Capitulo 18
Por Marcela
Na segunda-feira acabei decidindo ir para a empresa somente no expediente da tarde. Mas diferente dos dias anteriores, naquele em especifico que me sentia muito bem comigo mesma. O peso de outra hora parecia ficar cada vez mais distante do meu coração, e o antídoto também parecia ter nome: Gabriela! A doçura e inocência da menina costumava preencher meu coração de uma forma tão única, que por mais que eu tentasse usar palavras para descrever, ainda assim seria impossível.
Antes de seguir para a empresa, passei no meu apartamento como Yasmin havia pedido.
– Eu nem acredito que vou poder fazer a mudança nos próximos dias. – Disse com empolgação.
– Demorou um pouco mais do que planejei, mas estou feliz de conseguir finalmente te entregar.
Olhei tudo em volta observando cada detalhe que ela explicava. Não dava para negar que tudo estava exatamente como eu havia pedido.
– Você fez um ótimo trabalho por aqui. Ficou tudo muito lindo e exatamente como eu imaginei.
– Você está tão diferente, Marcela. – O olhar da ruiva era intenso. Ela parecia analisar minha alma.
– Diferente? O que quer dizer com isso?
– Sim! Muito diferente. Você está mais leve, mais animada. Não sei explicar, mas seus olhos estão brilhando. Definitivamente, você não é a mesma que conheci.
Tenho certeza que corei. Eu nem sabia que Yasmin reparava tanto assim em mim.
– Então, quer me contar quem é a responsável por esse feito?
– E quem disse que existe uma responsável?
A ruiva sorriu com um misto de sedução e sensualidade.
– Por favor, Marcela. Você vai mesmo subestimar minha inteligência? Hum, vejamos… Se eu tivesse que apostar, apostaria na advogada. – Olhou me analisando por longos segundos. – Viu? Eu acertei, não foi? Um desperdício, tenho que dizer.
– Desperdício de quê?
– De você! – Yasmin passou as unhas contornando os traços do meu queixo. Seu olhar tour-se quente… – Você sabe, não é? Você sempre soube.
– Do quê exatamente. – Não compreendi.
Ela sorriu de canto de um modo que provavelmente qualquer mulher tremeria, mas eu não senti nada.
– Que desde que eu te conheci, tenho dado em cima de você.
– Yasmin, você é realmente uma mulher muito interessante. Tenho certeza que provavelmente existem muitas mulheres e caras interessados em você nesse momento. Mas eu…
Ela me cortou com um decepção, mas também um empoderamento invejável.
– Eu sei! Eu reconheço quando perco uma batalha. Nesse caso, a guerra estava perdida desde o princípio. Você realmente deveria seguir com ela. Seja lá o que já tenha acontecido para afastar vocês, definitivamente ela é a sua pessoa.
…
Cheguei à empresa ainda pensando sobre aquilo que Yasmin havia dito. Se até alguém de fora conseguia perceber que meu coração pertencia a Hanna, como eu podia dizer do contrário?
Passei por dona Marta e lhe desejei boa tarde, o que foi respondido de bom agrado.
– Hanna já retornou do almoço? – Perguntei.
– Ela sequer saiu para almoçar hoje. As coisas estão corridas por aqui.
– Hum! Entendi. Obrigada, meu amor. – Quebrando qualquer protocolo, beijei a testa da mais velha com carinho.
Sai dali quase saltitante em direção a sala de Hanna. Não era como se eu conseguisse mais ficar muito tempo sem vê-la.
Por Hanna
Estava na minha sala tentando inutilmente me concentrar na pilha de documentos que estavam expostos à minha frente, mas vergonhosamente eu fracassava. Meus pensamentos me traiam, e a todo momento me levavam até Marcela. As lembranças do dia que passamos juntas ao lado de Gabriela, e especialmente como finalizamos aquela noite entre beijos e carícias me trazia a sensação de me sentir novamente uma adolescente.
Ouvi batidas na porta e logo em seguida Marcela surgiu. Como sempre, ela estava linda.
– Ei, o que faz aqui? – Tenho certeza que minha voz soou ansiosa.
– Parece que alguém não está conseguindo se concentrar muito hoje. – Apontou para a pilha de papéis na minha mesa. Em seguida ela aproximou-se um pouco mais. – Eu vir te ver. Não posso?
Em silêncio, ficamos nos olhando como se o espaço e o tempo fossem nossos aliados, nos teletransportando para uma dimensão só nossa.
Não sei determinar se o tempo que nos envolveu durante aquela troca de olhares foi longo demais, mas fui trazida de volta a realidade quando vi Marcela diminuir a distância entre nós e me abraçar forte. Era um abraço protetor e carinhoso, exatamente igual ao que já tinha sido um dia. Era impossível não me permitir relaxar naquele abraço.
Depois de um tempo finalmente ouvi sua voz suave soar próximo ao meu ouvido.
– Eu estava com saudades!
Corei, mas também sorri feito boba.
– Marcela, a qualquer momento Bianca pode entrar.
Ela olhou em volta parecendo só então pensar a respeito, em seguida voltou a me fitar.
– Hum! É um problema pra você se alguém nos ver juntas?
– Bem, não exatamente. Mas você gosta de manter sua fama de patroa terrorista, então pensei que talvez fosse para você.
– Algumas coisas não fazem diferença pra mim. – Ela deu de ombros sem se afastar. – Eu realmente estava com saudades.
Existia sinceridade em suas palavras.
– Acredita se eu te falar que também estava com saudades? – Nós duas sorrimos torto.
Marcela ajeitou alguns fios dos meus cabelos mantendo sua atenção em cada traço do meu rosto.
– Sabe, eu estava pensando durante o caminho até aqui. Eu acho que ainda não te disse isso antes, mas você precisa saber que eu tenho orgulho de você.
– Orgulho de mim?
– Uhum! Depois de tanto tempo que vivemos longe uma da outra, ironicamente o destino te trouxe de volta para minha vida, e hoje eu percebo que aquela Hanna que um dia me mostrou o lado ruim dos sentimentos, hoje não é mais a mesma pessoa. Você mudou, Hanna. E ainda assim, mesmo depois de tudo o que passamos, você conseguiu me fazer apaixonar por você de novo. – Sem constrangimento, Marcela acariciou meu rosto em um gesto carinhoso. Ela mal podia imaginar que estava fazendo meu estômago dar cambalhotas. – Sua força, sua determinação, seu caráter, sua beleza, e principalmente seu amor por Gabriela... Exatamente tudo em você é apaixonante. Me perdoa por não ter estado com você nos momentos difíceis da sua vida. Eu sei que estivemos longe por muito tempo, mas agora quero estar junto a você em cada segundo da sua vida.
– Shiiiu... – Colei meus dedos em seus lábios – Você não tem culpa de nada do que aconteceu. Você agiu como qualquer pessoa magoada e ferida agiria, e eu sempre entendi isso. Não nego que sempre senti que precisava de você, mas eu entendia seus motivos.
– Só quero que saiba que agora eu estou aqui, e nada de ruim vai acontecer com você ou com a Gabriela.
Vi seu olhar cair em direção a meus lábios enquanto ainda me segurava pela cintura em naquele abraço apertado e aconchegante. Nossa respiração parecia se misturar e automaticamente aproximamos nossos rostos dando início a beijo calmo, mas capaz de me arrepiar inteira.
Nossos lábios se movimentavam lentamente em uma sincronia invejável. Marcela forçou sua língua para dentro da minha boca com desejo. Senti uma de suas mãos descerem pelo meu corpo como se estivesse reconhecendo cada centímetro do mesmo. Era um toque suave que me causava frio na barriga e sensações por todo o corpo. Quando me dei conta, um gemido involuntário saiu da minha boca.
– Marcela... Nós... nós precisando nos controlar. Alguém pode entrar. – Falei com dificuldade entre seus lábios.
– Eu não me importo nem um pouco. – Ela responde antes de voltar a me beijar com volúpia.
Suas mãos não paravam de percorrer meu corpo com ansiedade. Senti uma delas subindo por minha coxa, e quando percebi seus dedos já estavam dentro da minha blusa tocando minha barriga com intimidade.
Marcela ch*pava minha língua me fazendo gem*r um pouco mais alto do que eu deveria. Àquela altura, eu sentia que estava quase perdendo as forças do meu corpo enquanto sucumbia as suas investidas. Ela subiu uma das minhas pernas enlaçando no seu quadril enquanto me segurava firme pela cintura, ainda protagonizando um beijo que entraria para minha lista dos mais inesquecíveis que já tivemos.
De repente o barulho de algo caindo nos trouxe de volta a realidade.
– De-desculpem interromper. – Ouvi a voz de Bianca invadindo o local. – E-eu, eu voltou depois.
Marcela suspirou em meu pescoço claramente irritada com a chegada indesejada da outra.
– Tudo bem, Bianca. Você pode entrar. – Tentei me afastar do corpo de Marcela e me recompor, mas ela me apertou pela cintura trazendo de volta para junto de si.
– Tem certeza? E-eu realmente posso voltar depois.
A garota não conseguia esconder o constrangimento, e eu tão pouco.
– Eu já estou de saída. – A voz de Marcela era congelante. – Procura ir comer alguma coisa, ok? Eu sei que você não foi almoçar hoje, e não quero te ver doente. Depois retomamos a conversa de onde paramos. – Um sorriso safado surgiu em seus lábios, e eu apenas concordei ainda me sentindo constrangida por ter sido flagrada por minha estagiária.
Antes de sair Marcela olhou pra direção de Bianca, e com toda cara de pau do mundo ofereceu a ela um sorriso fingido.
– Bom trabalho, menina!
No dia seguinte
Por Marcela
Eu estava muito feliz por finalmente minha mudança para o meu próprio apartamento está acontecendo. Depois de Yasmin me entregar o apartamento pronto, não foi difícil tratar da mobília do lugar. Claro que meus pais estavam tristes com esse acontecimento, mas eles entenderam o quanto era importante para mim que fosse assim. Eu gostava de me sentir independente e ter meu próprio cantinho. Além disso, eles sabiam que iria visitá-los com frequência.
Dani estava me ajudando com a mudança enquanto as outras estavam ajudando Renata com os últimos detalhes do casamento que já aconteceria no próximo final de semana.
– Marcela, esse teu apartamento ficou muito lindo. – Dani dizia enquanto estávamos organizando a estante de livros no pequeno escritório da casa.
– Ficou mesmo! Sua amiga trabalha muito bem, Dani.
– Realmente! A Yasmin é uma excelente profissional, e isso ninguém pode negar. – Ela concordou, mas logo aquele olhar endiabrado surgiu em seu rosto. – Por falar em excelente, eu preciso saber... – Eu já podia imaginar o que vinha pela frente – Vocês se pegaram?
– É o quê? Você está falando tipo eu e a Yasmin?
– É, tipo isso mesmo. Não vai me dizer que você nunca percebeu as olhadas que ela te dava? Ela estava caidinha por você.
Pobre Daniela, mal sabia ela que a ruiva já tinha sido direta o bastante e deixado claro suas reais intenções, mas também já tínhamos conversado a respeito, e ela sabia que nada aconteceria.
– Não é que eu não tenha percebido, mas eu realmente não estava interessada. Eu não podia dar esperanças falsas a ela.
– Hum, sei!
A olhei com uma sobrancelha erguida. Eu conhecia Dani perfeitamente para saber que ela estava duvidando das minhas palavras.
– Que foi, Dani? Eu realmente estou sendo sincera com você. Nada aconteceu! – Falei na defensiva.
– E eu não duvido disso.
– Então por que está fazendo essa cara de idiota? – Fiquei curiosa para tentar entender o que se passava na cabeça dela.
– Confessa, vai! Você não quis nada com a Yasmin, porque está completamente envolvida com a Hanna de novo.
– Bem, talvez você tenha razão. Eu estou completamente envolvida com a Hanna.
– E como estão as coisas?
Mordi os lábios ao lembrar de como a cada dia que passava, Hanna e eu estávamos mais próximas que nunca.
– Vixi, pela cara de trouxa, estão mais envolvidas do que posso imaginar. – Dani sorriu. – Já estão namorando? E já tiraram o atraso? Você sabe o que quero dizer.
– Não seja idiota! As coisas não são assim. Na verdade, existem muitas coisas envolvidas. São etapas!
– Etapas? – Daniela revirou os olhos com impaciência. – Por que é tão difícil vocês se resolverem de uma vez por todas? Depois de todo esse tempo era de se esperar que você fosse mais jeitosa, Marcela. Que decepção! – Ela me questionava como se estivesse diante do pior quebra-cabeça da vida dela. – É tão claro o sentimento de vocês, assim como a minha vontade de não casar nunca.
Foi impossível não sorrir da minha amiga que fugia de relação como o diabo da cruz.
– Dani, eu tenho pena do dia que seu coração se apaixonar. Eu juro que vou assistir isso de camarote, e vou jogar na sua cara todas as vezes que você disse que isso jamais aconteceria.
– Então fique sabendo que esse dia ainda vai demorar muito para chegar. – Ela respondeu dando de ombros. – Ou talvez simplesmente nunca aconteça.
Fiquei observando o jeito despreocupado da minha amiga, e tentando lembrar desde quando Daniela se tornou uma pessoa tão apavorada quando o assunto era relacionamentos. Ela sempre foi a mais doida entre todas nós. Nunca teve problemas para assumir sua bissexual desde muito jovem. Tornou-se independente desde cedo, e sempre lutou para conquistar seus objetivos, mas de fato nunca consegui vê-la realmente envolvida em uma relação. Claro que Daniela já havia tido diversos namoros, tanto com homens, como com mulheres, porém nada que a fizesse transbordar de paixão, tão pouco sofrer por amor. Será que é natural uma mulher na idade dela nunca ter sentindo uma paixão forte? Bom, eu não sei, mas ainda acho mais cedo ou mais tarde isso ainda vai acontecer.
– Me responde uma coisa… Você já organizou a lista de convidados da despedida de solteiro da Renata? – Perguntei mudando de assunto.
– Claro que sim! Estou super animada com esse dia. Convidei toda a mulherada da empresa. Ah, e também chamei a Yasmin. Ela vai como minha acompanhante.
– Você fez o quê? – Quase derrubei uma caixa que estava carregando para outro cômodo da casa.
– Qual o problema? Vocês não tem nada mesmo! Hanna não tem com o que se preocupar.
Meu Deus! Eu não quero imaginar a cara da Hanna quando souber disso. Essa despedida literalmente promete fortes emoções. Pensei comigo mesma!
Por Hanna
Eu ainda não conseguia acreditar que Renata tinha aceitado essa ideia absurda de deixar aquelas duas malucas organizarem algo como uma festa de despedida de solteiro. Sinceramente, o que eu poderia esperar dessa festa? Bom, fosse como tivesse de ser, decidi que eu não faltaria de jeito nenhum. Imagina, deixar Marcela nessa festa sozinha, só se eu fosse muito maluca mesmo. Resolvi que naquela noite deixaria Gabriela na casa dos meus pais, para que eu pudesse participar do evento sem preocupação.
Eram mais de vinte e duas horas quando eu estava chegando à tal boate que as duas tinham alugado para realizar a festa. Quando entrei no local observei em volta, e não dava para negar que o lugar era bastante aconchegante. Logo vi que todas as outras já estavam lá, inclusive a noiva. Observei que tinham várias outras convidadas no local. Aparentemente todas as mulheres da empresa tinham sido convidadas. Algumas das convidadas estavam em mesas e outras já na pista de dança parecendo se divertir com a música eletrônica que tocava.
Fui em direção a elas, que estavam em uma mesa conversando alegremente. Ao chegar dei uma boa noite geral que prontamente foi respondido com alegria.
– Finalmente! Por um momento achei que não iria mais vir! – Micaela levantou e me deu um beijo no rosto.
– Precisei passar na casa da mamãe para deixar a Gabi. E então Renata, está se divertindo com sua festa? – Perguntei a ela enquanto me sentava ao seu lado.
– Bom, por enquanto estamos todas sobrevivendo sem maiores danos.
Percebi o olhar cúmplice entre aquelas duas, e fiquei preocupada com as mil e uma possibilidades de encrencas que elas poderiam ter providenciado.
– Vocês vão ter a melhor noite da vida de vocês. Eu garanto! – Daniela virou a bebida que estava em seu copo de uma só vez fazendo careta.
– Vai com calma aí, senão você não vai aguentar nem a metade da noite, sua maluca. – Micaela brigou com a baixinha, que por sua vez, apenas deu de ombros como resposta.
Estava passeando meu olhar pelo local quando avisto uma cabeleira ruiva passando pela entrada. Logo reconheci que era. Ela parecia procurar alguém.
– Quem porr* convidou essa mulher?
Acho que minha voz saiu ainda mais alto, não por causa da música que tocava no ambiente, mas pela raiva que eu senti ao vê-la ali.
Os olhares de todas as mulheres da mesa seguiram para onde eu estava olhando.
– Ah, fui eu que convidei. – Daniela falou calma, e eu senti meu sangue ferver. – Espero que não tenha feito mal. – Ela falou agora diretamente para Renata, que parecia nem entender nada do que estava acontecendo.
– Hum! Por mim tudo bem. Não se preocupe! Mas quem é ela? Mais uma em sua lista sem fim? – Renata perguntou.
– Na minha? Quem me dera!
Eu olhei imediatamente para Marcela que apenas agia naturalmente.
– Ei, não me olha assim. Eu não tenho nada a ver com isso. – Marcela falou na defensiva.
– Espera! Eu vou lá recepcionar ela. Já te apresento, Renata. – Daniela falou para Renata e saiu apressada enquanto minha raiva só aumentava.
Quando Daniela retornou à mesa já foi trazendo a ruiva e animadamente apresentando à Renata.
Após ser apresentada a anfitriã, a tal da Yasmin sentou-se ao lado de Marcela, e por desgraça do destino ficou de frente para mim.
– Meninas, vocês me dão licença que vou dar uma circulada nas mesas para falar com as outras convidadas. – Renata se levantou e saiu em direção a outras mesas.
Fiquei ali perdida olhando para a ruiva que agora puxava assunto com Marcela sem qualquer preocupação ou incomodo com minha presença. No entanto, embora fosse muito educada, Marcela tentava de alguma maneira mãe aproximar de mim.
Nesse momento foi surpreendida por uma voz familiar.
– Hanna, que bom te ver por aqui.
Olhei surpresa para a dona daquela voz. Bianca estava parada por trás da ruiva, me encarando com um sorriso que mal cabia em seu rosto. Vi Marcela fuzilando Daniela com o olhar, e logo depois olhou na minha direção como se analisasse minha reação.
– Bianca, a surpresa é minha. Você não comentou que vinha. – Levantei para cumprimentar a garota educadamente. – Eu não sabia nem que tinha sido convidada.
– A senhorita Daniela convidou todas as mulheres da empresa, mas eu ainda não tinha certeza se aceitaria o convite, por isso não mencionei. – A garota deu de ombros sem parecer algo muito importante.
– Você quer se sentar conosco?
Fui educada, pois não a vi acompanhada de nenhuma outra pessoa, e sabia que ela ainda não tinha feito tantas amizades assim na empresa.
– Se não for atrapalhar. Eu estou esperando a Fabiana do setor do RH, mas até agora ela ainda não chegou.
A garota sentou na cadeira ao meu lado, que até pouco tempo atrás estava sendo ocupada por Renata. Busquei os olhos de Marcela, mas essa evitou o meu, e eu entendi que estava muito ferrada por ter feito aquele convite. No entanto, com a mesma determinação que ela evitava meus olhos, ela conversava com aquela cabelo de fogo dos infernos. Aquela intimidade das duas estava me deixando irritada.
– Se você apertar mais um pouco esse olhar, sinto que é capaz de sair um feixo de laser e fuzilar as duas. Tenta se controlar, mana. – Micaela cochichou em meu ouvido, e só então percebi que estava perdendo o controle.
– Duas ridículas! – Murmurei contrariada.
…
A festa estava ocorrendo como havia sido planejada. Renata parecia se divertir na pista de dança com diversas convidadas em volta de si, e eu até arriscaria dizer que a última coisa que ela estava lembrando ali, era do noivo. Por sua vez, desde a chegada de Bianca, Marcela continuava me ignorando e seguia dando toda atenção para a outra que não fazia questão de esconder que só não aproveitaria uma chance se não tivesse. Mas se Marcela pensava que não sei dançar conforme sua música, ela estava muito enganada.
– Bianca, me acompanha para a pista de Dança? Eu adoro essa música!
Eu praticamente arrastei minha estagiária mesa a fora, sem ao menos esperar sua resposta. Nem me atrevi a olhar para Marcela ou minha irmã, mas pude sentir os olhos de ambas queimando meu corpo.
– Talvez eu não seja muito boa nisso. – A garota me falou quando chegamos à pista me fazendo sorrir do seu jeito tímido. – E também acho que não seja uma boa ideia.
– Bobagem! Por que não seria uma boa ideia?
– Como por quê? – Bianca se aproximou cochichando em meu ouvido. – Se olhar matasse, eu estaria morta. Dona Marcela está me fuzilando, e eu preciso muito manter meu emprego.
Gargalhei! Ela realmente não estava errada no que dizia. Marcela permanecia nos olhando feio de longe.
– Não se preocupe com isso. Marcela é assustadora, mas é justa. Ela não vai te demitir só porque…
– Estou dançando com a mulher dela? – Ela interferiu. – Pois eu acho que ela é capaz de até matar ou morrer por você.
Por Marcela
Vi Hanna seguir para a pista de dança com aquela garota e meu sangue ferveu de ódio. O que ela pensava que estava fazendo? Eu sei que ela estava odiando me ver conversar com Yasmin, mas eu não tinha segurado sua mão por cima da mesa atoa. Aquele gesto dizia muito mais que qualquer palavra, e eu estava apenas sendo educada e cordial com a ruiva que não conhecia ninguém ali além de Daniela e eu.
Irritada, segui para o bar da boate e vi alguém me acompanhar logo em seguida.
– Ela me odeia. – Yasmin disse mantendo seu olhar em direção a pista.
– Quem?
– Jura que não sabe? – Ela sorriu de canto um jeito safado. – Mas me conta, o que você está esperando para agarrar sua mulher e deixar aquela miúda que está dançando com ela, livre? Quem sabe eu não ganhe a noite, e não saio no zero a zero. Você a ama e isso é notório, mas se quer um conselho, ficar só olhando não vai fazer a garota sumir de perto dela, sabe?
Observei as duas dançando e considerei que estavam próximas demais para o meu gosto. Eu não estava bebendo muito pois queria estar sóbria o suficiente para ficar atenta à todos os acontecimentos, então tenho certeza que não estava exagerando quanto a isso. Hanna parecia não perceber ou se fazia de muito inocente, mas a tal estagiária estava claramente mais solta que o habitual. A garota fazia questão de encostar no seu corpo enquanto dançavam, além de exageradamente fazer questão de chegar próximo ao seu ouvido para falar qualquer bobagem que fazia Hanna sorrir. Aquilo estava me deixando mais irritada do que eu gostaria de estar.
– Não me decepciona, Marcela. Vamos lá, toma uma atitude mulher, ou você não percebe que Hanna só está fazendo isso porque está mordida de ciúmes por me ver ao seu lado? Você está perdendo tempo de ter o que é seu. – A ruiva incentivou.
Voltei a olhar em direção à pista de dança, e lá estavam elas… seguiam juntas música após música.
Vi quando Hanna olhou em minha direção. Seu olhar era faminto e também brutal, mas logo voltou a encarar a garota e seguir conversando enquanto se moviam no ritmo da música. Pra mim, ela dançava sensualmente descendo junto ao corpo da garota, e eu poderia apostar que aquilo estava encostando demais onde não deveria. Isso foi o suficiente para fazer meu corpo esquentar de raiva. Virei o copo da bebida em um só gole fazendo o liquido descer na minha garganta queimando, a ruiva me olhou espantada, mas logo sorriu maliciosa.
– Essa é minha garota! – Yasmin bateu palmas com animação.
Segui em direção à pista onde as duas continuavam dançando de uma forma quase que obscena, tanto que uma roda havia se formado para observar a interação. Vi os olhos de Micaela se arregalar quando passei por ela, e observei que Renata acompanhava meus passos com um sorriso satisfeito nos lábios. Quando me aproximei das duas, a tal Bianca ainda segurava a cintura de Hanna possessivamente, e aquilo me deu ainda mais coragem de mostrar para ela que Hanna era minha.
Parei na frente das duas atraindo seus olhares para mim. Hanna me olhou com uma sobrancelha erguida.
– Você! – Apontei para tal estagiária que me olhou quase apavorada. – Quer fazer o favor de largar minha mulher agora, ou prefere que eu te ajude a fazer isso? – Falei autoritária para a outra, que pareceu ficar ainda mais assustada enquanto Hanna me mostrou um sorriso vitorioso.
– Eu não estou...
Ela tentou, mas não deixei a garota terminar de falar.
– Vamos, garota. SAI!
Não precisei gritar novamente, pois como um passe de mágica a garota sumiu da minha frente.
– Você é muito ousada mesmo, Marcela. Até pouco tempo atrás estava toda cheia de conversinha com sua amiguinha de cabelo de fogo, e agora vem fazer essa cena? – Hanna cruzou os braços à altura do peito e batia um pé com raiva.
Passei a mão pelo rosto tentando manter a calma. Aquela fase de joguinhos e brigas já estava superada há muito tempo, pelo menos no que dependesse de mim. Não tinha porquê voltarmos ao princípio.
– Eu só estava sendo educada dando atenção a ela, enquanto Daniela voltava.
– Tão atenciosa, você. Realmente comovente sua explicação.
Ela ensaiou ir para longe de mim, mas a segurei pelo o braço fazendo seu corpo chocar com o meu.
– Eu nunca pensei que você pudesse ter ficado ainda mais ciumenta. – Rocei meu nariz no dela. – Eu sou louca por você, Prado. Sempre fui completamente perdida de amores por você, e hoje não é diferente. Nunca mais dance com alguém assim, entendeu? Você é minha, Hanna Prado.
Um sorriso surgiu nos lábios de Hanna, quando puxei sua cintura a trazendo para junto do meu corp. Eu não conseguia desviar nem por um instante o meu olhar do dela. Coloquei alguma mecha do seu cabelo atrás da sua orelha, em seguida fiz um breve carinho em seu rosto, e vi os pelos do seu braço arrepiar com aquele contato. Entendi que esse era o sinal que eu precisava para prosseguir sem medo de estarmos sendo observadas, afinal de contas, àquela altura já tínhamos virado o centro das atenções.
Colei nossos lábios! A princípio eram apenas selinhos que logo foram se intensificando. Aos poucos senti os lábios de Hanna se abrir junto aos meus buscando por um beijo mais intenso. Por um momento eu achei que estava vivendo um sonho, mas percebi que era verdade quando senti uma das mãos dela segurar firme minha cintura como se eu fosse propriedade sua. Quando senti que Hanna retribuía meu beijo, pedi passagem para minha língua, o que imediatamente foi concedida. Aquele era um beijo diferente! Dessa vez era um beijo não apenas com desejo, mas tinha amor. Sim, eu poderia sentir o amor transbordando na forma como nos beijávamos, como nos tocávamos. Sem me preocupar com a exposição daquela cena, eu explorava cada canto da sua boca. Nossas línguas se tocavam e logo senti minha língua sendo sugada pela boca macia de Hanna. Ela apertava minha cintura conforme o beijo se prolongava. Foi um beijo intenso, mas ao mesmo instante calmo e delicado. Não sei ao certo quanto tempo prolongou aquele beijo, nos separamos quando sentimos que precisávamos respirar.
O beijo terminou quando sentimos que precisávamos voltar a respirar, mas não nos afastamos uma da outra. Ficamos ali compartilhando de um silêncio agradável, amigável, cúmplice… Ela estava com os braços em torno da minha cintura enquanto eu tinha os meus em volta do seu pescoço. Estávamos com nossas testas coladas nos olhando como se não existisse mais nada nem ninguém à nossa volta. Os olhos verdes de Hanna adotavam agora uma tonalidade escura, e eu tinha certeza que aquilo era um desejo que agora ela não fazia questão de ocultar de ninguém, e foi impossível conter o sorriso quando me dei conta dessa nova realidade. Hanna não tinha medo, não tinha vergonha, não tinha receios. Ela estava livre e leve para ser minha.
– Parece que fomos a atração da festa. – O seu jeito tímido de falar me encantava.
– Você fica ainda mais linda com vergonha. – Dei um selinho e senti ela sorrir em meus lábios.
– Acho melhor nós irmos tomar alguma coisa. Eu estou realmente precisando. – Ela falou e apenas concordei.
Enlacei meus dedos nos dela enquanto calmamente íamos passando entre as pessoas que agora já tinham voltado a dançar.
– Uma água, por favor. – Ela pediu educada ao garçom e olhou para mim. – E você, o que quer tomar?
– Pode ser uma água também. Aqui ficou muito quente. – A frase saiu com duplo sentido, e eu só percebi isso quando a vi sorrindo de forma debochada. – Você tem uma mente muito pervertida, sabia? Eu apenas me referi ao clima. – Tentei me defender, mas ela sorriu ainda mais.
– Deixa de ser marrenta, Marcela. Vem comigo, vamos voltar para a mesa. – Ela seguiu na frente, mas parou ao perceber que eu não tinha saído do lugar.
– O que foi? – Perguntou.
– É que só agora me lembrei da existência das meninas. – Eu estava assustada.
– E o que têm elas? – Hanna era muito perdida no tempo, meu Deus.
– Como o que têm elas, Hanna? Tenho certeza que elas viram nosso beijo, e bom… elas vão zoar muito da gente. Sua irmã talvez, não. Ela vai querer mesmo é me matar por ter te beijado na frente dela. Além do mais, não é um problema para você que elas saibam?
Hanna sorriu parecendo se divertir com meu nervosismo, em seguida se aproximou mais, tão próximo que conseguia sentir o seu hálito me tocar. Ela segurou meu rosto, uma mão de cada lado e falou calmamente:
– Pensei que essa sua fase de sentir medo da Micaela já havia passado. – Ela fez um carinho no meu rosto e intercalou seu olhar entre meus olhos e minha boca, e aquilo me aqueceu por dentro. – Marcela, presta bem atenção no que eu vou te falar. Durante muito tempo eu escondi o que sentia por você, mas agora os tempos são outros. – Eu podia sentir sinceridade em suas palavras e aquilo aquecia meu coração. – Quando nos beijamos agora pouco, eu sabia exatamente onde estávamos e quem estava por perto, mas isso não é um problema. Bom, pelo menos não para mim. Você ver problemas nisso? – Eu estava em transe, não existiam palavras na minha boca, então apenas sorri e neguei. – Ótimo, porque assim não teremos problemas nenhum.
Trouxe seu corpo para junto do meu e escondi meu rosto em seu pescoço podendo sentir o cheiro gostoso que exalava da sua pele.
– Vamos tornar isso oficial? – Falei lhe dando beijos nos pescoço.
– Está me pedindo em namoro?
– Hum! Eu acho que estou.
– Finalmente! Eu gosto muito da ideia do oficial. – Sua voz soava rouca. Ela sorriu me abraçando pelo pescoço e me deu um selinho demorado. – Minha namorada, podemos voltar agora para a mesa?
Segurei em sua mão que estava estendida para mim, e seguimos em direção onde as outras estavam sentadas. Eu não poderia me sentir mais feliz naquele momento, eu estava com a mulher da minha vida e finalmente as coisas pareciam estar se encaixando nos seu devido lugar.
Chegamos à mesa de mãos dadas e atraímos todos os olhares para nós. A cena seria cômica se eu não estivesse tão envergonhada. Não por estar com Hanna, mas das caras e bocas que todas faziam para nós.
– O que foi? Nunca nos viram não? – Perguntei enquanto puxava uma cadeira para Hanna sentar próximo à mim.
– Como você tem a cara de pau de perguntar um absurdo desse? Vocês protagonizaram a maior cena da minha festa de despedida de solteiro, com direito a um super beijo de tirar o fôlego, que por sinal durou mais de um minuto, agora voltam para a mesa de mãos dadas, e ainda querem que a gente finja que nada aconteceu? – Percebi que Renata estava alegrinha demais, acredito que já era efeito do álcool.
– Gente, eu pensei que vocês iriam se engolir naquela pista. Marcelinha me representou, cara. Finalmente fez um gol!
Puxei Hanna para junto do meu corpo em um abraço apertado enquanto Daniela falava animada fazendo uma espécie de reverência em minha direção. Busquei o olhar de Micaela, que apenas nos encarava com uma expressão calma e sorridente.
– Acho que está faltando você falar alguma coisa também, Mica. – Hanna falou sorrindo de um jeito doce.
– Eu não tenho o que falar. Eu já vi tudo que precisava naquele beijo apaixonado e cheio de saudades de vocês. Sei que é cedo, então nem vou perguntar se estão juntas, mas... – Interrompi na mesma hora.
– Estamos juntas! Definitivamente juntas. – Hanna disse e se enroscou ainda mais em meu corpo parecendo feliz.
Todas abriram a boca formando um perfeito “O”. Senti os lábios de Hanna tocarem meu rosto fazendo meu coração aquecer.
Eu não poderia estar mais feliz. Estava nos braços da mulher que eu amava, e ela estava sendo toda carinhosa e atenciosa comigo sem se preocupar com quem estava em volta.
Todas ficamos conversando um pouco sobre a festa, e o casamento de Renata que seria no dia seguinte. Nossa amiga estava feliz demais e estava se dividindo entre nos dar atenção e conversar com as outras convidadas. Vez ou outra sentia um carinho de Hanna em meu braço ou rosto, e isso me fazia sorrir de orelha a orelha. Outras vezes ela apenas me puxava para um selinho que prontamente era correspondido.
– Estou tão feliz por te ter assim em meus braços. – Sussurrei em seu ouvido.
– Pode ter certeza que eu compartilho dessa felicidade. – Hanna falou enquanto me deu um breve selinho. – Sabia que você demorou demais para largar aquela ruiva idiota e correr para meus braços? – Beijou meu rosto enquanto falava. – Só te desculpo porque você é difícil de resistir. – Acabou descendo os beijos indo em direção ao meu pescoço e isso me fazia arrepiar e sorrir bobamente.
– Ô, vocês duas ai. Pelo amor de Deus, né? Parem com isso, que já está me dando diabetes. – Micaela jogou amendoins em nossa direção. – Você não me respeita mais, Bettencourt? – O tom de ameaça na voz da Micaela me fez gargalhar.
– Deixa ela, Mica. – Micaela ergueu uma sobrancelha para a irmã, mas era nítido que só desejava implicar.
– Você continua sendo minha pirralha. Preciso defender sua honra e nem ouse defendê-la.
– Micaela, tudo que a Hanna não vai ter mais é honra. Marcela vai sumir com Hanna durante no mínimo um mês para tirar o atraso de cinco anos. – Daniela debochava e confesso que até eu gargalhei.
– Por que você não para de falar besteira e vai providenciar aquele nosso combinado, hein? Aproveita que a Rê está ali com a Verônica. – Falei com cara de criança que estava fazendo arte.
– O que vocês duas estão aprontando? – Micaela ficou assustada de verdade agora.
– Aguarde ai que eu já volto com a surpresa.
Daniela partiu em direção a uma porta que ficava na lateral da boate próximo ao palco, e eu não podia esperar para ver a cara de Renata com o que iria acontecer.
Fim do capítulo
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