Capitulo 5 - Motores Engasgados e a Filosofia de Um Certo Gato Laranja
O relógio da fachada nobre da Fields Cosmetics marcava dezoito horas e quinze minutos quando Phoebe Fields finalmente cruzou as portas giratórias do saguão.
A planilha dos alemães havia sido salva no último segundo pelo rapaz da TI - que merecia um bônus substancial no fim do mês -, a expansão asiática estava garantida e o notebook defumado fora substituído. Ainda assim, Phoebe sentia o peso de uma terça-feira que parecia ter durado uma semana inteira.
Mancando com um pouco mais de sutileza graças à compressa de gelo que Eleanor havia renovado à tarde, ela recusou a oferta do motorista da empresa. Precisava dirigir. Precisava focar as mãos no volante de seu próprio carro para ver se conseguia, por tabela, reaver as rédeas de seus próprios pensamentos, que insistiam em reprisar os olhos verdes de Isla Cooper rindo atrás do balcão.
Ao descer pelo elevador até o estacionamento subterrâneo dos executivos, um som ecoou pelo concreto armado, quebrando o silêncio do subsolo.
Cof... cof... rrrrééé...
Era um barulho metálico, asmático e doloroso. Phoebe franziu a testa, destravando seu sedã preto pelo controle. Caminhou mais alguns passos e localizou a fonte do ruído na ala destinada aos funcionários comuns.
Parado transversalmente em uma vaga estava um autêntico calhambeque. Um jipe antigo, de um verde-musgo desbotado pelo tempo e pelas intempéries, que parecia ter sobrevivido a pelo menos duas guerras mundiais e três vistorias reprovadas. O capô estava aberto, exalando uma nuvem de vapor cinzento, e atrás do volante, girando a chave com uma insistência quase heroica, estava Isla Cooper.
Tosse, engasga e morre. O motor soltou um último suspiro digno de pena e silenciou.
Isla soltou um suspiro pesado, apoiando a testa contra o volante de couro gasto. Ela já havia tirado o paletó do uniforme, vestindo apenas a camisa branca com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando os braços fortes e bronzeados.
Phoebe parou a poucos metros. Sua mente corporativa e ranzinza gritou para ela entrar em seu carro luxuoso, ligar o aquecedor e ir embora para sua cobertura vazia. Mas seus pés - calçados nos saltos baixos da teimosia - tomaram a iniciativa por conta própria. Ela caminhou até o jipe.
- Cooper? - Phoebe chamou, a voz ecoando no subsolo. - Isso por acaso é um meio de transporte ou uma peça que escapou do depósito de sucatas?
Isla ergueu a cabeça rapidamente, os olhos verdes piscando de surpresa ao ver a CEO ali, sozinha, inspecionando seu desastre mecânico. Ela desceu do jipe com sua habitual agilidade atlética.
- Boa noite, senhora Fields. Eu diria que ele é um clássico incompreendido. Mas, no momento, é só um pedaço de ferro velho que se recusa a cooperar. Acho que a junta do cabeçote finalmente entregou os pontos.
- E o que você pretende fazer? - Phoebe cruzou os braços, olhando para o motor fumegante e depois para as roupas de Isla.
- Chamar o guincho. E depois pegar dois metrôs e um ônibus para conseguir chegar em casa antes da meia-noite - Isla deu um sorriso de canto, sem perder o bom humor. - O Garfield diria que isso é o carma por eu ter tentado trabalhar em uma terça-feira que tem cara de segunda.
Phoebe olhou para o relógio de pulso. Depois olhou para Isla. Uma parte de seu cérebro, a parte puramente pragmática e defensiva, tentou impedi-la, mas a boca foi mais rápida.
- Entre no meu carro, Cooper.
Isla piscou, genuinamente confusa. - Desculpe?
- Eu não vou repetir, não gosto de me duplicar - Phoebe deu meia-volta, mancando em direção ao sedã preto. - O guincho pode retirar essa sua sucata amanhã. Eu vou lhe dar uma carona. Nem eu mesma sei exatamente por que estou fazendo isso, então entre antes que eu recupere a minha sanidade mental. Apenas me diga onde mora e vamos lá.
Isla olhou para o jipe morto, depois para a silhueta elegante da chefe que se afastava. Um brilho divertido cruzou seus olhos verdes.
- Bem... quem sou eu para contrariar as ordens da diretoria? - murmurou, pegando sua mochila e travando o calhambeque.
***
O ambiente dentro do sedã de Phoebe era o oposto do jipe de Isla. O estofado cheirava a couro novo e notas discretas de perfume floral. Isla acomodou-se no banco do passageiro, sua estatura alta fazendo o espaço parecer subitamente menor. Phoebe ligou o motor silencioso e manobrou para fora do estacionamento, subindo em direção às ruas movimentadas de Londres.
O silêncio inicial durou dois quarteirões, quebrado apenas pelo som sutil dos pneus contra o asfalto molhado pela névoa. Phoebe pigarreou, mantendo os olhos fixos no trânsito.
- Então... Garfield. Você parece ter uma fixação curiosa por aquele gato folgado.
Isla soltou uma risada baixa, encostando a cabeça no apoio de couro. - Eu gosto da honestidade dele, senhora Fields. Ele não finge ser o que não é. Ele tem como único objetivo, comer, dormir e odeia o conceito das chatices diárias. Acho que o mundo seria mais simples se todos fôssemos um pouco mais Garfield.
- O mundo estaria falido se todos fôssemos como ele, Cooper. Alguém precisa gerenciar as empresas e pagar os salários - Phoebe retrucou, embora houvesse uma leveza inédita em seu tom de voz. Ela mudou de marcha, sentindo uma curiosidade genuína que vinha tentando reprimir desde a manhã. - Eleanor me disse que você começou ontem, mas sua ficha não detalhava muito o seu passado. Onde você trabalhava antes de decidir vigiar a minha recepção?
Isla olhou para a janela por um momento, observando as luzes de Londres passarem. - Eu era militar. Da Royal Air Force. Piloto de helicóptero de busca e salvamento.
Phoebe quase piscou mais vezes do que o habitual. Virou o rosto por uma fração de segundo para encarar Isla. - Militar?! Da Força Aérea?! E o que faz uma piloto de salvamento virar segurança de prédio corporativo?
- Problemas pessoais - Isla respondeu de forma simples, mas sem amargura. - A carreira militar exige que você pertença ao Estado vinte e quatro horas por dia. Depois de rodar o mundo, ver bases de operação do Oriente Médio às Américas, decidi que precisava de uma vida onde, quando o meu turno acabasse, eu pudesse simplesmente ser eu mesma. Desisti da carreira para ter uma rotina comum. Sem missões na madrugada. Só eu, meus livros e a tranquilidade de saber onde vou acordar no dia seguinte.
Phoebe assimilou as palavras em silêncio. Havia uma profundidade em Isla que contrastava dramaticamente com a imagem descontraída da mulher que lia tirinhas. "Problemas pessoais", ela dissera. Phoebe conhecia bem o peso dessa expressão.
- Você disse que rodou o mundo - Phoebe comentou, querendo desviar de assuntos muito densos para não quebrar o clima estranho, porém confortável, que se instalara no carro. - O Garfield a acompanhou nessa jornada internacional?
Isla riu, os olhos verdes brilhando de forma fascinante sob a iluminação dos postes de luz. - Ah, com certeza. Eu tinha uma coletânea de bolso que ia comigo em todas as mochilas de lona. Uma vez, quando eu estava em um intercâmbio de treinamento militar, conheci uma sargenta brasileira. Uma mulher fantástica. Ela me viu lendo as tirinhas e aí ficamos conversando sobre como a rotina militar podia ser exaustiva, então ela me contou que no Brasil existia uma rede social americana e que fez muito sucesso por lá, chamada... Orkut, acho que era esse o nome.
- Orkut? Sim, ouvi falar. Por aqui não foi tão comum - disse Phoebe, dobrando à esquerda em direção ao bairro mais residencial para onde Isla havia indicado o caminho.
- Acho que já nem existe mais. Mas ela me disse que lá havia uma página, uma espécie de clube virtual, chamado "Eu odeio segundas-feiras". Ela me garantiu que a página amealhava milhões de seguidores. Milhões! Pessoas que se reuniam na internet somente para compartilhar o ranço coletivo pelo início da semana, usando o Garfield como patrono. Achei aquilo genial. O ódio às segundas-feiras poderia ser realmente uma coisa que teria o poder de unir milhões de pessoas.
Phoebe soltou uma risada legítima, uma piada que escapou de seus lábios antes que ela pudesse conter.
- Pois eu acho que se eu conhecesse essa sargenta brasileira, sugeriria a criação de uma página chamada "Eu odeio abacates". Garanto que amealharia pelo menos uma seguidora vitalícia com muito ranço para compartilhar.
Isla olhou para Phoebe, surpresa e divertida com a tirada da chefe. - Abacates, senhora Fields? O que a fruta fez para merecer tanta hostilidade?
- É uma longa história de inadequação botânica e imaturidade conjugal, Cooper. Não queira saber - Phoebe encerrou o assunto, mas o canto de sua boca exibia um sorriso discreto.
- É logo ali, na próxima esquina. Pode parar perto daquele prédio de tijolos vermelhos - indicou Isla.
Phoebe estacionou o sedã junto à calçada de uma rua pacata, consideravelmente distante do glamour de Mayfair ou da cobertura onde morava, mas que exibia um charme tipicamente acolhedor de Londres.
Isla soltou o cinto de segurança e pegou sua mochila. - Obrigada pela carona, senhora Fields. De verdade. Me salvou de uma odisseia no transporte público.
- Considere um adiantamento por ter resgatado o meu sapato com uma alavanca ontem - Phoebe respondeu, tentando reaver sua pose formal, embora seus olhos estivessem fixos nas feições de Isla.
- Então... até amanhã, Phoebe. Digo... senhora Fields - Isla se corrigiu com um sorriso rápido e charmoso, abrindo a porta do carro.
Phoebe ficou observando Isla caminhar em direção à entrada do prédio de tijolos vermelhos. Antes de alcançar a porta, Isla olhou para cima e acenou para a janela do segundo andar.
Phoebe, movida por uma curiosidade involuntária, inclinou-se sobre o banco do passageiro e olhou através do vidro em direção à fachada do apartamento de Isla.
Sentados imponentemente no parapeito externo da janela, emoldurados pela luz quente que vinha do interior do apartamento, estavam dois gatos de aparência visivelmente gorda e bem alimentada.
Um deles, um malhado cinzento, parecia inspecionar a rua com desdém aristocrático; o outro, um felino preto e branco com manchas desalinhadas, ostentava uma expressão de pura cobrança. Ambos olhavam fixamente para baixo, esperando a chegada de Isla como duas pequenas majestades que não toleravam atrasos na corte.
Isla entrou no prédio, e os dois gatos imediatamente sumiram da janela, saltando para dentro para exigir seus respectivos sachês de salmão.
Phoebe soltou uma risada anasalada, balançando a cabeça enquanto engatava a marcha para dar partida no carro.
- Gatos gordos... - ela murmurou para si mesma, sentindo o peito estranhamente leve. - O universo definitivamente tem um senso de humor muito peculiar
Fim do capítulo
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