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A volta do amor que nunca se foi por priskelly

Ver comentários: 2

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Palavras: 4529
Acessos: 371   |  Postado em: 12/05/2026

Capitulo 13

Por Marcela

 

 

 

Tudo o que Micaela e Renata, tinham programado para aquele fim de semana, tinha dado errado. O motivo? O tempo completamente fechado. Era como se o céu estivesse fazendo um anúncio. Algo tão arriscado quanto ruim. Desde que havíamos chegado, o sol não brilhou nem por um momento. Daniela até tinha dado a ideia de voltarmos, mas acabou ficando decidido que já que estávamos ali, aproveitaríamos o quanto desse, da maneira que desse.

 

O primeiro dia foi descontraído e por mais louco que pudesse parecer, as coisas não fugiram do controle em momento algum. Eu arriscaria dizer que aquela foi a primeira vez que Hanna e eu, sequer tivemos discussões bobas como geralmente tínhamos. 

 

Durante o filme que assistimos a noite, foi o momento mais embaraçoso que vivi ao lado de Hanna. Eu não conseguia controlar aquela força magnética que me levava até ela. De repente, quando eu menos percebia, lá estava eu a admirando. Não sei quantas vezes me peguei decorando os traços do seu rosto enquanto sentia meu coração aquecer. Vez ou outra quando ela sorria, eu tenho certeza que meus olhos brilhavam sem êxtase.  O momento mais crucial que me fez perceber que definitivamente tudo tinha realmente mudado, foi quando não contive a urgência de segurar em sua mão. Não falei nada, ela não disse nada, nós duas compreendemos que o silêncio em si já dizia tudo. Estávamos confusas sim, cansadas demais, mas também deixando as coisas acontecerem como tivessem que acontecer.

 

A alguns minutos atrás, fui para a área externa da casa. Em passos lentos caminhei por aquele varanda e quando me dei conta estava sentada na borda da piscina. 

 

Flashback on

 

“Robson parecia implicar com a cunhada enquanto estavam todos dentro da piscina. Eu não conseguia olhar nos olhos de Hanna porque ela estava de costas, porém somente sua voz gélida foi o suficiente para me fazer sentir a pior das dores que alguém pode provocar a outra pessoa.

 

– Claro que não, Robson. Eu não sei de onde vocês tiram um absurdo desses. Eu não gosto de mulher, ok? E mesmo que gostasse, jamais ficaria com a Marcela. Somos muito diferente, você não percebe isso? Ela é careta demais, irritante demais. Não faz o meu tipo! Na verdade, eu só convivo com ela, porque é amiga da Mica. 

 

– Então prova! Beije o Guto.

 

Instigou Robson, parecendo não acreditar que ela aceitaria o desafio, mas para minha infelicidade, ela foi além daquelas palavras dolorosas.

 

Parecendo decidida não perder aquele desafio, assisti Hanna puxar o tal rapaz e em seguida o beijou sem pensar duas vezes.”

 

Flashback off

 

 

 

Aquela recordação do passado voltou povoar minha memória. Eu nem mesmo havia me dado conta que a tinha começado a cair, e agora suas gotas começavam bater forte na água azul.

 

 

 

Flashback on

 

“– Eu realmente não sei o que estou fazendo aqui te ouvindo. Eu vou embora!

 

Fui em direção à porta quando senti sua mão tocando meu braço. Hanna me puxou em direção ao seu corpo fazendo com que ficássemos com nossos rostos tão próximos, que eu era capaz de sentir sua respiração tocando em minha boca.

 

– Não vai, por favor. Nós não podemos acabar essa conversa de um jeito ainda pior do que começamos. Você não pode fugir de novo sem me dar chance de fazer algo por nós. E eu sinto que se você sair por porta assim, eu nunca mais vou ter outra oportunidade como essa. – Ela desesperou-se. 

 

Aquela aproximação despertou dentro de mim o que jamais gostaria de voltar a sentir. Como era possível que eu ainda desejasse aquela mulher? Aquilo me causou de tudo um pouco. Eu sentia tanta raiva de mim mesma por estar desejando a mulher que jurei esquecer. Era como se eu estivesse traindo a meu próprio coração.

 

– Eu nunca fugi de você. Eu escolhi viver longe de você, assim como escolhendo permanecer longe agora. – Disse aquelas palavras com frieza, porém sussurrando. – Não houve chance para nós no passado, Hanna. E nem não existe agora. 

 

Tentei ser o mais seca possível, e percebi que consegui atingi-la com minhas palavras, mas ela me surpreendeu quando se mostrou decidida a lutar por qualquer coisa que acreditasse ser possível. 

 

– Olha nos meus olhos e diz que você não me quer mais. Diz que isso não significa nada. Diz que eu estou louca em sentir que embora sua boca diga uma coisa, seu corpo diz outra quando responde ao meu toque, Marcela. – Ao falar, ela passava a ponta dos seus dedos pelo o meu braço, que involuntariamente se arrepiaram. – Diz que não sente nada enquanto te tenho em meus braços. Fala olhando nos meus olhos que você não me ama mais, e que minhas chances são nulas. Diz tudo isso, e eu prometo que dessa vez quem ficará longe de você sou eu. Mas se você não disser, enquanto existir um porcento de chance, saiba que eu lutarei por você.

 

Fui totalmente pega de surpresa com aquela reação de uma mulher determinada. Àquelas palavras e a certeza com a qual ela pronunciava cada uma delas, foi torturante. Em outro momento facilmente eu poderia dizer tudo aquilo que ela estava me pedindo, mas naquele instante não consegui mentir. Algo no meu coração não me permitiu.”

 

Flashback off

 

Meu corpo á estava completamente molhado pela água da chuva, mas não levantei. Continuei deixando que a água gelada banhasse meu corpo enquanto tentava entender o conflito interno que senti quando aquela recordação dolorosa do passado tinha sido confrontado por uma lembrança recente. Uma lembrança que aquecia meu coração de um jeito diferente. 

 

– Parece meio juvenil, não é? Quero dizer, isso que você está sentindo. É conflitante. 

 

Sem se preocupar por estar tão molhada quanto eu, Daniela sentou ao meu lado na borda da piscina. 

 

– Como você sabe o que estou sentindo? 

 

Ela não explicou, apenas sorriu com tranquilidade e disse:

 

– Toda vez que seu trauma é acionado, você reage com a idade que foi ferida. 

 

– Desde quando você ficou tão filosófica? – Impliquei apenas para descontrair.

 

Dani riu com gosto, mas em seguida voltou a ficar séria. Eram tão raras às vezes que a baixinha ficava séria, que chegava a ser surpreendente. 

 

– Eu sei que não tenho muita credibilidade com vocês. Mas a cabeça de vocês vai explodir no dia que entenderem o que me motiva a levar tudo na esportiva. Bom, pelo menos na maior parte do tempo. – Ela deu de ombros. 

 

– E o que te motiva? – Fiquei curiosa para compreendê-la. 

 

Dani sustentou meu olhar e respondeu com convicção:

 

– Ser alegre é um ato de resistência em um mundo que insiste em te endurecer. – Ela piscou o olho e sorriu largo. – Agora chega de falar sobre mim. É sua vez de me contar algo. 

 

– Tipo o quê? Acho que todas vocês já sabem dos meus dilemas.

 

– Hum! É justo. Sabe, quando aquelas doidas tiveram a ideia de te trazer de volta aqui, eu pensei: Querem começar a terceira guerra mundial. Depois eu pensei melhor a respeito e concordei em participar. 

 

– Mesmo? E o que te fez mudar de ideia? 

 

– Acho que você e Hanna aconteceram no tempo errado. Mas definitivamente são a pessoa certa uma da outra. Então, por que não tentar agora? Está mais que óbvio que vocês estão tentando lutar contra algo que já reviveu. Na verdade, acho que a escolha está mais em suas mãos do que nas dela. O único problema é que seu orgulho está a flor da pele. 

 

– Não é orgulho, Dani. É medo! 

 

– Medo de ser feliz? – Ela revidou. 

 

– Como você pode ter certeza que vou ser feliz?

 

Dani se virou ficando agora de frente para mim, e me forçou a sustentar seu olhar.

 

– Como você se sente com a escolha que fez de estar aqui hoje? – Ela questionou em um tom sério.

 

Pensei um pouco a respeito. Que resposta eu poderia dar a ela? Era conflitante, mas ainda assim mais tranquilo do que imaginei que seria.

 

Antes mesmo que eu pudesse responder, Daniela sorriu e seus olhos brilharam. 

 

– Não precisa responder. Se o coração sentiu paz, a escolha foi certa. Lembre disso na próxima vez que estiver diante do olhar dela. Se você se sentir em paz… Já sabe! Agora vamos entrar, caso contrário vamos pegar um resfriado. 

 

Era muito louco admitir que por um momento justamente Daniela me fez refletir sobre um assunto sério. 

 

Segurei em sua mão e com sua ajuda levantei para seguir seus passos para dentro de casa. No instante que alcançamos a entrada, ouvimos um trovão forte que veio acompanhado de um raio que iluminou todo o céu escuro. Era como se aquele roncar dos céus, fosse a porta aberta para o inferno. 

 

– Você tem que superar isso, Hanna. Olha pra mim, você não está sozinha. A quanto tempo você não sentia esse medo? – A voz de Micaela soava preocupada enquanto ela tentava segurar firme a irmã que chorava.

 

Eu não entendi nada daquela cena que estava acontecendo ali. Hanna estava de joelhos, e seu rosto estava banhado por lágrimas. Suas mãos tremiam enquanto pareciam tentar em vão tapar os próprios ouvidos. 

 

Mais um trovão estrondou no céu, e dessa vez venho acompanhado por um grito doloroso. Um grito que só alguém muito marcado, era capaz de soltar.

 

– Ela está tendo uma crise de pânico. Já vimos isso antes, Micaela. – Renata foi em socorro da amiga. 

 

– Ele vai me pegar de novo. Ele vai abusar do meu corpo novamente. – Hanna gritou sem ao menos perceber que eu estava ali assistindo a tudo.

 

Meu corpo que antes já estava petrificado diante da cena, estremeceu. Aquelas palavras congelaram meu coração. Eu não conseguia compreender totalmente o que significavam. E acho que preferia ter ficado sem saber. Mas então veio o pior. 

 

– Eu não posso! Eu não quero sofrer mais um estupro. Eu não quero mais um filho dele, Micaela. 

 

Não sei quantas vezes pisquei os olhos enquanto meu cérebro tentava processar o que acabei de ouvir. 

 

– Como é, que é? O que você acabou de dizer? 

 

Acho que somente a minha voz foi capaz de tirar Hanna do transe em que se encontrava. Na verdade, as três olharam em minha direção. Pelo o pavor que estava no rosto delas, nenhuma tinha se dado conta antes que Daniela e eu tínhamos chegado ali. 

 

Renata foi a primeira a levantar, enquanto com firmeza Micaela envolveu Hanna em seus braços. A loira estava em choque… Seus olhos estavam arregalados, sua boca tremia os lábios e seu olhar era cortante.

 

– Marcela… – Dani tentou dizer, mas ergui a mão silenciando-a. 

 

– O que você disse? – Perguntei diretamente para Hanna. 

 

Por sua vez, ela nada respondeu. Seu choro tornou-se ainda mais copioso.

 

Na minha cabeça embaralhada imagens da pequena Gabriela vinham aos momentos. O sorriso, o rosto da menina, o olhar… Vinham também os momentos em que questionei sobre o pai da menina, o quanto Hanna ficava nervosa, apreensiva, tensa… Era como se fossem peças de quebra-cabeça que começavam a se juntarem dando viva a uma das conclusões mais horrendas da minha vida. 

 

Renata avançou um passo, eu recuei dois. Percebi que lágrimas começavam a escorrer por meu rosto, quando meu coração despedaçava.

 

– Marcela, por favor. Não é o momento. – Renata tentou me puxar de volta para a realidade.

 

– E QUANDO SERIA A DROGA DO MOMENTO? COMO VOCÊS PUDERAM ME ESCONDER ALGO ASSIM? – Gritei em meio a dor do meu coração.

 

Sem que nenhuma de nós pudéssemos fazer nada a tempo, Hanna passou por todas nós, e a porta foi aberta com violência. Foi questão de segundo até que eu conseguisse processar o que estava acontecendo. Ela a vez dela de fugir daquela casa. 

 

– Hanna… Espera! – Gritei e corri para fora sendo seguida pelas outras em meio a chuva forte. Me virei bruscamente e as olhei com fúria. – Eu vou atrás dela! Nenhuma de vocês ousem em me seguir. Vocês tiveram todo o tempo do mundo para me contarem. Agora é entre ela e eu.

 

 

 

…

 

 

 

A sensação que eu tinha era de que quanto mais eu andava em busca de Hanna, mas a chuva aumentava, tornando ainda mais difícil a tarefa de ver com mais nitidez tudo ao meu redor.

 

– HANNA… 

 

Gritei mais uma vez, mas tudo o que tive como resposta foi um silêncio absoluto que era confrontado com o barulho da chuva intensa. 

 

– Droga! Por que ela tem que ser assim? – Resmunguei para me mesma. 

 

Àquela altura, eu já estava começando a me sentir cansada. Não sabia mais por onde procurar por Hanna e começava a ficar apreensiva. Aquela era a mesma sensação de anos atrás, porém com um peso ainda maior. O descontrole emocional de Hanna era algo novo.

 

Tentei buscar respirar fundo para raciocinar melhor. Onde faltava procurar? Como um estalo, a resposta veio em minha mente.

 

Corri em direção à praia. Eu sabia que era como procurar uma agulha no palheiro, mas e se eu desse sorte? Foi o que pedi a Deus. Sorte! E acho que ele ouviu meu apelo. 

 

– Obrigada, meu Deus! 

 

Corri em direção a mulher que estava sentada na beira do mar. Uma cena nada agradável considerando o temporal que nos envolvia naquele momento. 

 

– Você ficou louca? Eu quase morri de preocupação. – Meu olhar buscava se certificar que ela estava fisicamente bem.

 

Diante do silêncio da loira, eu pedi:

 

– Hanna, olha pra mim. – Ela sequer se moveu. Parecia em choque para conseguir reagir a qualquer coisa. – Por favor! – Tenho certeza que meu tom saiu quase como uma súplica.

 

Como em câmara lenta, o olhar de Hanna sustentou o meu pela primeira vez ali, e tudo o que senti foi o peso da sua tristeza atingir meu coração. O silêncio era ensurdecedor, doloroso, capaz de levar a loucura. Mas eu entendi… entendi que naquele momento não havia muito o que ser dito. Ela não precisava de julgamento, questionamentos, falácias. Tudo que Hanna precisava era de colo.

 

Sentei ao seu lado em silêncio e assim como ela, fiquei admirando as bravas ondas do mar em meio a tempestade. O mar nos trazia a sensação do infinito, seja ele de possibilidades, seja ele de memórias a serem guardadas.

 

Não sei por quanto tempo ficamos assim, imóveis, em silêncio, porém lado a lado. Era daquilo que ela precisava, de um apoio que nem sempre precisa ser regado por palavras. 

 

– Por que você está aqui? – Finalmente pude ouvir sua voz, ainda que sussurrada.

 

Ponderei um pouco pensando no que responder. Mas por fim fui sincera.

 

– Porque eu me importo. É, isso! Eu me importo com você.

 

Não nos olhávamos, mas eu sabia que Hanna estava chorando. E que chorou ainda mais ao ouvir aquilo que eu disse. 

 

– Eu não queria que você soubesse assim. – Ela disse em um murmuro. – Para ser honesta, eu nem sei se queria que você soubesse. 

 

– Eu queria ter ficado sabendo antes. Muito antes! – Finalmente a olhei. Segurei em seu queixo com delicadeza fazendo com que ela sustentasse meu olhar. – O que eu ouvi… E-eu realmente entendi certo? 

 

 

 

Ela parecia buscar as palavras certas para iniciar o assunto, mas estava nítido que era algo doloroso demais. Talvez fosse algo superior aos seus próprios limites. Na verdade, eu acho que não existiam palavras certas para que ela pudesse narrar tudo aquilo sem sentir dor ou medo. Quaisquer que fossem as palavras escolhidas seriam amargas. 

 

Hanna respirou fundo, e então iniciou…

 

– Depois que você foi embora, eu sofri com as consequências das minhas escolhas, e isso me ensinou muitas coisas, em especial ser uma pessoa que buscava a todo instante me tornar alguém melhor. Eu não queria jamais voltar magoar alguém como fiz com você. Eu queria ser melhor para você, Marcela.  Era difícil acreditar que teríamos uma nova chance, mas no fundo eu me apegava a esperança que um dia, eu voltaria reencontrá-la, e nesse dia você teria orgulho ao perceber que mudei. Quem sabe assim se eu tivesse um pouco de sorte, você até voltaria a me amar.  

 

Fiquei um pouco incomodada, mas nada respondi. No fim das contas, talvez o tanto que ela depositou esperança acabou sendo atendida pelo o destino. Nos reencontramos, e por mais que eu não soubesse, ou não estivesse pronta para descobrir o que exatamente ela despertava em mim, ainda assim estávamos ali… Ainda assim, eu me importava com ela, e sabia que isso significava algo importante.

 

Hanna começou brincar com os próprios dedos. Ela estava nervosa, angustiada e envergonhada. Ela sequer me olhava agora. 

 

– Uma das primeiras coisas que fiz após sua partida, foi assumir minha sexualidade. Não fiz isso apenas para minha família, mas para todo mundo. Não é que sai por aí gritando ao mundo o que eu era, ou de quem eu gostava. Eu simplesmente não escondia. Mas você sabe, você já passou por isso. No inicio foi difícil, pois apesar de ser aceita por minha família e receber apoio deles e das nossas amigas, alguns amigos e amigas da faculdade apenas se afastaram. Era como se de repente minha companhia já não fosse mais agradável, por assim dizer. Óbvio que aquilo me doeu! Eu me sentia rejeitada e isso é um sentimento muito amargo. Contudo, ainda assim fui firme em minha decisão. Minha vida de balada e curtição acabou. Nada parecia ter graça sem você aqui comigo. Fui ficando mais reclusa em casa, e foquei totalmente no curso de direito. Eu buscava ser participativa em tudo que tivesse relação com o curso. Projetos, congressos, aulas extras. Dado momento, ganhei a oportunidade de ser monitora de uma das minhas professoras, e como eu estudava em horário integral, por muitas vezes era preciso realizar essas atividades em alguns dias durante a noite.

 

A loira puxou o ar com força, como se estivesse se aproximando do seu pior fantasma. O seu corpo estava trêmulo, sua respiração pesada, suas expressões agonizantes. Segurei em sua mão na tentativa de transmitir força e confiança. Não sei se ajudaria, mas eu realmente desejava que sim.

 

– Era um dia chuvoso exatamente como esse de hoje. A noite estava fria e pouco movimentada no campus. O único barulho naquele momento era o contraste das batidas do meu coração e dos trovões que solavam roucos no céu. Eu estava sem carro naquele dia, e azar do destino, ninguém poderia ir até a universidade para me buscar, então eu estava indo a pé até um ponto de táxi que ficava próximo a saída da faculdade, mas... 

 

Hanna fez uma pausa longa, e mais uma vez nosso olhar voltaram a se sustentar. Àquela altura meu coração já estava tão apertado quanto o dela. Eu sentia minha respiração pesar e igualmente acelerar em puro desespero. A sensação é que eu estava prestes a ser jogada de um precipício. 

 

– Hanna, Você não precisa continua se não quiser. Não sei detalhes do que aconteceu, mas vejo que está sendo difícil para você falar sobre isso. Você não precisa lembrar. 

 

– Como se fosse possível esquecer. – Um sorriso triste surgiu em seus lábios rosados. – Não tem um só dia que eu não lembre. Especialmente em dia assim, chuvosos. – Voltei a segurar suas mãos, agora com ainda mais força. – Eu quero te contar. Eu preciso falar sobre isso com você. Você não pode imaginar quantas vezes eu desejei te ter aqui um dia, para dividir essa dor comigo.  – Dessa vez foi ela quem apertou minha mão, então prosseguiu. – Ao passar por um dos departamentos onde outros cursos eram ministrados, que ficavam afastados do centro que eu estudava, ouvi alguém chamar pelo meu nome. Quando eu me virei buscando reconhecer o dono daquela voz, não tarde em encontrá-lo. Como estava um pouco escuro no local eu me aproximei mais para tentar reconhecê-lo melhor, e logo reconheci. O nome dele era Jefferson, um garoto que estudava comigo no curso de Direito. Ele estava acompanhado de outros dois, que eu não conhecia. 

 

– Por que você se aproximou de alguém que até então nem sabia quem era? –Perguntei atordoada demais para conseguir compreender. 

 

– Eu realmente não sei. Mas ao ver de quem se tratava, eu logo quis voltar a seguir meu caminho, foi quando ele e os amigos me cercaram. Era tarde demais pra mim.

 

 

 

Por Hanna

 

Lágrimas banhavam meu rosto agora ainda mais que antes. Era torturante permitir que aquelas lembranças me levasse de volta aquela noite, mas eu realmente sentia que precisava falar sobre aquilo com Marcela. Era como se finalmente tudo o que era oculto entre nós, já não fossem mais um obstáculo. 

 

– Olhei ao redor e percebi que ali não tinha ninguém. Era somente eu e eles, que provavelmente estavam naquele lugar bebendo e se drogando como de costume. Por mais que eu quisesse gritar e encontrar alguém para me tirar daquele pesadelo, eu sabia que ninguém iria chegar.

 

Coloquei as mãos na cabeça enquanto olhava para baixo. Foi nesse momento que senti ela me puxando para junto do seu corpo.

 

– Ei, você não precisa falar mais nada. Já chega! 

 

– Você não entende, Marcela. Naqueles dias o que eu mais queria era você comigo para me mostrar que definitivamente eu não era o lixo que me sentia. – As lágrimas escorriam descontroladas pelo meu rosto. Amargas, afiadas como pontas de lança me dilacerando.

 

– Você não é isso, você nunca foi isso. – Percebi que sua voz estava tão trêmula quanto a minha.

 

– Foram poucos minutos, mas foram os mais demorados da minha vida. Me lembro de cada palavra que ele dizia enquanto seus amigos me seguravam e sorriam. Eles me mandavam ficar calada, caso contrario seria pior. Mas como podia ser ainda pior? Me lembro das vezes que ele me dizia o quanto eu merecia aquilo que ele descreveu como um “corretivo” para aprender a ser mulher, e que mulher só podia “dar” para um homem como ele. Ele sussurrava em meu ouvido, prometendo que depois daquele momento, eu nunca mais iria querer uma mulher, pois ele sim era homem suficiente para mim. – Senti ela me apertar em seus braços como se fosse um ato de proteção e aquilo me fazia sentir realmente protegida como jamais estive antes. – Por mais que eu chorasse ele dizia que eu estava gostando, e me fazia repetir o quanto estava bom sentir suas investidas dentro de mim. Ele me obrigava a dizer que estava gostando do que estava acontecendo, e quando eu me recusava a isso, ele me batia. – Os músculos de Marcela estavam contraídos como se sentisse dores por todo seu corpo, mas eu sabia que sua dor era a mesma que a minha, era na alma. – Depois de algum tempo, eu já não sentia mais nada. Era como se estivesse em outra dimensão. Me sentia suja e agradeci silenciosamente à Deus quando o vi subir as calças, mas senti medo do sorriso diabólico e satisfeito que ele tinha no rosto. Então veio a ameaça… Ele disse que ninguém deveria saber do que tinha acontecido ali, caso contrário ele faria ainda pior. Fiquei sozinha naquele escuro sem conseguir mover um músculo do meu corpo dolorido. Somente depois de algum tempo consegui ter atitude de ligar para Micaela. A única coisa que consegui, foi dizer onde ela poderia me encontrar.

 

Marcela se afastou bruscamente de mim, e vi a fúria que se misturavam com as lágrimas em seu olhar.

 

– Por que ninguém nunca me contou isso? – Eu conhecia aquele olhar perfeitamente para saber que ali estavam uma mistura de sentimentos onde o ódio prevalecia sobre todos eles.  – Eu teria vindo de Portugal para cuidar de você. Elas sabem que eu teria vindo.

 

– Marcela, você sempre foi firme quando as proibiu de falar sobre qualquer coisa que me envolvesse. Foi você determinou isso. Além disso, eu também estava em um momento onde sentia muita vergonha. Eu não queria que ninguém soubesse, apesar de sempre ter desejado que você estivesse perto para me ajudar a superar toda aquela dor. Era como viver em um conflito sem fim.

 

– Isso era diferente de tudo, Hanna. Se eu soubesse, eu teria vindo imediatamente. Eu já,ais deixaria você passando por isso sozinha. Onde está esse desgraçado? Eu vou matar esse maldito! – Ela praticamente gritou em desespero. – Espera… – Seu olhar tornou-se apavorado. – A Gabi… Não me diga que... Hanna, ela é filha desse monstro?

 

O que eu tanto temia parecia que iria acontecer. Marcela iria odiar minha filha! Baixei a cabeça e chorei copiosamente.

 

– Algum tempo depois, eu estava conseguindo voltar à minha vida. Era difícil, mas eu estava me esforçando. O Jefferson foi denunciado, preso, e rapidamente com as amizades do papai, houve o julgamento onde teve sua sentença. No entanto, algumas semanas depois eu passei mal e no hospital descobri que eu estava grávida. – Ela automaticamente se ajoelhou à minha frente sem conter as lágrimas que escorriam com mais velocidade que antes.  – Marcela, eu poderia dizer que não queria aquela criança. Eu poderia escolher, pois a lei me permite isso. E você sabe que existem meios para garantir que isso aconteça, mas eu não quis, foi escolha minha seguir. Eu queria ser uma pessoa melhor. Eu queria te dar orgulho por tomar as decisões certas, e principalmente, eu entendia que aquele ser dentro de mim não tinha culpa do que tinha acontecido. Assim como eu, ela também é uma vítima. Ela não pediu para ser gerada da forma que foi. Durante muito tempo, eu me perguntei como seria quando a olhasse nos olhos, e eu tinha medo do que ia acontecer, do que eu ia sentir, mas quando a tive em meus braços todo o medo e dor passaram, eu só conseguia amá-la.

 

Ficamos em um silêncio profundo, parecendo que por um momento todas as palavras do mundo teriam desaparecido. Depois de um momento Marcela me puxou para seus braços e assim compartilhamos aquela dor e um choro abafado.

 

– Por favor, não despreze minha filha, Marcela. – Sussurrei em seu ouvindo enquanto soluçávamos em meio ao choro.

Fim do capítulo

Notas finais:

Ótima leitura a todas ?


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Comentários para 13 - Capitulo 13:
Eva Bahia
Eva Bahia

Em: 12/05/2026

Difícil pra ambas!.. 


Mas agora acho que elas se acertam.


Esperamos ancioasa cá 


priskelly

priskelly Em: 13/05/2026 Autora da história
Agora tem que ir, né?! Mas de fato é uma situação dificil para lidar. Com paciência e parceria, tudo se resolve no tempo certo.

Bjus! Obrigada por comentar


Responder

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Luna_ally
Luna_ally

Em: 12/05/2026

Chorei junto com elas, vc nos surpreendendo muito autora, chego ficar imaginado cada ação  ...... Parabéns.  

No aguardo dos prox capítulos. 

Boa noite.


priskelly

priskelly Em: 12/05/2026 Autora da história
Oieee...

Foi im capítulo tenso, triste, mas também envolvendo muitos sentimentos, não é?
Fico feliz que consiga sentir tudo aquilo que tento passar em cada capítulo. A ideia é que vocês ao ler possam se ver em cada cena ao lado das personagens.

Bjus!


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