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Contrato de Risco Romântico por Lady Texiana

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Palavras: 1600
Acessos: 528   |  Postado em: 23/05/2026

Capitulo 4 - Segunda Feira... Ou seria Terça? E Um Gato Gordo

 

A determinação de Phoebe Fields em se manter fria, inacessível e milimetricamente calculada durou exatos quarenta minutos - o tempo de tomar um café preto duplo sem açúcar, vestir outro terno cinza de alfaiataria e mancar com uma dignidade heroica até o banco do motorista de seu sedã.

Ela havia enfaixado o tornozelo firmemente, embora relutantemente, calçou um sapato de salto baixo, ao invés dos tradicionais salto agulha. Um salto sapatilha, o que para Phoebe equivalia a andar descalça no meio da rua, mas era o único sacrifício que seu orgulho ferido aceitaria para não dar o braço a torcer.

Ao cruzar o saguão nobre da Fields Cosmetics às oito e meia da manhã, ela manteve os olhos castanhos fixos na linha do horizonte, recusando-se a olhar para as portas espelhadas do elevador e, principalmente, para o balcão da segurança.

No entanto, a visão periférica é uma traidora. Phoebe registrou perfeitamente a silhueta alta de Isla Cooper de pé na triagem, as mãos para trás, ajeitando a postura ao ver a chefe passar. Phoebe apenas soltou um aceno de cabeça tão sutil que mal moveu os fios castanhos claros de seu coque, e acelerou o passo manco para dentro da cabine.

As portas se fecharam sem incidentes. Sem saltos presos. Sem quedas. "Controle restabelecido", pensou Phoebe, soltando o ar que nem sabia que estava prendendo.

A manhã foi preenchida por uma calmaria burocrática que ajudou a dissipar os resquícios do devaneio febril da madrugada. Não houve esporros homéricos. 

Alistair enviou um relatório com três novas opções de fragrâncias florais (todas bem distantes de qualquer horta ou pomar orgânico), e Jonathan apresentou um conceito visual focado em "Linhas Simétricas e Permanência" que arrancou de Phoebe um raro e seco sinal de aprovação.

Tudo corria dentro dos conformes do universo corporativo de Londres. Até que chegou o horário do almoço.

***

Phoebe não costumava descer para almoçar, um hábito que Eleanor conhecia e respeitava cegamente. Por isso, às treze horas, a secretária executiva entrou na sala trazendo uma sacola de papel kraft de um dos restaurantes mais caros de Mayfair.

- Seu almoço, senhora Fields. O Pad Thai de camarão com especiarias que a senhora pediu.

- Obrigada, Eleanor. Pode ir para o seu intervalo - respondeu Phoebe, sem erguer os olhos do notebook.

O problema com as embalagens modernas, não só as de alta gastronomia, mas praticamente todas as outras, é que elas parecem projetadas por engenheiros aeroespaciais com excesso de zelo. 

Phoebe acomodou o recipiente de papelão impermeável sobre a mesa de carvalho. O aroma de capim-limão e gengibre inundou a sala, abrindo seu apetite. Ela pegou os hashis de madeira e tentou puxar a aba de segurança da tampa.

A aba estava travada, hermeticamente fechada. Phoebe puxou com um pouco mais de força. Nada. Sua rabugice latente, alimentada pela frustração acumulada dos últimos dias, despertou.

- Mas que inferno, porcaria de embalagem que não abre. Por que não podem facilitar a vida e criar algo mais intuitivo, seria pedir demais? - resmungou, aplicando uma força desproporcional com os polegares para forçar o lacre.

O papelão cedeu de uma vez, mas não da forma esperada. A tampa abriu em um estalo violento, agindo como uma catapulta perfeita. Uma quantidade generosa de molho de amendoim, pedaços de broto de feijão e um camarão inteiro voaram pelos ares. 

O camarão aterrissou com precisão cirúrgica exatamente em cima do teclado de seu novíssimo notebook. Mas o pior não foi isso. O molho tailandês espesso escorreu em uma linha contínua pelas teclas, descendo diretamente para a fresta do botão de ligar.

Houve um estalo elétrico minúsculo. A tela do computador piscou duas vezes em tons de azul e apagou por completo. Uma fumaça fina com cheiro de circuito queimado e frutos do mar subiu da máquina.

Phoebe congelou.

- Não... Não, não, não!

Ela largou os hashis e apertou o botão de ligar repetidas vezes. O aparelho tinha morrido mesmo. E dentro dele, em um arquivo local que ela esquecera de salvar na nuvem da empresa na noite anterior, estava a planilha final com os preços e as margens de lucro negociadas a ferro e fogo com os alemães. Os investidores esperavam o documento assinado digitalmente até as quinze horas, ou a expansão asiática seria congelada por quebra de protocolo.

Phoebe entrou em pânico. Eleanor estava em seu horário de almoço, provavelmente incomunicável em algum café na esquina. O pessoal do suporte de TI ficava no subsolo, e o sistema de ramais internos da presidência também estava acoplado à rede do computador danificado.

Sem opções, sentindo o suor frio da urgência substituir a imponência de CEO, Phoebe agarrou um bloco de notas, enfiou os pés nos sapatos de salto baixo e saiu de sua sala. Ela precisava descer até a recepção para usar o telefone de uso geral ou encontrar o técnico de plantão antes que o prazo dos alemães expirasse.

***

Phoebe desceu de elevador, o coração batendo no ritmo da urgência. Quando as portas se abriram no térreo, ela saiu marchando - ou o mais próximo de uma marcha que seu tornozelo enfaixado permitia -, pronta para dar ordens expressas.

No entanto, a cena que encontrou no balcão da recepção a fez parar abruptamente a poucos metros de distância.

Isla Cooper estava sentada na cadeira giratória de couro atrás do balcão. Mas ela não exibia a postura militar ou a neutralidade enigmática do dia anterior. Isla estava com os cotovelos apoiados na mesa, segurando um livro de compilações de tirinhas antigas do Garfield.

A segurança estava rindo. E não era um sorriso discreto de polidez; era uma risada aberta, genuína e terrivelmente fascinante. Os ombros largos de Isla - os mesmos que haviam assombrado as últimas horas de sono de Phoebe - sacudiam levemente sob o tecido azul do uniforme. Seus olhos verdes estavam semicerrados pela diversão, e ela soltou uma risada abafada, balançando a cabeça loira enquanto lia a página.

- "Eu odeio segundas-feiras" - Isla murmurou para si mesma, rindo das peripécias do gato laranja. - Você não sabe de nada, gato gordo...

Phoebe piscou, paralisada. Ver aquela mulher, que no seu sonho parecia uma figura saída de um daqueles romance de mocinha arrebatador, rindo de um felino de desenho animado que detestava lasanha fria e dias úteis, quebrou completamente o gelo que Phoebe passara a manhã tentando construir. Havia uma leveza tão absurda naquela cena que Phoebe sentiu seu estômago dar uma reviravolta estranha. Subitamente percebeu que aquela era uma mulher muito bonita.

Ela pigarreou, tentando recuperar a voz de comando que parecia ter ficado presa na cobertura.

- Cooper.

Isla deu um sobressalto digno de nota. O livro do Garfield voou de suas mãos, batendo no monitor da recepção antes de cair aberto em cima do teclado. Ela se levantou em um milésimo de segundo, endireitando o uniforme e tentando trazer de volta a expressão neutra, embora suas bochechas estivessem ligeiramente coradas.

- Senhora Fields! Desculpe, eu estava...

- Lendo literatura infanto-juvenil em horário de expediente? - Phoebe arqueou uma sobrancelha castanha, cruzando os braços, tentando adotar sua melhor postura ranzinza para disfarçar o fato de que seu coração tinha acelerado de forma injustificável.

- Era... é um intervalo de triagem, senhora - Isla se defendeu, a voz firme, mas com um brilho divertido que teimava em não sair dos olhos verdes. - O Garfield tem uma filosofia de vida muito sólida sobre a absoluta necessidade de descanso para evitar a fadiga moderna.

Phoebe soltou um bufo que pretendia parecer desdenhoso, mas que saiu quase como um suspiro.

- O que quer que o seu felino literário pense sobre as segundas-feiras, Cooper, garanto que a minha ontem foi consideravelmente pior. E hoje, eu cometi o erro de tentar abrir a força uma embalagem de comida tailandesa e agora o meu notebook de trabalho está sofrendo uma parada elétrica por excesso de molho de amendoim e camarão.

Isla processou a informação por um segundo, os olhos arregalando-se levemente antes que um sorriso involuntário começasse a curvar os cantos de seus lábios.

- Um camarão, senhora?

- Não ache graça, Cooper! - Phoebe ralhou, embora o tom estivesse longe da fúria que dedicara a Alistair no dia anterior. - Os alemães precisam da planilha de Frankfurt em menos de uma hora e o meu computador está espiralando fumaça na minha mesa. Preciso que use o sistema de rádio ou o telefone central para chamar o chefe da TI na minha sala. Agora.

Isla imediatamente mudou de postura, percebendo a gravidade real do problema corporativo.

- Deixe comigo. Vou acionar a engenharia de sistemas pelo canal de emergência. Eles estarão na  sua sala em três minutos, senhora Fields.

- Ótimo. E Cooper... - Phoebe deu meia-volta para se dirigir ao elevador, parando por um instante antes de entrar. Ela olhou de relance para o livro do Garfield esquecido no balcão e depois para Isla. - Guarde esse gato gordo em alguma gaveta até o final do turno. A Fields Cosmetics não paga seus funcionários para concordarem com as filosofias de preguiça de um animal de estimação fictício.

- Entendido, senhora - Isla respondeu, batendo os calcanhares com aquele mesmo deboche sutil e encantador.

Phoebe entrou no elevador. Enquanto a cabine subia, ela olhou para o próprio reflexo no espelho. Suas bochechas estavam coradas, e a sensação latejante em seu tornozelo parecia curiosamente menor do que cinco minutos atrás. O plano de se manter distante e durona estava falhando miseravelmente, e o pior de tudo é que ela estava começando a achar que o universo, de fato, sabia o que estava fazendo.

 

Fim do capítulo


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