Capitulo 17
Por Marcela
Já era quase hora do almoço quando acordei naquele sábado. O cansaço dos últimos dias estava fazendo com que eu sentisse meu corpo esgotado, por isso me permiti ficar um pouco mais de tempo deitada, aproveitando para pensar sobre os últimos acontecimentos da minha vida. Conclui que é incrível como as coisas mudam com tanta rapidez e às vezes nem nos damos conta. Até outro dia, eu sentia uma raiva imensa por Hanna, e tudo o que eu mais queria era me manter longe dela, não saber nada sobre a existência dela. No entanto, agora estava tudo tão diferente! Como não reconhecer que uma parte de mim ficava extremamente feliz quando eu tinha Hanna próxima a mim? E como não aceitar que hoje a ausência da Prado mais nova me traz a sensação de experimentar um vazio imenso? Até mesmo nossas discursão por coisas banais e bobas deixaram de ser cansativas. A verdade, é que algo dentro de mim a quer por perto. Aquela sem dúvidas é uma batalha perdida, e eu já aceitei isso.
Depois de pensar muito em minha vida, já era quase fim de tarde quando avisei para meus pais que iria sair e não voltaria para acompanhá-los no jantar. A princípio não quis entrar em detalhes, pois não queria que eles soubessem que de alguma maneira existia uma reaproximação significativa estava existindo entre Hanna e eu. Mas não era como se minha mãe deixasse as coisas passarem facilmente. É claro que ela sabia que alguma coisa estava acontecendo, e parecia ficar satisfeita com isso.
Como combinado anteriormente, segui em direção ao apartamento de Hanna para cumprir a promessa que tinha feito na noite anterior. Eu estava indo buscar Gabriela para levá-la para passear. Pode parecer muito estranho a forma como me apeguei àquela menina, principalmente depois de que soube toda verdade que a envolvia. Mas a verdade é que era inevitável. Tudo em Gabriela me atraia totalmente para estar próxima a ela. Eu sentia uma vontade imensa de protegê-la, e não permitir que nenhum mal lhe acontecesse. Fazia pouco tempo que eu a conhecia, mas no meu coração era como se eu já a conhecesse desde seu nascimento. Tudo o que eu mais queria, era estar presente na sua vida, e por isso eu me sentia muito feliz com aquele passeio que faria com a criança.
Esperei o porteiro do condomínio interfonar para o apartamento de Hanna, para que ela pudesse autorizar minha subida. Ao chegar à porta do apartamento um frio me subiu à espinha ao lembrar do que aconteceu na última vez que estive ali. Lembrar do nosso primeiro beijo após meu retorno, me provocava a sensação de que várias borboletas estavam sobrevoando no meu estômago. Era uma sensação boa, algo que a muito tempo não sentia.
Toquei a campainha e a porta logo foi aberta.
– Boa tarde, Marcela. Entra!
Hanna estava com o cabelo preso em um coque levemente bagunçado. Ela vestia um shortinho de pijama, indicando que talvez eu não tivesse sido a única a sair tarde da cama. Usava também uma blusa larga de uma banda qualquer, o que contrastava diretamente com aquela impressão de mulher séria quando diariamente usava roupas sociais. Bem, fosse como fosse, não pude deixar de notar como ela era ainda mais linda do que no passado.
– Obrigada! – Falei entrando e em seguida parando no meio da sala.
– Desculpa por recebê-la assim, mas terminei há pouco de dar uma geral na casa. Você quer beber alguma coisa? – Apontou para o sofá indicando que eu me sentasse.
– Não! Mas obrigada por oferecer. Não se preocupe quanto à vestimenta! Você está em sua casa, e deve ficar à vontade. – Olhei para os lados estranhando o silêncio. – Onde está a Gabi?
– Deixei ela no banho. Eu não sabia exatamente a hora que você iria vir buscá-la, e acabei me atrasando em preparar ela. Deixa eu ir lá, senão ela faz uma bagunça naquele banheiro. Por favor, fique à vontade.
Hanna sorriu com timidez, e eu achei aquilo a coisa mais linda que tinha visto no dia.
Estava distraída olhando minhas redes sociais enquanto esperava por mãe e filha. Nem sei ao certo a quanto tempo estava ali esperando por elas, até que minha concentração no celular foi interrompida pela voz animada da pequena.
– Tia Marcela, eu estava com tantas saudades. – A pequena se jogou em meus braços sem ao menos imaginar que aquele abraço aquecia meu coração
– Ei, pequena. Como você está? Pronta para se divertir muito hoje?
A empolgação da criança era tão contagiante que eu começava me sentir ainda mais animada com a tarde que teríamos.
– SIIIM! – Ela ergue os bracinhos com animação. – Nós vamos poder comer muito doce?
– Claro que vamos! – Respondi evitando o contato visual com a mãe dela. Hanna provavelmente me mataria.
– E batatinha frita também?
– Tudo o que você quiser, meu amor. – Garanti e dei um beijo em seu rosto.
– Ebaaaaa!
Ela retribuiu o beijinho que te lhe dei, e eu não contive o riso quando Gabriela iniciou uma dancinha estranha. Mas tudo o que ela fazia era bonito. Na verdade, eu acho que estava com a maior cara de trouxa diante da demonstração de carinho daquele pequeno anjo.
Finalmente olhei em direção a Hanna, que até então assistia tudo em silêncio. Quando nosso olhar se encontrou, ela sorriu lindamente fazendo meu coração bater mais forte.
– Ué, por que você não está pronta? – Perguntei a ela.
– Eu? – Falou timidamente. – mas eu pensei que era um momento de vocês duas. Sério, podem ir as duas. Não é um problema para mim. Eu confio totalmente em você sair com minha filha.
– Ah, para de besteira. Vamos sair um pouco juntas. Além disso, você precisa aproveitar seu tempo com ela, já que passa a semana toda naquela empresa.
– Eu sei, mas...
Eu tinha decidido aceitar meu destino. E a ideia de ter as duas ao meu lado me agradava bastante, então não tinha porque negar que eu queria viver aquele momento com elas duas.
– Nem termina! Vai logo se arrumar que nós te esperamos aqui, não é Gabi? Diz para a mamãe o quanto você quer que ela nos acompanhe.
– Eu quero sim, mamãe! Um tantão assim ó... – A pequena abria os bracinhos e eu sorri.
Olhei para Hanna, e ergui a sobrancelha.
– Viu só? É um tantão bem grande. – Pisquei em cumplicidade para a garotinha animada em meu colo.
– Ok, vocês venceram. Vou só trocar de roupa e já volto.
Animada, Hanna sumiu pelo corredor e eu fiquei ali brincando com aquele ser mais lindo de todos que já conheci.
…
Eu estava deitada na grama da pracinha me sentindo totalmente exausta. Aquela era a primeira vez que eu experimentava a sensação de passar horas com brincado com uma criança, e agora conseguia entender quando Micaela dizia que Gabriela tinha energia de sobra. Ela e as amiguinhas que fez no parquinho pareciam que não descarregava a bateria nunca.
– Parece que alguém cansou. – Hanna sentou ao meu lado com dois cocos em suas mãos. – Trouxe esse para você repor suas energias.
– Obrigada! – Agradeci aceitando de bom agrado. – Nossa, será que elas não cansam nunca? – Falei apontando para onde tinha uma roda de meninas inventando uma brincadeira qualquer.
– Você ainda não viu nada. Lá em casa Gabriela não para quieta. E acredite, parece que ela adivinha os dias em que estou mais cansada para ela ficar ainda mais agitada.
– Do jeito que você é preguiçosa, posso até imaginar a cena. – Falei descontraída, e ela me deu um leve empurrão.
– Você não me respeita mesmo não é?
Apenas sorri!
Ficamos alguns minutos em silêncio observando a brincadeira das crianças a nossa frente. Não era um silêncio incômodo, pelo contrário, era estranhamente confortável.
– Você tem uma filha linda e muito inteligente.
Ela me encarou com um lindo sorriso nos lábios.
– Ela é o que tenho de mais importante na minha vida. Não me arrependo um só minuto em ter escolhido tê-la.
Pude sentir tanto amor naquelas palavras, que era inadmissível questioná-la. Eu achava tão lindo o amor que Hanna tinha pela filha, e adimirava o orgulho que ela sentia ao falar sobre as meninas. E vendo todo esse amor transbordar em Hanna, por um momento parei para pensar em como deve ser mágico sentir o amor de mãe.
– Ela tem os olhos verdes esmeraldas iguais os seus. São intensos e muito bonitos. – A olhei fixamente. – Definitivamente iguais aos seus.
Acho que minha voz saiu tão fraca, que nem sei se ela ouviu a última parte. Ficamos ali nos permitindo decifrar nossos sentimentos através daquele contato visual. Se tinha uma coisa que eu simplesmente amava em Hanna desde o dia que a encontrei na mata, eram os seus olhos verdes. A maneira como eles brilhavam ou simplesmente como eles escureciam conforme a mudança de humor de Hanna.
– Eu estou com muita fome. – O momento foi interrompido pela pequena Gabriela, que se jogou entre nós duas.
– Ahhhhh, que bonito. Agora a mocinha está com fome, não é? E o que você quer comer? – Perguntei acariciando os cabelos da pequena.
– Eu quero muita batata frita, e também um sanduíche de queijo. – Gargalhei ao olhar a expressão envergonhada de Hanna.
– Olha a educação, Gabriela!
– Deixa ela, Hanna. Ela está em fase de crescimento e precisa repor as energias. Sem falar que até nisso ela é igual a você, ou você pensa que eu esqueci o quanto você gosta de comer? – Ela sorriu envergonhada, e então eu me levantei.
– Vem! Vamos ao shopping levar essa mocinha para comer. – Lhe estendi a mão para ajudá-la a levantar. – Você também já pode levantar mocinha, ou vai desistir de comer batata frita?
Nem precisei dizer mais nada e lá estava Gabi saltitando em direção ao carro.
…
Na praça de alimentação do shopping as coisas estavam fluindo muito bem. Tenho certeza que quem olhasse de longe podia imaginar que éramos uma família feliz desfrutando o fim de semana.
– Logo depois do casamento da Renata, tenho que focar nos preparativos para o aniversário da Gabi. – Hanna mencionava com tranquilidade enquanto comíamos. – Vai ser quinze dias, depois do casamento para dar tempo de Renata voltar da lua de mel.
– Então você vai precisar ser rápida para conseguir deixar tudo pronto a tempo.
– O complicado está sendo escolher o tema.
– Por quê? – Fiquei curiosa
– Digamos que essa mocinha aqui é muito independente. Ela simplesmente resolveu implicar com o tema que eu quero, não é mesmo filha?
A mãe puxou a pontinha do nariz da criança e achei muito fofa a careta que a pequena fez com o gesto.
– Eu quero dos animaizinhos, mas a mamãe quer vestir eu de princesa. – A menina falava um pouco enfezada com a mãe. – Eu não gosto de vestidos de princesa.
– Mas você é uma princesa, meu amor. – Argumentei.
– Nem toda princesa precisa usar vestidos. – Gabriela rebateu com sabedoria.
A olhei por alguns instantes. Não era só a inteligência de Gabriela que me chamava atenção naquele momento, mas também o fato de conseguir reconhecer alguns traços de mim mesma quando tinha sua idade. Claro que nós não tínhamos qualquer parentesco, e se tivéssemos, talvez não fôssemos tão parecidas.
– Você tem razão, Gabi. Nem toda princesa precisa usar vestidos. Você pode ser o que quiser, e usar o que quiser. Basta que se sinta bem, ok? – Pisquei o olho para a menina, que ergueu o polegar em concordância.
– Viu só? Ela é difícil! – Hanna, revirou os olhos.
Apenas sorri para Hanna, que logo teve sua atenção voltada para filha que acidentalmente acabava de derramar o suco em minha blusa.
– Gabriela, cuidado! Meu Deus, você sujou a Marcela.
– Desculpa, tia. Eu não queria te sujar. – Gabi parecia assustada ou com medo que eu fosse brigar com ela.
– Não se preocupe meu amor, sua mamãe que é uma exagerada.
Fiz um carinho em seu rostinho demonstrando que não estava chateada e que tudo estava bem.
– Deixa eu te ajudar limpar essa bagunça.
Hanna pegou alguns lenços e rapidamente começou minimizar o estrago.
– Hanna, é só uma blusa. Depois é só lavar.
– Mas pode manchar o tecido.
Revirei os olhos sabendo que não adiantava discutir. Hanna não se convenceria até que conseguisse limpar pelo menos um pouco do que julgava ser um problema.
Quando ela começou passar os lenços próximo ao meu peito, senti meu estômago embrulhar. Tenho certeza que eu estava começando a corar, especialmente quando seu olhar encontrou o meu e percebi que ela também estava sentindo algo com aquela aproximação.
– Acho que melhorou um pouco. – Ela disse quase em um sussurro.
– É, eu acho que sim.
Ficamos ali por mais algum tempo enquanto comíamos e conversávamos coisas aleatórias, até que percebi que Gabriela já dava seus primeiros sinais de cansaço.
– Acho que tem uma mocinha que já está querendo dormir. – Falei para Hanna, e ela apenas concordou com um aceno. – Podemos ir para casa?
– Claro!
Segui com as duas, andando pelo shopping indo em direção ao estacionamento onde estava meu carro.
– Mãe, eu estou cansada. Me leva nos braços? – Gabi jogou os bracinhos para a mãe, fazendo manha enquanto pedia colo.
– Meu amor, você já está uma mocinha muito pesada. Nós já estamos chegando.
Percebi que a criança não tinha falado mais nada diante da recusa da mãe, mas que estava visivelmente chateada.
– Deixa que eu te levo. – peguei Gabi em meus braços vendo Hanna sacudir a cabeça em desaprovação.
– Você vai estragar essa garota ainda mais que as outras malucas.
Apenas dei de ombros!
– Pega a chave do meu carro e dirige. Eu vou atrás com ela em meu colo, ela está quase dormindo. Foi um dia agitado.
Entreguei as chaves para ela, que me olhou com a sobrancelha erguida como se estivesse prestes a questionar algo, mas por fim apenas fez o que mandei.
Depois de chegarmos ao apartamento de Hanna, ela me mostrou onde ficava o quarto da pequena para que eu pudesse colocá-la na cama já que estava adormecida em meus braços.
– Vai ser crueldade acordar ela para tomar um banho. – Disse olhando com admiração para Gabi, que dormia feito um anjo na pequena caminha de madeira branca.
– Verdade! Mas ela brincou muito, e está toda suada.
– Por favor, deixa para amanhã. Só dessa vez. – Olhei para Hanna com um olhar pidão.
Vi ela suspirar e então responder logo em seguida.
– Viu só? Eu estou falando que você vai mimar muito ela. – Balançou a cabeça negativamente. – Tudo bem! Amanhã ela toma banho.
Sorri de orelha a orelha
– Obrigada! – Olhei em volta admirando o espaço. – Ela dorme aqui sozinha?
A decoração ficava por conta do desenho de vários animaizinhos em um papel de parede de floresta. O quarto era repleto de brinquedos e almofadas espalhadas pelo chão. Tinha uma estante de livros e DVDs infantis. Tudo parecia muito bem pensado e projetado de acordo com as preferências da menina. Definitivamente não tinha nada que remetesse ao esperado quarto de princesa. Nada era na cor rosa, como normalmente as mães costumavam arquitetar para filhas mulheres. Mas particularmente, eu achava que o tom verde pastel e o branco eram uma combinação perfeita com Gabriela.
– Na maioria das vezes, mas algumas vezes ela acorda e vai parar na minha cama no meio da madrugada. Vem! Vamos deixar ela dormir.
Permitindo seus dedos entrelaçar nos meus, me deixei ser levada por ela para a sala. Quando chegamos lá, eu disse:
– Hanna, obrigada pelo o dia. Foi realmente agradável passear com vocês duas.
– Eu que agradeço, Marcela. Sua companhia é sempre muito agradável. – Ela garantiu.
Naquele momento, eu não pude ignorar o que senti.
Encurtei a distância entre Hanna e eu. Minha mão ganhou vida própria e lá estava eu, acariciando seu rosto. Meus dedos desenhavam cada traço de Hanna.
– Eu sou péssima nisso. – Murmurei.
– Péssima em quê?
– Em lidar com a gente. – Mordi meus lábios. – Mas eu quero isso. Quero muito! Eu quero você, quero a Gabriela. Eu quero nós três. – Respondi sem desviar o olhar do dela e ainda acariciando seu rosto.
Naquele momento eu percebi que jamais fui tão sincera em toda minha vida. Eu estava inteira! Eu estava pronta!
Meus lábios tocaram os de Hanna com cuidado, com suavidade, com a preocupação de demonstrar naquele beijo que nós éramos uma só. A beijei com amor, com paixão, mas também com um desejo avassalador. A beijei com certeza que não me arrependeria por dar uma chance ao destino.
Fim do capítulo
Boa noite!
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