Capitulo 2 - O Efeito Dominó do Mau Humor
A caminhada do elevador até a opulenta mesa de carvalho da presidência foi o percurso mais longo, humilhante e agonizante dos quarenta e cinco anos de vida de Phoebe Fields. Cada centímetro avançado sobre o carpete felpudo da diretoria - com Phoebe saltitando desajeitadamente em um pé só, enquanto o braço esquerdo esmagava o ombro rígido de Isla Cooper - destruía uma década de sua reputação de titã inabalável do mercado de cosméticos da Inglaterra inteira.
Atrás delas, Eleanor vinha em um quase estado de transe catatônico, recolhendo o tablet do chão e mantendo uma distância que julgava segura para não ser pulverizada pelo raio laser de fúria que parecia emanar dos olhos castanhos da chefe.
- No sofá, Cooper. Não ouse me jogar na cadeira executiva como se eu fosse um fardo de mercadoria vencida - ordenou Phoebe, a voz tensa, misturando o habitual tom ranzinza com uma respiração curta provocada pela dor latejante no tornozelo direito.
Isla, cujo único norte mental permanecia fixo na manutenção do emprego para garantir os sachês sabor salmão e as boas vidas de Barnaby e Napoleão, apenas assentiu. Com a precisão de quem manobrava cargas delicadas, ela depositou a CEO no estofado de couro italiano cinza-chumbo.
- Quer que eu tente rotacionar a articulação, senhora Fields? Tenho treinamento em primeiros socorros - ofereceu Isla, endireitando a postura e ajeitando o uniforme amassado. O cheiro de sabão de coco de suas roupas flutuou novamente pelo ar condicionado, fazendo Phoebe torcer o nariz, subitamente lembrando-se da suposta alergia a felinos mencionada por sua mãe trinta anos atrás. Um espirro seco e aristocrático quase escapou de seu nariz, mas ela o engoliu por pura força de vontade.
- Não toque em mim, Cooper. Você já causou danos estéticos suficientes à minha integridade física pelo resto do dia - Phoebe retrucou, embora, no fundo de sua mente pragmática, soubesse que a culpa era exclusivamente de seu sapato de grife enterrado no vão do elevador. - Eleanor!
A secretária deu um pulo na soleira da porta.
- Sim, senhora Fields?
- Gelo. Uma bolsa de gelo imediatamente. E providencie o par de sapatos reserva que fica no fundo do meu armário espelhado. Aquele scarpin preto fosco. Não, o de verniz. Não olhe para mim com essa cara de quem acabou de testemunhar um acidente de trem, Eleanor, mova-se! E você, Cooper... volte para o seu posto antes que aquilo lá vire passe livre de metade de Londres.
Isla bateu os calcanhares de forma quase militar, os olhos verdes demonstrando uma neutralidade que beirava o deboche involuntário.
- Entendido, senhora. Boa sorte com as suas reuniões.
"Boa sorte". Aquilo soou como uma provocação. Phoebe a assistiu cruzar a porta dupla de jacarandá com passos firmes e atléticos. Assim que ficou sozinha por dois minutos, a CEO desabou a cabeça contra o encosto do sofá, fechando os olhos.
O tornozelo pulsava no mesmo ritmo de sua têmpora direita. E o pior: sua mente, que deveria estar focada nas projeções de faturamento do terceiro trimestre da Fields Cosmetics, insistia em reprisar a imagem de Florence caminhando em direção ao táxi, segurando com os dedos compridos o ridículo copo plástico com o caroço de abacate espetado por palitos de dente. Quatro anos resumidos a um vegetal ou fruta ou sei lá o que diabos era um abacate, flutuando na água.
- Maluca. Egocêntrica. Ladra de plantas - Phoebe resmungou para o teto. Desejou que o taxi desse uma freada brusca e que aquele maldito caroço voasse pela janela.
***
Às dez horas em ponto, o inferno corporativo abriu suas portas na sala de conferências da cobertura. Phoebe já estava instalada em sua cadeira de couro de espaldar alto, o tornozelo direito rigidamente envolto em uma bolsa de gelo azulada oculta sob a mesa, e os pés espremidos no sapato reserva de verniz - que, por sinal, estava apertado demais, aumentando seu nível de saturação em pelo menos duzentos por cento.
A equipe de Pesquisa & Desenvolvimento entrou em fila indiana, parecendo um grupo de condenados a caminho da guilhotina. O diretor do departamento, Alistair, um homem magro de óculos redondos que costumava falar como se estivesse recitando poesia vitoriana, pigarreou antes de conectar o notebook ao projetor.
- Bem, senhora Fields... como bem sabe, hoje faremos a apresentação final da nossa nova linha de cuidados faciais diurnos para o outono, a Duo Renewal One Face. Desenvolvemos uma fórmula inovadora baseada em microesferas de extrato de...
- Se você disser abacate, Alistair, eu juro pela minha carta de ações nesta empresa, que demito você e toda a sua árvore genealógica antes do meio-dia - interrompeu Phoebe, a voz tão cortante que o ar-condicionado da sala pareceu baixar cinco graus instantaneamente.
Alistair empalideceu, engolindo em seco. O slide projetado na tela mostrava, em letras garrafais douradas: A Força Nutritiva do Extrato de Abacate Orgânico.
Houve um silêncio sepulcral na sala. Os outros quatro analistas de produto entreolharam-se em pânico, buscando uma rota de fuga que não envolvesse como única opção a janela do trigésimo andar.
- Senhora Fields... - Alistair gaguejou, os óculos escorregando pelo nariz suado. - O abacate é o componente central da nossa campanha antiqueda de barreira lipídica. Passamos os últimos seis meses estabilizando os aminoácidos da fruta... ou do caroço...
- Eu não dou a mínima para os aminoácidos de uma estrutura vegetal que não serve para nada além de ocupar espaço em uma janela e ser roubada por pessoas sem escrúpulos! - Phoebe bateu com a palma da mão na mesa de jacarandá. O baque fez as xícaras de café tilintarem. - O conceito é ridículo! Abacate é gordurento, é verde, é pretensioso! Quem foi o gênio que achou que as mulheres inglesas gostariam de passar gordura de vegetal ou fruta ou sei lá o que é um abacate, na testa para ir a um jantar beneficente?
- Mas os testes de eficácia demonstraram noventa e oito por cento de hidratação... - tentou argumentar uma analista júnior, cujo instinto de sobrevivência era claramente deficitário.
Phoebe cravou os olhos castanhos na jovem, que murchou na cadeira.
- Noventa e oito por cento de incompetência é o que eu vejo nesta sala! Quero essa linha inteira reformulada. Substituam essa aberração verde por algo decente. Orquídeas francesas. Camomila brasileira. Ouro dezoito quilates em pó. Eu não me importo. Só não quero ver a palavra 'abacate' ou qualquer menção a brotos, raízes e palitos de dente neste prédio até o final deste ano. Estão dispensados. Sumam da minha frente.
Os funcionários recolheram seus pertences com uma velocidade impressionante, quase atropelando uns aos outros na saída. Alistair parecia estar prestes a ter um colapso nervoso.
Phoebe massageou as têmporas, sentindo o tornozelo dar uma fisgada violenta sob a mesa. "Florence, você está literalmente destruindo o meu fluxo de caixa", pensou, com os dentes trincados.
***
Às onze e meia, foi a vez do departamento de Marketing e Publicidade. Jonathan, o diretor criativo - um homem de trinta e poucos anos que usava cachecol dentro de uma sala fechada em pleno mês de maio -, entrou exibindo um sorriso confiante que Phoebe teve uma vontade imediata de apagar com uma lixa bem grossa.
- Phoebe, querida, nós capturamos a alma da nova campanha institucional - começou Jonathan, gesticulando dramaticamente com as mãos. - O conceito gira em torno da... 'Liberdade do Desapego'. Mulheres modernas que abandonam o passado, que arrumam suas malas e caminham em direção ao horizonte, leves, independentes, deixando para trás o excesso de bagagem emocional.
Phoebe travou a mandíbula. Suas mãos se fecharam em punhos sob a mesa, tanto que as unhas se cravaram na palma.
- Malas, Jonathan? - a voz dela saiu num sussurro perigoso.
- Sim! Malas de couro vintage, simbolizando que o que importa não é o que você deixa para trás, mas a sua pele radiante enquanto você vai embora! Inclusive, o comercial de TV começa com a modelo batendo a porta de uma cobertura de luxo em Londres...
- Chega - Phoebe disse, a palavra saindo como o disparo de uma pistola de ar comprimido.
Jonathan piscou, o sorriso congelando. - Desculpe?
- Quem aprovou essa apologia ao abandono residencial e ao furto de patrimônio afetivo dentro desta empresa? - ela se inclinou para a frente, o terno sob medida parecendo subitamente opressor. - Você acha inteligente, Jonathan, gastar três milhões de libras em uma campanha que basicamente incentiva as pessoas a pegarem suas bolsas de grife, encherem de coisas que não lhes pertencem, destruírem quatro anos de estabilidade conjugal por causa de picuinhas sobre a temperatura do termostato e irem embora bem no início da manhã, sem nem tomar um café antes?!
Jonathan olhou para o Diretor de Arte ao seu lado, completamente desorientado. - Senhora Fields... é uma metáfora para a renovação celular da pele...
- É uma metáfora para a falta de criatividade e para a imaturidade crônica! - Phoebe exclamou, a rabugice atingindo níveis estratosféricos. - Ninguém quer ver uma modelo batendo a porta de um apartamento! Isso gera gatilhos! Isso causa desconforto! Se eu quisesse ver alguém batendo portas e levando bagagem, eu ficaria em casa olhando para o meu próprio hall de entrada vazio!
Ela se recostou na cadeira, soltando uma risada sarcástica que fez os pelos dos braços de Jonathan se arrepiarem, sem nem entenderem do que exatamente a chefe estava se referindo.
- Quero uma campanha focada na estabilidade. Na permanência. Quero uma modelo sentada em uma cadeira de ferro fundido, presa ao chão por correntes crivadas de minúsculos diamantes, se for preciso, demonstrando que a Fields Cosmetics não vai a lugar nenhum, e que ela tem a decência de ficar onde está para resolver os problemas em vez de fugir com o cultivo doméstico de plantas verdes gosmentas! Refaçam tudo. E Jonathan... tire esse cachecol. Estamos em Londres, não nos Alpes Suíços, e o ar-condicionado desta sala está perfeitamente regulado para dezenove graus. Se estiver com frio, trabalhe mais rápido para aquecer o sangue. Rua!
***
Quando o relógio marcou uma da tarde, Phoebe estava exausta. A rodada de esporros coletivos havia esvaziado parcialmente seu estoque de forças, físicas e mentais, mas a dor no tornozelo e o vazio no estômago começavam a cobrar o preço.
***
Eleanor entrou na sala com passos vacilantes, carregando uma bandeja de prata com uma salada de folhas verdes e uma água com gás.
- Sua refeição, senhora Fields. E... o gerente de manutenção do saguão ligou. Perguntou se a senhora deseja que o sapato que ficou... preso no vão do elevador seja enviado para a sapataria para consertar ou se deve ser descartado. Ele mencionou que a srta. Cooper usou uma alavanca de manutenção para retirá-lo, mas o salto acabou se desprendendo completamente da base.
Phoebe suspirou, fechando os olhos. A imagem de Isla Cooper, com seus cabelos curtos e braços fortes, manuseando uma alavanca de metal para resgatar um sapato de mil libras no meio do saguão nobre de Londres voltou à sua mente e ela subitamente ficou muito consciente da sensação do corpo dela contra o seu. Era ridículo e era humilhante.
- Mande descartar, Eleanor. E diga à srta. Cooper que o valor do sapato será descontado do... - Phoebe parou. Lembrou-se do olhar de neutralidade da segurança e parou de falar, assimilando a ideia, nunca antes pensada, de que outro ser humano talvez estivesse passando por necessidades financeiras e precisasse do trabalho, que qualquer desconto no salário poderia ser prejudicial. Espantoso. - Deixa isso pra lá, apenas descarte o sapato.
- Sim, senhora. Ah, e mais uma coisa... a senhora tem uma reunião às duas com o Conselho de Investidores Estrangeiros. Eles querem discutir a expansão para o mercado asiático.
Phoebe olhou para a salada. Cutucou uma folha de rúcula com o garfo. Inócua, sabor amargo como estava a sua vida atualmente. Não havia uma única caloria de felicidade naquele prato. O casamento desfeito, o tornozelo imobilizado por gelo, a humilhação pública diante da secretária e a perspectiva de passar a tarde aturando acionistas alemães, fingindo que tudo estava sob controle.
- Ótimo - Phoebe resmungou, mastigando a rúcula como se estivesse mastigando o próprio destino. - Traga os alemães. Eu estou perfeitamente com humor suficiente para ignorar fronteiras e chatices burocráticas hoje.
Fim do capítulo
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