Capitulo 9 - O Desfecho Final
O som das sirenes ainda estava distante, mas para Caleb Riggs, cada segundo ecoava como uma sentença. Após o confronto na escuridão das cocheiras, onde a presença imponente de Itzel e seu batalhão de segurança haviam frustrado seus planos imediatos, restava-lhe apenas uma saída: a fuga.
Ele não levava nada além da maleta com um pouco do dinheiro desviado e o gosto amargo da derrota. Pulou em sua caminhonete, arrancando em meio a uma nuvem de poeira sufocante, deixando para trás os portões do Scott Legacy que ele jurara possuir. Seus olhos, injetados de raiva e medo, buscavam o retrovisor a cada segundo. Ele precisava chegar à cidade, desaparecer na multidão e cruzar a fronteira antes que o sol nascesse.
- Elas não podem me vencer... eu construí metade disso! - rosnava para si mesmo, esmurrando o volante enquanto o veículo saltava pelos buracos da estrada de terra.
No entanto, Caleb subestimou a rede de influência de Itzel Mendoza. No momento em que ele atingiu o asfalto da rodovia estadual em direção à Phoenix, o horizonte foi inundado por luzes azuis e vermelhas.
Não era apenas a polícia local. O bloqueio era total. Duas viaturas do xerife e três utilitários pretos da segurança privada dos Mendoza formavam uma barreira intransponível no asfalto ainda quente pelo sol inclemente durante o dia. Caleb pisou no freio, os pneus gritando em protesto, deixando marcas negras na estrada. Ele tentou engatar a marcha à ré, mas dois veículos de interceptação já haviam fechado o cerco por trás.
Caleb estava encurralado.
As portas das viaturas se abriram. O Xerife Miller deu um passo à frente, com a mão no coldre, acompanhado por Itzel e Addison, que desceram de um dos carros de apoio. Sob os refletores potentes, Addison parecia uma figura de autoridade inabalável, segurando a pasta de provas que havia recuperado na cabana.
- Saia do carro, Caleb! Com as mãos onde possamos ver! - ordenou o Xerife.
Por um instante, Caleb considerou acelerar contra a barreira, um último ato de loucura. Mas ao olhar para Itzel, que o observava com um desdém gelado e uma postura de quem já havia vencido a guerra muito antes da primeira batalha, ele percebeu que não havia escapatória. A "estrangeira" que ele tanto subestimara havia movido a polícia inteira contra ele em questão de minutos.
Lentamente, ele abriu a porta e desceu. O asfalto estava quente sob suas botas. No momento em que seus joelhos tocaram o solo e as algemas se fecharam em seus pulsos, o peso do legado que ele tentou roubar pareceu esmagá-lo.
Addison aproximou-se, parando a poucos metros dele. O vento do deserto soprava seu cabelo, e pela primeira vez, não havia medo em seus olhos, apenas o encerramento de um ciclo doloroso.
- Você disse que eu era apenas uma visita de luxo, Caleb - disse Addison, a voz calma e cortante. - Mas não, sou a dona e sempre vou estar aqui para colocar o lixo para fora.
- Isso não acabou, Addison! - Caleb gritou enquanto era arrastado para o banco de trás da viatura. - Seu pai vai cair junto comigo!
- Meu pai já está lidando com os próprios pecados - ela respondeu, olhando para Itzel, que se aproximou e colocou a mão em seu ombro. - Mas os seus terminam aqui.
A viatura partiu, as luzes sumindo na vastidão da noite do Arizona. O silêncio retornou à estrada, mas agora era um silêncio de paz, não de tensão. Itzel envolveu a cintura de Addison, sentindo a exaustão e o alívio que emanavam dela.
- Ele está fora do tabuleiro e do jogo, mi amor - sussurrou Itzel.
Addison respirou fundo o ar puro da noite, olhando para as luzes do rancho que brilhavam muito ao longe.
- Agora, finalmente, podemos começar a reconstruir.
***
Addison e Itzel entraram na casa principal. O silêncio era denso. Adam Scott estava sentado na sala de jantar, a pasta de couro aberta à sua frente. Ele parecia ter envelhecido uma década em uma semana. Quando viu as duas mulheres entrarem, ele fechou a pasta com força.
- Então você voltou - Adam disse, a voz rouca. - E trouxe ela. Você limpou o nome da família prendendo o Caleb, admito. Mas o preço... o preço da minha vergonha ainda é alto, Addison.
Addison caminhou até a cabeceira da mesa, mas não se sentou. Ela se manteve de pé, apoiando as mãos na madeira que pertencera a gerações de homens da sua família.
- Pai, chega de falar em vergonha - Addison começou, sua voz soando como aço temperado. - O senhor disse que queria que eu fosse livre da "maldição deste solo". O que o senhor nunca entendeu é que eu nunca precisei da sua permissão para ser livre. O império que eu construí em Tucson, as patentes de engenharia em meu nome, as empresas que gerenciam infraestruturas por todo o estado... eu fiz tudo sozinha.
Ela olhou fixamente nos olhos do pai. - Eu não dependi do Briam, que foi apenas um acessório necessário para que homens como o senhor me ouvissem em reuniões de negócios. Eu não dependi do capital desta terra. Eu salvei este rancho com o meu dinheiro e com muito trabalho duro. O senhor achou que estava me protegendo com mentiras, mas eu estava protegendo o senhor com tudo aquilo que construí com força própria.
Adam tentou interromper, mas Itzel deu um passo à frente, colocando a mão sobre o ombro de Addison, uma demonstração de unidade que não pedia desculpas.
- Sr. Scott - Itzel disse, com uma autoridade que fez o velho fazendeiro recuar - eu não sou uma "confusão" ou um "erro" na vida da sua filha. Eu sou a parceira dela. Addison não precisa de mim para ser poderosa, ela já é. O que nós temos é uma aliança de iguais. Se o senhor não consegue aceitar a felicidade da mulher que salvou sua vida e sua terra, o senhor não está protegendo o seu legado... o senhor está apenas escolhendo morrer sozinho em um santuário habitado apenas por fantasmas.
Adam olhou de Addison para Itzel. Pela primeira vez, ele viu não a "filha pródiga" ou a "estrangeira atrevida", mas duas potências que não seriam movidas.
- Eu vou transformar este lugar no projeto mais avançado de preservação e tecnologia mineral do país - continuou Addison. - O senhor pode fazer parte disso e ver o nome Scott brilhar como nunca, ou pode continuar recluso nesse quarto. A escolha é sua. Mas a farsa acabou. Eu sou Addison Scott, sou engenheira, e esta é Itzel Mendoza, a mulher que eu amo. E nós não vamos mais pedir licença para existir nesta casa.
Houve um longo silêncio. Adam Scott olhou para as mãos calejadas e depois para o horizonte através da janela, onde o gado pastava em paz. Lentamente, com um esforço visível, ele acenou com a cabeça - um gesto curto, mas que carregava o peso de uma rendição e o início de um respeito amargo, dolorido, mas real.
Addison olhou para Itzel e sorriu. Pela primeira vez em sua vida, o ar no Arizona parecia fácil de respirar. Elas caminharam juntas para a varanda, observando o sol se pôr sobre o Scott Legacy.
Fim do capítulo
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