Capitulo 14
Por Marcela
DE VOLTA PARA CASA
Depois que retornamos daquele fim de semana, as coisas definitivamente não eram as mesmas. Nos corredores da empresa, existia muita tensão entre nós cinco, especialmente porque dessa vez eu tinha ficado verdadeiramente chateada com Renata, Micaela e Daniela. Por mais que eu compreendesse que tinha pedido para não saber nada sobre Hanna, uma coisa daquela era diferente. Aquilo mudaria tudo, pois era algo que estava a cima da minha história com Hanna. Era algo que ia muito além de desencontros sentimentais, era uma verdadeira questão de humanidade e empatia. Eu sentia que tinha direito de ter ficado sabendo, pois antes de qualquer coisa, Hanna era alguém por quem sempre tive muito cuidado e carinho, antes mesmo de nos envolvermos amorosamente.
Por outro lado, eu ainda estava em choque com toda aquela revelação que Hanna me fez. Minha cabeça estava uma verdadeira confusão, e por um momento eu só queria sumir ou simplesmente dormir por um longo período, e ao acordar perceber que tudo aquilo não tinha passado de um pesadelo. A verdade é que a princípio eu não sabia como lidar com aquela situação.
Mas eu não era a única que andava mais pensativa. Depois da revelação que me fez, eu notava que Hanna também não andava bem consigo mesma. Ela estava mais quieta, mais pensativa, mais silenciosa, e fugindo. É, a sensação que eu tinha era de que Hanna estava fugindo de tudo e todos, mas especialmente de mim. Ela evitava fitar meu olhar, assim como também evitava estar no mesmo ambiente que eu. Não respondia mensagens, não atendia ligação, não queria contato fora do horário de trabalho. Eu acho até que conseguia compreender, mas talvez meu coração não soubesse aceitar que ela talvez precisava de um tempo para lidar com tudo aquilo.
Naquela manhã os raios de sol atingiam meu rosto me fazendo despertar de um sono que nem lembro quando aconteceu. Estava assim toda noite. Eu simplesmente apagava depois de horas esperando que o sono chegasse. É que todas as noites eu era atinginda pelas lembranças da noite aquela noite chuvosa onde tive a pior das revelações em minha vida. Por outro lado, também me inquietava o distanciamento de Hanna. É que eu não sabia como dizer a ela que simplesmente estava odiando a sensação de tê-la tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Depois de tudo o que eu soube, me dei conta que talvez tivéssemos perdido tempo demais, e eu não sabia se queria continuar perdendo tempo assim.
No meio disso tudo também tinha aquela criança. A criança de olhos verdes intensos por quem eu tanto havia me encantado desde que retornei ao Brasil. Aquele pedido de Hanna ainda soava estranho em minha mente: “não despreze minha filha.” Eu me perguntava sobre que tipo de pessoa Hanna achava que eu havia me tornado nos últimos anos. Por outro lado, acho que eu entendia seu receio. Era verdade que uma parte de mim dizia que nada do que fiquei sabendo iria influenciar no carinho e afeição que sentia pela pequena Gabriela, mas existia uma outra parte que estava com medo do que eu poderia sentir quando voltasse a vê-la. Ela não tinha culpa, é verdade. Mas ainda assim era filha do homem que eu tanto queria destruir. Eu nem o conhecia, e ainda assim já o considerava meu maior inimigo. Eu sentia muito ódio pelo cretino que fez aquelas atrocidades com Hanna. Quando eu pensava nele, sem ao menos conhecê-lo, a única coisa que me vinha na cabeça era no quanto queria fazê-lo sofrer com minhas próprias mãos. O quanto eu queria ele longe de Hanna e da filha dela. Era como se automaticamente um instinto de proteção tomasse conta de mim, ou seja, minha cabeça estava uma verdadeira bagunça e tomada por inúmeros sentimentos.
– Você está pronta? – Ouvi a voz de Renata, mas não virei a cadeira para olhar em seus olhos.
– Pronta pra quê?
– Você esqueceu que temos uma visita de campo hoje?
Silenciei por algum tempo. Eu realmente sabia daquela visita, mas era verdade também que eu tinha esquecido completamente.
De repente uma ideia surgiu em minha cabeça…
– Eu não sei se vou gostar do que você está pensando. – Renata resmungou com incerteza.
– Eu preciso da sua ajuda.
– Em que, exatamente?
– Quero ficar a sós com ela. – Respondi convicta.
– Marcela, não sei se é uma boa ideia. Não agora! A muito tempo eu não via Hanna ter uma crise daquela. Aquela tempestade foi como um gatilho, e agora ela está precisando de tempo para voltar a se conectar consigo mesma. – Renata ponderou.
– Ela tem me evitado, Renata. – Murmurei.
– Ela está confusa. Mas acima de tudo, ela está com vergonha. Não deveria sentir, é verdade. Mas ela está! – Minha sócia suspirou e sustentou meu olhar ao sentar de frente para mim. – Foi muito difícil naquela época. Nenhuma de nós sabíamos o que fazer, o que dizer, o que pensar. Todas fomos igualmente feridas pelo o que aconteceu. Estivemos junto a Hanna em cada segundo, mas ainda assim ela demorou a superar. Nós demoramos.
– Por que não me contaram? Eu teria vindo ajudar no que eu pudesse. Renata, de todas elas, você era a que eu mais esperava que compreendesse.
– Pensa que foi fácil esconder isso de você? – Seu olhar endureceu. – Marcela, se eu tivesse que escolher sem precisar pesar toda a situação que envolvia você e Hanna, eu certamente teria contado. Mas de um lado eu tinha você com o coração quebrado. Do outro, eu tinha ela com a alma dilacerada. As duas estavam sem condições nenhuma de fazer escolhas com a razão, e eu não sabia exatamente o que esperar de vocês, especialmente de você. Eu posso ter errado, mas o erro foi para protejer vocês duas de sofrerem ainda mais. Além disso, eu errei em cima de uma decisão sua. Foi você quem pediu para não saber nada sobre ela. E eu sei que você vai dizer que isso era diferente. Mas ainda assim, foi uma escolha sua. Eu tenho minha parcela de culpa. Todas nós temos. Mas no fim, a sua é ainda maior.
– Você tá me culpando por não estar aqui? – Estreitei os olhos apertando os dedos contra a palma da minha mão.
– Não! Eu estou te responsabilizando pela a escolha que fez. Toda escolha que fazemos na vida, tem uma consequência. – Ela ergueu a cabeça demonstrando estar pronta para enfrentar aquele impasse entre nós. – Marcela, me desculpe por não ter contado. Me desculpe por ter continuado em silêncio sobre isso mesmo depois que você voltou. Mas entenda que se no passado era uma decisão nossa, no presente somente Hanna podia decidir o que fazer.
Ficamos em silêncio, porém mantendo o contato visual. Renata não costumava ser duras com as palavras, mas sempre que necessário, ela sabia como nos trazer de volta a razão. O que eu quero dizer, é que eu sabia que de fato tinha minha parcela na culpa que corroía meu coração por não ter estado ali quando tudo aquilo aconteceu. Não que eu não tivesse direito de me sentir quebrada naquela época, mas talvez eu tenha realmente pesado o coração a ponto de permitir que a mágoa fizesse de mim alguém rude, orgulhosa, e também rancorosa a ponto obrigar minhas amigas a fazerem escolhas e estar sempre no meio de uma situação que não pertencia a elas.
– Foi difícil, não foi? – O peso da verdade começava me atingir em cheio.
– Você não faz ideia. – Ela respondeu com certa amargura. – Eu fico preocupada com essa recaída dela agora. Houve uma época muito semelhante agora. Ela ficou recruza! Evitava todo mundo, se fechava para o mundo, não saía, não sorria… Micaela ficou desesperada com aquela depressão que começou corroer a irmã. Foi um processo longo, mas tivemos paciência e vencemos.
– Isso não vai acontecer agora. Ela tem uma filha que precisa dela.
Renata me analisou por alguns segundos, em seguida disse:
– Você disse que queria estar a sós com ela. Por quê? É pelo o que soube?
Engoli seco! As coisas eram diferentes, eu sabia disso. Mas ainda assim eu ainda me acostumava com a ideia da mudança.
No entanto, fui sincera quando respondi:
– Acho que é pelo o que sinto. – A resposta saiu quase arrastada. Eu não consegui sustentar o olhar de Renata, mas vi de relance um meio sorriso surgir em seu rosto. – É confuso, é novo.
– Mas era previsível. – Renata respondeu com serenidade. Sua mão buscou a minha, e quando ela segurou senti a força que me transmitia. – Eu fico feliz que agora você veja isso. Você nunca deixou de sentir isso, minha amiga. O sentimento sempre esteve em seu coração. Ele só foi encoberto pela dor.
– Não parece errado? Sei lá, a sensação que tenho é que sempre que damos um passo à frente, o destino se encarrega de nos empurrar para trás.
– Por que diz isso? Você acha que o que você soube muda as coisas?
Pensei um pouco a respeito. Aquela ainda não tinha sido uma pergunta que eu havia me feito. Mas pra mim as coisas eram meio claras sobre isso. O que eu soube pesava sim, mas não de um jeito que interferia em meus sentimentos. Era apenas como mais uma página ruim da nossa história.
– Não! Claro que não. Eu não a julgo por nada do que aconteceu. Foi uma tragédia, uma infelicidade, mas não pesa no que sinto. – Afirmei com convicção e Renata sorriu largo.
– Eu sabia que você não tinha mudado como todas diziam. No fundo, minha Marcela sempre foi a mesma. – Ela afirmou com orgulho. – Mas tem uma coisa. Dessa vez é você que vai precisar ser paciente. Hanna pode achar que a aproximação seja por influência do que você descobriu.
– Não é por pena dela. – Me defendi com pressa.
– Eu sei disso! Você só precisa garantir que ela também saiba. Hanna precisa se sentir segura, Marcela. Ela é a pessoa mais insegura que eu conheço. De qualquer maneira, eu vou te ajudar no que me pediu. O resto está em suas mãos.
…
Por Hanna
Passei os últimos dias ainda tentando entender o que estava acontecendo comigo. A muitos anos eu não tinha uma crise como aquela. Com o passar do tempo eu tinha aprendido a controlar minha ansiedade, mas naquele dias as coisas fugiram completamente do controle e isso me assustava, e igualmente me envergonhava. Ainda mais agora que Marcela sabia de tudo. Eu estava em pânico, eu sentia medo de como as coisas seriam conduzidas a partir de agora, tinha medo de ter novas crises, me olhava no espelho e me sentia insegura com o reflexo que via… Mas ainda assim precisava ser forte por Gabriela, e por isso vinha me mantendo firme no trabalho e também em sua presença. Em casa ao lado da minha filha era o único lugar que me sentia totalmente segura, e embora vez ou outra eu me pegasse desmoronando, nunca o fazia na frente dela.
Por outro lado, eu sentia como se tivesse tirado um fardo das costas por finalmente ter compartilhado com Marcela todo meu sofrimento. Era estranho, mas isso me fazia sentir de alguma maneira renovada. Mas isso entrava em conflito porque também existia uma tristeza que invadia o meu peito, pois agora iniciava um novo dilema na minha vida… O medo de ver minha filha sofrer rejeição por parte de Marcela.
Eu sabia que Marcela era uma mulher incrível e de bom coração, mas convenhamos que nem todo mundo está pronto para ver com bons olhos uma criança que foi gerada por violência sexual. Existe um peso em uma história como essa, e que ultrapassa tudo aquilo que acreditamos como ser correto. Para muitas pessoas, olhar para uma criança gerada nessas condições é como enxergar somente a dor e sofrimento de uma mulher. E eu sempre entendi isso. Mas para mim, olhar para minha filha era como se eu estivesse diante da oportunidade que a vida me deu para entender o significado do amor incondicional que tudo sofre e tudo suporta.
Talvez eu não estivesse com receio de enfrentar a reação de Marcela, porque no fundo eu tinha esperança de reconquistá-la, mas agora já não tinha mais certeza que isso seria possível, porque se eu tivesse que escolher, Gabriela certamente estaria a frente da minha felicidade.
– Eu posso entrar? – Sai do transe quando ouvi a voz de Micaela. Minha irmã não esperou uma confirmação, ela entrou e em seguida olhou para Bianca. – Você poderia nos dar licença um minuto? – Pediu com educação.
– Claro, senhora.
– Obrigada! – Micaela sorriu sem mostrar os dentes para a estagiária.
Bianca não tardou e bater a porta e nos deixar a sós.
– Como você está hoje? – Existia preocupação em sem tom.
– Você tem me feito essa mesma pergunta todos os dias dessa semana. – Respondi sem olhar em seus olhos.
– E você não me respondeu em nenhuma delas. – Micaela sentou e cruzou os braços. Ela estava disposta a não facilitar dessa vez. – Hanna, não seria bom voltar com a terapia?
– Não há necessidade. Eu vou ficar bem, Mica. Preciso apenas de uns dias. Tudo está recente.
– Não é bem assim! Eu sempre achei que você largou a terapia muito cedo. Talvez ainda existam coisas com as quais você precisa aprender lidar. – Ela buscou minhas mãos segurando com força. – Eu estou preocupada, irmã. Não é se afastando de nós, que você vai conseguir vencer isso. Desde que aconteceu, você tem fugido de qualquer contato, Hanna.
– Não é bem assim!
– Não? Então me explica como é.
Engoli seco! No fundo Micaela estava certa. A vergonha não me deixava aproximar das minhas amigas, muito menos de Marcela.
– Eu tenho vergonha, ok? Me sinto envergonhada pelo o que aconteceu.
– Vergonha de nós, Hanna? Estamos aqui por você, minha irmã. Sempre estivemos. – O olhar atento de Micaela me estudou por longos segundos. – E por ela, não é? Como estão as coisas com ela? Hanna, Marcela pode ser qualquer coisa, menos desumana. Eu tenho certeza que ela jamais será incompreensiva. Não a afaste dessa maneira. Não cometa o mesmo erro.
Fiquei pensativa por um tempo. Micaela tinha razão quando dizia que eu podia estar prestes a cometer o mesmo erro pela segunda vez em afastar Marcela por não saber como lidar com meus medos. Esse sentimento não era sobre ela, mas sim sobre mim. Eu não podia deixá-la sofrer pela segunda vez, por algo com o qual eu não sabia lidar.
– Eu acho que meu maior medo, é dela não querer saber mais da Gabi. Minha filha se apegou muito a ela, e não quero que ela sofra com a ausência de Marcela.
– Marcela jamais faria isso, Hanna. Eu a conheço o suficiente para ter a certeza do que estou dizendo. Marcela demonstra sentir muito carinho por Gabi, não consigo imaginar que ela culparia a menina pelo o que aconteceu a você.
– Eu não sei, Mica. Todo o carinho veio antes dela saber de tudo. Eu só... Estou com medo, ok? – Suspirei com tristeza.
– Seu medo é apenas em relação à Gabi ou em relação a vocês duas também?
Por um momento fiquei em silêncio, mas me permiti desabafar com minha irmã sem me esconder.
– E se ela sentir nojo de mim? Tudo já era tão difícil antes. E se agora for ainda pior? Mica, você sabe que me sinto um lixo por ter sido tocada daquela forma. Sabe que odeio o meu corpo, que nunca mais consegui me relacionar com alguém, deixar alguém me tocar. Eu tenho vergonha de mim, do que me tornei, do que sou, é como se eu fosse suja, Micaela.
Micaela nem me deixou concluir, ela segurou em meu queixo e me fez olhar em seus olhos.
– Para com isso, ok? Você não é um lixo. Você é uma mulher linda e forte. Sempre foi! Seu corpo é tão atraente quanto antes, sua alma é pura e você não tem do que se envergonhar, me entendeu? O que você passou infelizmente muitas mulheres passam todos os dias, Hanna. Você não tem do que se envergonhar. Você é uma vítima, não a culpada.
Lágrimas começaram a escorrer pelos meus olhos, e por mais que estivesse igualmente emocionada, Micaela enxugava minhas lágrimas com carinho e cuidado.
Quando você passa por um abuso sexual você se torna outra pessoa. Infelizmente é algo que influencia na sua vida, e na maioria das vezes de uma forma negativa. Por mais que os anos passassem, era isso que tinha acontecido comigo. Me tornei uma mulher sem autoestima quando o assunto era beleza, corpo, relação sexual e namoros. Se antes eu era uma mulher segura comigo mesma e me sentia atraente, hoje eu me olhava no espelho e sentia repulsa pelo o que via. A insegurança tomava conta de mim, e por isso nunca mais namorei ou deixei alguém me tocar intimamente. Todos os meus envolvimentos não passaram de beijos e tentativas frustradas. Era muito comum que as mulher que tentavam ficar comigo, se cansassem facilmente. Se bem que isso nunca foi um problema, já que eu não queria me apegar a ninguém. Para falar a verdade, jamais voltei a sentir algo forte por alguém. Era como se Marcela fosse a única capaz de despertar coisas que era adormecidas em meu coração. Aquilo que fiz na sala dela outro dia, certamente mulher nenhuma conseguia me fazer ter uma reação parecida.
– Hanna, pelo o que percebi nesses últimos tempos, você e Marcela estavam mais próximas. Vivendo um conflito, é verdade. Mas ainda assim, próximas. Eu ousaria dizer que ela está aos poucos se permitindo, se entregando para você e para a história de vocês. Ela foi naquela viagem, ela estava enfrentando os próprios fantasmas. Acho que isso quer dizer alguma coisa, não acha? Por favor, irmã. Não desperdice essa chance de ser feliz.
Minha irmã tentava me acalmar e me fazer enxergar oportunidades que o medo tentava me impedir. Ter o pensamento que Marcela me rejeitaria pelo o que vivi no passado, era algo que me fazia estremecer por dentro. Era como se o pesadelo do meu passado estivesse ainda mais vivo que antes e eu tinha a sensação que ele também estava ainda mais forte, como se existisse no ar algo pré-anunciado. Algo com o qual eu não podia lutar.
Uma batida na porta foi ouvida. Micaela se virou e logo vimos a figura de Marcela surgir ali, fazendo meu corpo enrijecer. Ela geralmente não costumava vir até minha sala, então porque estava ali agora?
– Bom dia! Marcela disse ao entrar no espaço.
O clima pesou toneladas. Ela e as amigas ainda pisavam em um campo minado.
– Bom dia, Marcela. Tudo bem? – Minha irmã cumprimentou com educação e carinho.
– Aham! Tudo bem! – Seu olhar descansou no meu. – Hanna, eu preciso de você.
– O que aconteceu? – Minha voz saiu falhada, mas me esforcei para transparecer normalidade, afinal de contas, estávamos na empresa.
– Preciso que me acompanhe em uma visita de campo. Agora! – Determinou por fim, sem deixar muito espaço para questionamentos.
…
– Será que eu posso saber por que diabos Renata não veio com você? – Perguntei mau humorada. – Eu tinha uma reunião importante para tentar fechar um possível novo contrato para novas turmas de segurança do trabalho, sabia?
Eu resmungava sem esconder a contrariedade. No entanto, para contribuir ainda mais com minha irritação, Marcela dirigia tranquilamente e em silêncio a caminho da maldita fazenda que parecia ficar no fim do mundo. Eu odiava quando ela me ignorava daquela maneira.
Estávamos indo para fazer um reconhecimento de área onde funcionavam plantações de agricultura familiar. O cliente havia contratado a empresa para que fosse realizado um estudado de impacto ambiental, e também organizar documentações necessárias para que licitações fossem concedidas e enfim aquele se tornar um local legalizado. O único problema, é que particularmente eu não era exatamente o tipo de garota do campo. Pra falar a verdade, meu histórico com natureza é sempre de catastróficas, e foi assim que no passado em uma dessas tentativas de sobrevivência no campo minha história com Marcela deu início.
Embora fosse uma verdade que eu odiava me aventurar no meio do mato, ainda assim eu estava acostumada com essas visitas de campo da empresa. Isso porque algumas vezes acompanhei Renata para realizá-las. Mas isso não significa que eu gostasse.
Por outro lado, talvez o que realmente não estivesse me deixando nada confortável naquela situação, era o fato de estar sozinha com Marcela. Pela primeira vez, eu não sabia o que fazer ao lado dela, tão pouco o que dizer, e isso me deixava vulnerável com a sensação de ter sido tirada da minha zona de conforto e jogada aos lobos.
Estava pensando em tudo isso quando fui surpreendida pelo o soar da voz incrivelmente amigável de Marcela.
– Renata estava muito ocupada com coisas relacionadas ao casamento, hoje. Sua irmã precisava fechar a contabilidade do mês, e Daniela… Bem, é a Daniela. Nós duas sabemos que ela é mais perdida do que eu. – A vi me olhar de relance quando concluiu. – Será que você poderia parar de resmungar por um minuto? Você não vai morrer por passar algumas horas ao meu lado.
Marcela voltou a se concentrar na estrada e então parecia determinada a não voltar me olhar. Droga! Eu confesso que não estava mais suportando aquela montanha russa de incertezas estabelecidas em nossa convivência. Era cansativo, exaustivo, desestimulante. A Hanna do passado provavelmente saberia lidar melhor com a situação. Mas a Hanna que me tornei odiava aquele terreno instável.
– Você sabe que eu não entendo nada de estudos de impactos, ou qualquer coisa relacionada a reconhecimento de campo.
– E daí? – Ela respondeu parecendo cansada.
– E daí que eu quero entender. Por que tinha que ser eu a estar aqui com você?
Cruzei os braços na altura do peito como uma criança emburrada. Vi Marcela suspirar como se buscasse administrar a paciência que lhe faltava. Ela então voltou a falar, porém com uma tranquilidade intrigante.
– Hanna, eu precisava que alguém me mostrasse onde fica essa fazenda. Eu nunca andei por aqui, e Renata me disse que você a acompanhou quando foram fechar o contrato. – Marcela parou de falar por um momento, e apenas por breves segundos tirou sua atenção da estrada para agora fitar diretamente meus olhos. – Eu sinto muito se te atrapalhei algo. Também sei que minha companhia não é agradável, e que você certamente preferia estar ajudando sua adorável estagiária ao invés de estar aqui ao meu lado, mas realmente eu precisava de você hoje. Agora será que você poderia deixar de ser mimada e apenas me ajudar?
Eu não soube identificar necessariamente o que mais me chocou, se foi como o seu tom de voz soou assustadoramente calmo, ou o fato dela mencionar Bianca em um assunto que nada tinha haver com a mais nova. Desde quando ela era assim? E quem ela pensava que era para falar comigo daquela forma? E pior, ela achava mesmo que eu estava daquele jeito por preferir a companhia de Bianca e não a dela? Que loucura!
Naquele instante nossa aproximação era diferente de tudo o que já tínhamos experimentado desde o seu retorno. Ela parecia magoada, chateada com algo, embora soubesse como camuflar seus sentimentos, e isso me incomodou bastante.
– Marcela, eu não estou incomodada por estar em sua companhia. E muito menos estou reclamando porque preferia estar junto à Bianca. – Senti urgência em me explicar.
– Tem certeza? Nos últimos dias você parece estar fugindo de mim. Não iria me surpreender se eu realmente estivesse certa.
– Eu não estou fugindo de você. – Menti.
– Tudo bem, Hanna. Você não precisa me dar explicações. – Disse ela massageando as têmporas. – Só fica quieta, por favor. Eu estou com dor de cabeça, e definitivamente não quero discutir com você.
Ela parecia realmente cansada.
– Ei, preste atenção como fala comigo. – Protestei. – Você é minha chefe, mas não é minha dona. Não pode me mandar calar a boca. Sabia que posso te processar por abuso de autoridade?
Ela brevemente me olhou e ergueu uma das sobrancelhas. Ri internamente e conclui que eu sempre achei que aquilo a deixava extremamente atraente. Pena que eu nunca admiti isso para ela. É, às vezes palavras não ditas nos adoece.
– É sério que você está me ameaçando de novo, senhorita Prado? – Odiava quando ela usava essa formalidade, e acho que ela já tinha percebido isso. Revirei os olhos e ela continuou... – Acho que eu realmente preciso rever o meu quadro de funcionários.
– E eu acho que só posso ter cometido muito pecado em minhas vidas passadas para precisar aguentar esse seu humor, ou melhor, a sua falta de humor. Além disso, você está me levando para o mato, então não me cobre tanto. Você sabe o quanto odeio mato? Aposto que vai ter muitos insetos. Droga Marcela, eu realmente odeio mato! Eu juro que Renata me paga.
Marcela pela primeira vez sorriu com algo que eu dissesse, dissipando qualquer vestígio de tensão entre nós.
– Eu posso saber o que tem de tão engraçado no que eu disse? – Questionei tentando prolongar aquele clima legal.
– Nada demais! Só lembrei… – A vi morder os lábios. – Você sabe.
– Não sei, não. – Mentira! Eu sabia sim. Como podia não saber? – Por que você não me diz o que lembrou?
– Acha que tenho problema em dizer? Já passamos dessa fase, Hanna. – Ela me avaliou por segundos e eu apenas dei de ombros. – Eu lembrei do dia que te encontrei naquele matagal quando você se perdeu na trilha. Você estava apavorada por uma aranha ter subido nas suas pernas, e olha que nem venenosa a baixinha era. Coitada da aranha! Eu sempre achei que foi você que assustou ela.
Também sorri ao recordar da cena. Quando Marcela me encontrou eu realmente chorava apavorada, e se não fosse ela ter aparecido ali, tenho certeza que eu jamais teria tido forças para levantar e correr em busca de ajuda. Na minha cabeça dramática eu tinha sido picada, estava envenenada e perderia a perna. Quando vi o olhar de Marcela naquele dia, foi a primeira vez que eu tive a estranha sensação de estar em casa. Eu ainda não conhecia aquela sensação, mas era algo com o qual facilmente eu me acostumaria.
– Idiota! Aquilo não teve graça nenhuma. Eu estava em pânico, Marcela. – Disse ainda rindo.
Dei um tapa em seu braço e ela gargalhou descontraída. A quanto tempo eu não a via assim? Aliás, a quanto tempo não tínhamos um momento assim? A quanto tempo eu não era assim?
– É, você realmente estava. – Ela concordou ainda sorrindo.
– O quanto você lembra? – Perguntei com seriedade.
– Como assim?
Ela claramente tentou ganhar tempo. Eu sorri e então respondi:
– Eu lembro tudo daquele dia. – Seus olhos encontraram os meus. Agora a atmosfera dentro do carro tinha mudado e nós duas estávamos mergulhadas em memórias. – Lembro que quando você apareceu eu pulei em seus braços e tive a sensação de estar protegida. Eu agradecia aos céus por você estar ali comigo. Eu agradecia por estar em casa. – Mesmo concentrada na estrada novamente, eu sabia que ela estava atenta a tudo o que dizia. – Já estava ficando escuro e eu só via mato e insetos em minha volta, então ver você aparecer ali foi a melhor coisa que me aconteceu. – Fiz uma pausa e segurei rapidamente em sua mão que estava na marcha. A vi adotar uma expressão indecifrável, mas pelo menos não recuou do contato. – Foi literalmente a melhor coisa. – Quando percebi ela me olhava de relance. – O que foi? Por que está me olhando assim?
– Você está sorrindo. – Ela disse em um tom calmo. – Fazia dias que eu não te via sorrir. Definitivamente você fica bem mais bonita sorrindo.
Depois daquela declaração um silêncio incômodo dominou o espaço dentro do carro. Suspirei e então afastei minha mão da sua. Por um momento nenhuma de nós duas parecíamos saber o que falar, então optei em olhar a paisagem pela janela.
…
– HANNAAAAA! – Ouvi um pequeno grito da mulher ao meu lado, e me assustei.
– O que foi? O que aconteceu? Por que paramos? – Perguntei assustada olhando de um lado para o outro.
– Calma! Desculpa gritar, mas eu te chamei muitas vezes e você não respondia, parecia distante. Você está bem?
Marcela me olhava com doçura nos olhos, o que me fazia achar incrível a capacidade que ela tinha agora em mudar sua postura e seu humor. Depois eu é que sou a bipolar da história.
– Tá tudo bem sim. Eu só me perdi no tempo. O que você queria?
– Queria saber por qual estrada de terra seguir. – Ela respondeu tranquilamente apontando para frente.
Observei que já estávamos perto do nosso destino.
– Pode seguir à direita e depois continuar em linha reta. Lá na frente vai ter uma guarita.
O carro foi ligado novamente e assim seguimos viagem.
Pouco tempo depois chegamos ao local e eu já podia sentir aqueles insetos pousando em meu corpo. Eu já começava me coçar antes mesmo de sair do carro. Marcela me olhou e revirou os olhos como se estivesse diante da cena mais patética da sua vida.
– O que foi? Eu não tenho culpa se tenho alergia a esses bichos. – Falei emburrada.
– Hanna, nós nem descemos do carro. Você é muito fresca!
– E você é muito grossa. – Revidei seus insultos imediatamente me coçando ainda mais.
– Para de besteira. – Ela procurava algo em sua bolsa. – Toma, passa isso no corpo.
Olhei para o pequeno vidro que identifiquei ser um repelente.
– Eu não vou passar isso. – Direcionei o vidro de volta para ela que me olhou confusa. – O quê? Eu vou ficar toda grudenta nesse sol, nessa poeira, nesse mato, nesse...
– Ahhh... Pelo amor de Deus, cala essa boca e deixa de teimar comigo. – Ela retirou o vidro da minha mão colocando um pouco do liquido branco em sua própria mão. – Claro que você vai passar. É para seu bem!
Silenciei enquanto processava seu cuidado disfarçado de autoritarismo. Marcela me deixou ainda mais sem reação quando também em silêncio, começou passar aquele creme pegajoso em meu corpo sem ao menos pedir autorização para isso. Como eu não sabia que faria aquela viagem, naquela manhã eu tinha optado por vestir uma blusa social de alça, facilitando assim para deixar meu corpo ainda mais exposto ao sol, o que era totalmente inadequado para uma visita de campo, claro.
Marcela passava o repelente em meus braços, mas logo suas mãos alcançaram meu peitoral sem pedir qualquer licença. Senti meu corpo estremecer com aquele toque suave da sua mão, e foi impossível não perceber que meu corpo respondeu imediatamente ao contato, se arrepiando por inteiro, mas também com tensão. Acho que ela também percebeu, considerando que no mesmo instante seus olhos castanhos invadiram os meus.
– Posso continuar? – Marcela perguntou com certo cuidado.
Como resposta apenas assenti que sim. Eu me sentia insegura, porém estranhamente confiante. Era ela ali… Marcela jamais me faria mal.
Permanecemos em silêncio nos encarando enquanto ela continuava passando o repelente, agora pelo meus pescoço e rosto.
– Pronto! Acho que agora está protegida dos mosquitos. Um problema a menos, não?
Tenho certeza que sua voz saiu mais rouca do que provavelmente ela havia desejado.
– Obrigada! – Não consegui desviar o olhar de Marcela em momento algum.
Aparentemente sem graça, ela apenas acenou em resposta.
– Toma! veste meu casaco. Isso vai ajudar contra o sol e os mosquitos.
– Mas e você? Não, de jeito nenhum. Você não vai se embrenhar no meio desse campo desprotegida. – Falei jogando o casaco de volta em sua direção.
– Não se preocupe, Hanna. Eu já estou acostumada com esse tipo de trabalho. Sem falar que vou ficar mais tranquila e conseguir me concentrar se souber que você está protegida. – Ela piscou um olho e céus... Essa mulher queria me matar.
Fiz o que ela mandou e, ao vestir o casaco foi impossível não sentir o cheiro gostoso que ele tinha. Era o cheiro inconfundível dela. Fechei os olhos e novamente senti o cheiro, dessa vez um pouco mais profundo, mas tive meu momento interrompido pela voz de Marcela.
– Acho que você já pode descer.
Olhei totalmente envergonhada para ela que agora estava com a porta do carro aberta enquanto segurava esperando que eu descesse. Marcela tinha um sorriso de canto nos lábios, seus olhos estavam brilhando e eu estava como? Completamente envergonhada por ter sido pega no flagra. Meu Deus, como eu era fraca quando o assunto era aquela mulher.
…
Já era fim de tarde quando Marcela terminou de fazer o reconhecimento de campo. Apesar de termos sido convidadas pelo proprietário da fazenda para almoçarmos por lá, eu já estava faminta novamente e dei graças a Deus quando ela me chamou para voltarmos à Fortaleza. Sei que chegaríamos a noite, mas tudo o que eu queria era comida, minha filha e minha cama.
Estávamos na estrada de volta para casa quando passamos por um posto e ela parou o carro.
– Por que paramos? Já está escurecendo, Marcela. Assim vamos chegar super tarde em casa. Eu ainda preciso buscar a Gabi na casa da Mica.
– Meu Deus, eu tinha esquecido esse seu lado chato e mandão. – Ergui a sobrancelha e cruzei os braços. – Paramos aqui porque eu te conheço o suficiente para ter certeza que você está morrendo de fome. Venha, vamos comer alguma coisa. Depois seguimos viagem.
Bestificada, observei ela descer do carro. É sério que ela estava preocupada comigo? Definitivamente eu sou uma mulher que se ilude com o mínimo, não é? De repente eu pensei: Tudo o que ela soube não tinha nenhum peso para ela? E então a insegurança voltou a visitar meu coração.
– Vai ficar ai, ou eu vou precisar te arrancar a força desse carro?
Marcela me tirou dos meus pensamentos quando novamente abriu a porta do carro para que eu descesse.
– Você é tão gentil quanto um cacto do sertão. Você sabia disso? – Alfinetei, mas resolvi descer do carro porque realmente eu queria muito comer.
– Você sabia que os cactos apesar do seu aspecto... – Ela pareceu pensar. – nada amigável e bonito, digamos assim, ele possui grande importância para a Caatinga? Sem falar que do jeito dele, mas ele também floresce. Então se formos seguir sua lógica, eu posso considerar que sua tentativa de insulto deu muito errado. Mesmo com meu lado espinhento, ainda assim sou uma flor.
Eu não entendia nada de vegetação, então obviamente a única coisa que eu via nos cactos eram os espinhos.
– Bettencourt, você é tão insuportável que nem um insulto consegue te abalar. – Tentei brincar com ela na tentativa de esconder como me sentia.
– Está errada de novo, Prado. Existe algo que tem maestria em me abalar.
Eu não sou doida, eu sabia que ela estava se referindo à mim. Sabia também que eu poderia me arrepender muito da pergunta que iria fazer, mas eu tinha a necessidade de não conseguir ficar calada.
– E isso é bom ou ruim?
Perguntei e Marcela me olhou parecendo pensar na resposta enquanto segurava a porta da loja de conveniência para que eu passasse.
– Eu ainda estou decidindo, mas no momento posso dizer que está sendo algo estranhamente agradável.
– Você também errou. – Ela me olhou como se não compreendesse o que quis dizer. – Errou em achar que te comparei ao cacto pela aparência, afinal ele é feio e você é linda.
Ok, eu não sabia de onde tirei coragem parar falar aquilo, mas saiu tão naturalmente. Acho que considerando que Marcela estava com as bochechas vermelhas, eu tinha conseguido alguns pontinhos.
– Você é mesmo impossível! – Um sorriso se formou em seus lábios rosados e senti quando sua mão enlaçou a minha me puxando em direção onde ficava a parte das comidas. – Vem, vamos escolher o que comer.
…
Já era a quinta coxinha de queijo e presunto que eu estava comendo dentro daquele carro. Se tem uma coisa que não consigo resistir, é coxinha. E aquelas estavam divinas. Marcela não comeu muito, apenas uma mini pizza e roubou uma das minhas coxinha.
– O que foi? – Perguntei quando percebi que seu olhar alternava entre a estrada e o pacote em minhas mãos.
– Eu só estava aqui me perguntando para onde vai tanta comida. É muito sério isso. Você já está na quinta coxinha, Hanna. Sabia que isso pode te dar dor de barriga?
– Elas estão uma delícia! – Respondi de boca cheia.
– Céus! Você parece uma criança comendo isso e falando de boca cheia.
Ela sorriu e não pude deixar de notar o quanto ela era linda.
– Ah, para! Eu estou em fase de crescimento.
Marcela olhou incrédula com a minha cara de pau.
– Crescimento? Tá de sacanagem! Só se for para os lados não é, minha querida?
Revirei os olhos e continuei comendo.
Aquela viagem estava me deixando exausta e o sono começava a aparecer. Eu sou do tipo de pessoa que só conseguia viajar dormindo, mas o desconforto era algo que estava me fazendo remexer a todo momento.
– Parece que alguém não consegue dormir. – Marcela me olhou e dei de ombros.
– Só estou meio desconfortável.
Marcela não respondeu nada, apenas senti sua mão me puxando para perto de si.
– Coloca a cabeça no meu ombro. Não é uma posição tão confortável, mas... É o que posso fazer por você no momento.
Tudo com o que eu não estava me importando era se aquilo estava ou não confortável. Para mim era a melhor posição do mundo. Era como estar em casa.
– Para mim está perfeito.
Eu não sei exatamente quando adormeci sentindo o cheiro de Marcela, mas agora lá estava eu acordando assustada com o toque estrondoso do celular dela. Observei que nesse momento estávamos na entrada de Fortaleza.
– Oi Yasmin, tudo bem? – Ouvi a voz de Marcela soar ridiculamente dengosa. Revirei os olhos para aquela cena patética. – Não, eu acabei de chegar em Fortaleza. Estava em uma região que não tinha um bom sinal e por isso não recebi suas ligações. Sim, claro que isso me deixa muito animada. Quando podemos almoçar para acertar os últimos detalhes? Ok, mal posso esperar por isso.
Que palhaçada era aquela? Será que ela não podia fingir estar menos empolgada? Me afastei bruscamente do seu corpo vendo-a desligar o celular. Bufei de raiva involuntariamente.
– Qual o problema? – Ela me perguntou parecendo confusa.
– Nenhum! – Fui seca na resposta – Será que você poderia me levar a casa da minha irmã? Preciso buscar a minha filha.
Marcela parecia não entender meu mau humor repentino. E eu estava ficando ainda mais irritada comigo mesma por não conseguir disfarçar o ciúmes que estava sentindo, o que misturado com a insegurança que me abraçava, tornava amargo.
Observei ela seguir pelo caminho que dava acesso à casa de Micaela sem fazer mais nenhum questionamento.
Quando chegamos desci do carro batendo a porta com força. Ela fez o mesmo e me puxou pelo braço.
– Que bicho te mordeu? – Ela me segurava firme e olhava diretamente em meus olhos.
– Bicho nenhum! Chegamos e agora você já pode ir embora.
Puxei meu braço de vez conseguindo me soltar das suas mãos, mas novamente ela me alcançou e ficou na minha frente.
– Você não vai sair assim e me deixar sem entender o que está acontecendo. Desde quando você ficou tão brava? Eu fiz alguma coisa? Por que você só foge de mim?
– Quer saber a verdade, Marcela Bettencourt? Você existe! Essa é a porr* do problema. Agora por que não vai lá para a sua amiguinha e me deixa em paz? Ou devo dizer me referir a ela como uma namorada? Ela deve estar ansiosa para vocês se verem, já que você estava se derretendo na droga daquela ligação.
Eu praticamente berrava na frente da casa da minha irmã.
– Namorada? Amiguinha? Droga, Hanna! – Ela parecia controlar um desespero. – Você tem problemas na cabeça ou quê? A Yasmin não é nada disso. Ela só estava falando sobre o fim da reforma do meu apartamento e isso me deixa muito feliz porque assim posso agilizar a mudança.
– E para falar de reforma você precisa ficar tão melosa daquele jeito? Conta outra, porque essa a idiota aqui não caiu não.
Marcela passou a mão no rosto em um claro sinal que ela estava tentando se controlar para não gritar.
– Que droga, Hanna. Será que você não percebe que...
Marcela parou de falar se aproximando mais um pouco, diminuindo assim a distância entre nós e me deixando completamente desconcertada. Nós não falávamos nada, apenas nos encarávamos.
– Não percebo o quê? – Perguntei com uma certa dificuldade ocasionada por aquela aproximação.
– Por que estou te dando satisfação da minha vida mesmo? – Sua voz agora era quase um sussurro.
– Não sei! Me responde você.
Dessa vez foi eu que me aproximei mais ficando a centímetros do seu rosto.
Ficamos nos encarando em um confronto de olhar silencioso. Aos poucos senti as mãos de Marcela tomar posse da minha cintura me pegando desprevenida. Eu queria ter qualquer reação contrária àquela aproximação, mas a única coisa que consegui fazer foi passar meus braços pelo seu pescoço e grudar nossas testas enquanto nos olhávamos intensamente.
– O que você faz comigo, Hanna Prado? – Sua pergunta saiu quase inaudível.
– Não sei dizer, mas acho que é o mesmo que você faz comigo, Marcela Bettencourt.
– Isso está ficando perigoso. – Ela fez um carinho em meu rosto me fazendo fechar os olhos automaticamente. – Não acha que precisamos resolver isso? Eu não aguento mais isso, Hanna. Essas incertezas, confusões, fugas e dores. Desde que… Bem, você sabe. Desde que eu soube de tudo, você tem me evitado, e eu não sei quanto tempo mais posso te ter tão longe e tão perto ao mesmo tempo. – Ela me surpreendeu com a declaração feita. – Almoça comigo amanhã? – Suas mãos possessivas não me largavam.
– O que você soube… Quero dizer, minha realidade…
– Não muda nada! É uma página difícil, mas desde quando nossa história foi fácil? – Ela assegurou. – Vamos conversa. Vamos tentar nos entender? Então, você aceita almoçar comigo amanhã?
Existia um brilho de esperança em seu olhar, que era um contraste perfeito com o embrulho que existia em meu estômago.
– Eu aceito! – Garanti sentindo meu corpo estremecer.
Seus olhos se conectaram com os meus e eu pude ver sinceridade nos castanhos que tanto me deixava perdida. Quando nossas bocas estavam próximas e eu já podia sentir a respiração de Marcela em meus lábios...
– O que inferno está acontecendo aqui na porta da minha casa? Lá de dentro eu consegui ouvir o grito de vocês duas. – Micaela falava com as mãos na cintura e uma expressão brava no rosto.
– A CULPA É DELA!
Respondemos juntas! Marcela revirou os olhos impaciente, mas não me soltou em nenhum momento. Acho que avançamos. Acho que estávamos vencendo uma a outra.
Fim do capítulo
Oieee
chegando mais cedo com o capítulo de hoje. Espero que gostem!
bjus!
Comentar este capítulo:
NúbiaM
Em: 13/05/2026
Eita como essa mulherada é ciumenta! Kkk. Eu tenho ciúmes até pelos outros! Kkkk
Essas letras miúdas está acontecendo com todos os textos, resolvi lendo modo leitura do Chrome.
Bj
priskelly
Em: 13/05/2026
Autora da história
Eita... já vi que vc tá fazendo torcida contra a Yasmin kkkkkkk
Fico feliz que tenha conseguido reoslver a situação da fonte. Por aqui estou tentando fazer o que posso também.
Bjus!
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priskelly Em: 13/05/2026 Autora da história
Kkkkk Micaela que lute.
Bjus!