntas.
As meninas diziam que éramos grudentas, isso porque nos víamos todos os dias na empresa, almoçávamos todos os dias juntas, e às vezes até saímos para jantar com Gabi, pois eu mesma achava que era fundamental inserir a menina em nossa relação. O fato é que cada dia que passava eu amava ainda mais aquela criança. No entanto, apesar da minha presença ser diária no convívio com a menina, nós ainda não tínhamos contado para Gabi, que eu e sua mãe agora éramos namoradas. Para ser honesta, eu não sabia como contar isso para uma criança. Eu me sentia insegura em relação a reação que Gabriela pudesse ter. Eu não queria assustar a garotinha, tão pouco causar um distanciamento entre nós.
Renata já estava de volta da lua de mel, e agora o foco estava todo voltado para a festa de aniversário da Gabriela. Hanna estava correndo contra o tempo para conseguir organizar tudo a tempo, e a menina estava cada dia mais animada com sua festinha que se aproximava.
Eu tinha acabado de sair do banho quando escuto a campainha tocar. Como não estava esperando visita àquela hora, estranhei especialmente por não ter sido anunciada a chegada de alguém. Mas assim que abri a porta, meu coração se encheu de alegria quando vi a pequena Gabriela praticamente pular em meu colo.
– SURPRESA, TIA!
Hanna sorria para mim enquanto eu enchia a pequena de beijos. Dei espaço para ela passar e a observei trancando a porta atrás de si.
– Estávamos aqui perto e resolvemos fazer uma surpresa para você. Trouxemos uma pizza para jantarmos juntas. Fiz mal?
Minha namorada estava parada no meio da minha sala enquanto eu ainda estava com a pequena em meus braços.
– É de queijo, tia. – A fala engraçada da Gabi me fez sorrir.
– Eu adorei a surpresa de vocês!
Dei um beijo no rosto da minha namorada que revirou os olhos me fazendo rir. Era sempre assim quando estávamos na frente da criança, contato contido.
– Posso ver desenho? – A menina perguntou manhosa, e eu fazia o quê? Morria de amores cada vez mais.
– Claro, meu amor! Fica aqui no sofá, que eu vou com sua mãe pegar nossos pratos.
Coloquei a pequena no sofá da sala e busquei um canal com desenhos para ela assistir. Em seguida, sai com Hanna dali, e assim que chegamos na cozinha a puxei pela cintura beijando seu pescoço o que a fez arrepiar.
– Amor, você está tão cheirosa. – Beijei seu pescoço e a virei de frente para mim.
– Eu estava com saudades de você, Marcela. Um minuto longe de você, e parecem anos. – Seus braços enlaçaram meu pescoço e seus lábios grudaram nos meus.
– Amor, a Gabi pode entrar aqui. – Falei sobre seus lábios me afastando mesmo contra vontade.
Hanna voltou a revirar os olhos.
– Precisamos resolver isso. – Falou séria. – Eu não quero ficar escondendo da minha filha que estamos juntas.
– Amor, ela é só uma criança. E se isso bagunçar a cabecinha dela? – Eu realmente tinha preocupação quanto a isso.
– Justamente por ser uma criança, que ela já deve aprender que a mãe dela ama outra mulher, e que isso não é nenhum problema. – Seu tom de voz era calmo, mas também senti uma pontada de preocupação. – Marcela, você não leva nossa relação a sério? – Ela perguntou olhando para suas próprias mãos.
– O quê? Como pode pensar isso, Hanna? É claro que eu levo a sério. Eu apenas me preocupo com ela.
Vi ela suspirar pesado. Estava claro que ela se esforçava para que não iniciássemos qualquer discussão boba.
– Tudo bem, Marcela. Eu só não queria ter que esperar mais tempo. Passei anos esperando a chance de tê-la, e agora não vejo razão para fazer disso um segredo. Eu realmente não gosto de mentir para minha filha.
Ela ia para sala, mas a puxei de volta para mim. Eu não sabia o que se passava na cabeça dela, mas não queria que ela pensasse que eu não a queira de verdade.
– Amor, não fica assim. Eu te amo tanto, Hanna. – Dei beijos em seu queixo subindo em direção à sua boca. – Nunca pense que não te levo a sério. – Colei meus lábios nos dela dando beijos leves.
– Manhê, cadê a pizza? – Gabriela gritou da sala, e acabamos rindo do seu desespero.
– Vem! Vamos para sala que ainda temos uma garotinha em fase de crescimento para alimentar. – Falei a enchendo de selinhos.
Comemos a pizza sentadas despreocupadamente no chão da minha sala. Era sempre bom passar um momento entre risos e conversas na companhia de Hanna e Gabriela. Na verdade, Gabi praticamente era a única a tagalerar. Ela nos contava sobre seu dia na escola, e sobre o que esperava para sua festinha de aniversário. Às vezes eu fazia um carinho discreto em Hanna, que parecia adorar o contato, mas ainda assim sentia que ela estava um pouco triste, talvez incomodada por nossa conversa anterior. Vê-la daquela forma me levou a anos atrás, quando era eu a insegura por Hanna não querer nos assumir. Conclui que eu jamais desejaria que ela sentisse tudo que senti e por isso tomei uma decisão.
– Gabi, vem cá. Senta aqui no colo da tia.
A menina rapidamente obedeceu e sentou-se entre minhas pernas. Comecei a brincar com Gabriela em meu colo tentando deixar o momento mais agradável e fácil para ter aquela conversa com a pequena.
– Você sabia que eu te amo muito, minha pequena?
– Eu também te amo muito, tia.
Hanna nos olhava atentamente com um pequeno sorriso nos lábios. Era nítido que ela sempre ficava satisfeita quando presenciava minha interação com sua filha.
– Saber disso é muito bom, Gabi. Meu coração se enche de alegria em te ouvir falar assim. – De um beijo na testa dela que sorriu em resposta. – Eu também amo muito sua mamãe, sabia? É amor bem gigante.
– Marcela, você não precisa.
Já entendendo o rumo da conversa, Hanna tentou intervir, mas a interrompi pousando delicadamente um dedo sobre seus lábios onde fiz um breve carinho sob o olhar curioso da pequena.
– Shiiii! Nós precisamos. E eu quero, Hanna. – Foi a única coisa que falei antes de voltar minha atenção para pequena.
– Você ama a mamãe mais que a mim? – Sorri do jeito engraçado com que Gabriela formulava as frases. – Vocês brigavam tanto. Acho que prefiro que agora você a ame mais do que me ama.
– Eu amo vocês duas com a mesma intensidade, pequena. Mas acontece que às vezes adultos se amam de uma forma diferente.
– Diferente como?
– Digamos que eu ame sua mamãe como um casal de namorados se amam.
Fiquei analisando como a pequena tentava processar aquelas palavras, e diante do seu silêncio momentâneo, senti medo de ter falado algo errado. Eu nunca tinha tido uma conversa assim com uma criança, então não sabia se estava no caminho certo.
– Eu acho que entendo. – Colocou a mãozinha no queixo. – Namorados que se amam beijam na boca. Mas adulto não pode beijar na boca de criança como eu. Foi mamãe que me disse.
– Sua mãe está certa. Se algum dia alguém tentar algo assim com você, então você deve contar para um adulto, certo? Sua mãe, seus avôs, suas tias… até mesmo suas professoras na escola. Você precisa contar a alguém em quem você sabe que pode confiar. – A criança concordou e então voltei ao assunto. – Agora me diz o que você acharia se eu namorasse a sua mamãe.
Definitivamente, eu não era muito boa com essas coisas. Me sentia nervosa e ansiosa, então preferi ser um pouco direta, o que não sei se era adequado. Vi que Hanna foi pega de surpresa, talvez pela forma direta que falei, mas logo voltou seus olhos para a filha esperando calmamente por sua resposta. Por sua vez, por um instante Gabi ficou me olhando em silêncio. Ela parecia processar aquela pergunta e pensar na maneira como tinha que responder, o que não me surpreendia, porque como eu já havia dito antes, ela ainda é apenas uma criança e talvez não consiga entender realmente sobre essas coisas.
– Namorar a mamãe, é morar com nós igual tia Mica e tio Rob? – Ela me perguntou avaliativa.
– Bom, não exatamente assim. Seus tios são casados. – Ela me olhava com atenção me deixando ainda mais nervosa. – Mas eu iria poder visitá-las sempre, poderíamos passear as três. Digamos que eu seria ainda mais presente na vida de vocês duas, e cuidaria de vocês duas como seu tio Robson cuida da tia Micaela.
– Credo, Marcela. Você é péssima com isso. – Hanna debochou, e eu revirei os olhos. – Filha, o que a Marcela quer dizer é que ela iria estar cada vez mais presente na nossa vida, mas também iria ter um carinho diferente com a mamãe. Carinhos que ela não PODE JAMAIS TER COM OUTRAS PESSOAS. – Hanna enfatizou bem a última frase, me lançando aquele olhar assustador que só ela tinha.
– Ah! Então vocês vão dormir juntas igual o tio Rob faz com a tia Mica.
Olhei assustada para a criança anotando mentalmente que deveria fuzilar a Micaela depois. Aquele não era o tipo de informação que a menina deveria ter.
– É filha, nós iríamos fazer isso também. Mas estar junto com alguém em um relacionamento não trata-se apenas disso. Marcela vai cuidar da mamãe, dar atenção, carinho, amor. Ela vai ser minha companheira de vida, e dividir com vó o título da minha melhor amiga. Você não acha legal?
Senti um pouco de medo em Hanna, mas não ia julgá-la, pois eu não estava tão diferente.
– Mamãe, namorados tem filhos, não é? – Estremeci. – Então se você namorar a tia, eu vou ganhar um irmãozinho?
Tudo parecia acontecer em câmera lenta. Gabi olhava com olhos brilhantes e uma expectativa incomum após fazer a pergunta. Por sua vez, Hanna estava visivelmente alarmada com a astúcia da criança. E eu? Bom, eu estava engasgada e tossindo sem parar ao mesmo instante que buscava fôlego.
Depois de um tempo tentando me recompor com a ajuda de Hanna, olhei para Gabriela que na sua inocência ainda esperava a resposta com paciência. Minha namorada vendo que eu já estava melhor, voltou sua atenção para a filha.
– Amor da mamãe, não é assim que funciona. Um dia quem sabe você não ganha um irmãozinho, mas não vai ser agora.
A decepção nos olhos da criança me cortou o coração, e fiquei imaginando como seria um futuro aumentando a família.
– Ei pequena, não fica triste não. Eu prometo que um dia pensaremos nessa sua proposta, mas por enquanto eu já ficaria muito feliz se você me deixasse ser parte da família de vocês. Não acha legal me ter sempre por perto para cuidar de vocês e te levar sempre para passear?
– É SIM MUITO LEGAL! – A criança saltou do meu colo voltando a ficar animada e ficou de frente para mim. – Eu te gosto, tia Marcela. Eu deixo você namorar a mamãe.
Gabi se enroscou no meu pescoço com aqueles bracinhos pequenos, e me deu um beijo no rosto. Aquilo era uma atitude tão simples, mas tinha um significado enorme para mim. Foi impossível não me emocionar e sentir meus olhos encherem de lágrimas. Hanna se juntou ao nosso abraço tão emocionada quanto eu.
Ficamos ali em meu apartamento assistindo um filme infantil com Gabriela, mas quando percebi a pequena estava adormecida com a cabeça em meu colo. Olhei para Hanna e percebi que essa não estava tão diferente da filha. Ela dormia profundamente com as pernas da Gabriela sobre seu corpo.
– Amor, acorda. – Chamei carinhosamente para não assustá-la.
Esperei pacientemente que Hanna despertasse do sono. Ela olhava para os lados se situando onde estava.
– Nossa, está muito tarde. – Ela falou com voz sonolenta e achei aquilo a coisa mais linda do mundo. – Eu preciso ir para casa.
– De jeito nenhum. – Me apressei em falar atraindo seu olhar. – Você acha mesmo que vou deixar você sair com a Gabriela, nesse estado? Amor, você está cansada e eu não vou deixar você dirigir assim. Vocês vão dormir aqui hoje.
Hanna sorriu largo e não me contestou após me ouvir determinar.
Depois de desligar a TV, peguei Gabi no colo e levei em direção ao meu quarto fazendo um sinal para Hanna me acompanhar. Após acomodar Gabriela em minha cama percebi que Hanna estava escorada na entrada no quarto olhando cada movimento com atenção.
– Você não vai entrar?
– Estava te admirando. – Estendi a mão para ela que segurou e logo estava me abraçando pelo pescoço. – Sabia que acho lindo esse cuidado que você tem comigo e com minha filha?
– Eu amo vocês duas. Não poderia agir diferente. Poderia? – Ela sorriu e colou seus lábios nos meus em um selinho demorado.
– Se mil vidas eu tivesse, em mil vidas eu queria ser sua. Tenho sorte de tê-la.
Seus olhos conectaram-se com os meus, e era possível enxergar o amor que aquele olhar transmitia. Isso aquecia meu coração de uma maneira que eu não seria capaz de explicar com palavras.
– Eu te amo, tanto. Você e a Gabriela são partes do meu ser agora.
Nossos lábios se encontraram em um beijo ainda mais apaixonado.
Depois que Hanna tomou banho, nós fomos para a cama deitando uma de cada lado da Gabi. Ficamos ali, de frente uma para outra, com os olhos conectados, porém permanecendo em silêncio. Aquele era um momento leve, e um tipo silêncio que falava mais que mil palavras.
Depois de um tempo Hanna também pegou no sono, mas eu não conseguia deixar de observar mãe e filha enquanto agradecia ao destino por estar me permitindo finalmente ser feliz. Naquele momento eu me sentia a mulher mais feliz do mundo, pois as tinha juntas na minha casa pela primeira vez.
Fiz um carinho no rostinho angelical da pequena que dormia tranquilamente, logo depois passei meu braço sobre seu corpinho indo ao encontro do corpo de Hanna, e assim adormeci, com um sorriso nos lábios e com as duas mulheres da minha vida sob meus cuidados.
Fim do capítulo
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