Capitulo 6 - Ruínas
Sem o porto seguro de Itzel e diante da rejeição absoluta do pai, que se mantinha recluso e ignorava até as refeições deixadas à porta, Addison mergulhou em uma jornada de trabalho exaustiva. Com o pragmatismo de sua formação em engenharia, ela passou a tratar o rancho como um canteiro de obras em pleno colapso estrutural, decidida a estancar cada fissura deixada pela má gestão anterior. Usando seu próprio capital acumulado em Tucson para liquidar as dívidas emergenciais, ela desarticulou a sangria financeira iniciada por Caleb, retomando o controle total sobre o destino econômico da propriedade.
A reconstrução avançou pela logística e pelo manejo, com Addison demitindo os peões leais ao antigo capataz e contratando novos braços sob a indicação de Silas, garantindo que o gado fosse finalmente tratado com o respeito devido. Ela redesenhou o fluxo de água e reativou o sistema de irrigação, combatendo a erosão dos pastos com a precisão de quem projeta grandes infraestruturas. Simultaneamente, iniciou a catalogação rigorosa da genética dos garanhões, eliminando atravessadores clandestinos para estabelecer conexões diretas com compradores de prestígio, transformando todo o potencial do Scott Legacy em lucro real.
Aos poucos, a terra respondeu aos esforços: o verde voltou a tingir timidamente os campos e o brilho retornou ao pelo dos cavalos puro-sangue, sinalizando que o rancho voltava a respirar sob sua liderança técnica. No entanto, o sucesso externo não cruzava o limiar da casa principal, onde o ar permanecia pesado e rarefeito. Entre os gráficos de rentabilidade e o silêncio ensurdecedor que vinha dos aposentos de Adam, Addison percebia que, embora estivesse salvando o império físico, a fundação emocional de sua vida continuava em ruínas.
***
Todas as noites, após dez, doze horas de labuta sob o sol escaldante, Addison sentava-se na varanda com o celular na mão. Ela discava o número de Itzel. Uma, duas, dez vezes.
"O número que você discou não está disponível ou encontra-se fora da área de cobertura."
As mensagens de texto permaneciam com o tique cinza de "não lidas". Addison enviava fotos do progresso do rancho, pedidos de desculpas, confissões de saudade. Nada. O silêncio de Itzel era um deserto muito mais vasto do que o Arizona. Em Jalisco, a rainha do agave parecia ter riscado Addison Scott de seu mapa.
O pior, porém, era o silêncio que vinha de dentro de casa. Adam Scott não descia. Addison ouvia o som da bengala batendo no chão do quarto, o rádio ligado em estações de notícias antigas, mas a porta permanecia trancada.
Certa noite, Addison parou diante da porta de carvalho do pai.
- Pai... as contas estão limpas, em ordem. O Caleb foi embora. Os cavalos e os negócios estão saudáveis. Eu estou fazendo funcionar, exatamente como o senhor queria.
Do outro lado, houve um longo silêncio, seguido apenas pela voz rouca e cansada de Adam:
- Você salvou o rancho, Addison. Mas destruiu meu nome, minha dignidade, a dignidade de todas as gerações dos Scott. Agora vá dormir e me deixe em paz.
***
A noite que se seguiu for infernal para Addison. A briga com o pai, o silêncio contundente de Itzel, a situação do rancho, tudo isso a impediu de dormir. Na manhã seguinte, quando o pai finalmente acorda, Addison não esperou por um convite; ela entrou carregando uma bandeja com o desjejum e uma pasta de couro estufada de relatórios.
O quarto cheirava a isolamento e ao ozônio do purificador de ar. Adam estava sentado em sua poltrona de nogueira forrada, gasta e puida, a bengala apoiada entre as pernas, observando o horizonte como se esperasse o retorno de um tempo que não existia mais.
- O gado da invernada sul foi vacinado, pai - Addison começou, a voz firme, embora o cansaço pesasse em suas pálpebras. - E recuperei os registros de linhagem que o Caleb tentou apagar. O Scott Legacy está operando no azul pela primeira vez em cinco anos.
Adam não desviou o olhar da janela, pensativo.
- Números, Addison. Você sempre foi boa com eles. Lembra-se de quando tinha seis anos? Sua mãe te deu uma boneca a pilha e você a desmontou para entender como as articulações funcionavam. Você não queria brincar de ser mãe; você queria ser o engenheiro que a projetou.
Ele soltou um riso seco, que logo se transformou em uma tosse rascante. - Naquela época, eu achei engraçado. Orgulhei-me da sua mente brilhante. Martha dizia que você herdara a minha teimosia, mas o coração dela. Ela sonhava em ver você correndo por estes pastos com seus próprios filhos... netos que carregariam o sangue Scott.
- Minha mãe amava esta terra, mas ela também me amava, pai - Addison rebateu, aproximando-se. - Ela teria entendido que a minha felicidade não cabe em um molde de ferro fundido do século passado.
- Felicidade? - Adam finalmente a encarou, os olhos nublados pela catarata e pela decepção. - Você chama de felicidade viver uma mentira? Construir um castelo de cartas com aquele... aquele artista de Tucson?. Eu imaginei que o Briam fosse o pilar que você precisava. Um homem de nome, um herdeiro para os nossos cavalos. Em vez disso, descobri que minha filha é uma estranha que prefere a companhia de uma estrangeira arrogante a honrar a memória da própria mãe.
Addison sentiu o golpe, mas não recuou. O pensamento em Itzel, o "incêndio de paixão" que a mantinha viva, deu-lhe forças. - O Briam foi um erro de cálculo, eu admito. Foi o preço que paguei para que o senhor me deixasse em paz para ser quem eu sou no mundo lá fora. Mas Itzel... Itzel não é uma "estranha". Ela é a mulher que me desafia, que me entende e que tem mais coragem em um dedo do que o Briam teve em toda a vida dele.
- Ela é o fim da nossa linhagem! - Adam bateu a bengala no chão, o som ecoando como um tiro. - Quem vai herdar isso aqui, Addison? As máquinas? Seus computadores? Uma terra sem herdeiros é apenas como um casarão velho. Eu vejo você com essas roupas de trabalho, montando o Apolo como se tivesse nascido na sela, e meu coração dói porque sei que toda essa competência morre com você. Você está matando o nome Scott para viver um capricho.
- Não é um capricho, pai. É a minha vida! - Addison exclamou, deixando a pasta cair sobre a mesa. - O senhor fala de continuidade, mas o que o senhor realmente quer é controle. O senhor prefere um neto de fachada, fruto de um casamento infeliz, a uma filha real que salvou seu rancho da ruína financeira e moral.. O senhor prefere morrer abraçado a fantasmas do que aceitar a mulher poderosa que eu me tornei?
Adam fechou os olhos, a mão trêmula buscando o cateter de oxigênio. - Eu vejo a Martha em você todos os dias, Addie. Mas a Martha que eu conheci nunca teria escondido a verdade de mim por dez anos.
- Eu não tive escolha! - Addison sussurrou, a voz embargada. - O senhor nunca me deu espaço para ser nada além da "Princesa Scott". O senhor criou uma expectativa que nenhuma mulher de carne e osso poderia preencher.
Ela caminhou até a porta, parando antes de sair.
- O rancho está seguro, pai. O legado físico está intacto. Se o senhor quiser que o legado emocional também sobreviva, vai ter que aprender a olhar para mim sem procurar o reflexo de um neto que nunca existiu. Eu sou Addison Scott. Engenheira, agora criadora de cavalos e a mulher que ama Itzel Mendoza. E nada, nem o senhor, nem o tempo, vai mudar isso.
Addison saiu e fechou a porta, deixando Adam sozinho com o silêncio e as sombras de um sonho antigo e ultrapassado que se recusava a perdoar. Mal sabia ela que, do lado de fora, Caleb Riggs já riscava o fósforo que transformaria aquela disputa de palavras em um inferno de cinzas.
***
Caleb Riggs estava no escuro do celeiro principal do Rancho Scott. A luz da lua filtrava-se pelas frestas, iluminando seu sorriso torto e cruel. Ele riscou um fósforo apenas para ver a chama dançar diante de seus olhos.
- Vá em frente, princesa - sussurrou para as sombras, o cheiro de combustível subindo pelas suas narinas como um perfume de vingança. - Aproveite bem tudo isso. Prometo que não vai sobrar nada além de cinzas para você herdar.
***
O escritório do rancho era o único lugar onde Addison sentia que a vida ainda lhe pertencia, um contraste gritante com o mofo e as tradições que asfixiavam o resto da propriedade. Ela fechou a porta pesada de carvalho, abafando o som dos passos de seu pai no corredor, e sentou-se diante do laptop. O brilho da tela era a única luz em meio à penumbra do crepúsculo que tingia o deserto de violeta.
Ela discou o número de Itzel. Uma vez. Duas vezes. Na terceira, caiu direto na caixa postal.
- Droga, Itzel... atende - sussurrou Addison para o vazio, largando o celular sobre a mesa com um estalo seco.
A frustração não era apenas pelo silêncio, mas pelo abismo que se abria a cada hora que passava naquele rancho. Sem o som da voz de Itzel, as memórias do México começavam a invadir o escritório como uma maré persistente.
Addison fechou os olhos e, por um momento, não estava mais no calor seco do Arizona, mas na umidade vibrante da Cidade do México.
Lembrou-se de uma noite específica. Elas tinham escapado de um evento corporativo exaustivo. Itzel, com seu vestido de seda esmeralda que parecia brilhar sob as luzes da rua, a puxara para uma pequena cantina escondida, longe dos olhares da elite empresarial.
"Aqui as pessoas não fingem, Addie," Itzel dissera, servindo-lhe um mezcal artesanal. "Aqui, você não é a 'Engenheira Scott' e eu não sou a 'Mendoza Implacável'. Somos apenas duas mulheres tentando encontrar um pouco de verdade no meio de tanto aço e concreto."
Addison sorriu involuntariamente ao lembrar do gosto aromático da bebida e da risada de Itzel quando tentaram dançar em um espaço minúsculo entre as mesas, as mãos entrelaçadas, ignorando os protocolos que ambas deveriam seguir. No México, Itzel era sua bússola; ela a ensinara que a engenharia, os números e a lógica podiam coexistir com a paixão e o caos.
A vibração do celular a trouxe de volta. O coração de Addison saltou, mas era apenas um alerta de segurança das câmeras do perímetro sul. Nenhuma mensagem. Nenhum retorno.
Ela abriu a galeria de fotos e parou em uma imagem de dois anos atrás: as duas em frente às pirâmides de Teotihuacán ao amanhecer.
Itzel estava com o cabelo bagunçado pelo vento, apontando para o topo da Pirâmide do Sol, desafiando Addison a subir cada degrau apesar do cansaço. "A vista lá de cima muda a perspectiva sobre quem você é, mi amor. Não se contente com o horizonte que os outros desenharam para você. Faça o seu próprio."
- Eu não estou me contentando, Itzel - disse Addison para a foto, sentindo um nó na garganta. - Mas o horizonte aqui não está nada bom.
Ela tentou digitar uma mensagem, mas os dedos travaram sobre o teclado. Como explicar que estava lutando contra o fantasma imponente de uma mãe que nunca conheceu de verdade e um pai que a via como uma máquina de reprodução? Como dizer que, no Arizona, ela sentia que estava perdendo a Addison que Itzel ajudara a construir?
Addison recostou-se na cadeira, olhando para os relatórios financeiros espalhados. O sucesso do rancho parecia uma vitória vazia se ela não tivesse Itzel para dividir o brinde. O silêncio do telefone era o lembrete mais cruel de que, enquanto ela salvava o império de Adam Scott, estava deixando o seu próprio santuário desmoronar no México.
Ela tentou ligar mais uma vez. O toque monótono da chamada não atendida ecoou pelo escritório, misturando-se ao uivo do vento que começava a soprar lá fora, trazendo o cheiro acre de algo queimando ao longe. O confronto com o pai fora exaustivo, mas a batalha contra o silêncio de Itzel estava começando a derrotá-la.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]