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Nao acredite nela por caribu

Ver comentários: 2

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Palavras: 1000
Acessos: 80   |  Postado em: 18/05/2026

Notas iniciais:

IMAGEM: óculos quebrado

Capitulo 2

O saco plástico transparente e lacrado, estampado com o brasão da polícia de Ecila, deslizou pela mesa da sala de interrogatórios até parar diante de Liz, às 2h01 da manhã. Dentro dele, os óculos de Mirela refletiam a luz da delegacia em pequenos fragmentos irregulares. A armação permanecia intacta, mas uma das lentes estava partida ao meio, trincando o vidro numa espécie de asterisco.

Felipa cruzou os braços após entregar o objeto, numa postura conhecida. Sua feição deixava nítido o quanto estava cansada. Mas seus olhos ainda brilhavam, revelando que, assim como Liz, ela não estava disposta a ir embora antes de entender o que havia acontecido com Mirela na noite passada.

– Encontraram na esquina atrás do galpão. Pelas fotos que vimos no computador, esses óculos pertencem a Mirela, embora ela quase não apareça usando – Felipa falou, assim que Tainá deixou a sala.

Liz observou os óculos em silêncio.

Mais vidro quebrado.

Demorou a perceber que segurava o copo sujo de café com força demais. Havia anos desde o último sequestro registrado na cidade.

– Algum vestígio de sangue? – perguntou.

– Não, nada aparente.

– E quanto ao sangue no galpão...?

– Ainda segue inconclusivo. Mas o resultado da análise logo sai.

Liz apertou os olhos. A lente rachada deformava seu reflexo quando inclinava o saco sob a luz. Seu rosto dividia-se em vários ângulos diferentes.

Identidade fragmentada. Reconhecimento comprometido.

Além dos óculos, Mirela tinha deixado muita coisa para trás, considerando tudo o que a polícia havia encontrado no galpão, como o computador e as câmeras fotográficas caras. Mas seu desaparecimento não se enquadrava nos padrões conhecidos de sequestro, visto que ela (ou as amigas) ainda parecia controlar a própria ausência. Liz então tinha o trabalho de provar que não se tratava de um crime erradicado há quase uma década, e a resposta poderia ser encontrada com as próximas interrogadas.

A porta da sala abriu-se sem que pudesse seguir com a linha de raciocínio. A segunda testemunha entrou na sala de interrogatórios sem pedir licença.

– Ai, ela odiava ter que usar esses óculos... – Celina disse, num tipo de “boa noite” em tom de deboche. Sua postura era autoritária, quase agressiva, com o queixo apontado para o alto.

Liz ergueu os olhos para encará-la, registrando mentalmente o verbo dito no passado. Falas assim eram comuns em casos de desaparecimentos e sequestros, mas nada na situação de Mirela era exatamente costumeiro, então o comentário imediatamente lhe chamou a atenção.

– É mesmo? Odiava por quê? – a policial questionou, vendo a mulher sentar-se sem cerimônia. Na fotografia que permanecia disposta sobre a mesa, Celina aparecia posicionada entre Tainá e Lorena.

– Porque a Mirela dizia que as lentes distorciam as proporções dela – o tom de ironia permanecia – Ela acreditava que os rostos humanos obedecem a padrões matemáticos e os óculos quebravam a harmonia dela. Mas na verdade, só ficava com cara de nerd, que ela sempre foi.

– Que tipo de padrões matemáticos?

– Ai, sei lá. Ela sempre vinha com um papo super chato sobre proporção áurea, simetria facial e baboseiras do tipo – a mulher revirou os olhos, com desdém – Vivia falando que a inteligência artificial aprende a distinguir as emoções faciais do mesmo jeito que os humanos aprendem a confiar uns nos outros.

Liz permaneceu quieta, apenas observando. Felipa também. Mas a interrogada, conforme previsto, não foi capaz de se conter.

– É que ela simplesmente via padrão em tudo. Rosto. Voz. Maneira de andar. Analisava até o tempo de resposta durante conversas aparentemente casuais – Celina desviou os olhos para os óculos quebrados dentro do saco plástico – Às vezes, nos fazia repetir algumas frases olhando para a câmera durante longos e intermináveis minutos.

– “A gente” quem?

– Eu. Tainá. Até mesmo Lorena, às vezes.

Liz ergueu os olhos bem devagar. Finalmente, várias peças daquele caso começavam a se encaixar, todas ao mesmo tempo.

– Para quê? – indagou, sem transparecer o que pensava.

– Para treinar o “sistema” dela – a resposta soou como se Celina dissesse o óbvio.

– Que sistema?

A interrogada soltou uma risada curta, nervosa.

– Reconhecimento comportamental. Bom, pelo menos era assim que ela chamava. Mirela precisava treinar o sistema que criou com rostos reais. Expressões reais. Microexpressões. Mentira, medo, desconforto... Aí nos fazia perguntas analisando cada reação mínima – Celina voltou a revirar os olhos – Você também faz isso, né? – perguntou de repente.

– Isso o quê?

– Analisa as pessoas enquanto elas falam.

A postura de Celina fez com que Liz se lembrasse imediatamente do interrogatório anterior. Dos poucos segundos de contato visual. Da ausência de lágrimas no rosto de Tainá. As interrogadas apresentavam comportamentos bem distintos. Quase opostos.

– Então vocês trabalhavam para ela – a policial afirmou. Nem se deu ao trabalho de respondê-la.

– Não... Quer dizer, sim.

– Tainá disse que não.

– Então ela mentiu para você – Celina riu novamente, malvada – A Tainá mentiu para você! – repetiu, sem rir dessa vez – Ela estava lá praticamente todos os dias. Nós duas estávamos. E recebíamos pelas horas em que permanecíamos no local. Então pode ser considerado um trabalho, sim.

– Além de serem filmadas, o que mais vocês faziam?

– Testes.

– Que tipo de testes?

A jovem apertou os lábios antes de responder.

– A Mirela fazia algumas perguntas enquanto registrava nossas reações. Depois comparava os resultados com o comportamento da IA que estava desenvolvendo.

– E funcionava? – Felipa perguntou, incomodada com o silêncio prolongado.

A jovem soltou outra risada curta.

– Eu diria que sim. Ela estudou tanto essas coisas todas, que conseguia perceber pequenas mentiras rápido demais.

Liz deslizou lentamente os dedos pela borda do saco plástico com os óculos quebrados.

– Inclusive da namorada? – questionou, tendo a ausência de palavras como resposta.

Dessa vez, o silêncio não foi só um detalhe. Celina ergueu os olhos rápido demais. E foi exatamente assim que Liz descobriu sobre Lorena.

Fim do capítulo


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Comentários para 3 - Capitulo 2:
NovaAqui
NovaAqui

Em: 30/05/2026

Liz é phodástica demais


caribu

caribu Em: 02/06/2026 Autora da história
Ela é, a bicha é astuta!!


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Zaha
Zaha

Em: 20/05/2026

Oieee!!!!!!


Hum...essa Mirela é interessante. Eu iria por Tainá, mas tava meio óbvio, mas como todos mentem a princípio é tb n sabemos tampouco se Celina fala à verdade... 


Hum.... Eu me perdi e n sei mais se Mirela tá desaparecida ou morta kkkk. TDAH... Temos mais uma entrevistada. Se ela fez um sistema de IA que detecta reconhecimento fáceis e segundo ela teve a resposta que ela queria, isso não seria bom pra uma delas. Uma delas deu sumiço ou Mirela escapou. Sempre um desafio isso aqui kkkk. 


Beijos


caribu

caribu Em: 20/05/2026 Autora da história
ahahaha

Tá gostando? ^^


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