Gente,
Desculpa o capítulo um pouco mais longo, mas nossas queridas estavam precisando de um momento só delas pra se curtir.
Beijos e boa leitura
Capitulo 22
Depois dos últimos acontecimentos na empresa, da pressão constante das reuniões, da exposição pública e das novas peças surgindo na investigação, Amanda sentiu, pela primeira vez em semanas, que conseguia respirar sem carregar o peso de tudo ao mesmo tempo. Ainda havia perguntas sem resposta, aliados em quem não sabia se podia confiar e ameaças se movimentando nos bastidores, mas naquela noite, por alguns instantes, ela se permitiu reconhecer algo que há dias parecia impossível: apesar do caos, estava começando a retomar o controle.
Já Fernanda ainda carregava a mente presa às peças que continuavam fora do lugar. A morte de Eduardo, a prisão de Jadir, os contratos manipulados, as conexões políticas que ainda não haviam vindo à tona, o dinheiro desviado circulando por caminhos cada vez mais difíceis de rastrear. Mesmo longe da delegacia, parte dela continuava investigando, cruzando possibilidades, antecipando movimentos. Mas, ao olhar para Amanda naquela noite, enxergou algo além da mulher firme que enfrentara uma sala inteira horas antes. Havia cansaço, tensão acumulada... e uma necessidade silenciosa de respirar por algumas horas. E, no fundo, Fernanda percebeu que talvez Amanda não fosse a única precisando disso. Talvez, depois de tantos dias mergulhada em caos, ela também precisasse lembrar como era simplesmente estar ali... com alguém.
Fernanda encosta na bancada da cozinha, braços cruzados, observando Amanda terminar de enviar um e-mail antes de subir para se arrumar.
— Você sabe que isso não significa que eu desliguei meu cérebro... — Fernanda diz.
Amanda para de digitar, para responder Fernanda.
— E eu espero que não. É justamente por isso que quero você comigo.
Fernanda sorri de canto.
— Então hoje é fuga estratégica?
Amanda se vira.
— Hoje... é só uma noite.
Fernanda a observa em silêncio por dois segundos.
— Isso me preocupa.
Amanda sorri.
— Você me prefere sob pressão?
— Eu prefiro você... de qualquer jeito.
— Então eu vou subir para me arrumar que já terminei aqui.
Para aquela ocasião, Amanda escolheu algo que equilibrava sua essência corporativa, uma calça de alfaiataria preta com um corte impecável, combinando com um body de seda vinho, de decote discreto, mas impossível de ignorar. Para espantar o frio, um blazer oversized preto, usado aberto e pra fechar um salto fino. Usou seu perfume amadeirado com notas de baunilha que Fernanda sempre elogiava, o cabelo solto em ondas leves e uma maquiagem marcada nos olhos. Ela é o tipo de mulher que entrava em um ambiente e mudava a temperatura dele.
Quando desceu, Fernanda simplesmente parou de falar, ficou ali, literalmente babando por Amanda, mas ela também não ficava pra trás no quesito beleza e estilo, escolheu uma calça preta de cintura alta combinando com uma camisa branca parcialmente aberta no colo e um blazer cinza escuro. De acessório, usou um relógio clássico da sua coleção que ela amava, prendeu o cabelo num coque baixo propositalmente desarrumado, era a sofisticação com perigo.
Amanda travou por um segundo.
— Você fez isso de propósito.
Fernanda ergueu uma sobrancelha.
— Está me acusando de quê?
Amanda se aproximou devagar.
— De saber exatamente como me desmontar... e ainda assim fazer isso com calma.
Elas se aproximam e se beijam ardentemente.
— Acho melhor a gente ir logo ou te levo para aquele quarto em um piscar de olhos. — Disse Fernanda terminando o beijo.
Amanda sorriu, pegou em sua mão e saíram em direção a porta. Mas, como quase tudo envolvendo Amanda Bastos, sair no horário parecia um conceito teórico. Antes mesmo de alcançarem a garagem, o celular dela vibrou mais uma vez. Depois outra. Notificações da empresa, mensagens do comitê, atualizações da auditoria, um e-mail marcado como urgente. Amanda fechou os olhos por um segundo, soltando um suspiro contido.
Fernanda observou em silêncio, encostada no carro, já sabendo exatamente o que passava na cabeça dela.
Amanda desbloqueou a tela, respondeu duas mensagens curtas, recusou uma ligação e, mesmo depois disso, continuou encarando o celular por alguns segundos... como se uma parte dela ainda estivesse naquele prédio de vidro.
— Amanda. — A voz de Fernanda saiu baixa, mas firme.
Ela ergueu os olhos.
Fernanda estendeu a mão.
— Hoje não.
Amanda sustentou o olhar por um instante... até, finalmente, desligar a tela e guardar o celular na bolsa.
— Você tem razão.
Amanda sustentou o olhar por mais alguns segundos antes de sorrir, entrelaçando os dedos aos de Fernanda. Sem dizer mais nada, conduziu-a até a garagem.
Naquela noite, diferente do habitual, nenhuma das duas iria dirigir. Com a exposição terminando mais tarde e depois de semanas em que ambas haviam vivido em estado constante de alerta, Amanda decidiu dispensar qualquer preocupação extra. O motorista particular da família já as aguardava ao lado do carro, impecavelmente alinhado, mantendo a discrição de sempre enquanto abria a porta traseira para as duas.
Assim que entraram, Fernanda se acomodou no banco de couro e, pela primeira vez desde que saíram da casa, pareceu realmente relaxar. Mas o momento durou pouco. Um som baixo, porém, impossível de ignorar, rompeu o silêncio elegante do carro.
Fernanda fechou os olhos por um segundo.
Amanda virou lentamente o rosto para ela, tentando manter a expressão séria... sem sucesso.
— Isso foi...? — perguntou, segurando o sorriso.
Fernanda passou a mão pela barriga, completamente sem vergonha.
— Desde que você apareceu daquele jeito, meu corpo ficou ocupado com outras prioridades. Comer não era uma delas.
Amanda soltou uma risada genuína, daquelas que há dias não saíam com tanta facilidade.
— Então antes da arte... vamos resolver isso.
Fernanda inclinou-se um pouco mais perto, olhando diretamente para sua boca.
— Se depender de mim, a fome principal ainda não é essa.
Amanda mordeu o canto do lábio, sentindo o calor subir pela nuca, antes de bater levemente na perna dela.
— Comporte-se.
Ela então se inclinou para frente, falando com o motorista:
— Carlos, faz uma parada para a gente? Algum lugar rápido no caminho.
— Claro, Senhora Amanda.
E alguns minutos depois, o carro reduzia a velocidade diante de um dos containers iluminados que ainda movimentavam a noite, elas param num Madero Container, que funciona muito bem em São Paulo para algo rápido.
Acabam comendo no carro mesmo, escolheram 2 cheeseburger artesanais, fritas com alho e alecrim e claro, refrigerante.
Fernanda observa Amanda comer.
— Você sabe que isso é indecentemente sexy?
Amanda quase engasga.
— Eu literalmente estou comendo batata.
Fernanda:
— Exatamente.
Depois do lanche rápido, retomaram o trajeto pelas avenidas iluminadas de São Paulo. Do lado de fora, a cidade parecia pulsar em um ritmo próprio. Faróis riscavam a noite como linhas vivas, motocicletas costuravam o trânsito entre carros, pessoas ainda ocupavam calçadas, bares, esquinas, pontos de ônibus. São Paulo parecia nunca realmente desacelerar. Apenas mudava de ritmo.
Amanda observava pela janela com o olhar mais leve do que nos últimos dias. Pela primeira vez em muito tempo, não estava revisando relatórios, atendendo ligações ou pensando em crises. Pelo menos... não com a mesma intensidade.
Fernanda, ao lado, mantinha uma postura aparentemente relaxada, mas seus olhos não conseguiam ficar longe de Amanda por muito tempo. Entre observar a cidade e observar aquela mulher, sua atenção parecia sempre voltar para o mesmo lugar.
— Se continuar me olhando assim, a gente não chega no museu. — Amanda comentou, sem tirar os olhos da janela.
Fernanda sorriu de canto.
— E você fala isso como se fosse um problema.
Amanda apenas balançou a cabeça, contendo um sorriso.
Pouco depois, o carro desacelerou diante de um dos pontos mais emblemáticos da Avenida Paulista.
O MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand surgia imponente sob a iluminação noturna. O vão livre, iluminado em tons quentes, parecia ainda mais grandioso cercado pela energia da cidade. Pessoas bem vestidas circulavam pela entrada, vozes baixas se misturavam ao som distante do trânsito e à movimentação constante da avenida.
Assim que desceram do carro, o vento frio da noite tocou a pele de Amanda, fazendo o perfume amadeirado se espalhar discretamente no ar. Fernanda percebeu... e, por alguns segundos, esqueceu completamente onde estavam.
— Concentra. — Amanda murmurou, divertida, enquanto ajustava o blazer.
Fernanda passou a língua discretamente pelos lábios.
— Estou tentando.
Elas entraram.
O ambiente interno tinha aquela mistura característica de sofisticação e silêncio respeitoso. Luzes direcionadas iluminavam as obras enquanto pequenas rodas de conversa se formavam entre jornalistas, críticos de arte, empresários e convidados. Taças circulavam. Perfumes caros se misturavam ao cheiro limpo do espaço climatizado.
No centro da exposição, em letras discretas sobre a parede branca, o nome da mostra chamava atenção:
As cidades que nunca dormem de Maria Cândido Arauto.
A primeira fotografia ocupava quase toda uma parede, uma imagem em preto e branco de um vendedor ambulante, parado sob uma marquise durante a chuva, segurando um guarda-chuva quebrado enquanto, ao fundo, a cidade continuava correndo como se ele não existisse.
Fernanda parou diante da imagem.
— Isso é... pesado.
Amanda assentiu em silêncio.
Seguiram adiante.
Uma nova sequência mostrava o metrô paulistano em horário de pico. Rostos cansados. Olhares vazios. Pessoas tão próximas umas das outras... e ainda assim completamente sozinhas.
Mais à frente, uma fotografia de um prédio iluminado na madrugada. Centenas de janelas. Algumas acesas. Outras completamente escuras. Em uma delas, uma única silhueta parada diante do vidro.
Fernanda observou por alguns segundos.
— Dá uma sensação estranha... como se todo mundo estivesse cercado de gente... e ainda assim completamente isolado.
Amanda olhou para a obra, depois para Fernanda.
— Esse sempre foi o olhar dela.
Fernanda virou o rosto.
— Dela?
Amanda sorriu de lado. Um sorriso diferente. Mais íntimo. Mais antigo.
— Da Mari.
Fernanda arqueou uma sobrancelha, fazendo com que Amanda sorrisse.
— Maria Cândido. Eu a chamo assim desde a faculdade.
Pausa. O olhar dela ficou mais distante por um instante, quase nostálgico.
— A gente dividiu um quarto na república por quase dois anos. Cursos diferentes... rotinas completamente opostas, mas, de alguma forma, funcionava.
Fernanda cruzou os braços, fingindo casualidade demais.
— "Mari", hm?
Amanda percebeu a mudança na voz dela. Fernanda não parecia preocupada com política, assassinato ou corrupção.
Parecia só... com ciúmes e ao desviar o olhar para que Fernanda não descobrisse o seu sorriso vitorioso, Amanda reconheceu a mulher cercada por jornalistas, fotógrafos e convidados.
Por um segundo, a postura firme simplesmente desapareceu.
— Não acredito...
Do outro lado do salão, Maria Cândido virou o rosto ao ouvir aquela voz. Levou menos de dois segundos para reconhecer.
— Mandy?
O sorriso largo e verdadeiro surgiu instantaneamente.
Sem pensar, Mari atravessou parte da galeria em passos rápidos, ignorando completamente quem tentava falar com ela no caminho, e envolveu Amanda em um abraço apertado. Daqueles que carregavam anos, memórias e saudade demais para caber em palavras.
— Meu Deus... olha você... — Mari segurou o rosto dela entre as mãos, analisando-a como se ainda tentasse processar. — Continua linda, mandona... e com essa cara de quem resolve a vida de todo mundo.
Amanda riu, balançando a cabeça.
— E você continua dramática.
— Dramática? — Mari levou a mão ao peito, ofendida de brincadeira. — Mandy, a gente dividiu o mesmo quarto por quase três anos. Eu vi você estudar quarenta e oito horas sem dormir, brigar por café e expulsar gente da república porque mexeram nos seus livros. Eu tenho provas suficientes para acabar com sua reputação.
Amanda soltou uma gargalhada genuína, daquelas raras.
— Você roubava meu cobertor quase toda noite.
— Porque você dormia ocupando metade da cama.
As duas se olharam por um instante... e o tipo de cumplicidade entre elas ficou evidente demais.
Mari então desviou o olhar para Fernanda.
Sorriu.
Estendeu a mão.
— E você deve ser a famosa Fernanda.
Fernanda arqueou uma sobrancelha.
— Famosa?
Mari sorriu ainda mais.
— Amanda falou de você quando fiz o convite para a exposição.
Amanda quase engasgou.
— Mari...
Fernanda apertou a mão dela, mantendo a elegância.
— Prazer.
Mari inclinou a cabeça, divertida.
— Prazer nada. Se a Mandy gosta de você, eu já gosto também. Posso te chamar de Fê?
Fernanda lançou um olhar rápido para Amanda antes de voltar para Mari.
— Acho que você acabou de decidir isso sozinha.
Mari riu.
— É, eu tinha esse costume na faculdade também. Entrava na vida das pessoas e, quando percebiam... já estava dando apelido, pegando comida do prato e oferecendo conselho que ninguém pediu.
Amanda observava tudo em silêncio, mas conhecia Fernanda o suficiente para perceber. Era quase imperceptível, o maxilar um pouco mais travado, os braços discretamente cruzados e o olhar atento demais para uma conversa casual. Aquilo era ciúmes.
Amanda mordeu discretamente o canto do lábio, tentando não sorrir e antes que pudesse provocar, um homem de terno se aproximou de Mari, falando algo sobre imprensa e patrocinadores.
Mari fechou os olhos por um segundo, claramente contrariada.
— O glamour da arte... sempre me perseguindo.
Ela voltou para as duas.
Tocou de leve o braço de Amanda.
— Não some de novo, ouviu? Depois de tantos anos, você me aparece desse jeito... e vai embora? Nem pensar.
Depois olhou para Fernanda.
— Fê, cuida dessa mulher. Ela sempre teve a péssima mania de carregar o mundo sozinha.
Fernanda, dessa vez, sorriu de verdade.
— Pode deixar. Essa parte... eu já estou aprendendo.
Mari abriu um sorriso satisfeito.
— Ótimo. Então vamos marcar alguma coisa. Sem imprensa, sem salto, sem pose... igual antigamente.
Amanda assentiu.
— Combinado.
Mari piscou para as duas antes de se afastar novamente entre os convidados.
E, no instante em que ela sumiu entre as pessoas, Amanda virou lentamente para Fernanda... já sabendo exatamente o que encontraria naquele olhar.
— Você está com ciúmes?
Fernanda:
— Não.
Amanda sorri.
— Seu maxilar travou.
Fernanda:
— Ela conhece versões suas que eu ainda não conheço.
Amanda suaviza se aproximando do ouvido dela.
— E você conhece versões minhas... que ninguém mais vai conhecer.
Fernanda engole seco.
Amanda beija discretamente a mandíbula dela, fazendo com que Fernanda fechasse os olhos e, como mágica, o ciúme foi dissolvido e ali, naquele momento, ela percebe que Maria Cândido já não era mais o centro do problema.
Amanda era.
Depois da pequena cena de ciúmes de Fernanda, Amanda mudou. Um brilho diferente atravessou seu olhar. Mais ousado e perigosamente consciente do efeito que causava e naquela noite, Amanda decidiu brincar.
E Fernanda entendeu isso cedo demais.
Era o jeito como Amanda sorria sem realmente sorrir, deixando apenas um canto da boca se mover toda vez que flagrava Fernanda olhando. Era a calma quase provocativa com que sustentava o contato visual por tempo demais, como se quisesse deixá-la desconfortável... ou excitada, ou talvez os dois.
E havia o resto.
O perfume amadeirado se misturando ao ar frio da galeria. O som dos saltos marcando presença no piso enquanto caminhava entre as obras com aquela segurança que parecia dominar qualquer ambiente. O movimento lento dos dedos ajustando o blazer aberto. A forma como inclinava o pescoço para observar uma fotografia, deixando a pele exposta por segundos preciosos demais.
Fernanda tentou prestar atenção na exposição focando nas fotografias, nas texturas, nos rostos capturados por Mari, na cidade congelada em preto e branco, mas Amanda não estava facilitando.
Toda vez que ela se movia, passava perto demais. Toda vez que falava, sua voz saía um pouco mais baixa do que precisava. Toda vez que olhava... parecia escolher exatamente onde queria atingir.
E Fernanda estava começando a perder a guerra.
Pararam diante de uma fotografia enorme de prédios iluminados na madrugada. Centenas de janelas acesas. Solidão cercada de concreto. Amanda se aproximou como se fosse comentar a obra, mas, em vez de olhar para a imagem, inclinou-se até a altura do ouvido de Fernanda. Tão perto que sua respiração roçou a pele dela antes das palavras chegarem.
— Você não viu metade dessa exposição.
A voz saiu baixa. Quente. Deliberada.
Fernanda sentiu um arrepio atravessar a nuca até as costas.
Tentou manter a postura.
— E a culpa é toda sua.
Amanda soltou um sorriso lento. Daqueles que desmontavam qualquer defesa.
— Não. — Ela sussurrou. — Isso foi escolha sua.
E, antes que Fernanda respondesse, Amanda passou à frente dela, mas, ao cruzar seu caminho, deixou os dedos escorregarem pela parte interna do pulso de Fernanda. Lento. Preciso. Íntimo demais para um toque casual.
Fernanda travou. Respirou fundo e quando conseguiu se mover de novo, Amanda já estava alguns passos à frente, observando outra fotografia como se absolutamente nada tivesse acontecido.
Fernanda aproximou-se outra vez. Mais perto agora. Mais vulnerável.
Amanda nem olhou de imediato, só quando sentiu a presença dela ao lado que virou o rosto.
E, como se soubesse exatamente o estrago que estava causando, pousou a mão na cintura de Fernanda. A palma quente sobre o tecido. Os dedos pressionando devagar, segurando e marcando presença.
Fernanda fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu... Amanda já estava olhando diretamente para ela, com aquele olhar mais intenso e perigoso.
— O que foi? — Amanda perguntou, com uma inocência que não convencia ninguém.
Fernanda aproximou-se até que qualquer pessoa ao redor pudesse achar que estavam apenas comentando uma obra.
Mas sua voz saiu baixa. Tensa.
— Você está brincando com fogo.
Amanda inclinou o rosto apenas alguns centímetros.
— E você... — os dedos dela apertaram levemente a cintura de Fernanda — está tentando fingir que não gosta.
Fernanda perdeu o ar por um instante.
Porque não era só provocação, era Amanda tomando iniciativa, escolhendo e dominando, sem se importar com o lugar, com as pessoas ou com o risco de ser vista.
E, naquele momento... Fernanda soube que o resto da noite seria um problema, delicioso, mas um problema.
Quando finalmente saíram do MASP e entraram no carro, Fernanda já estava no limite. O motorista fechou a porta atrás delas e retomou o trajeto pela Paulista iluminada, por alguns segundos, nenhuma das duas falou.
Amanda cruzou as pernas lentamente e ajustou o seu blazer. Aquilo foi o suficiente. Fernanda soltou o ar devagar.
— Você passou a noite inteira fazendo isso de propósito.
Amanda virou o rosto, sustentando o olhar.
— Fazendo o quê?
Fernanda não respondeu com palavras, apenas se aproximou. Uma mão firme subiu até a nuca de Amanda, os dedos se perdendo entre os fios do cabelo e então a puxou para um beijo sem aviso. Firme, intenso e demorado.
Amanda sentiu o corpo inteiro reagir antes mesmo de conseguir pensar. Os dedos apertaram involuntariamente o tecido da camisa de Fernanda, seu coração acelerou e a respiração falhou. Quando o beijo finalmente quebrou para que pudessem respirar, Amanda ainda manteve a testa encostada na dela e então segurou o rosto de Fernanda entre as mãos.
— Se continuar... a gente não chega em casa.
Fernanda abriu um sorriso lento, ainda próxima demais.
Os olhos escuros presos nos dela.
— Esse era exatamente o meu plano. — Murmurou, a voz rouca, carregada de intenção.
Amanda passou os dedos devagar pela linha da mandíbula dela, como se tentasse recuperar o próprio fôlego, mas o brilho no olhar mostrava que também estava longe de estar calma. Aproximou a boca do ouvido de Fernanda, fazendo-a arrepiar antes mesmo de falar.
— Então vai ter que esperar.
Pausa. Amanda deslizou a mão da nuca até o colo dela, apertando de leve o tecido da camisa entre os dedos.
— Porque quando a gente chegar em casa... — a voz saiu baixa, provocante — eu quero você inteira... e sem plateia.
Fernanda fechou os olhos por um segundo, soltando um riso baixo, quase vencido.
— Você sabe exatamente o que está fazendo?
Amanda sorriu, acomodando-se novamente no banco, cruzando as pernas com uma calma quase cruel.
— Sei. E você vai me agradecer por ter esperado.
Durante todo o trajeto de volta, Amanda teve a nítida sensação de que Fernanda estava a um passo de perder completamente o controle. No banco traseiro, depois do beijo roubado, os dedos de Fernanda continuavam pousados na parte interna da sua coxa, como se o simples afastamento já fosse demais para suportar. O polegar desenhava movimentos lentos sobre o tecido da calça, quase preguiçosos, mas carregados de intenção.
E o pior... estava gostando de ver Fernanda assim. Sem filtros ou controle. Quase impaciente.
Quando finalmente o carro parou diante da casa de vidro, Fernanda mal esperou a porta se fechar atrás delas para puxá-la discretamente pela cintura.
— O que acha de um banho, Mandy? — disse com ironia, a voz baixa e perigosamente rouca.
Amanda ergueu uma sobrancelha, sentindo um arrepio subir pela nuca.
— Cuidado, Fê... você pode acabar gostando de me chamar assim.
Fernanda soltou um sorriso curto.
— Hoje eu pretendo gostar de muita coisa.
Amanda mordeu o canto do lábio.
— Promessas costumam me interessar.
Nem precisaram dizer mais nada.
Subiram as escadas quase em silêncio. O único som era o salto de Amanda batendo no mármore e a respiração das duas, cada vez mais irregular.
Assim que entraram no banheiro, Fernanda fechou a porta atrás delas sem tirar os olhos de Amanda. O ambiente era iluminado apenas pela luz indireta do espelho e pelo reflexo amarelado do box vindo das paredes de vidro. O vapor da água quente começava a preencher o ambiente, deixando tudo mais íntimo, próximo e perigoso.
Amanda ainda tentou tirar o blazer com calma, mas não teve tempo. Fernanda se aproximou em dois passos firmes, segurando sua cintura com força suficiente para arrancar dela uma respiração mais profunda. Tirou sua roupa e a dela sem desviar o olhar. Entraram no box e então a prensou suavemente contra a parede fria.
O contraste entre o mármore gelado nas costas e o corpo quente de Fernanda à sua frente fez Amanda fechar os olhos por um segundo. O beijo veio intenso, mas sem qualquer hesitação.
Fernanda parecia estar descontando cada provocação da noite inteira naquele contato. Cada sorriso de Amanda na galeria, cada olhar ou toque roubado. Sua boca desceu devagar pela linha da mandíbula, pelo pescoço, arrancando arrepios involuntários que Amanda já não tentava esconder.
Os dedos de Amanda se perderam nos fios presos de Fernanda, desfazendo parte do coque, puxando-a de volta sempre que ela parecia se afastar.
— Você passou a noite inteira me provocando... — Fernanda murmurou entre beijos, a respiração quente contra sua pele. — Agora vai ter que lidar com as consequências.
Amanda soltou um riso baixo... já sem firmeza nenhuma.
— Isso... soa como ameaça.
Fernanda ergueu os olhos para ela.
— Não. — Aproximou-se mais uma vez. — Isso é vingança.
A água quente começou a cair, deslizando pela pele das duas enquanto o toque se tornava mais lento... mais profundo... mais íntimo.
Fernanda se direcionou para os seios de Amanda, beijava, sugava e fazia movimentos com a língua, ela adorava brincar ali. Amanda suspirava cada vez mais alto.
Em determinado momento, Fernanda se ajoelha de frente a Amanda, beija sua barriga e lentamente ergue uma perna de Amanda colocando em seu ombro, deixando-a totalmente exposta, a visão era tentadora. Fernanda inicia os movimentos circulares com a língua, horas pressionava o ponto deixando a língua um pouco mais firme, horas suavizava a pressão e Amanda sentia o corpo inteiro responder. A respiração falhando, os joelhos perdendo força, seu coração estava acelerado de um jeito que já não sabia diferenciar entre desejo e emoção e quando Fernanda começou a penetrá-la e sugar ao mesmo tempo, Amanda começou a arfar e gem*r muito alto. Quando o corpo finalmente deixou de lutar contra aquilo que vinha crescendo há minutos, Amanda sentiu a intensidade atravessá-la de uma vez só. Não foi apenas prazer. Foi como se toda a tensão acumulada dos últimos dias — o peso da empresa, as decisões, o medo, a pressão, a necessidade constante de ser forte — encontrassem uma brecha e explodisse dentro dela ao mesmo tempo.
Seu corpo reagia antes mesmo que ela conseguisse processar, as pernas vacilaram, um arrepio percorreu sua pele inteira, e ela precisou fechar os olhos, completamente entregue àquela onda que parecia não terminar nunca.
Quando a intensidade finalmente começou a diminuir, Amanda ainda demorou alguns segundos para conseguir voltar a si. Tentando recuperar o próprio fôlego, deixou a testa cair no ombro de Fernanda, os olhos fechados, sentindo o peito subir e descer em respirações descompassadas.
Por um instante, ela apenas ficou ali. Vulnerável. Quieta. Sentindo o coração bater forte demais dentro do peito, suas mãos ainda apertavam os ombros de Fernanda como se precisasse se manter de pé.
Fernanda a segurou pela cintura com cuidado e se levantou, os dedos deslizando pela pele molhada, agora com uma delicadeza completamente diferente da urgência de antes.
Amanda soltou uma risada baixa, ainda sem conseguir abrir os olhos.
— Eu... literalmente... estou sem força nas pernas.
Fernanda sorriu, agora com ternura, afastou alguns fios molhados do rosto dela, beijando sua testa com calma.
— Então deixa comigo.
Com movimentos pacientes, pegou uma toalha, secou seus cabelos, seus ombros, suas mãos... como se cada gesto fosse uma forma silenciosa de carinho.
Mais tarde, já entre os lençóis macios, com a luz suave do abajur refletindo discretamente nas paredes de vidro e a chuva fina desenhando caminhos irregulares pelo lado de fora da casa, o ritmo entre elas havia mudado outra vez. A urgência do banheiro tinha dado lugar a algo mais lento e profundo.
Amanda estava deitada de lado, os cabelos espalhados pelo travesseiro, a pele aquecida contrastando com o toque frio do lençol sobre suas pernas. Fernanda estava nua e próxima demais para permitir qualquer pensamento coerente, apoiada sobre um dos braços, observando cada detalhe dela como se ainda estivesse tentando entender como uma única mulher conseguia bagunçá-la daquele jeito.
Amanda percebeu aquele olhar e sorriu, mas dessa vez não era o sorriso provocador da galeria, nem o sorriso atrevido do carro. Era algo mais íntimo e confiante, quase possessivo.
Ela deslizou os dedos devagar pelo peito de Fernanda, sentindo a respiração dela mudar sob sua mão. O toque era leve, quase preguiçoso, mas carregado de intenção. Como quem sabia exatamente onde tocar. Quanto tempo ficar. Quando recuar.
Fernanda fechou os olhos por um segundo, tentando manter alguma dignidade.
Amanda percebeu... e gostou.
Aproximou-se devagar, roçando a ponta do nariz na linha do maxilar dela antes de depositar um beijo lento em sua pele. Depois outro. E mais um. Cada toque parecia calculado para tirar Fernanda do eixo, para fazê-la perder aquele controle que tanto gostava de aparentar durante o dia.
As mãos de Amanda exploravam sem pressa. Desenhando caminhos pela cintura, pelas costas, pela curva dos ombros. Tocando como se conhecesse cada reação antes esmo que ela acontecesse.
Fernanda tentou falar alguma coisa, mas a voz falhou. Amanda ergueu os olhos, encontrando o olhar já completamente rendido dela.
— O que foi, Fê? — murmurou, a voz baixa, carregada de malícia. — Está quieta demais...
Fernanda soltou um riso curto, ainda tentando recuperar a respiração.
— Você está se aproveitando.
Amanda aproximou os lábios do ouvido dela, deixando a respiração quente tocar sua pele antes de responder.
— Depois do que aconteceu no banheiro... acho que eu mereço.
Fernanda finalmente perdeu o pouco de resistência que ainda tentava sustentar. A mão subiu até a nuca de Amanda, puxando-a para mais perto, sentindo o perfume dela misturado ao cheiro limpo do banho e ao calor dos lençóis.
E, naquela madrugada, Amanda descobriu que provocar Fernanda até o limite... podia ser tão viciante quanto se render a ela, pois nenhuma das duas parecia ter pressa para dormir.
Fim do capítulo
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