34 por Luciane Ribeiro
Você é meu caminho parte 1
Quando cheguei em casa, senti o cheiro dela imediatamente.
Aquilo me atingiu antes mesmo que eu fechasse a porta.
O perfume suave misturado ao aroma do café que ela costumava preparar... ainda estava no ar.
E aquele silêncio...
Aquele maldito silêncio doeu mais do que eu conseguia suportar.
Fechei os olhos por um instante, tentando respirar fundo.
Não.
Eu não conseguiria.
Precisava dela.
Mesmo com raiva.
Mesmo confusa.
Mesmo me evitando.
Precisava saber que ainda existia alguma coisa entre nós além daquela bagunça dolorosa que Amanda havia criado.
Abri a porta outra vez, decidida a voltar para o carro e procurá-la na Casa Verde.
Mas, antes que pudesse sair, ouvi algo cair no andar de cima.
Congelei.
Meu coração disparou imediatamente.
Um ladrão?
Da última vez que me envolvi numa situação parecida, terminei com a cabeça aberta .
Ótimo.
Definitivamente eu não estava pronta para outro trauma craniano.
Comecei a recuar devagar em direção à porta, tentando decidir se ligava para segurança ou simplesmente fugia como uma pessoa minimamente inteligente faria.
Então ouvi Tris latir no quintal.
Parei na mesma hora.
Se ele estava ali...
Ela também estava.
Antes mesmo de perceber, já subia as escadas apressada.
Meu coração batia forte demais.
Parte pelo susto.
Parte pela esperança desesperada de encontrá-la.
Empurrei a porta do quarto.
Helena estava de costas para mim, mexendo na cômoda como se procurasse alguma coisa.
A luz fraca do abajur desenhava sua silhueta.
Ela parecia cansada.
Tensa.
Linda.
Sem pensar duas vezes, atravessei o quarto e a abracei por trás.
Com força.
Como se meu corpo estivesse tentando impedir que ela desaparecesse outra vez.
Helena se assustou imediatamente e tentou se soltar.
- Por favor, Helena... não me afaste.
Ela congelou nos meus braços.
- Eve...
Helena ergueu o rosto devagar. Os olhos estavam cheios de lágrimas. Segurou meu rosto entre as mãos, me obrigando a encará-la.
- Eve... me desculpe. Amanda... eu ....
- Eu sei. Vi, ouvi e senti tudo.
Ela engoliu em seco.
- Então por que continua aqui? Você devia estar gritando comigo... dizendo o quanto está decepcionada e com raiva.
Eu odiava ver as lágrimas descendo pelo rosto dela. Helena estava tão acostumada a ser julgada e condenada por cada erro que parecia pronta para receber qualquer coisa cruel que eu dissesse ou fizesse.
Em vez disso, puxei-a de volta para meus braços e a apertei contra mim.
- Está tudo bem, meu amor. Não chore. Eu amo você... e sei que você ama nós duas.
Ela se contraiu e tentou se afastar, mas eu a segurei firme.
- Continua aqui comigo. Me abraça. Vamos esquecer tudo isso... como naqueles dias em que ficamos na praia.
A voz dela saiu baixa, quase quebrada.
- É tudo o que eu mais quero.
Respirei fundo.
- Eu prometi que cuidaria de você. Sinto muito por estar falhando nisso. Eu devia deixar de ser egoísta e te libertar do meu caos... mas eu não consigo.
Helena se afastou só o suficiente para me olhar.
E então sorriu daquele jeito triste e bonito ao mesmo tempo.
- Eu não quero isso, Eve.
As mãos dela deslizaram devagar pelo meu rosto.
- Eu amei... e amo... cada detalhe que faz você ser você.
Meu coração disparou.
- Eu me apaixonei pela tempestade instável que me abalava só pelo simples fato de existir.
Minha respiração falhou.
Ela sorriu de leve entre lágrimas.
- Amanda me atrai porque me lembra uma parte sua... aquela que me fazia acreditar que eu estava ficando louca durante as aulas só porque você me olhava.
Um riso fraco escapou dela.
- Você bagunçava tudo em mim sem fazer esforço.
As palavras dela provocaram uma avalanche impossível de conter dentro de mim.
Eu não disse mais nada.
Não precisava.
Apenas a beijei.
Como se estivesse selando um acordo entre nós três.
Eu, ela e Amanda.
Eu seria o colo.
Amanda seria o escudo.
Ela preencheria onde eu faltasse.
E eu conseguiria vencer meu ciúme.
Passei os dedos pela nuca dela e sorri de leve.
- O que faremos agora?
A expressão de Helena mudou.
A dor ainda estava ali.
Mas agora havia algo mais forte.
Determinação.
- Agora seremos uma só. Focadas no que mais importa neste momento. Salvar Dandara. Nada é mais importante do que isso, Eve.
Assenti imediatamente.
- Concordo.
A resolução na voz dela me fez estremecer.
Mas não de medo.
De esperança.
Naquele instante tive a mais absoluta certeza de que Helena faria o impossível acontecer.
Me afastei para ir para o banho.
Para minha surpresa, ela veio comigo.
A água caiu sobre nós como uma cerimônia silenciosa.
Um pacto.
Ela, eu e uma conversa feita apenas de toques e carinho.
Sem pressa.
Sem necessidade de palavras.
Sem sex*.
Apenas amor.
Apenas a vontade desesperada de permanecer juntas.
Quando saímos do banho, nos vestimos e pedimos comida.
Depois nos sentamos na cama.
Helena acomodada entre minhas pernas, sentindo meu calor e meu apoio enquanto eu a envolvia nos braços.
Ela respirou fundo antes de começar a explicar.
- O composto 34 pode eliminar o vírus... mas isso também mata o hospedeiro.
Meu corpo inteiro enrijeceu.
O silêncio caiu pesado entre nós.
Helena virou um pouco o rosto e me encarou.
A intensidade no olhar dela fez meu peito apertar.
- Existe uma possibilidade. Pra isso eu preciso do Archer 1 original. Preciso saber exatamente quais compostos Laura utilizou... e como cada um deles reage separadamente ao 34. Só assim vamos descobrir qual deles provoca o aceleramento da regeneração celular.
Segurei sua mão com mais força.
- Não se preocupe, meu amor. Eu vou trazer o Archer 1 pra você.
Helena assentiu, mas logo sua expressão ficou séria outra vez.
- Tem outro assunto delicado que precisamos tratar.
Meu peito apertou.
- As mães da Dandara precisam saber.
Fechei os olhos por um instante.
Eu sabia.
Não dava mais para adiar aquilo.
- Eu sei... eu mesma vou contar a elas depois das festividades do aniversário da Aline.
Helena apenas concordou.
O silêncio durou poucos segundos antes de ela lembrar de algo.
- A propósito... Karina me ligou.
Sorri de leve.
- Disse que falou com você sobre a pré-festa na ilha.
Passei os dedos distraidamente pelo braço dela.
- Nós vamos?
Helena arqueou uma sobrancelha e sorriu.
- Claro.
A mão dela encontrou a minha.
- Uma pessoa muito sábia me disse certa vez que às vezes precisamos nos distrair pra encontrar soluções pros problemas.
Acabei sorrindo.
- Eu disse isso?
- Disse.
Ela se ajeitou melhor entre minhas pernas.
- E além disso... Karina me fez uma proposta tentadora demais pra eu recusar.
Me inclinei um pouco mais.
- Que proposta?
Os olhos dela brilharam na mesma hora.
- Ela vai nos levar pra conhecer o infame laboratório do Danilo Resquier... que agora pertence ao Isabel Montello.
Aquilo bastou para me prender inteira.
Helena sorriu ao perceber minha reação.
- E prometeu me mostrar o experimento mais cruel e secreto que ele deixou escondido lá.
Não consegui conter o sorriso.
Minha esposa compartilhava da mesma paixão que eu pelos laboratórios.
Pelas descobertas.
Pelo mistério escondido em cada bancada.
Em cada pesquisa interrompida.
Em cada resposta que parecia impossível até alguém ousar procurar.
Aquilo só me fazia acreditar ainda mais no que eu já sabia desde o começo.
Helena era minha alma gêmea.
Na ciência.
No caos.
E em cada parte da vida que eu ainda queria descobrir ao lado dela.
Passamos a noite inteira trabalhando.
Mostrei a Helena toda a minha pesquisa. Cada anotação, cada teste, tudo o que eu tinha conseguido descobrir sobre as reações químicas do Archer 1 e sobre as possibilidades que ainda restavam.
Ela mergulhou naquilo comigo como se já estivesse dentro da minha cabeça.
Analisando.
Questionando.
Ligando detalhes que eu ainda não tinha conseguido enxergar.
A madrugada passou sem que percebêssemos.
Quando o céu começou a clarear, Helena acabou vencida pelo cansaço.
Fechou o notebook devagar, esfregou os olhos e tentou insistir que ainda conseguia continuar.
Mas eu conhecia cada sinal.
Guardei os computadores.
Organizei tudo na mesa.
Depois a conduzi até a cama.
Ela caiu no colchão quase imediatamente.
Ajeitei o travesseiro sob sua cabeça, puxei o lençol e me deitei atrás dela.
Conchinha.
Meu lugar favorito no mundo.
Sorri sozinha quando ela, ainda dormindo, se ajustou automaticamente contra mim.
O corpo procurando o meu como se soubesse exatamente onde pertencia.
Passei o braço ao redor da sua cintura.
E adormeci também.
Fomos acordadas perto das duas da tarde por uma sequência de ligações e mensagens.
Helena resmungou primeiro.
Estiquei o braço e peguei o celular.
Karina.
Várias mensagens.
Uma ligação perdida.
Outra entrando.
Atendi ainda sonolenta.
- Oi...
- Mudança de planos! - a voz dela veio acelerada do outro lado. - A viagem foi antecipada. Previsão de tempestade mais tarde. Se quisermos chegar tranquilos, precisamos sair agora.
Sentei na cama imediatamente.
- Certo. Já estamos indo.
Helena já estava desperta ao meu lado.
- Karina?
Assenti.
- Tempestade. A viagem foi antecipada.
Ela levantou no mesmo segundo.
Em poucos minutos estávamos correndo pelo quarto.
Ou melhor.
Eu correndo.
Helena tentando sobreviver ao caos que era me ver fazer mala.
Joguei roupas em cima da cama e comecei a enfiar tudo dentro da bolsa.
Ouvi sua respiração travar.
Quando olhei, ela estava parada me encarando.
Horrorizada.
Não consegui conter o riso.
- Amor... vai amassar tudo.
Continuei dobrando qualquer coisa pela metade e empurrando.
- Estamos com pressa demais pra organizar tudo por cor, minha vida.
Ela arregalou os olhos.
- Não é por cor, Eve. É por lógica.
- Claro.
Helena pegou uma camiseta da mala e dobrou perfeitamente em dois segundos.
- Tem certeza de que pegou tudo que precisa?
Abri a boca para responder, mas ela já estava olhando ao redor.
- Não tô vendo nenhum agasalho.
Pegou um casaco na cadeira e colocou na cama.
- Pegou biquíni?
Enfiei um dentro da mala.
- Peguei.
- E sua escova de dentes?
- Helena...
- Acho melhor levar a nova que comprei ontem.
Eu me aproximei e segurei sua cintura.
- Amor...
Ela ainda analisava a mala.
- Respira.
Finalmente me olhou.
Pisquei devagar.
- Já peguei tudo.
Ela soltou um suspiro.
- Desculpa.
A expressão dela amoleceu.
- Eu tô ansiosa.
Passei o polegar pelo rosto dela.
- Ansiosa com a viagem?
Helena sorriu.
Um sorriso pequeno e sincero.
- É a primeira vez que eu viajo com amigas.
Meu coração simplesmente derreteu.
Levei a mão ao peito dramaticamente.
- Ai meu Deus... você é tão fofa.
Ela estreitou os olhos.
- Para.
Ri.
- Nunca.
Ela apontou para mim como quem me dava uma ordem.
- Chama o carro por aplicativo.
Me afastei pegando o celular.
- Sim, senhora.
Ela virou em direção à cozinha.
- Vou dar comida pro Tris.
Enquanto eu chamava o carro, ouvi a voz dela continuar:
- Seu pai vai vir cuidar dele enquanto estivermos fora.
Parei no meio da tela.
- Espera.
Virei imediatamente.
- Quando você falou com meu pai?
Helena surgiu de volta na porta da cozinha com a maior naturalidade do mundo.
- Ontem à tarde.
- Ontem?
- Quando ele foi buscar sua mãe na Casa Verde.
Fiquei encarando.
Ela arqueou a sobrancelha.
- O quê?
Ainda estava processando.
- Você resolveu toda a logística da viagem... falou com Karina... com meu pai... e ainda passou a madrugada inteira salvando uma pesquisa científica comigo?
Helena cruzou os braços.
- Sim.
Aproximei devagar.
- Você é assustadoramente eficiente.
Ela sorriu de lado.
- Eu sei.
Passei um braço pela cintura dela e a puxei até mim.
- E linda.
Ela segurou meu rosto.
- Seu pai reclamou que você não tem passado tempo suficiente com ele.
Fechei os olhos.
- Ai.
- Foi exatamente essa cara que ele fez.
Ri baixo.
- Eu vou compensar quando voltar.
- É bom mesmo.
Ouvi a buzina do carro lá fora.
Helena pegou a mala.
Eu peguei a dela.
Ela me olhou imediatamente.
- Essa é a minha.
- Eu sei.
- Você vai derrubar.
- Confia em mim.
Descemos juntas.
Tris ainda veio correndo até a porta e miou como se estivesse protestando.
Helena abaixou, fez carinho nele e prometeu voltar logo.
Quando saímos para a rua, o vento já anunciava a mudança do tempo.
O céu começava a escurecer ao longe.
A tempestade vinha.
E, de alguma forma...
aquela viagem também parecia anunciar alguma coisa muito maior do que uma festa na ilha.
A Intrépido se erguia imponente como um grande aeroporto ainda que fosse uma transportadora de cargas. Karina diversas vezes me falara de como perdeu o medo de voar graças à Clarissa, sua esposa piloto. As outras já nos aguardavam no salão da recepção.
- Boa tarde, Eve e Helena.
- Boa tarde, Karina.
Karina, como uma boa guia, reuniu o grupo e nos apresentou a todas. Fiquei surpresa ao ver Helena conversar com duas mulheres do grupo.
- Estou feliz em te ver de novo, Helena. Parece que finalmente está livre das amarras que te prendiam.
- Sim! Tenho muito a agradecer a vocês. Foram determinantes para que isso acontecesse.
- Então essa é a mulher da sua vida!?
- Oh, sim.
Uma loira baixinha se aproximou, sorridente, e disse:
- Soube que pulou o namoro e foi direto para o casamento.
- Sem tempo a perder.
- Está certíssima.
- Vamos continuar a conversa na ilha. Todas para o avião.
Os olhos de Helena brilharam ao ver que íamos de jatinho e brilharam ainda mais com a sofisticação e a elegância dele.
Ela desacelerou os passos por um instante, observando o interior com atenção: os bancos de couro claro, os detalhes em madeira polida, as luzes discretas no teto e as janelas amplas que deixavam entrar a claridade do fim de tarde.
Apertei sua mão.
- Gostou?
Ela me olhou com aquele sorriso lindo e um pouco incrédulo.
- Isso é... surreal.
- Ainda dá tempo de desistir e ir de ônibus.
Helena soltou uma risada baixa.
- Nem pense nisso.
Karina passou por nós e arqueou a sobrancelha.
- Se forem namorar na porta do avião, eu decolo sem vocês.
- Ciumenta - provoquei.
- Extremamente. E estou com horário apertado.
Entramos. Helena sentou ao meu lado junto à janela e praticamente grudou o rosto no vidro quando a aeronave começou a se movimentar.
Clarissa apareceu na entrada da cabine por um instante.
- Preparadas?
- Eu estou - Karina respondeu de imediato.
Helena apertou minha mão de novo.
- Eu acho que sim.
Inclinei meu rosto até seu ouvido.
- Você consegue.
Ela respirou fundo, assentiu e me lançou um olhar determinado, ainda que nervoso.
O jatinho ganhou velocidade pela pista e, segundos depois, o chão ficou para trás.
Helena prendeu a respiração por um segundo e então relaxou devagar quando percebeu a vista se abrindo abaixo de nós.
A cidade foi ficando distante, pequena, quase silenciosa.
- Meu Deus... - ela sussurrou.
- Tá tudo bem?
Ela virou para mim com os olhos brilhando.
- É mais bonito do que imaginei.
Passei meu braço ao redor da sua cintura e ela se acomodou contra mim enquanto observava o céu azul recortado pelas nuvens.
Karina se virou no assento à frente com um sorriso satisfeito.
- Esperem até ver a ilha.
E pela expressão de Helena, eu soube que ela já estava completamente encantada antes mesmo de chegarmos.
Fim do capítulo
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