Capitulo 7 - Contra o Tempo e Contra o Fogo
A noite no Arizona era um vácuo de som que precedia as tempestades, mas o silêncio foi brutalmente estilhaçado pelo estalo seco de madeira em combustão. Addison, que mal havia pregado os olhos no escritório, saltou da cadeira quando o primeiro clarão alaranjado lambeu o vidro da janela.
O cheiro de gasolina e feno seco invadiu suas narinas; Caleb Riggs, encurralado pela auditoria e movido por uma vingança desesperada, decidira que, se o rancho não fosse dele, seria das cinzas e das seguradoras. "Fogo!", o grito de Silas ecoou pelo pátio, e Addison correu para o inferno.
O estábulo principal, coração do Scott Legacy, era uma fornalha, mas a estrutura da casa principal permanecia intacta, protegida pela distância e pelo vento.
Com um pano molhado no rosto, Addison invadiu as baias, guiando os cavalos cegos pelo pânico para a liberdade, enquanto via, no limite das sombras, o vulto de Caleb observando sua obra antes de desaparecer na escuridão do deserto.
Com as primeiras luzes da manhã, o cenário era de uma devastação contida: o estábulo era um esqueleto de carvão fumegante, mas todos os animais estavam salvos graças ao heroísmo de Addison e a agilidade dos cowboys. Foi então que Silas, o velho treinador, aproximou-se de Adam, que observava o desastre do alpendre, coberto de cinzas.
- Adam, já chega - , disse Silas, com a voz firme como couro curtido. - Sua filha não salvou apenas esses cavalos hoje; ela salvou você e esse nome, mesmo quando você lhe virou as costas. Você deve a ela a verdade.
Sob a pressão do amigo, Adam finalmente quebrou o silêncio e entregou a Addison uma pasta de couro antiga, escondida há décadas. O que ela leu ali mudou tudo: o rancho possuía direitos minerais e contratos de preservação ambiental vitais que Caleb pretendia vender para mineradoras predatórias.
- Eu não queria que você fosse apenas dona de terra, Addison - , confessou Adam, as lágrimas limpando sulcos nas cinzas de seu rosto. - E eu quero agora que você fique livre da maldição deste solo. Mas você provou ser a única Scott capaz de lutar por isso.
Com essa nova verdade nas mãos, o plano de Addison mudou radicalmente; ela percebeu que não precisava mais de Tucson ou de mentiras para ter sucesso, possuindo agora o poder legal para transformar o rancho em um santuário tecnológico e ecológico.
No entanto, enquanto olhava para o horizonte, o peso da ausência de Itzel ainda a esmagava. Addison tinha a terra, o respeito do pai e o fim de Caleb, mas o furacão de Jalisco continuava sendo o elo perdido na nova fundação que ela acabara de descobrir sob as cinzas do estábulo.
***
Addison deixou o Arizona sob um céu cor de chumbo. Silas agora era seus olhos e ouvidos no Scott Legacy, encarregado de vigiar cada movimento de Caleb enquanto os advogados preparavam o cerco legal. Mas Addison não conseguia focar em minérios ou cercas. O silêncio de Itzel era um sangramento visceral dolorido que ela precisava urgentemenre estancar.
A viagem até a fazenda Mendoza, em Jalisco, foi um borrão de estradas poeirentas e ansiedade. Quando o SUV de Addison finalmente parou diante dos portões coloniais da propriedade de Itzel, o aroma doce do agave no ar pareceu sufocá-la. Entretanto, ela não foi recebida com a hospitalidade de costume; os seguranças apenas assentiram, indicando que a patroa estava no mirante das plantações.
O horizonte de Jalisco era uma sinfonia de tons que Addison nunca imaginou encontrar. Enquanto o Arizona era uma promessa de terra vermelha e poeira, os campos da Fazenda Mendoza eram um mar de agave azul, cujas folhas pontiagudas pareciam lanças de prata sob o sol mexicano.
O contraste visual era quase poético: o azul pálido, mas vibrante das plantas contra a terra fértil e escura simbolizava a própria dualidade de Addison. Ali, ela não era a executiva da cidade grande, nem a herdeira desesperada de um rancho em declínio; era apenas uma mulher tentando respirar para se reencontrar consigo mesma e com seu grande amor.
Addison subiu a colina a pé. Encontrou Itzel de costas, observando o mar de folhas azuladas que se estendia até o horizonte. Ela vestia um traje de montaria impecável, mas a rigidez em seus ombros dizia tudo o que Addison temia.
- Você tem muita audácia de vir até aqui, Addison - Itzel disse, sem se virar. Sua voz era um chicote de seda.
- Eu não podia deixar as coisas daquele jeito, Itzel. Mas agora rancho da minha família está seguro, o Caleb está sendo caçado, meu pai... - Addison começou, mas foi cortada por uma risada amarga.
- O rancho! Sempre o rancho! - Itzel girou sobre os calcanhares, os olhos escuros faiscando com uma fúria que fez Addison recuar um passo. - Você viajou quilômetros para me falar de um lugar cujas finanças estavam em pedaços e de um velho que te despreza? Eu não sou uma de suas planilhas, Addison! Eu cansei de ser o segredo que você esconde quando a vida fica "complicada".
- Eu estava tentando salvar o legado da minha família! - Addison gritou de volta, a raiva finalmente rompendo sua casca de frieza. - Você acha que foi fácil para mim? Ver meu pai me olhar como se eu fosse um monstro? Ver o Briam arruinar tudo? Não ter você a meu lado doeu muito e continua doendo a ponto de eu não aguentar. Mas eu fiz o que pude para manter o mundo de pé!
- Você manteve o mundo de pé, mas me deixou cair ao solo deliberadamente! - Itzel avançou, ficando a centímetros do rosto de Addison. O cheiro de sândalo e fúria era inebriante. - Você pediu desculpas por nós, Addison. Você se humilhou diante de um patriarca decadente em vez de segurar minha mão e dizer: "Esta é a mulher que eu amo e quem não aceitar que saia do caminho". Eu não quero uma válvula de escape que você só recebe à noite, entre quatro paredes trancadas. Aguentei tudo isso por 10 longos anos... porque te amava... Mas agora, eu quero tudo, ou então não quero nada! Faça sua escolha.
O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado pelo som do vento nas folhas de agave. Addison sentiu as lágrimas queimarem. Ela viu a mágoa profunda nos olhos da mulher que era sua única verdade.
- Eu tive medo - admitiu Addison, a voz falhando, as defesas finalmente desmoronando. - Tive medo de perder a única coisa que me ligava às minhas raízes. Mas quando você foi embora... eu percebi que o rancho é apenas terra e madeira. Você é a minha raiz, Itzel. Onde você estiver, é onde eu estou em casa.
Addison deu um passo hesitante e tocou o rosto de Itzel. Desta vez, a mexicana não recuou, embora seu olhar ainda fosse duro.
- Eu pedi o divórcio, Itzel. De verdade. Não há mais Briam, não há mais farsa. Meu pai sabe de tudo. Ele pode não aceitar agora, mas ele não tem mais poder sobre as minhas escolhas. Eu vim aqui para te dizer que, se você ainda me quiser, eu vou caminhar ao seu lado sob o sol de Jalisco, ou do Arizona, ou de qualquer lugar. Mas não vou mais caminhar sem você.
Itzel sustentou o olhar por um longo tempo, a raiva lutando contra o amor que ainda queimava em seu peito. Lentamente, ela relaxou a postura e fechou os olhos, encostando a testa na de Addison.
- Você é a mulher mais inteligente que eu conheço, e a mais idiota também - murmurou Itzel, sua mão subindo para a nuca de Addison, puxando-a para perto. - Não me peça desculpas nunca mais por quem você é e nunca mais peça desculpas a ninguém por isso. Se for para estarmos juntas, será as claras. Sem sombras. Sem mentiras.
O beijo que se seguiu não foi suave; foi uma reconciliação selada com a urgência de quem quase se perdeu no deserto. Ali, entre as plantações de Jalisco, Addison sentiu que a fundação de sua nova vida estava finalmente assentada. Não sobre contratos ou expectativas alheias, mas sobre a coragem de ser livre ao lado da mulher que nunca a deixou desistir de si mesma.
- Vamos voltar - disse Itzel, entre beijos. - Temos um rancho para reconstruir e um capataz para colocar na cadeia. Mas desta vez, Addison, eu vou na frente, no banco do passageiro, porque não pretendo mais me esconder... nos esconder. Mas antes queria te pedir, fique comigo, aqui... por dois dias...
Addison sentiu o peso dos últimos meses evaporar sob o sol de Jalisco. O convite de Itzel não era apenas um pedido de mais tempo, era uma oferta de paz, de santuário. Ela envolveu a cintura da mexicana com os braços, puxando-a para mais perto, sentindo o calor do corpo que povoava seus sonhos mais febris e solitários no Arizona.
- Dois dias? - Addison murmurou contra os lábios de Itzel, a voz carregada de uma entrega que ela nunca se permitira antes. - Eu ficaria uma eternidade se você pedisse. O mundo lá fora pode esperar que eu o reconstrua. Mas eu... eu preciso que você me reconstrua primeiro, desde o começo.
Itzel não respondeu com palavras. Ela segurou a mão de Addison, entrelaçando seus dedos com uma firmeza que prometia nunca mais soltar, e a guiou colina abaixo em direção à casa principal da fazenda.
Mas elas não foram para as salas de visitas ou para os escritórios repletos de mapas de produção. Itzel a levou para uma ala privativa, um quarto onde as janelas se abriam para um pátio interno com uma fonte borbulhante, de azulejos pintados à mão e o aroma de jasmim era quase hipnótico.
Lá dentro, a penumbra era um alívio para os olhos cansados de Addison. Assim que a porta se fechou, a urgência que as consumira no mirante transformou-se em uma ternura profunda e avassaladora. Itzel começou a desabotoar a camisa de viagem de Addison com uma lentidão deliberada, seus olhos escuros fixos nos azuis da engenheira, lendo cada emoção, cada rastro de cansaço e desejo.
- Chega de fardos, Addison - sussurrou Itzel, deslizando o tecido pelos ombros dela. - Deixe tudo sobre o Arizona lá fora. Aqui, eu quero apenas a mulher que me desafia, que me ama e que finalmente se encontrou.
O toque de Itzel era como fogo sobre a pele sedenta. Addison sentiu um arrepio percorrer sua espinha quando as mãos calejadas, porém suaves, da produtora de tequila encontraram sua pele nua. Não havia mais o medo do flagrante, o temor do julgamento de Adam ou a sombra de Briam. Naquele quarto, o tempo parecia ter parado.
Addison retribuiu o gesto, despindo Itzel com uma reverência que beirava o sagrado, maravilhando-se novamente com a força e a beleza daquela mulher que era seu mais absoluto fascínio.
Quando as últimas barreiras de tecido caíram, Itzel a guiou em direção à cama. Os lençóis de linho fresco contrastaram de imediato com o calor febril de seus corpos. Addison deitou-se, mas Itzel logo se posicionou sobre ela, prendendo os pulsos da engenheira acima da cabeça com uma delicadeza firme.
O olhar escuro de Itzel desceu lentamente pelo corpo de Addison, mapeando cada linha antes de iniciar uma sequência de beijos lentos e deliberados - primeiro no arco do pescoço, descendo pela clavícula, até morder de leve a pele macia do colo, arrancando o primeiro suspiro bem audível de Addison.
A urgência contida explodiu em uma dança de pele, suor e texturas. Addison liberou as mãos e envolveu a nuca de Itzel, puxando-a para um beijo profundo, ritmado, onde suas línguas se buscavam com uma fome antiga. Enquanto se beijavam, as mãos de Itzel desceram pelas costelas de Addison, espalhando arrepios, até encontrarem a curva do quadril.
Com uma intuição que só o desejo verdadeiro traz, os dedos de Itzel deslizaram para o centro da intimidade de Addison, encontrando-a já quente e completamente úmida.
Addison arqueou as costas contra o colchão ao sentir o primeiro toque firme e circular. Itzel conhecia aquele mapa; sabia exatamente a pressão e o ritmo necessários. Seus dedos começaram um movimento constante, deslizando de fora para dentro, enquanto o polegar pressionava com precisão o ponto mais sensível de Addison, fazendo-a perder o fôlego.
- Eres mía, mi amor... - sussurrou Itzel contra os lábios de Addison, a voz rouca de desejo, antes de escorregar lentamente o corpo pelo corpo de Addison.
Addison segurou os lençóis com força quando sentiu o hálito quente de Itzel aproximar-se de suas coxas. Itzel abriu as pernas de Addison com suavidade, acomodando-se entre elas. O primeiro contato da língua de Itzel foi um choque elétrico. Com carícias longas e úmidas, ela alternava entre a doçura de lamber e a intensidade de sugar, provocando um contraste avassalador.
Addison enterrou os dedos nos cabelos escuros de Itzel, ora puxando-a para mais perto, ora implorando por alívio em meio a gemidos desconexos que ecoavam pelas paredes de pedra do quarto.
O ritmo intensificou-se. Itzel inseriu dois dentro dela, movendo-os de forma firme e profunda, que acompanhava o trabalho ávido de sua boca.
A sensação de preenchimento e a fricção da língua sobre o clit*ris, levaram Addison ao limite. Ela prendeu o ar, os músculos de seu quadril contraindo-se fortemente ao redor dos dedos de Itzel quando a primeira onda do orgasmo a atingiu, uma explosão que a fez tremer por completo e pronunciar o nome de Itzel com paixão.
Sem dar tempo para o calor diminuir, Addison, ainda pulsando, puxou Itzel para cima de si. Movida por uma reciprocidade feroz, a engenheira inverteu as posições, deixando-a entregue aos seus comandos. Addison explorou cada curva de Itzel com a boca e as mãos, descendo até encontrar a mesma umidade ardente.
Com os dedos firmes e movimentos ritmados de quadril que pressionavam corpo contra corpo, Addison levou Itzel ao ápice, assistindo de perto os olhos escuros da outra se nublarem de puro prazer e seu corpo arquear-se em uma entrega absoluta.
Naquela primeira noite, após o ápice da paixão, elas ficaram abraçadas, sentindo os batimentos cardíacos desacelerarem em uníssono enquanto observavam a lua de Jalisco banhar o quarto.
- Eu nunca mais vou deixar você ir - confessou Addison, aninhada no peito de Itzel, ouvindo o batimento rítmico e forte do coração da amante. - O rancho Scott será um novo lugar. E haverá um espaço lá, o maior de todos, para você. Para nós.
Itzel beijou o topo da cabeça de Addison, um sorriso satisfeito brincando em seus lábios.
- E haverá um lugar aqui para você também, minha querida. Dois impérios que se fundem. Mas agora... - Itzel a puxou para um novo beijo, mais profundo e faminto. - Agora, temos mais um dia e meio. E eu pretendo gastar cada segundo mostrando exatamente o que você quase perdeu por causa daquela sua teimosia americana.
Addison riu, uma risada clara e vibrante que não saía de sua garganta há anos. Ela se entregou novamente aos braços de Itzel, sabendo que, quando voltassem para o Arizona para enfrentar Caleb e o julgamento final de seu pai, ela não seria mais uma sombra tentando se esconder. Ela seria um incêndio, muito mais forte do que qualquer fogo que Caleb pudesse atear, protegendo a vida que finalmente escolhera viver.
Os dois dias em Jalisco foram como uma bolha de oxigênio antes do mergulho final e decisivo. Quando a caminhonete preta de Itzel chegou ao aeroporto de Guadalajara, não havia mais hesitação no olhar de Addison. Ela não era mais a herdeira relutante; era uma mulher que havia retomado o controle do próprio destino.
Fim do capítulo
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