Capitulo 6 - Cartões de Crédito e Intromissões Maternas
A viagem de volta para a cobertura de Mayfair pareceu consideravelmente mais curta do que a rota de ida, embora o trânsito de Londres continuasse o mesmo nó cego de sempre. Phoebe estacionou o sedã na sua vaga privativa e subiu pelo elevador, sentindo uma leveza inédita flutuar por seus ombros. Pela primeira vez desde que sua ex se fora, a perspectiva de abrir a porta e encontrar o apartamento silencioso não trouxe aquele habitual nó de amargura no estômago.
Ela jantou sem pressa. Não houve rosbife frio ou torradas sem graça; Phoebe deu-se ao luxo de pedir uma sopa de alcachofra leve e saboreou-a acompanhada de meia taça de um bom Chardonnay.
Olhou para o parapeito da janela da cozinha e, embora o círculo limpo onde antes ficava o abacate de Florence ainda estivesse lá, o ranço que costumava subir por sua garganta parecia ter perdido o viço. Em vez disso, sua mente insistia em revisitar a imagem daqueles dois felinos gordinhos e imponentes, sentados no parapeito de tijolos vermelhos como guardiões de um pequeno castelo residencial.
"Gatos gordos...", pensou, com o canto dos lábios arqueado em um sorriso contido enquanto seguia para o quarto.
No entanto, se a noite começou tranquila, o plano quimérico de seu subconsciente tinha outros planos para a madrugada. O sono que a acolheu não foi reparador, mas sim uma reprise expandida e desavergonhadamente audaciosa e erótica do sonho anterior.
Desta vez, não havia elevadores travados ou caroços de abacate rolando pelo chão. Phoebe viu-se na cabine de comando de um helicóptero militar, cercada por uma tempestade de vento e névoa.
Isla Cooper estava nos controles, vestindo o uniforme da Força Aérea, mas sem o quepe, deixando os cabelos loiros curtos ligeiramente rebeldes. No devaneio, o motor da aeronave engasgava e Isla pousava com uma precisão cirúrgica no topo de um edifício que se parecia muito com a cobertura de Phoebe.
A cena mudava sem lógica, transitando para o interior de seu próprio quarto. Isla aproximava-se com passos lentos, desabotoando os punhos da camisa branca com uma calma exasperante.
O toque de suas mãos - ásperas na medida certa pelo trabalho mecânico, mas incrivelmente calorosas - envolvia a cintura de Phoebe, puxando-a para perto até que seus corpos se fundissem. O perfume floral de Phoebe misturava-se ao calor fresco da pele de Isla.
No ápice do sonho, quando os lábios da segurança roçavam os seus em um sussurro que fez o baixo ventre de Phoebe contrair-se em pura antecipação, o alarme do celular tocou.
Phoebe despertou em um sobressalto, o coração martelando contra as costelas. Ela sentou-se na cama, encarando a penumbra do quarto com os olhos arregalados de puro choque.
- Céus... isso está cruzando todas as fronteiras da decência e do bom senso - sussurrou para si mesma, cobrindo o rosto com as mãos ardendo de vergonha.
***
Na manhã seguinte, o nível de autovigilância de Phoebe estava operando em capacidade máxima. Ela passou vinte minutos extras diante do espelho garantindo que nem um único fio de cabelo estivesse fora do coque e escolheu um terno azul-marinho que exalava uma autoridade quase imperial. Seus sapatos tinham saltos modestos, mas eram seguros para o tornozelo ainda dolorido. Ela precisava parecer a personificação do controle acionário majoritário da empresa.
O saguão da Fields Cosmetics estava movimentado quando ela entrou, por volta das oito e quarenta. Logo na entrada, o sistema de segurança exigia que todos os funcionários, incluindo a diretoria, aproximassem seus cartões funcionais dos leitores digitais para liberar as catracas de vidro temperado.
Isla Cooper estava de pé ao lado dos bloqueios, supervisionando o fluxo com a postura impecável e a mochila preta acomodada perto de seus pés. Quando Phoebe se aproximou, seus olhos castanhos fatalmente cruzaram com os verdes de Isla. A segurança desferiu aquele mesmo sorriso rápido e charmoso, os olhos brilhando com a cumplicidade da carona da noite anterior.
- Bom dia, senhora Fields. Espero que o tornozelo esteja melhor - Isla disse, a voz baixa e cortês.
O lampejo do sonho da madrugada atingiu a mente de Phoebe como um torpedo. O rubor subiu instantaneamente por seu pescoço. Tentando manter a compostura aristocrática e o olhar fixo na linha do horizonte, ela enfiou a mão na bolsa de couro, puxou o retângulo de plástico rígido e, com um movimento firme e decidido, bateu o cartão contra o leitor magnético.
Bip. Acesso Negado. Uma luz vermelha piscou.
Phoebe franziu a testa, bateu o cartão novamente, com mais força.
Bip. Operação Inválida.
- Problemas com o chip, senhora? - Isla deu um passo à frente, aproximando-se para ajudar.
- O sistema deve estar com alguma oscilação temporária, Cooper. Eu usei este cartão ontem e...
Phoebe interrompeu a própria frase quando finalmente baixou os olhos para olhar o objeto que segurava contra o sensor. Não era o crachá cinza com o logotipo dourado da Fields Cosmetics. Era o seu cartão de crédito Black - o famoso cartão preto sem limites.
Isla olhou para o cartão de crédito, depois para o leitor da catraca, e o canto de sua boca começou a tremer de forma perigosa na tentativa de conter o riso.
- Bem... - Isla pigarreou, os olhos verdes cintilando de pura diversão. - A Fields Cosmetics tem um valor de mercado impressionante, senhora Fields, mas acho que o sistema de segurança ainda não aceita suborno em libras esterlinas para liberar a entrada da própria dona.
- Cooper! - Phoebe sibilou, o rosto queimando de vergonha enquanto guardava o cartão de crédito na bolsa com movimentos frenéticos, procurando o crachá correto. - Isso foi apenas um equívoco, uma distração minha. Eu estava pensando em uma operação financeira internacional.
- Claro, senhora. Operações financeiras - Isla concordou, aproximando-se um milímetro a mais para pegar o crachá corporativo que Phoebe finalmente encontrara, ajudando-a a passar pelo leitor com um toque sutil de dedos que fez a CEO prender a respiração. - Catraca liberada. Tenha um excelente e produtivo dia de investimentos.
Phoebe cruzou a barreira de vidro quase correndo, marchando em direção aos elevadores sem olhar para trás, jurando mentalmente que demitiria o rapaz da TI se o sistema de catracas e câmeras ousasse registrar aquele fiasco.
***
O restante da quarta-feira encarregou-se de soterrar qualquer resquício de bom humor. O comitê de desenvolvimento de produtos emendou-se com uma auditoria fiscal interna que se arrastou pelas salas de conferência como uma tortura medieval. Foram horas debatendo alíquotas de importação, conformidades regulatórias e relatórios de sustentabilidade.
Phoebe liderou as mesas de negociações com sua habitual rigidez, mas o cansaço acumulado das noites mal dormidas começou a cobrar seu preço no final da tarde. Quando ela finalmente assinou o último parecer e desceu para o saguão, já passava das dezoito e trinta.
Seus olhos procuraram o balcão automaticamente. Isla não estava lá. O homem de meia-idade das palavras cruzadas já havia assumido o posto noturno. Phoebe sentiu uma pontada de frustração mesclada com cansaço ao entrar no carro. Nenhuma carona, nenhum jipe quebrado, nenhum Garfield. Apenas a rotina de sempre.
Ao chegar em casa, Phoebe jogou a bolsa no sofá e desabou na poltrona da sala, massageando as têmporas. Foi quando o celular em seu bolso vibrou. O visor exibia o nome que fazia qualquer executivo de alto escalão tremer mais do que diante de uma quebra da bolsa de valores: Mamãe.
Phoebe respirou fundo e deslizou a tela. - Olá, mamãe.
- Phoebe, querida - a voz de Althea Fields ecoou pelo alto-falante do celular, nítida, cortante e perfeitamente modulada nas altas rodas da aristocracia interiorana. - Estou ligando para avisar que estarei em Londres neste fim de semana. Decidi que passarei o final de semana com você na cobertura. Quero ver como você está lidando com... bem, com o sumiço daquela moça botânica e com a sua nova condição de solteira.
Um calafrio percorreu a espinha de Phoebe. Como ela já sabia sobre isso?! O pânico foi instantâneo.
Althea Fields era uma mulher cuja especialidade de vida era a desestabilização passivo-agressiva das pessoas que cruzavam seu caminho e mesmo da família. Ela possuía o terrível tique anatômico de semicerrar os olhos castanhos, reduzindo-os a duas frestas cirúrgicas, enquanto julgava as roupas, o peso, o cabelo e as escolhas existenciais de qualquer pessoa de cima a baixo em menos de três segundos.
- Domingo, mamãe? Eu... eu tenho muitos relatórios da expansão asiática para revisar e...
- Bobagem, Phoebe. Você é a CEO da empresa, mude os relatórios para outro dia. Estarei aí no sábado e ficarei para o almoço de domingo. Certifique-se de ter algo decente na geladeira que não seja aquela comida tailandesa industrializada que você adora. Até lá, querida.
O sinal de chamada encerrada ecoou no apartamento vazio. Phoebe jogou a cabeça para trás no encosto da poltrona, fitando o teto. Entre noites povoadas por uma segurança loira de olhos verdes e um domingo sob o escrutínio impiedoso de sua mãe belicosa,
Phoebe teve a nítida certeza de que o universo não estava apenas fazendo piadas com ela - estava prestes a abrir um show de comédia completo à suas custas.
Fim do capítulo
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Lady Texiana Em: 27/05/2026 Autora da história
Haaa
kkkkk
Com certeza haverá caos!
Mas será que também poderá ter redenção para Althea?
Obrigada por acompanhar!
Abraços!