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A volta do amor que nunca se foi por priskelly

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Palavras: 5027
Acessos: 433   |  Postado em: 18/05/2026

Capitulo 16

Por Hanna

Poucos dias depois

 

Desde o dia que tive aquele almoço com Marcela, as coisas iam acontecendo aos poucos. Quero dizer, nós estávamos realmente deixando acontecer, porém sem pressão para nenhuma de nós duas. A convivência estava melhor, e já não tínhamos tantas brigas como a princípio. Tão pouco o clima era ruim quando estávamos na presença uma da outra. Longe disso, na verdade. 

Embora não existisse um rótulo para aquilo que estávamos construindo, era comum sempre que estávamos sozinhas acabar nos entregando ao desejo. Era quase como uma relação entre duas adolescentes que acabavam de descobrir o sentimento uma pela a outra. Marcela não escondia o quanto estava disposta a reconhecer quem eu havia me tornado, sem que houvesse julgamentos pelo passado que nos envolvia. Durante nossas conversas descontraídas, ela fazia perguntas sobre minha vida, e isso acontecia até mesmo quando estávamos na presenças das nossas amigas. Mesmo Daniela nos infernizando, ela agia normalmente, questionava sobre minhas preferências e opinião em relação a alguma coisa banal. Em resumo, ela estava leve, e eu me sentia privilegiada pelo o destino me presentear com uma segunda chance.

Contudo, ainda existia um impasse que vinha me inquietando. Desde aquele fim de semana, Marcela ainda não tinha reencontrado Gabriela. Por mais que eu tentasse não apressar as coisas ou me fazer cobranças, ainda assim isso era algo que me preocupava, afinal de contas, não existia nenhuma possibilidade de existir algum aspecto da minha vida onde minha filha não estivesse inserida no contexto da coisa. Mas aquilo estava prestes a mudar. Em pouco tempo Marcela ficaria frente a frente com minha filha pela primeira vez em dias.

– Você está nervosa. – Micaela observou. – O que está acontecendo?

– Nada! Tá tudo bem. – Menti.

– Hanna, eu te conheço. – Micaela revirou os olhos com impaciência. – Eu sei porque você está assim. Só queria me confirmasse por conta própria. – Suas mãos acariciaram meus ombros na tentativa de me fazer relaxar. – Vai dar tudo certo. Você ainda não percebeu que pra ela, nada disso importa?

– É complicado, Mica. Infelizmente, minha filha é um reflexo vivo de uma história horrenda. Talvez olhar para mim não tenha o mesmo peso que olhar para ela.

– Eu confio na personalidade e caráter da Marcela. Ela jamais julgaria uma criança assim.

– E se for algo involuntário? 

Vi minha irmã olhar por cima dos meus ombros. E então respondeu:

– Bem, vamos descobrir isso agora.

Meu coração automaticamente gelou!

– Credo! Você demorou. Só não está mais atrasada do que Renata. Acho que ela está ensaiando o atraso para o dia do casamento. – Daniela resmungou com impaciência. 

– Eu tive um problema para resolver antes de vir.

Marcela respondeu e logo seu olhar buscou o meu, mas antes mesmo de algo ser dito, um mini furacão passou por Micaela e eu, correndo em direção a Marcela.

– Titia, Marcela! Eu estava com saudades. – Gabriela disse com alegria e pura inocência. 

Naquele momento em que vi minha filha correndo em direção a Marcela com os braços abertos, a adrenalina tomou conta do meu coração. Engoli seco diante da cena, e quase paralisei quando Gabriela abraçou as pernas de Marcela.

Por um instante pensei que a mais velha não reagiria, considerando que seu olhar ficou aprisionado no meu por alguns segundos que para mim mais parecia uma eternidade. 

Eu sabia que assim como eu, Marcela também tinha sido impacta pelo gesto da criança. Existia tanto afeto transbordando de Gabriela, que talvez Marcela não esperasse por tanto. Além disso, também existia o peso da realidade desconhecida pela criança, mas que fatalmente nos feria. 

No entanto, quando estava prestes a trazer Gabriela para junto de mim, vi o momento em que Marcela baixou diante de Gabriela ficando a sua altura. Em um primeiro momento, Marcela levou sua mão até os cabelos de Gabriela em um gesto delicado arrumando alguns fios loiros que estavam desalinhados. Seu olhar percorrer o rosto da menina como se desejasse memorizar cada traço, por fim assim como Gabriela, ela também sorriu largo. 

– Eu também estava com muita saudades de você, minha doce Gabriela. Eu nem sabia que era possível sentir tanta saudades assim. 

Era nítido que a emoção contida de Marcela. Assim como também a verdade que transbordava do seu olhar ao dizer aquelas palavras. 

Em resposta, com seus bracinhos curtos, Gabriela enlaçou o pescoço de Marcela sem nenhum constrangimento, pelo contrário, minha filha parecia se sentir segura em demonstrar a mais velha o carinho especial que sentia por ela, assim como também parecia se sentir segura e ter certeza que não sofreria qualquer rejeição.

– Me coloca no colo, tia. – Pediu Gabriela com doçura e dengo.

Marcela não perdeu um só segundo em atender o pedido da criança. Logo ela estava com minha filha nos braços, não por obrigação, mas por escolha. Marcela escolheu amar Gabriela, e mal podia saber que aquele sentimento sincero entre as duas, aquecia meu coração. Ele era quase um antídoto para minhas feridas. Ele era o que eu precisa… O que eu sempre precisei.

…

 

Estávamos todas na sala de espera do ateliê onde faríamos a prova dos vestidos para o casamento de Renata. O único impasse que nos impedia de cumprir com nossa tarefa, era justamente o atraso da noiva. Renata fazia questão em opinar sobre os vestidos das madrinhas e dama de honra, e por isso continuávamos aguardando sua chegada.

– E você dizendo que Renata nos mataria se atrasássemos. – Murmurei para minha irmã, sem conter o tédio.

– Deve ter acontecido alguma coisa. Ela odeia atrasos. – Micaela respondeu calmamente. 

– Eu juro que queria entender porque não podemos usar um vestido com fenda até metade da coxa. É sensual! – Daniela falava aquilo pela quarta vez só durante aquele tempo que estávamos ali. – Aposto que ficaríamos gostosa pra porr*.

– A resposta é bem simples. É porque a intenção não é as madrinhas chamarem mais atenção que a noiva, sua sem noção. – Micaela respondeu como se fosse óbvio demais.

Apenas sorri do jeito sem paciência que minha irmã falava com nossa amiga. Daniela sem dúvidas levava todas nós a um desequilíbrio sentimental em relação a ela. Era como viver em uma montanha russa, onde hora desejávamos torcer seu pescoço, e em outros momentos colocá-la em um potinho e cuidar dela por toda eternidade. Era um constante caso de amor e ódio.

– Grande coisa! Eu também queria muito entender porque vocês tem essa mania de querer se casar. Digo, porque se aprisionar dessa forma, entende? 

– Daniela, nem todo mundo é tão mundana como você. Temos juízo, e o sonho de formar uma família. Além disso, se existir um amor envolvendo o casal, casamento não é considerado uma prisão. – Micaela explicou novamente, dessa vez com impaciência. 

Mas nossa amiga era louquinha demais, e apenas deu de ombros como se aquilo fosse uma realidade muito distante dela.

– Continuo achando sem graça. – Dani rebateu.

– Você pensa assim agora, mas duvido que vai continuar pensando assim quando alguém entrar nesse coração bandido. Quando isso acontecer, eu juro que vou rir muito vendo você desesperada e sem saber o que fazer. – Marcela entrou na conversa debochando da baixinha.

Olhei em sua direção e meu coração bateu mais forte diante da cena. Gabriela que não desgrudava de Marcela, estava sorridente em seus braços parecendo muito satisfeita com a batata frita que tinha nas mãos. Bastou ela dizer que queria batatas, para Marcela se prontificar em atender seus gostos. 

– Você não vai ter esse prazer, Bettencourt. Eu sou bicho solto, pego quem eu quiser, mas sem qualquer compromisso. Sabe aquele lance de pegar sem se apegar? Vai por mim, isso evita catástrofes emocionais.

 – Você nunca amou alguém, Dani? – Perguntei curiosa.

– Talvez já tenha acontecido algo parecido uma vez, mas não lembro ao certo como foi. – A baixinha deu de ombros parecendo se esforçar para demonstrar estar certa daquilo que afirmava. – E você pirralha, já amou alguém?

Dani me perguntou de maneira debochada. Ela sabia a resposta, mas claro que ela iria me atentar. Eu logo entendi qual a real intenção por trás daquela pergunta. Ela queria fugir do assunto sobre seus próprios sentimentos, e de quebra me infernizar já que estávamos na frente de Marcela. 

– Você não presta, Daniela. – Respondi e minha amiga gargalhou. 

– Titia Marcela, a senhora nem foi lá em casa pra brincar comigo como prometeu. – Minha filha reclamou com a boca cheia de batata frita e toda lambuzada. 

– Meu amor, a titia andou muito ocupada esses dias. Mas que tal a gente pedir pra sua mãe deixar você comigo no parquinho amanhã?

– EBAAAAAAAAAA, EU QUERO! – Respondeu a menor com entusiasmo.

Observei a interação das duas. Confesso que vê-las se dar tão bem sempre aquecia meu coração de uma maneira que eu não conseguia explicar.

– Marcela está estragando sua filha, Hanna. A Gabizinha tá apaixonada por ela. Mas se liga na letra que vou te passar, Bettencourt. – Marcela olhou para Daniela com uma sobrancelha erguida. – Você sabe que é um combo, não sabe? Se quiser estar com a filha, precisa levar a mãe pra sair junto. Tá ligada no que quero dizer, não está?

Ótimo! Daniela parece que tinha a necessidade de nos colocar em uma situação constrangedora.

– Por que você não fica quieta, Daniela? – Vi uma batata encharcada de óleo atingir a cabeça da baixinha,, que olhou feio para a amiga. – Podemos ir, Hanna? Eu realmente gosto da ideia de passar um tempo a mais com a Gabi. Juro que posso cuidar dela direito. – Marcela estava visivelmente envergonhada. – Mas se você quiser, pode ir junto com a gente também.

Quando ensaiei responder, ouvi Daniela abrir a boca novamente.

– Vixi, se apegou mesmo à criança. Que bonitinho! Eu não acredito que eu vivi para ver esse momento família Bettencourt-Prado. A Gabi agora vai ter mais uma mamãe. O que acha disso, Mica?

– Jura? – Gabriela se animou e nos encarou com interrogações. – A senhora vai mesmo ser minha mamãe também, tia Macela? Mas pra isso não tem que namorar a mamãe?

Acho que por um momento meu coração parou de bater.

– GABRIELA!

Foi a única coisa que consegui dizer para repreender a criança. Daniela e minha irmã, que até então estava fingindo concentração no celular, caíram em risadas. Aparentemente meu desespero era algo divertido ali.

– Não precisa brigar com ela. – Daniela tinha razão! Marcela estava estragando minha filha, mas eu acho que adorava isso. – Meu amor, você já tem uma mamãe. Mas sabe de um coisa? Eu seria muito sortuda de ter uma filha tão esperta como você. No dia que eu tiver um filho ou filha, quero muito que a criança seja como você, linda e inteligente.

– Mas e se a mãe Hanna deixar, eu posso ser sua filha também? É só você namorar ela. Todos meus amiguinhos da escola tem um papai e uma mamãe. Seria legal ter duas mamães. Eu seria a única. 

Gabriela disparou fazendo meu coração acelerar. Aquela era a primeira vez que ela mencionava, ainda que de maneira indireta, a ausência de um pai, o que deixou Micaela, Daniela e Marcela, em um claro sinal de desconforto também. E a situação ficou ainda mais confusa quando ela declarou o desejo de ter Marcela como mãe. Foram muitas coisas para digerir em um único momento. Por sua vez, Marcela olhava para a criança claramente sem saber o que responder.

– GENTE, EU AMO ESSA CRIANÇA. Gabizinha, se você pedir com jeitinho, Marcela casa com sua mamãe.

Percebendo o clima que havia se instalado, Daniela foi em meu socorro buscando deixar o ambiente mais leve. De um jeito Meio estilo Daniela, é verdade. Mas ainda assim, eu lembraria de agradecer a ela depois.

– Meninas, desculpem a demora. Tive problemas com meu carro e fiquei presa até concertar.

Vi Marcela respirar profundamente ao perceber que se livrou daquela situação embaraçosa quando Renata entrou atraindo atenção de todas nós, e inconscientemente nos forçando mudar o assunto.

Contudo, o que Gabriela falou deixou meu coração inquieto. Inconscientemente minha filha tinha nos levado para uma realidade angustiante. Eu sabia que um dia teria que conversar com Gabriela sobre nossa história. Mas era cedo… Era cedo demais. 

Por outro lado, por um momento fiquei imaginando se junto com Marcela nos tornássemos mesmo uma família: eu, ela e Gabriela. Será que seriamos felizes? 

– Eu acho que mãe e filha tem o poder de domar a fera. – Minha irmã cochichou em meus ouvidos, e eu a olhei sem entender.

– Como assim?

– Você e a Gabi, é claro. Vocês duas definitivamente são o ponto fraco da Marcela. Olha só para elas… parecem realmente conectadas como mãe e filha. – Olhei para as duas que sorriam animadamente sobre alguma coisa que Marcela mostrava no celular para Gabi. Não pude deixar de sorrir com a cena. – Eu acho que acabei de identificar o que de fato vai unir vocês duas novamente. 

Fiquei em silêncio observando a interação das duas que naquele momento parecia ser a coisa mais linda do mundo. As duas pareciam se conhecer há séculos de tão conectadas que eram.

 

Por Micaela

Faziam cerca de dez minutos que estávamos todas assistindo aquela cena ridícula proporcionada por Marcela e Hanna. As duas não paravam de discutir enquanto provávamos os nossos vestidos de madrinha. Daniela era a única que parecia se divertir com a situação, que segundo ela, era tesão reprimido. Renata, coitada, já tinha desistido de pedir para as duas se calarem e até a minha sobrinha parecia chateada com a discussão sem fim.

– Eu já disse que não te chamei de gorda. Apenas está claro que esse vestido está muito apertado em você. Afinal de contas, você está querendo o quê? Ele está marcando todo o seu corpo, Hanna. – Marcela insistia visivelmente enciumada. 

– Mas que absurdo! Não está marcando nada, Marcela. Você que é exagerada.

– Claro que está! Olha só pra isso. – Vi marcela virar Hanna de costas para que nós a olhasse, com a clara esperança de que concordássemos. – Toda a bunda dela está marcada nesse vestido. Dona Marlene, a senhora por gentileza pode ajustar esse vestido para não deixar o corpo dela tão exposto?

Arregalei os olhos ao ouvir as palavras de Marcela, mas eu não fui a um.  e vi minhas amigas fazerem o mesmo, assim como também minha irmã. Óbvio que estávamos surpresas com aquela reação de Marcela. Ela que era sempre tão podada, talvez nem estivesse percebendo que estava agindo como se fosse comprometida com minha irmã e tivesse direitos absolutos sobre Hanna.

– Você está louca? Desde quando você tem autoridade para opinar dessa forma sobre o que visto? – Apesar de estar surpresa, Hanna também estava muito irritada. Ela sempre odiou ser contrariada.

– Desde quando você tem uma filha, e eu não quero ver sua filha crescer vendo a mãe dela ser cobiçada pelos os olhares idiotas de outras pessoas.

Meu Deus! Qual o idiota que acreditaria naquelas palavras? Marcela estava claramente com ciúmes, mas usava Gabriela como desculpa para explicar o óbvio.

– Você está insinuando que eu faço minha filha passar vergonha? – Hanna estreitou os olhos.

– Claro que não, sua idiota! Só estou querendo dizer que não mandamos nas atitudes dos outros. – Marcela tentava se acalmar e a pobre da dona Marlene já tinha até sentado para assistir aquela cena patética protagonizada pelas duas ridículas. – Hanna, por favor, vem cá. – Marcela segurou delicadamente a mão da minha irmã lhe carregando até o grande espelho que tinha ali. – Olha como está esse decote. Em você está mais aberto, isso porque você tem mais busto que todas nós. Você vai chamar atenção de qualquer idiota desse casamento. Se bobear, até o padre vai gaguejar enquanto celebra o casamento.

Minha irmã ficou olhando o próprio reflexo no espelho, e parecia finalmente pensar a respeito daquilo que Marcela explicava. Ela estava exagerando, é verdade. Mas também é verdade que ela não estava mentindo quanto ao decote. Não vou negar que em Hanna o vestido estava um pouco mais chamativo do que em nós, mas também não acredito que era motivo para todo esse escândalo que Marcela estava fazendo. Bastava alguns ajustes que tudo seria resolvido. 

– Huuuum! – Surpreendendo a todas nós, a irritação de Hanna deu lugar a algo novo… Sedução! – Me diz, Marcela. Você se sente desconfortável ou atraída me vendo assim?

Minha irmã dava passos em direção à Marcela, que por sua vez recuava sem desviar os olhos de Hanna. 

Sem saber onde aquilo iria terminar, me apressei em colocar as mãos nos olhos de Gabriela, que resmungou contrariada. 

– O quê? Q-Que pergunta é essa?

Agora o nervosismo na voz de Marcela nos deixava bestificadas. Logo ela que sempre gostava de esbanjar alto-controle.

– Responde minha pergunta, Bettencourt.

Hanna estava quase encostando Marcela na parede. Por sua vez, Marcela tinha seus olhos transbordando em desespero com aquela aproximação. 

– Eu vou acabar com essa palhaçada. – Eu ia me levantar e impedir aquilo de continuar, mas Daniela segurou meu pulso me fazendo sentar novamente. 

– Deixa elas! Eu quero ver como vai terminar esse capitulo.

– Eu também! Isso está melhor que seção da tarde.

Olhei bestificada para Renata, que agora tinha Gabi no colo. Mesmo sem compreender a complexidade daquela cena, a criança parecia ansiosa para ver o que aconteceria ali.  

– Até você, Renata? – Questionei chocada.

– Quê? Não tenho culpa se elas deixam tudo interessante.

Sendo voto vencido, voltei assistir a cena protagonizada pelas duas...

– Hanna, se afaste um pouco. O que diabos pensa que está fazendo? Olha onde estamos. – A voz de Marcela era vergonhosamente trêmula. 

– Eu não estou fazendo nada. Ou será que estou? Me diz você. – As unhas de Hanna arranhavam o queixo de Marcela. – Vamos lá, Bettencourt. Não seja covarde. Me convença na prática que o vestido é atrativo o suficiente a ponto de causar problemas. Fico mesmo atraente?

Agora literalmente Hanna havia prendido Marcela contra parede segurando seus ombros. Vi minha amiga mudar de cor, talvez porque estavam próximas o suficiente a ponto de quase roçarem seus lábios.

– Por favor, Hanna. Se afas-afaste de mim. Olha a Gabi! Ok, ok… Você pode usar esse vestido ou qualquer outro que quiser. Só se afaste, por favor. Olha sua irmã ai. – Marcela engoliu seco descendo o olhar para a boca de Hanna.

Minha irmã ficou em silêncio enquanto se encaravam por alguns segundos. Quando a vi colando os corpos das duas, e então ela sussurrou no  ouvido de uma forma tão sedutora que me questionei desde quando ela era assim.

– Viu só, Marcela? Você estava completamente errada. O vestido não vai me causar problema nenhum. Idiotas também são capazes de se controlar. A menos é claro, que ele só cause efeitos em quem não seja covarde como você acabou ser.

Com um sorriso nos lábio, e sob o olhar de Marcela, Hanna se afastou  e caminhou em nossa direção. Todas estávamos boquiabertas com o que tinha acabado de assistir. 

– Dona Marlene, vou ficar com esse mesmo. Só ajusta um pouquinho aqui, por favor. 

A pobre mulher olhou espantada para minha irmã, mas depois pareceu se animar com o fim daquela discussão sem lógica. 

Olhei para Marcela que estava pálida e de boca aberta formando um perfeito “O”. Ela estava tão branca que por um momento achei que fosse desmaiar. Tenho que admitir que aquilo foi um ponto para minha irmã naquele jogo sem fim.

– Que vergonha, Marcela. Cadê minha atacante? Por que raios não beijou essa mulher? Que decepção! – Daniela resmungou contrariada com a falta de desempenho da amiga.

 

…

 

Depois daquele show gratuito protagonizado pelas duas, Marcela seguiu o resto do tempo que passamos no ateliê, em um profundo silêncio. Hanna por sua vez adorava soltar indiretas para a outra. 

Quando acabamos com a prova de vestidos decidimos ir até um restaurante que tinha ali perto. 

O jantar estava seguindo na mais perfeita calma. Conversávamos animadas sobre os preparativos do casamento de Renata, até que Daniela se pronunciou.

– Já sei! Foquem aqui na ideia magnífica que eu tive. – Daniela falou animada atraindo nossa atenção para ela.

– Ai Jesus! Você tendo uma ideia? Isso não pode ser coisa boa. – Marcela brincou arrancando risadas de todas nós.

– Há, Há, Há… que engraçadinha! Se eu fosse você ficava caladinha, porque sua cota de passar vergonha por hoje já passou. Aliás, desde quando você corre de mulher? – Vi Marcela encolher na cadeira e ficar em silêncio, mas observei que isso arrancou um leve sorriso torto da minha irmã. – Vamos fazer uma despedida de solteira para Renata. Não é demais?

– O QUÊ? – Renata praticamente berrou atraindo alguns olhares das mesas ao redor. – Daniela Gaspar, você por acaso está querendo me fazer perder o noivo antes de subir ao altar? 

– Claro que não! Despedidas de solteiro são uma tradição. Eu não vou deixar minha amiga mais certinha ficar sem aproveitar seus últimos momentos de liberdade.

Eu tinha que admitir… Daniela conseguia ser cara de pau ao extremo. 

– Você é louca, mas eu concordo com você. Vamos preparar a despedida de solteiro mais show que essa cidade já viu. – Marcela e Daniela fizeram um cumprimento muito do esquisito. 

– E eu posso saber quem vai ficar responsável por organizar isso? – Perguntei curiosa e vi Marcela e Daniela trocaram um olhar em cumplicidade.

– NÓS DUAS, É CLARO! – Marcela e Daniela falaram juntas com os olhos brilhando, o que não era o mesmo caso de Renata e minha irmã.

– Vamos exercer nosso papel de madrinhas. – Daniela concluiu. 

– NUNCAAAAA! – Renata dessa vez literalmente berrou. – Vocês duas juntas organizando uma despedida de solteira? Minha despedida de solteira? Nunca que vou permitir uma loucura dessas. Vocês vão acabar com meu casamento antes que eu consiga pensar em entrar na igreja.

– Larga de ser velha, Renata. Nós vamos organizar sim, e você vai comparecer, ou então te sequestramos. – Marcela lançou um sorriso tão debochado que eu não pude deixar de lamentar pela coitada da Renata.

– Deus te proteja, minha amiga. – Fiz um breve carinho nas costas de Renata. 

– Mas era só o que faltava mesmo. Com tanta coisa importante para organizar nesse casamento, as duas idiotas querem organizar justamente a despedida de solteira. Muito conveniente para vocês. – Minha irmã estava com um olhar que até quem estava de fora da situação toda poderia ser fuzilado por ela. 

– E eu posso saber o por quê do seu incômodo? Por acaso acha que não temos competência para isso? – Marcela desafiou e lá vamos nós iniciando o segundo round da noite.

– Muito pelo contrário, a competência de vocês para esse tipo de safadeza é tão grande que eu até tenho medo de realmente não ter casamento. – Hanna limpava a boca da Gabi que estava toda lambuzada de molho.

– Não seja criança, Prado. Você acha mesmo que o Guilherme não vai ter uma despedida também? – Renata parecia que tinha petrificado ao ouvir aquilo. Acho que até aquele momento ela não tinha cogitado tal possibilidade. – Além do mais, podemos não levar homens para fazer o striptease. Levamos apenas mulheres, e assim fica tudo certo, não é mesmo Dani? 

Estava mais que claro a intenção de Marcela… Ela estava provocando Hanna, e sabia que tinha alcançado o desejado.

– Tem meu total apoio. – Daniela se animou. – Afinal, quem não pode pegar ninguém é a noiva, mas as madrinhas estão liberadas. Homem ou mulher eu me divirto. Meu desejo não tem rótulos. 

As duas repetiram o cumprimento que fizeram anteriormente. Aquelas duas juntas realmente não valem um pão com ovo.

– Mamãe, o que é um stripe tisu?

Minha sobrinha perguntou inocentemente, mas Hanna pareceu chocada ao ouvir a pergunta. Naquela noite, Gabriela estava fazendo perguntas e observações que fazia Hanna ir de zero a cem em segundos. Contudo, no fim ela olhou para Marcela e com um sorriso maligno ela disse:

– É, Tia Marcela. Explica para Gabi o que é um striptease.

Hanna jogou de forma venenosa a pergunta para Marcela, que abriu a boca inúmeras vezes, e claro, Dani gargalhou da situação. Confesso que até eu e Renata estávamos rindo da cara de trouxa que nossa amiga estava fazendo. Isso que dá falar besteira na frente de crianças. Conclui que era bem feito para ela, quem sabe assim não aprendia pensar antes de falar aquelas coisas na frente de uma criança.

– É… bom.... Um striptease é... Como eu posso explicar para você, minha pequena? Bom a Tia vai tentar... É um, um remédio que quando a pessoa toma fica muito alucinada, fora de si e capaz de fazer muita coisa feia. – Dani só faltava rolar no chão de tanto sorrir da explicação sem nexo de Marcela. – É por isso que você nunca pode tomar esse remédio, está me entendendo, Gabi? Jamais, em hipótese alguma você deixe ninguém falar disso para você. E quando você for maiorzinha, se algum amiguinho ou amiguinha quiser te pedir ou te dar isso, você vai dá uma joelhada bem entre as pernas da pessoa. Promete para a tia?

Olhei para minha sobrinha que parecia assustada com o que Marcela falava. Também eu não poderia julgá-la, afinal, com exceção de Daniela que chorava de tanto que sorria, todas nós estávamos chocadas com aquela cena. 

– Cala a boca, Marcela. Você está traumatizando minha filha. – Hanna olhava para a criança que ainda piscava lentamente encarando Marcela.

– Mas tia, eu não sei dá joelhada. – Tadinha da minha sobrinha, tão nova e cercada de loucas.

– Não se preocupe, eu vou te ensinar tudo que você precisa saber para se defender dos garotinhos abusados, ok? Você vai adorar praticar artes marciais. Quer aprender? – Marcela deu um beijo na cabecinha da Gabi que agora parecia mais tranquila com a promessa.

– Eu quero, tia. Vou fazer bem assim…

 A menina levantou e começou imitir gestos que davam vida a uma luta imaginária, o que acabou arrancando risadas de todas nós. Por sua vez, Marcela parecia orgulhosa. Seus olhos brilhavam. 

– Você não vale nada mesmo, Bettencourt. – Hanna falou em um tom sério, mas pude perceber um sorriso se formar em seus lábios. 

– Ok! Vamos fazer o seguinte, vamos estabelecer algumas regras, e se Renata concordar, vocês podem fazer a despedida de solteira. – As duas se animaram quando acabei de falar.

No final ficou acertado que as duas malucas organizariam a tal despedida de solteira que tanto queriam oferecer a Renata, porém concordaram, mesmo contra vontade, que não iria ter strip nenhum. Também não iriam embebedar nossa amiga, que no outro dia precisaria estar linda para o tão aguardado casamento. Ficou acertado também que o noivo poderia saber o local onde aconteceria a brincadeira, já que essa foi a principal condição imposta por Renata. 

Já estávamos no estacionamento quando finalizamos a conversa.

– Ok, estamos combinadas assim? – Perguntei para as duas à minha frente.

– Não temos outra opção mesmo, então que assim seja. – Daniela deu de ombros.

– Vocês são muito ingênuas mesmo de confiarem nessas duas. Olha a cara delas... É claro que vão aprontar. – Hanna apontou para as duas que pareciam tão conformadas com as condições que me fez pensar por um momento se isso iria dar certo. – Eu aposto como isso não vai dar certo. 

– Você para de ser do contra, garota. Se não... – Marcela falava, mas foi cortada pela voz da minha irmã antes que pudesse concluir.

– Se não você vai fazer o quê? – Minha irmã desafiava e lá estávamos nós no terceiro round da noite. – Ora, faça-me o favor! Você só faz escândalo, mas na hora “H” não tem coragem de fazer absolutamente N-A-D-A. – Hanna falou pausadamente a última palavra fazendo uma fúria tomar conta de Marcela.

– Ah é, acha que não faço nada?

Eu tinha acabado de colocar Gabriela dormindo no banco de trás do meu carro quando percebi Marcela encostando Hanna na lateral do carro, ficando tão próximo do rosto da minha irmã, que me assustei com a cena. Marcela passou a ponta dos dedos pelo braço de Hanna enquanto olhava intensamente em seus olhos.

– Repete que eu não faço nada, Hanna Prado. – Minha irmã parecia em outro mundo e nada respondia, apenas encarava os olhos de Marcela que lhe lançou um sorriso debochado. Marcela lentamente encostou os lábios próximos ao ouvido da minha irmã e então sussurrou de uma forma tão provocante e baixa que eu só consegui ouvir por estar próxima às duas. – Como eu pensei, eu não sou a única covarde aqui. 

Confesso que meu queixo caiu com aquela última frase de Marcela, mas foi quando a vi color seus lábios nos de Hanna, dando início a um selinho demorado e cheio de significado, que fiquei atordoada. 

Quando Marcela se afastou, Hanna estava paralisada. Aquela era a primeira vez que uma cena daquela era protagonizada em nossa frente. E eu conhecia minha irmã o suficiente para saber que aquilo tinha lhe provocado sensações únicas, e uma delas era a certeza de que aquilo estava além de mais uma provocação. 

Marcela entrou em seu carro e antes de dar partida baixou o vidro do carro e olhou diretamente para minha irmã.

– Amanhã à tarde passo na sua casa para levar Gabriela ao parque como prometi. Se você quiser nos acompanhar, está convidada. Boa noite, meninas. 

E ela se foi, deixando todas nós bestificadas demais para conseguir reagir aquele seu lado ousado. Definitivamente, a Marcela que conhecíamos estava de volta. Ela estava leve e pronta para assumir seus próprios sentimentos.

Fim do capítulo


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