Capitulo 15
Por Hanna
Embora insegura, eu me esforçava para tentar manter a confiança que aquele seria o dia que as coisas finalmente começariam ganhar outro capítulo em minha história com Marcela. Eu sentia o nervosismo aflorar a cada segundo que se aproximava do horário de almoço, mas por mais que a mente dissesse para fugir, o coração desejava ficar.
Eu sabia que ultimamente Marcela e eu estávamos vivendo um joguinho ariscado adolescente. Uma coisa facilmente comparada com a caça de cão e gato, algo como pega não pega, quero mas não quero. E de repente pensar que as coisas poderiam mudar… Pensar que mesmo que não tivesse sobrado chance para nós como um casal, mas que poderíamos descobrir que podíamos conviver bem uma com a outra, era sem dúvidas algo muito bom. Algo que acalentava meu coração.
Ouvi batidas na porta da minha sala, autorizei a entrada e olhei em direção à mesma.
– Já está pronta?
Vi Marcela entrando na sala, e como sempre ela mantinha sua postura impecável, aquele ar misterioso, autoritário, alto-suficiente. Quase irresistível!
Seu olhar percorreu a sala e logo pousou em minha estagiária. Quase automaticamente a reação de Marcela esboçou algo semelhante a desagrado. Eu tinha esquecido como Marcela consegue ser implicante quando quer.
– Estava só esperando por você. – Respondi quebrando o clima pesado. – Eu não sabia se iria mesmo aparecer ou se desistiria de última hora.
– Desistir? – Seu olhar era enigmático. Uma combinação tentadora com o meio sorriso que surgiu em seus lábios. – Eu pareço em dúvidas com algo? Então, podemos ir? Eu estou realmente com fome.
Marcela parecia surpreendentemente tranquila. Não existia aquele peso que geralmente nos envolvia logo após sua volta. Não existia tensão, e tão pouco raiva, o que acabava me tranquilizando também, pois eu sabia que nossa história era uma bagunça marcada por mágoas, desencontros, erros, e um pedido de desculpa silenciado pelo o tempo. Existia também muitas incertezas e orgulho que costumava nos envolver, e agora que Marcela sabia do meu passado, eu ficava ainda mais insegura que o normal. Então, de certa maneira era bom ter aquela sensação de tranquilidade sendo estabelecida entre nós.
Peguei minha bolsa e me preparei para seguir o seu lado, mas para minha total surpresa, e me pegando totalmente desprevenida, Marcela me puxou pela cintura e deixou um beijo demorado descansar em meu rosto. Tenho certeza que meu olhar transbordava em interrogações, enquanto em meu estômago revirava em borboletas que davam cambalhotas.
Sem qualquer constrangimento aparente pela cena que acabava de protagonizar, Marcela olhou em direção a minha estagiaria.
– Como é mesmo o seu nome? Bernadete, não é? Não, espera... É Blenda? Benedita talvez?
Sem que Bianca percebesse, dei um beliscão em Marcela. Eu sabia que ela estava fazendo aquilo por pura implicância com a mais nova, o que me surpreendia já que assim ela estava deixando de lado sua ética empresarial.
– É Bianca, senhora. – A garota respondeu visivelmente desgostosa com a situação.
– Ah claro, Bianca... Perdão! Acredita que sou péssima para guardar nomes? Mas então… Me conta um pouco sobre como anda se saindo no trabalho. Está gostando da empresa?
– Está tudo ótimo! Estou conseguindo aprender muitas coisas, e a Hanna tem me ajudado bastante a pegar o jeito da coisa toda.
Apesar das implicâncias sem fundamentos a qual era submetida, Bianca se mantinha simpática com a idiota da mulher que ainda me mantinha envolvida por seus braços.
– Claro que sim! Não tenho dúvidas que a “senhorita” Hanna esteja muito empenhada em ajudá-la. Ela sempre foi muito prestativa mesmo. Você tem sorte em tê-la como mentora. Ela é uma profissional muito competente, e profissionalmente você ganhará muito se seguir os ensinamentos dela. Você não poderia aprender com alguém mais capacitada que ela.
– Bianca também é uma profissional muito empenhada, Marcela. – Resolvi me envolver na conversa. – Está sendo uma experiência de troca para nós duas.
Marcela não conteve a expressão de poucos amigos. Ergueu a sobrancelha, me analisou por alguns segundos, mas nada disse.
– Apenas estou muito disposta a aprender com você. Eu sei que o caminho é longo, que sou apenas uma estagiária, mas estou dando o meu melhor. Um dia quem sabe alcançarei o nível dessa empresa igual à senhorita. De qualquer maneira, obrigada pelo elogio. É muito gratificante. – A mais nova respondeu e vi o momento exato que Marcela revirou os olhos suspirando logo em seguida.
– Escuta bem o que eu vou te falar, Bianca. – Senti um frio na barriga quando o tom de voz de Marcela soou mais sério. – Jamais se coloque para baixo dessa forma. Se hoje você está aqui, é porque tem capacidade para isso e, independente se é uma estagiária ou não, aqui você é igual a todas nós. Você tem a mesma importância e valor que qualquer outro funcionário, dono ou sócio desse lugar. Estamos entendidas? – O olha de Marcela era intimidador.
– Aham! Sim senhora. – Bianca murmurou parecendo surpresa.
Não pude deixar de sentir orgulho. Aquela era a Marcela que eu conhecia. Sempre buscando ser justa. Mesmo implicando com a garota, ela estava ali enaltecendo o valor da mesma.
– Ótimo! Agora vamos deixar desse papo de comadre. Eu vou roubar sua fabulosa mentora, ok? Mas acho que você pode sobreviver sem ela, não é mesmo? Não sei se ela volta até o fim do expediente. Então, divirta-se com o seu trabalho.
– Como assim eu não vou voltar? Claro que vou! Marcela, eu tenho muito trabalho a fazer ainda hoje.
– Não discute comigo, mulher. – Ela abriu a porta para que eu pudesse passar. – Vamos embora que estou morrendo de fome.
Eu sempre odiei esse lado mandão que Marcela tem, mas resolvi não rebater. Hoje eu não queria brigar, então apenas respirei e concordei.
Saímos da minha sala e quando seguíamos lado a lado para o elevador minha irmã surgiu com Daniela ao seu lado. As duas nos olharam com uma expressão interrogativa, bom, pelo menos minha irmã, já que Daniela estava claramente com aquele olhar de divertimento que já me causava pânico ao imaginar a pérola que soltaria. Olhei para Marcela em busca de socorro, mas desisti quando percebi seu olhar assustado em direção a minha irmã. Era impressionante como isso não mudava nunca.
– Hum! Olha as coisas evoluindo, gente. Será que posso saber para onde o casal está indo? – A baixinha questionou sem se sentir constrangida por não conter a curiosidade.
Não seria Daniela se não falasse algo do tipo.
– E eu posso saber por que você é tão enxerida? – Marcela devolveu a pergunta com implicância. – Não te devo satisfação, Daniela.
– Calma, Marcelinha. Por que tanta hostilidade? Aposto que a Mica não vai te morder. Essa é a função da Prado mais nova. – Daniela provocou e Marcela passou a mão nervosamente pelo cabelo.
– Só estamos indo almoçar e tratar de negócios. – Marcela mentiu.
Olhei para Marcela sem acreditar que ela havia mesmo tentado a sorte. A verdade mesmo é que nem em mil encarnações Marcela aprenderia a mentir, e Daniela jamais seria o tipo de pessoa que acreditaria em uma desculpa como aquela. Ainda mais vindo de Marcela.
– Ah, claro! Isso porque o tempo na empresa é limitado demais para vocês tratarem desses assuntos por aqui. Compreensível! – Dani debochou.
– Daniela vai tomar no…
– Pelo amor de Deus, contenha-se! – Resolvi interferir tapando a boca de Marcela imediatamente antes que ela falasse um palavrão bem ali no meio da empresa.
– Deixa elas, Dani. Elas precisam mesmo se resolver. Quem sabe assim deixam de fazer barraco tarde da noite na porta dos outros, não é meninas?
Minha irmã falou e Marcela encolheu os ombros. Certamente ela havia lembrado da bronca que levamos na noite anterior na porta da casa de Micaela.
…
O carro estava silencioso demais, o que me fazia questionar se aquele era um bom sinal, o que começava me deixar mais nervosa que antes.
– Então, para onde vai me levar? – Resolvi quebrar o gelo.
– Imagino que frutos do mar continua sendo sua comida favorita. Achei que seria uma boa ideia irmos naquele seu restaurante favorito.
Marcela respondeu olhando rapidamente em minha direção. Entendi que ela esperava a confirmação.
– Você acabou de provocar um ronco na minha barriga. – Brinquei e ela sorriu parecendo satisfeita.
Aquele restaurante ficava próximo à orla de Fortaleza. Era um ambiente sofisticado e também muito reservado, mas era a tranquilidade que o tornava apaixonante. Sempre achei que aquele fosse um ótimo lugar para se fazer uma refeição em um clima agradável enquanto aproveitávamos uma vista perfeita.
Marcela escolheu uma mesa em um lugar mais reservado e, então fizemos nossos pedidos. Ela também escolheu um vinho do qual não tardou em ser servido pelo garçom.
– Você continua tendo bom gosto. – Falei quando saboreei o vinho escolhido por ela.
– Digamos que Portugal tenha ajudado bastante quando se trata de bom gosto para vinho. Gostou?
– Sim, muito bom.
Vi um sorriso tímido surgir em seus lábios. Fiquei a admirando e lembrando das inúmeras vezes que observei discretamente aquele sorriso quando namorávamos escondido. Cheguei a conclusão que é realmente lamentável as vezes que silenciei o que sentia, por senti medo, por não me aceitar, por não me conhecer tão bem.
– Por que está me olhando assim?
– Não consigo deixar de achar lindo quando você sorrir com timidez. – Respondi com sinceridade e sem segundas intenções.
Se no passado eu silenciava o que sentia, estava certa que no presente não tinha motivos para seguir silenciando. Por mais que as coisas fossem incertas entre nós, eu queria que Marcela soubesse que eu já não era a mesma mulher imatura que ela conheceu. Queria que ela soubesse que eu era uma nova mulher, e que tinha certeza daquilo que queria para minha vida.
Ao ouvir aquilo, ela ruborizou ficando ainda mais linda.
– Hanna, por favor... Você sabe que sou péssima para receber elogios.
– Isso é algo que nunca entendi. Você sabe que não é mentira. Sabe que realmente possui uma beleza que atrai o olhar de todos em sua volta. – Voltei afirmar sem preocupação.
– E sou muito tímida também.
Nós duas rimos! Aquilo não era uma mentira. Embora tivesse uma personalidade forte, Marcela tinha um lado tímido sim, o que fazia dela ainda mais atraente. Era como se sempre existisse algo a ser desvendado.
– Tudo bem, tudo bem… Vou me conter nos elogios. – Ergui as mãos em tom de brincadeira.
Ela pareceu aliviada com a promessa, e o sorriso desenhado em seus lábios deixava claro o clima leve que nos envolvia. E o melhor de tudo, pela primeira vez o brilho que alcançava seu olhar demonstrava que ela estava verdadeiramente confortável em compartilhar aquele momento ao meu lado. Claro que existiam respingos de conflitos que nos envolvia, mas era nítido que também existia uma vontade de resolver aquela situação de uma vez por todas.
– Hoje enquanto estávamos em sua sala, não pude deixar de notar uma coisa.
– O quê? – Não pude conter a curiosidade.
Com tranquilidade, ela respondeu:
– Mesmo estando na frente de alguém, você não recuou do contato físico quando te abracei. – O olhar castanho encontrou o meu. – Isso é realmente curioso.
Por alguns segundos, enquanto buscava compreender o significado daquela afirmação, analisei a mulher que estava em minha frente. Eu não podia julgá-la por fazer aquele questionamento. Talvez para ela levasse um tempo para se sentir segura em relação às minhas atitudes, e compreender que eu realmente havia mudado nesse tempo em que ficamos longe.
– É difícil aceitar que mudei, não é? Logo eu que sempre fui tão regrada durante nosso relacionamento. Tão preconceituosa. Eu realmente entendo você.
– Hanna, desculpa. Não foi isso que quis dizer. Aliás, não quero transformar esse momento em um clima tenso ou coisa assim. Não foi pra isso que te trouxe aqui.
Existia preocupação em seu tom, o que claro, logo tratei de dissipar.
Toquei em sua mão que descansava em cima da mesa. Ela acompanhou o gesto com o olhar, mas não desfez o contato. Ao me olhar, a presenteei com um sorriso sereno.
– Tá tudo bem Marcela. Aliás, até gosto de não vê-la podada em conversar sobre qualquer coisa. – Meu polegar acariciou sua mão. – Bem, agora me diga, por que eu recusaria um contato físico seu? Eu mentiria se dissesse que não gostei do seu abraço.
Marcela voltou a ruborizar, o que me fez automaticamente sorrir. Era sempre engraçado vê-la envergonhada.
– Agora é minha vez de perguntar algo que tenho curiosidade. – Ela assentiu em permissão. – Por que você implica tanto com Bianca?
Marcela tomou novamente um pouco do seu vinho, e ao volta me olhar, transmitiu tranquilidade diante da pergunta. Ela estava realmente nua e crua como a muito tempo não a via. Naquele momento ela deixava rastros de que a mulher por quem me apaixonei um dia, mesmo que agora fosse mais madura e marcada pelas consequências da vida, ainda existia.
– Ok! Acho que você tem um ponto. – Ela esboçou um sorriso de canto brincando com a borda da sua taça. – Quando te chamei para esse almoço, prometi pra mim mesma que não fugiria mais. E acredite, não pretendo fazer isso. Então vamos lá... No primeiro momento, eu não senti confiança nela. – A olhei sem entender e acho que ela percebeu isso. – Não falo no quesito profissional, mas no pessoal. Tem algo nela que realmente não me inspirou total confiança. E em segundo… – Ela suspirou. Parecia buscar absorver doses de coragem. – Céus! Eu posso me arrepender amargamente por dizer isso...
Esperei pelo o momento que ela se permitiria e finalmente teria coragem, de prosseguir para expor como se sentia.
Por alguns segundos, mantemos nosso olhar conectado como se o mundo lá fora não existisse.
– Eu tenho ciúmes! Me incomoda o jeito que ela te olha. – Ela finalmente disse em um tom alto aquilo que eu já suspeitava. Sorri e ela revirou os olhos com impaciência. – Isso não é engraçado, Hanna. Você não percebe que ela praticamente te come com os olhos? Sem falar que ela é muito puxa saco sua.
Voltei a segurar sua mão e dessa vez entrelacei nossos dedos.
– Isso é realmente um pouco engraçado. Ela tem o quê? Metade da minha idade, talvez?
– Isso não é um ponto questionável. – Marcela respondeu fazendo careta. – Ela bem bonita, na verdade. Isso sim é um ponto.
– É ponto por quê? Esse é o tipo de superficialidade que a Hanna do passado considerava em alguém. Mas não é assim que as coisas funcionam agora. – Afirmei com segurança. – Marcela, eu estou focada em uma coisa bem específica no momento. Resolver as coisas com você.
Fui direta e objetiva. Assim como Marcela, eu também não estava ali para fugir ou recuar. Se tínhamos nos dado aquela chança para fazer as coisas funcionarem, agarraria essa oportunidade sem deixar espaço para incertezas.
– Acredite, Bianca nunca soltou uma frase mais ousada ou descabida para mim. Nossa convivência é profissional e respeitosa. E eu jamais alimentaria qualquer comportamento diferente. Especialmente em meu ambiente de trabalho. Eu sou profissional, Marcela.
– Disso eu tenho certeza. Nunca foi um ponto questionável. – Sua mão alcançou a nuca em um gesto de nervosismo. – Pode falar, é um comportamento ridículo da minha parte, não é?
Ri do seu nervosismo. Mas sabia que cedo ou tarde Marcela iria enxergar que aquele não era um comportamento que combinava com sua personalidade.
– Eu não diria ridículo. Um pouco adolescente, talvez. Mas se te serve de consolo, eu compreendo. Eu também morro de ciúmes ao te ver cheia de graça com aquela arquiteta esquisita. – Confessei ganhando sua atenção.
Por fim me dei conta que em segundos estávamos sendo verdadeiras não apenas uma com a outra, mas com nós mesmas. Em segundos estávamos nos permitindo.
…
Durante todo tempo enquanto desfrutávamos da companhia uma da outra, entramos em diversos assuntos aleatórios. Nossos pedidos haviam chegado e admito que o tudo estava perfeito.
Assim que terminamos de comer, Marcela pediu sobremesa apenas para mim, já que ela nunca gostou muito de doces.
Enquanto eu comia senti o olhar avaliativo de Marcela pesando sobre o meu corpo. Olhei para ela e ergui a sobrancelha, dando liberdade para que compartilhasse o que se passava em sua cabeça.
– Hanna, isso está fugindo do nosso controle, não está? Quero dizer, quando voltei para o Brasil tudo o que eu menos queria era uma aproximação com você, mas agora veja só como estamos. Até fizemos confissões que julguei que jamais faria.
– Qual o problema? Você se sentiu à vontade para dizer como se sente.
– Esse é justamente o problema. Eu achava que nunca mais me sentiria assim. – Marcela explicou meio eufórica.
– Defina assim.
– Viva! – Ela respondeu de pronto com um mix de sinceridade, timidez e insegurança. – Tudo está uma bagunça na minha cabeça. O passado ainda existe dentro de mim. Ainda me causa dor. Mas não posso negar que agora entra em conflito com o presente. Um presente onde você derruba minhas armaduras e me faz agir de maneira sem explicações e um tanto irracional. Chega a ser frustrante, mas é uma frustração boa, entende?
De repente uma realidade surgiu em minha mente. Não que fosse uma novidade, mas eu vinha tentando repreender minha insegurança, pois não queria que nada estragasse aquele momento. Contudo, eu sabia também que era necessário expor ali. Eu não podia deixar que coisas ficassem mal empreendidas ou por serem ditas.
– Mesmo depois de tudo o que você soube, é assim que se sente?
Marcela estreitou o olhar ao me analisar.
– Você acha que aquilo faz diferença pra mim? Quer dizer, diferença na maneira como eu me sinto em relação a você, ou como te enxergo?
– Para muitas pessoas saber do que você soube, mudaria tudo. – Respondi com pesar.
– Bem, eu sou diferente delas. – Marcela segurou em minhas mãos. – Hanna, eu lamento muito o que aconteceu. Inclusive me preocupo como você tem se sentido. Aquela crise me preocupou, e eu realmente gostaria que você cogitasse uma terapia. Mas nada disso muda meus sentimentos. Nem mesmo faz com que eu te enxergue de outra maneira.
Existia segurança em suas palavras. Marcela não deixava margens para que eu pensasse ao contrário, e isso era bom, pois era algo que me fazia sentir que ainda era possível encontrar de volta o caminho da felicidade.
– Obrigada, Marcela. Obrigada por não me julgar.
– Não me agradeça ainda. – Me preocupei quando vi sua expressão tornar sofrida. – Hanna, por mais que eu não negue que você reacendeu em mim a paixão. Ainda assim, hoje eu não estou tão diferente do dia que sai daquela casa de praia. O passado ainda me dói, ainda me deixa insegura. Hoje, eu ainda não consigo me sentir segura em relação do que esperar de você. Eu ainda tenho medo de me doar e me machucar.
Embora fosse doloroso ouvir aquelas palavras ditas por Marcela, permaneci em silêncio permitindo que ela pudesse se expressar. Ela precisava daquilo. Precisava colocar para fora tudo aquilo que sentia, e que a deixava angustiada. Não era somente sobre mim, mas sobre ela também. Ela não estava apenas perdida em seus sentimentos confusos, mas também estava cansada por não compreendê-los, e ainda mais cansada por tentar reprimi-los.
No fundo eu compreendia seu dilema. Eu entendia que para ela, talvez fosse mais difícil lidar com tudo aquilo do que era para mim, afinal de contas, eu sabia exatamente o que sentia por ela desde o passado, mas eu tinha falhado miseravelmente quando não permiti que ela também soubesse o quanto significava para mim. Foi eu que deixei ela construir aquela imagem de que eu era alguém fútil e sem sentimentos. Naquele momento eu compreendi que para ter novamente Marcela, eu não iria apenas poder dizer que a quero de volta. Palavras não seriam suficientes. Eu precisaria deixar ela me conhecer por completo, porque hoje eu não sou a mesma da imagem que ela guardou.
– Marcela, eu consigo compreender todos os seus conflitos. Infelizmente você tem a imagem de uma Hanna diferente da que eu sou hoje. A Hanna que de fato um dia existiu, mas que te amava sim, e por pura burrice não deixou isso tão explicito como deveria. Talvez para você, hoje eu não seja tão diferente de antes, mas eu mudei e eu quero muitas coisas com você, e definitivamente brincar com seus sentimentos não é uma delas. – Marcela me olhava com atenção. Sua expressão era calma e isso me encorajava a continuar. – Se quer saber o que eu quero com você, eu digo sem medo e sem jogos. Eu quero que me reconheça quantas vezes forem necessárias. – Segurei novamente em sua mão sem tirar os olhos dos dela. – Sei que talvez o passado nunca seja apagado totalmente do seu coração, mas quero a oportunidade de cuidar da cicatriz que causei. Quero fazer isso de uma forma que jamais ela volte sangrar.
Minhas palavras tinham tocado Marcela, eu sei que tinha, eu sentia, mas ainda assim ela parecia em uma luta consigo mesmo.
– Eu quero tanto conseguir isso. – Ela suspirou e fitou agora a taça de vinho à sua frente. – Sempre tentei te esquecer, mas hoje vejo que você é como uma droga da qual sempre vou estar sujeita a uma recaída. Isso chega a ser frustrante, sabia?
– Por que resistir se você já está entregue? Marcela, nem você e nem eu, conseguimos mais fugir do que sentimos. – Estava sendo direta e verdadeira. – Você não percebe como está nossa convivência? Não são brigas de ódio. São brigas de desejo contido. Eu sei que sou quebrada, sou insegura, tenho muitos medos… Eu posso não ser sua escolha perfeita. Mas ainda assim, sou a escolha do seu coração e você é do meu.
– Eu não estou aqui para negar isso. Sim, eu te desejo toda maldita vez que te vejo. Eu quero te beijar sempre que você abre a boca para me irritar. – Meu corpo reagia a cada palavra dita por ela. – Hanna, eu quero ter você em meus braços no mesmo momento que nego o quanto você me afeta. O problema é que eu não consigo, eu não sei como fazer isso, não sei como me permitir sem sentir medo. Isso pode nos atrapalhar a encontrar o caminho de volta uma para a outra.
Era um sonho estar ouvindo tudo aquilo da mulher que pensei ter perdido para sempre. Mesmo que eu sentisse o desespero existente em cada palavra. Mesmo que fosse confuso e inseguro pra ela, ainda assim era a minha chance de fazer as coisas acontecerem diferentes.
– Você não sabe como estou feliz em ouvir tudo isso. – Cravei com segurança. – Eu sei que para você talvez não seja uma declaração de amor, mas para mim é tão significativo quanto. É mais do que eu já pensei que teria. E eu tô disposta a me agarrar a isso e fazer as coisas serem diferentes agora. – Fui sincera e vi ela sorrindo abertamente.
– Você realmente me surpreende. – Dessa vez quem buscou por minhas mãos foi ela. Seu polegar fazia um carinho em minha mão e aquilo era tão maravilhoso.
– Vou encarar isso como um elogio. – Pisquei para ela.
– De fato é um elogio. – Ela suspirou e olhou minha mão. – E então, como ficaremos?
– Você vai ditar as regras. O que você quer fazer, Marcela? Agora você sabe que sou tão quebrada quanto você.
Devolvi a pergunta tentando não pressioná-la e impor algo que ela não estivesse preparada. Mas para que ela soubesse que aquele seria um jogo onde nós duas jogaríamos.
Marcela encostou-se à cadeira e ficou fitando meus olhos de maneira pensativa.
– Essa é a hora que você foge? – Perguntei sem demonstrar o medo que eu senti diante do seu silêncio momentâneo.
– Fugir não é uma opção, lembra? – Ela respondeu me deixando mais aliviada. – Mas vamos com calma, ok? Vamos deixar as coisas fluírem sem pressão. Aos poucos nos reconhecemos e ver onde tudo isso nos leva. Combinado?
– Eu acho que gosto disso. Mas posso ser honesta? – Mordi meus lábios sentindo a sensação de êxtase correr por minhas veias. – Não sei se consigo sobreviver mais sem nenhum beijo seu.
Se fui ousada? Definitivamente sim. Mas também fui muito honesta. Eu estava determinada a não me conter mais diante de Marcela. Tão pouco silenciar meus sentimentos e vontades. Eu até podia ser insegura comigo mesma, mas ainda assim me sentia atraída por tudo que envolvesse aquela mulher, e sentia que ela deveria saber disso. Se eu queria tê-la de volta, seria completamente verdadeira com ela e com tudo o que eu sentia.
Fui surpreendida por Marcela, que saiu do seu lugar e ocupou uma cadeira vazia ao meu lado. Olhei para ela com confusão nos olhos e então ela sorriu maliciosa.
– E quem disse que será preciso?
Em um único movimento, ela segurou delicadamente minha nuca e buscou meus lábios dando início a um beijo que pela primeira vez era calmo e apaixonado. Pousei minha mão em seu rosto retribuindo ao beijo que até então só estava presente em meus sonhos durante todas as noites dos últimos dias. Dessa vez o beijo era conduzido por ela, que estava totalmente entregue e desarmada. Ela pediu passagem que prontamente foi atendida, e então senti sua língua encontrando a minha com total sintonia, deixando claro que os anos passavam, pertencíamos uma a outra. Era um beijo cheio de saudades, paixão e liberdade que marcava um reencontro de almas.
– Uau! Esse sim foi melhor que qualquer outro que já imaginei. – Sussurrei ainda me sentindo embriagada.
Marcela sorriu e me roubou vários selinhos deixando claro que sim, ela estava me dando total liberdade para ser definitivamente reconquistada.
Fim do capítulo
Bom dia!
Como informado no Instagram, ontem estive o dia inteiro com problemas na internet, por essa razão não houve atualização de capítulo.
Bjus!
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