Capitulo 23
O despertador tocou cedo demais para uma noite que parecia ter terminado há poucos minutos. A luz suave da manhã atravessava os painéis de vidro da casa, refletindo em tons dourados pelo quarto ainda marcado pelo calor da noite anterior.
Amanda já estava acordada.
Sentada na beirada da cama, terminava de prender o cabelo enquanto revisava rapidamente as primeiras notificações do celular. O semblante ainda era sereno, mas a postura mostrava que sua mente já havia voltado para a empresa. Para as reuniões. Para os problemas que, inevitavelmente, continuavam esperando por ela.
Atrás dela, Fernanda continuava deitada, um braço jogado sobre os olhos, claramente resistindo a qualquer contato com a realidade.
Amanda virou o rosto, observando-a por alguns segundos, contendo um sorriso.
— Eu não sabia que investigadoras gostosas também tinham dificuldade para acordar.
Fernanda resmungou alguma coisa incompreensível contra o travesseiro.
Amanda se aproximou, inclinando-se sobre ela.
— Fê...
Fernanda abriu um olho só.
— Agradeço o elogio, mas depois da noite que você me fez ter... acho que mereço pelo menos mais vinte minutos de dignidade.
Amanda soltou uma risada baixa.
— Você tem cinco. E eu estou sendo generosa.
Fernanda finalmente abriu os olhos, encontrando Amanda já impecavelmente arrumada.
E, por um segundo... esqueceu completamente porque precisava levantar.
— Isso devia ser crime. — Murmurou, passando a mão no rosto.
Amanda arqueou uma sobrancelha.
— Então se levanta antes que eu te atrase de novo.
Pouco tempo depois, as duas estavam na cozinha, tomando um café rápido. Sem cerimônia. Sem grandes discursos. Apenas o silêncio confortável de duas mulheres que, mesmo com a rotina atropelando, ainda encontravam pequenos momentos uma na outra.
Amanda sugeriu que Fernanda fosse com ela e depois seu motorista a deixava no seu apartamento. No caminho até a empresa, o clima no carro era mais leve do que vinha sendo nos últimos dias. Amanda falava sobre os compromissos da manhã enquanto Fernanda, mais quieta, apenas a observava de vez em quando, como se ainda estivesse processando a versão dela que havia conhecido na noite anterior.
Quando chegaram ao estacionamento subterrâneo da sede do Grupo Bastos, Amanda se inclinou antes de sair.
— Nos falamos depois?
Fernanda segurou discretamente sua mão por um segundo.
— Você nem precisava perguntar.
Amanda sorriu, depositou um beijo rápido no canto da boca dela e saiu do carro.
Fernanda acompanhou Amanda entrando no elevador... até algo chamar sua atenção.
Do outro lado do estacionamento, Carla acabava de sair do próprio carro.
Os passos eram rápidos demais. A expressão em seu rosto estava séria e o mais importante... ela não tinha percebido que Fernanda ainda estava ali.
Carla mantinha o telefone junto ao ouvido, a voz baixa, mas não baixa o suficiente. Fernanda abaixou discretamente o vidro do carro, ficando em silêncio.
— Eu já disse que os contratos não estão com ela... — Carla falava, claramente irritada. — Os arquivos políticos ainda estão protegidos. Mas, se Amanda continuar pressionando a TI, a situação pode sair do controle.
Fernanda congelou.
Carla continuou andando, sem perceber que estava sendo ouvida.
— Não... os depósitos continuam divididos. Ninguém ligou as contas ainda. Só preciso de mais tempo.
Fernanda sentiu o estômago contrair.
Jadir estava certo, havia mesmo alguém de dentro.
E, naquele instante, as suspeitas que ela e Amanda vinham acumulando finalmente deixavam de ser teoria, agora havia confirmação.
Fernanda observou Carla desaparecer em direção aos elevadores, enquanto sua mente já começava a ligar todas as peças.
Ela puxou o celular do bolso e enviou uma única mensagem para Amanda:
“Vamos almoçar juntas hoje naquele restaurante que você gosta perto da empresa. Ainda vou confirmar, mas acredito que descobri quem é a informante.”
Sem esperar resposta, ergueu os olhos para o motorista.
— Muda a rota.
O homem olhou pelo retrovisor.
— Para onde, doutora Fernanda?
Ela manteve os olhos fixos na entrada do prédio.
A voz saiu baixa. Fria. Decidida.
— Delegacia.
Porque, se Carla realmente tinha escolhido um lado...
Fernanda faria questão de descobrir até onde aquela traição chegava.
Quando saiu da sede do Grupo Bastos naquela manhã, sua cabeça já não estava mais no gosto do café que mal conseguiu tomar, nem no perfume de Amanda ainda impregnado discretamente em sua camisa. Estava em Carla. Na ligação. No tom de voz. Nas palavras mal escolhidas e, principalmente, no nervosismo que ela tentou esconder no estacionamento.
No caminho até a delegacia, Fernanda quase não falou. Observava a cidade passando pelo vidro do carro enquanto sua mente revisitava cada detalhe da cena, remontando palavras, expressões, pausas. Jadir havia mencionado um infiltrado. Durante dias aquilo foi apenas mais uma peça em um quebra-cabeça grande demais. Agora... deixava de ser teoria.
Assim que entrou na delegacia, passou direto pelos corredores movimentados, ignorando cumprimentos e perguntas atravessadas. Entrou no vestiário reservado da equipe, abriu seu armário de metal e retirou a roupa que deixava ali para operações mais longas. A calça escura, a camiseta da Polícia Civil, o coldre, o cabelo preso em um coque firme. Em poucos minutos, a mulher que horas antes estava entre lençóis e promessas havia desaparecido. No lugar dela, restava apenas a investigadora.
Quando entrou em sua sala, Paulinho já estava diante dos monitores, mexendo em alguns relatórios.
— Pela sua cara... alguém resolveu falar demais.
Fernanda jogou a bolsa sobre a mesa e puxou a cadeira.
— Carla, a secretária de Amanda.
Paulinho virou imediatamente.
— Confirmado?
Fernanda assentiu, já abrindo o notebook.
— Não oficialmente. Mas ouvi o suficiente.
Paulinho não perdeu tempo. Em poucos minutos, os dois estavam mergulhados em dados bancários, registros telefônicos, notas fiscais, movimentações de GPS, câmeras de trânsito e relatórios financeiros. Quanto mais cavavam... pior ficava.
As primeiras inconsistências surgiram rápido demais para serem coincidência. Depósitos incompatíveis com o salário.
Saques em dinheiro sempre feitos em valores calculados para não disparar alertas automáticos. Transferências fracionadas. Pagamentos vinculados a empresas abertas há poucos meses em nomes de terceiros.
Paulinho ampliou uma das telas.
— Ou ela é péssima com finanças... ou alguém está pagando muito bem pelo silêncio dela.
Fernanda cruzou os braços, observando os números. Não era ganância comum, aquilo tinha padrão, um método e alguém orientando.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, encarando a tela, até que Paulinho reconheceu aquele olhar.
— Você pensou em alguma coisa né?
Fernanda se inclinou na cadeira, um sorriso curto surgindo no canto da boca.
— Não vou correr atrás dela.
Paulinho arqueou a sobrancelha.
Fernanda fechou uma das abas e pegou o celular.
— Vou fazê-la correr até nós.
Amanda chegou ao restaurante para o almoço ainda com a cabeça cheia das reuniões da manhã. Tinha passado boa parte do tempo tentando reorganizar contratos, remanejar agendas e apagar os incêndios que surgiam em cada setor da empresa.
Mas assim que viu Fernanda sentada à mesa, percebeu, havia algo diferente. Ela não encontrou nada do sorriso provocador, nenhuma ironia e muito menos provocação sobre a noite anterior.
Só foco.
Amanda sentou devagar.
— O que aconteceu?
Fernanda deslizou uma pasta sobre a mesa. Amanda abriu. As primeiras folhas bastaram. Eram extratos, datas, nomes de empresas e movimentações.
O rosto dela perdeu um pouco da cor.
— Carla...
Fernanda assentiu.
Amanda fechou a pasta lentamente, absorvendo tudo.
Pela primeira vez, algumas pequenas situações começaram a fazer sentido. Reuniões remarcadas sem explicação. Documentos desaparecendo temporariamente. Informações internas chegando rápido demais à imprensa.
Amanda ergueu os olhos.
— O que você precisa?
Fernanda se inclinou um pouco sobre a mesa.
— Que você entregue uma mentira... como se fosse verdade.
Amanda a observou por alguns segundos.
Depois sorriu de leve.
— Você está começando a gostar de me colocar em situações perigosas.
Fernanda sustentou o olhar.
— Não. Eu só confio que você sabe jogar.
No fim da tarde, Amanda chamou Carla até sua sala. O tom foi natural. Casual, como se nada tivesse mudado e como se ainda confiasse nela.
— Gomes conseguiu recuperar parte dos contratos originais. Pedi para ele me entregar tudo até às 18hs, não vou conseguir ficar para recebe-lo, você consegue pegar pra mim?
Carla tentou manter a expressão neutra. Mas Amanda percebeu.
O pequeno endurecimento da mandíbula, o segundo extra de silêncio e aquele brilho nervoso no olhar.
Era pouco.
Mas era suficiente.
— Claro!
Pouco depois, Carla estava no telefone, andando de um lado para o outro no estacionamento lateral da empresa.
A voz baixa. Tensa.
— Eles conseguiram recuperar os arquivos.
Do outro lado, Elias demorou a responder.
O ruído abafado indicava que ele estava em algum lugar público.
— Estou em audiência.
— Elias, eu preciso falar com você pessoalmente.
— Não pode esperar.
A voz dele veio fria. Distante.
— Vou mandar alguém buscar.
A ligação caiu.
E pela primeira vez naquele dia... Carla sentiu medo.
Quando o carro preto estacionou na área de carga, Carla já segurava o envelope com as mãos úmidas.
O homem saiu do veículo sem dizer uma palavra. Ela entregou o material e no segundo seguinte...
Faróis acenderam.
Passos.
Vozes.
— Polícia Civil! Ninguém se mexe!
O homem tentou correr.
Paulinho o derrubou antes do segundo passo.
Carla congelou.
Olhou para trás e depois para frente.
E fez a única coisa que seu instinto permitiu.
Correu.
Fernanda ainda tentou alcançá-la, mas Carla conhecia bem demais os acessos de serviço da empresa. Quando Carla desapareceu, Fernanda freou por um segundo, observando o vazio onde ela havia sumido. A frustração veio imediata, quase física. Estavam tão perto.
Paulinho imobilizava o homem preso enquanto gritava algo para a equipe, mas Fernanda mal ouviu. Sua mente já trabalhava em outra direção.
Carla não fugiria sem um plano. Não depois de perceber que havia sido exposta. Ela iria procurar proteção. Alguém com poder suficiente para escondê-la... ou silenciá-la. Fernanda teve a sensação incômoda de que Carla talvez fosse apenas uma peça menor dentro de algo muito maior.
Já era noite quando Carla estacionou em frente à casa de Elias. As mãos tremiam tanto que ela precisou tentar duas vezes antes de desligar o carro.
Ela esperou quase vinte minutos até que ele aparecesse. Terno impecável, postura calma, como se nada estivesse acontecendo.
Assim que o viu, Carla correu até ele.
— Eles sabiam. Era uma armadilha.
Elias não respondeu.
Apenas abriu a porta e entrou.
Ela o seguiu.
Lá dentro, Carla começou a andar de um lado para outro, falando rápido demais, respirando rápido demais.
— Eles pegaram o entregador. Fernanda está em cima de mim. Amanda sabe alguma coisa...
Elias tirou lentamente o relógio.
Depois afrouxou a gravata.
Calmo demais.
Silencioso demais.
Carla parou.
Algo dentro dela finalmente entendeu.
— Elias...
Ele se aproximou, quase gentil. Tocou seu rosto por um breve instante.
— Você foi importante.
E, naquele momento...
Carla entendeu que nunca foi amante, parceira ou alguma escolha para ele, sempre foi descartável.
Horas depois, sozinho em seu escritório, Elias observava um celular queimando lentamente dentro da lareira.
Pegou outro aparelho. Discou um número e esperou atender.
E então disse, em voz baixa:
— Preciso de uma equipe de limpeza no meu apartamento. Se Amanda Bastos quer guerra...
Seus olhos escureceram.
— Então vamos começar.
E desligou.
Fim do capítulo
Sim, eu dei romance, ciúmes e tensão, daí depois destruí a paz delas imediatamente.
Desculpa aí gente, mas os malvadões ainda estão á solta.
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